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Era uma vez, num reino distante, uma rainha bela como o dia e doce como a noite
Era uma vez, num reino distante, uma rainha bela como o dia e doce como a noite. O rei, seu marido, dava-lhe tudo o que a pudesse fazer feliz, contudo, não conseguiam ter aquela que consideravam a maior dádiva de todas: uma criança para amar e educar.
Aconteceu que num belo dia de Inverno, em que a neve cobria tudo o que se encontrava ao alcance da visão com o seu manto branco e imaculado, a rainha, sentada à janela, se picou na agulha com que bordava e algumas gotas de sangue juntaram-se ao manto invernal.
“Ah!” exclamou a rainha ao notar a perfeição com que se conjugavam a brancura da neve, o vermelho do sangue e o negro do parapeito de ébano. “Quão feliz eu seria se me fosse concedida uma filha de pele branca como a neve, lábios vermelhos como o sangue e cabelos negros como ébano!”
Ora sucedeu que o desejo da rainha foi atendido, por quem e por que artes não se sabe e permanece ainda e sempre perdido no desconhecido, o facto é que nove meses depois a rainha deu à luz uma criança de pele branca como a neve, lábios vermelhos como sangue e cabelos negros como ébano a quem chamou de Branca de Neve.
Mas foi um parto difícil, longo e doloroso que roubou à bela rainha a força para viver e poucos dias depois o reino envergou luto pela sua soberana falecida. O rei, que amava a esposa acima de tudo, mergulhou numa depressão profunda que procurou combater através de guerras e combates que o obrigavam a passar muito tempo fora do castelo, até mesmo do reino. Deste modo, Branca de Neve cresceu sozinha, recebendo como única educação a prestada por tutores bajuladores e criadas de boa vontade que tudo faziam para lhe agradar.
Passaram-se semanas, meses e anos. Branca de Neve era já uma jovem nas suas catorze primaveras quando o rei decidiu desposar novamente. A nova rainha, dizia-se à boca pequena, era a mais bela mulher que jamais havia colocado o pé no reino. Chegava até a superar a beleza da anterior e acrescentavam as más-línguas que era uma mulher poderosa, conhecedora de feitiços e poções, quem sabe uma bruxa ou feiticeira? Soltaram-se vivas pelo regresso definitivo do rei, sinónimo de que se encontrava já curado do antigo desgosto e o reino envergou cores vivas de festa.
Contudo, e para desgraça de todos, tais festanças não duraram muito, pois no sétimo dia do sétimo mês que marcava o regresso a casa do monarca, um outro reino declarou novamente guerra, obrigando o rei a partir mais uma vez, deixando para trás a esposa e a filha.
A nova Rainha, mulher bela e culta, rapidamente de apercebeu das falhas e lacunas na educação da enteada.
“Toda a vida tive empregados para me servirem” dissera-lhe Branca de Neve numa noite em que a Rainha se propusera a ensiná-la a coser. “E não vai ser agora que isso vai mudar. Eles que o façam.”
“Tal comportamento de despeito e egoísmo é inaceitável para aquela que será a futura monarca do reino”, pensou a Rainha. “Branca de Neve precisa de aprender a dar mais valor ao trabalho dos que a rodeiam.” Deste modo, e porque sendo ela a actual rainha era quem de facto governava o castelo e o reino na ausência do rei, a Rainha tomou as providências para que Branca de Neve sentisse na pele o trabalho de uma criada e fosse tratada de igual para igual pelas mesmas.
Branca de Neve, não seria preciso dizer, não gostou particularmente das decisões tomadas pela madrasta e em breve se juntava às más-línguas que sempre há entre as pessoas de má fé.
“Juro-vos que a ouço todo o dia a cantarolar “Espelho meu, espelho meu”, dizia Branca de Neve ao grupo de amigos de má índole, que por entre risos e elogios a bajulava e adulava. “Há alguém mais belo do que eu?”
“E ele não responde “Branca de Neve é a mais bela?”, sorria tolamente Príncipe Encantado, provavelmente o único que no grupo sentia o que dizia.
“Quando responder” retorquiu uma rapariga sardenta que acima de tudo desejava entrar na corte como dama de companhia da princesa e encontrar um nobre rico e bonito que a desposasse “a Rainha de tão louca que é quererá matá-la.”
“Mandará um caçador trazer-lhe o teu coração” corroborou um rapazinho bem parecido cujo sonho era deixar de ser pajem para se tornar um cavaleiro a sério.
“Credo, que sangrentos vocês são!” exclamou Branca de Neve, fingindo-se escandalizada quando estava, na verdade, a divertir-se de sobremaneira com a imaginação fértil dos amigos. “Nenhum caçador me tirará o coração” acrescentou. “Sentirá pena e remorso de ter sequer pensado em matar alguém com a minha beleza e inocência.”
“Ninguém teria a vergonha e ousadia de privar o reino de ti” – corroborou Príncipe Encantado.
Ergueu-se um coro de concordância e ficou por ali aquela conversa em específico, porque outras surgiram e foram, variando temas e teorias, sempre, mas sempre, sobre a Rainha e suas supostas maldades.
“Rainha, minha madrasta” começou um dia Branca de Neve, que embora responsável por mais de três quartos dos rumores que corriam sobre a Rainha nada era capaz de lhe dizer pela frente. “Vivem no meio da floresta sete raparigas órfãs de pai e mãe mas de muito bom coração e a quem eu quero muito. Acontece que apesar de não mo dizerem, chegou-me aos ouvidos que se encontram neste momento a passar por algumas dificuldades. Posso, madrasta, levar-lhe algumas coisas com que se possam governar melhor?”
A Rainha, que queria piamente acreditar na mudança para melhor da enteada, logo acedeu em lhe fazer a vontade, sugerindo até acompanha-la para que a viajem não fosse tão árdua e solitária.
“Não, não” apressou-se a declinar Branca de Neve. “Se a vêm são capazes de se sentirem demasiado constrangidas. São raparigas muito, muito tímidas.”
Se tal desculpa poderia parecer esfarrapada para alguns, a verdade é que já por diversas vezes nas suas saídas à cidade se deparara a Rainha com reacções de medo e receio por parte dos seus súbditos, provocadas pelos falsos rumores que sobre ela corriam e que a bondade do seu coração tomava como timidez ou talvez, quem sabe, um ligeiro temor por se encontrarem frente a frente com aquela que era a sua rainha.
“Se na tua opinião o ires sozinha é o melhor a ser feito” respondeu-lhe a Rainha “acatarei a tua decisão. Mas leva ao menos algumas tartes que lhes farei. Temos o pomar a brotar maças por todos os lados e a tarte desse fruto é a minha especialidade, como muito bem sabes.”
Branca de Neve, de tão orgulhosa que estava de ter conseguido dar a volta à madrasta, nada disse para a contradizer. É que as sete rapariguinhas órfãs eram, na verdade, sete rapazes que por serem ligeiramente mais baixos que a maioria eram apelidados de “os sete anões” e em cuja casa Branca de Neve forçara a entrada pelo simples capricho de ver como era o seu interior. Ora tal coisa de invadir a propriedade alheia era crime, mesmo para aqueles em cujas veias corria sangue azul e em ordem de os convencer a não apresentar queixa da sua pessoa, prometeu Branca de Neve inseri-los nos mais altos círculos sociais. E que melhor maneira havia para dar o primeiro passo do que uma festa que ninguém iria esquecer nos próximos tempos?
“Tenham cuidado ao come-las” aconselhou a Rainha antes de Branca de Neve e a rapariga das sardas, a feliz incumbida de acompanhar a princesa, abandonarem o palácio com as tartes de maça. “Mastiguem bem ou correrão o risco de ficar com um pedaço de maça entalado na garganta.”
Acederam ambas que sim, e garantiram que, com certeza, teriam muito cuidado no caminho, não, não falariam com estranhos e sim, não fariam nada que fosse perigoso tanto para si mesmas como para os outros. Conquanto, não conseguiu a Rainha livrar-se da sensação de alerta que a tomava desde manhã cedinho e pediu, como sendo um especial favor à sua pessoa, que Príncipe Encantado as acompanhasse, pois sendo provavelmente a criatura mais ingénua do reino, era simultaneamente aquela que mais leal era ao que realmente lhe passava na cabeça e no coração, e por conseguinte, ao seu proclamado amor por Branca de Neve.
Abriram a boca de espanto, é preciso confessar, os sete anões ao verem que tinha realmente a princesa cumprido a sua promessa. Tão bela criatura a pisar o chão de sua casa, que sonho pouco credível aquele! Mas não, não poderiam esquecer, que a bela donzela à sua frente era a mesma, oh, se era!, capaz de partir uma janela e forçar a entrada em casa alheia. “Bem dizia a mãezinha, descanse em paz a sua alma, que aparências iludem, oh, bem dizia a mãezinha” pensavam os sete anões em simultâneo. E com este pensamento a rondar a aura dos anfitriões, começou aquela que, assegurara Branca de Neve, seria a festa que os presentes jamais esqueceriam e os ausentes pretenderiam ter nas suas memórias.
Chegaram mais e mais convidados, convidados dos convidados e houve também quem não era convidado de coisa nenhuma nem de ninguém, mas quem iria saber de tal coisa? Depressa passou a festa para o quintal, de tão lotada estava a casinha, pobre construção azarada.
“Sede, sede, temos sede!” entoavam os convidados, os convidados dos convidados e os que não eram convidados.
“E agora, que fazemos?” perguntaram os sete anões, que sobre festas nada sabiam, a Branca de Neve.
“Dai-lhes de beber” respondeu-lhes a donzela. “Água do ribeiro e cerveja da pipa.”
Água ninguém quis, sem álcool, que terror! Ah mas a cerveja, essa, foi num abrir e piscar de olhos. Viram os sete anões serem as pipas esvaziadas mais depressa do que um pássaro levanta voo. Quão cara lhes ficaria aquela festa!
“Fome, fome, temos fome!” entoaram novamente os convidados, os convidados dos convidados e os que não eram convidados.
“E agora, que fazemos?” perguntaram os sete anões, recorrendo mais uma vez a Branca de Neve. Ia-lhes esta dizer que ignorassem tal afronta, pois em festa daquela é para beber e não para comer, quando se lembrou das tartes de maça que lhe havia dado a madrasta. Porquê não?
“Dai-lhes de comer” retorquiu-lhes a princesa. “As maças das macieiras do pomar e as maças das tartes de maça que trouxe eu comigo.”
Não poderiam ser as maças das macieiras, oh não!, pois continham ainda o veneno ou remédio, tal como a cada qual lhe apraz chamar, que lhes tirava ou, digamos, matava, os bicharocos que nelas entravam. E que dor de barriga aquilo daria! Já para não falar das repercussões nas papilas gustativas e sabe-se lá que outros efeitos secundários. Seriam e teriam de ser as tartes de maça, especialidade da rainha, e com todos os louvores que realmente lhe mereciam, o aspecto, cheiro e sabor sem igual! Foram-se as tartes ainda nem os copos se encontravam vazios. Nenhuma tarte sobrara daquele lote que enviara a Rainha. Nenhuma? Nenhuma menos uma, a que Branca de Neve saboreava agora. Saboreava? Seria mais enfardava, de tão rápido a comia, talvez, quiçá, com receio de que lha tirassem.
“Mais calma, majestade” suplicaram os sete anões, arregalando os olhos à vista de tamanha voracidade no comer. “Mais calma que ainda se engasga.”
Mas quem eram eles, meros súbditos e chacota da sociedade, para lhe dizerem a ela, bela princesa e futura soberana, a melhor forma para fazer isto e aquilo?
“Branca de Neve, Branca de Neve” rogou-lhe o Príncipe Encantado que até ao momento não havia deixado o seu lado. “Atende ao conselho dos anões, que seria de nós se um malvado pedaço de maça de alojasse na tua garganta?”
Eis então que um malvado pedaço de maça se aloja na garganta de Branca de Neve no momento em que esta abrira a boca para responder à letra, quiçá até com um pouco de lírica, ao Príncipe Encantado que, verdade seja dita, se andava já a esticar um pouco demais do que lhe era permitido.
“Falar enquanto come, outro resultado não poderia haver”pensaram os sete anões. Não eram, contudo, rapazes vingativos e logo colocaram mais à obra no que seria preciso fazer. Mais depressa do que se acabara a cerveja ou ainda mesmo do que as tartes de maça, colocaram os convidados, os convidados dos convidados e os que não eram convidados, no olho da rua, já que confusão não estavam eles dispostos a suportar mais.
“Que fazer agora?” choramingou a rapariga de sardas, deixando-se cair ao lado de Branca de Neve num pranto que demoveria os mortos, não fosse o já estarem mortos. “A Rainha jamais me perdoará! Pobre, pobre princesa!”
“A Rainha não precisará de saber” assegurou-lhe Príncipe Encantado e afastando-a de modo a que não houvesse espaço para a rapariga o perturbar, começou a exercer pressão, variadas e consecutivas vezes, no peito de Branca de Neve com as mãos. Tanto o fez e com tal perícia que o malvado pedaço de maça logo acabou por assentir em abandonar o alojamento temporário, deixando Branca de Neve livre para respirar novamente. Conquanto, não pode o Príncipe Encantado resistir a executar respiração boca a boca, para sempre recordada por si mesmo, como o primeiro beijo que com a sua amada trocara.
Respiraram os sete anões de alívio, pois realmente era o que mais lhes faltava, ter um membro da realeza a morrer no seu lar.
“Não posso crer” censurou-os Branca de Neve quando se apercebeu da falta dos convidados, dos convidados dos convidados e dos que não era convidados “que arruinaram a festa que vos organizei!”
“Não vos preocupeis, majestade” responderam os sete anões. “Pois pelo entretanto mudamos de ideias. Queixa não apresentaremos, não queremos é voltar a estarmos envolvidos em tamanha barafunda, que mais não mostra do que a desconsideração que têm alguns por aquilo que é dos outros.”
Não percebeu muito bem Branca de Neve o que queriam eles dizer, não apresentariam queixa e ela não teria mais trabalho, isso sim é que interessava. Mas se se julgava livre de problemas bem enganada estava, que não fora por acaso que pedira a Rainha, em especial favor, que Príncipe Encantado a acompanhasse. Era o bom e ingénuo jovem, um rapaz incapaz de mentir e logo por ele soube a Rainha tudo o que passara, desde as órfãs que eram, afinal, órfãos, até ao malvado pedaço de maça que se alojara na garganta da enteada, quase lhe roubando a vida.
“Desilusão, que desilusão Branca de Neve” suspirou a Rainha. “Sabes com certeza que não podem ficar as coisas assim?”
Branca de Neve não sabia, não poderia saber, pois antes da Rainha, vil madrasta, nunca havia respondido pelas consequências dos seus actos. Castigo, punição, admoestação, tudo palavras que no seu eu pratico lhe eram desconhecidas. Mas deixaram, oh se deixaram, de o ser. Não acreditava a Rainha em castigo dado por dar, mas coisas daquelas não bastava conversa, não senhora.
A Rainha, já se sabe, é de bondosa paciência, e o Príncipe, Encantado de nome e feitio, é de sincero amor. Quem sabe, talvez, fique assim Branca de Neve apta a preencher as lacunas que tão horrorosamente se materializam em cicatrizes de personalidade?
Passaram-se semanas, meses e anos. Branca de Neve era já uma jovem nas suas dezasseis primaveras quando regressou novamente seu pai da guerra. Desta vez, sussurrava o povo, era definitivo, oh se era, teriam finalmente o seu rei!
“Venci” murmurou o Rei, abraçando com ternura e saudade aquela que era a sua rainha.
“Também eu” retorquiu, sorrindo, a Rainha. “Branca de Neve está finalmente apta a tornar-se a futura soberana do teu reino.”
E viveram felizes para sempre…
N/A: Fãs fieis da Branca de Neve, não me matem! Um dos trabalhos da Sofia Lemos da Costa (ver os meus autores favoritos) em Escrita Criativa (porquê que não há essa disciplina em Portugal?) era reescrever um conto, ora, eu gostei tanto do trabalho dela (uma adaptação de "A Bela e o Monstro" que pode ser lida aqui: sofisofas./art/Beauty-and-the-Library-Beast-78835902) que quis fazer o mesmo "exercício" P.
Algumas imagens que me levaram a escolher a Branca de Neve como conto a ser reescrito (para além de ter sido o primeiro a ser adaptado pela Disney e de toda aquela imagem de inocência e pureza à volta dela):
tolemach./art/Wresting-the-Title-Away-72565279
ginnyhaha./art/Disney-Delinquents-2-24435133
skullyan./art/Gothic-Disney-Snow-White-64236142
daekazu./art/Snow-White-10820634
clairebeauchamp./art/Goth-Princesses-Snow-White-62590228
bri-chan./art/smile-for-the-camera-42854459
Obviamente nenhuma destas imagens me pertence, como se eu fosse capaz desenhar assim mesmo que a minha vida dependesse disso!
Bjs