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Author: Blodeu-sama
Fiction Rated: M - Portuguese - Mystery/Horror - Reviews: 1 - Published: 05-13-08 - Updated: 05-13-08 - Complete - id:2517011

N/A: Conto escrito de madrugada, como sempre, e idéia tirada de um outro conto cujo nome já não me lembro mais, que também falava da curiosidade.

Curiosidades

O estacionamento estava quase deserto, exceto por alguns carros aqui e ali, perdido no meio da longa extensão de piche negro. Havia chovido, e estes poucos carros estavam cobertos por milhares de gotículas de água. Ao olhar para elas, lembrei-me de minúsculos pequenos sois, todos tingidos de amarelo pelas luzes falsas dos postes de iluminação. Pareciam todos brilhar intensamente, como devem brilhar os sois, mas ainda assim não conseguiam em nada abrandar a escuridão tétrica da noite. O céu sobre minha cabeça estava carregado e roxo, embora já não chovesse mais.

O barulho de meus saltos contrastava com os asfalto molhado e muito negro, que ao longe quase chegava a se confundir com o céu. E o frio, aquele frio suave, confortável, limpo, invadia minhas roupas e deixava minha pele deliciosamente fria, em contraste com a temperatura quase febril do rapaz ao meu lado.

Os passos dele não ecoavam, eram macios como só os passos de um homem como ele. Tudo nele era macio, agradável, próximo a uma insípida perfeição. Quebrava o silencio o estacionamento com um comentário breve sobre o filme que tínhamos acabado de assistir. Eu, apreciadora sempre ávida do silencio, da noite e de ambientes levemente tétricos como aquele, não dizia nada. Mas sorria. Sorria para ele, e para mim mesma, enquanto olhava distraidamente para as nuvens acima de mim.

Novamente aquelas idéias sedentas tomaram conta de minha mente, porém estavam frias e cristalizadas, como aquele estacionamento. Era hora de executar meu plano, era como devia ser. Não podia ser nada além daquilo que eu havia planejado, para saciar minha vontade por experiências. Minha vontade por viver além de mim mesma.

Virei meus olhos para ele, deslizando minha mão fria por seu braço forte, coberto por uma fina camisa de algodão escura. Seu rosto voltou-se completamente para mim, e o vi sorri de uma maneira diferente. Era doce, aquele meu rapaz...amava-o, a certa maneira, como deveria ser, também.

Ele abriu a porta do carro para mim, e neste movimento alguns dos pequenos sois em formas de gotículas, que estavam sobre a pintura metálica do automóvel, se moveram, criando um efeito interessante se observado de perto. Porém não observei, deixei que ele me fizesse aquele gentileza com um pequeno sorriso nos lábios, e entrei no carro. Os vidros estavam embaçados pelo frio, e as luzes lá fora, fora daquela bolha protegida e frágil que são os carros a noite, estavam distorcidas. Através daquele vidro enevoado, suas matizes se dividiam suavemente em tons meio avermelhados, meio azulados, dependendo de quão branca era a fonte lá fora. Senti seu calor claramente ao meu lado quando sentou-se no banco do motorista, e retribuí novamente o olhar que me deu.

Estava claro que nós dois tínhamos expectativas para aquela noite. As minhas, porém, não se destinariam apenas a mim. Na verdade, pouco se destinavam a mim, já que eu o havia escolhido cuidadosamente apenas para satisfazer minha pequena criação, meu pequeno mundo de papel.

Decidi que viveria a história de meu livro. Escreveria apenas coisas que eu havia realmente sentido em minha pele, em minha alma. Beberia de cada possível experiência e as jogaria, refinadas e sutis, sobre a vida falsa de minha querida Deidre. Minha bela ruiva de olhos profundamente azuis, que me sussurrava ao pé do ouvido que nunca poderia viver se eu não vivesse. Deidre... ela amava um rapaz como aquele ao meu lado. Sim, ela amava seu jovem cavalheiro quase do mesmo modo que eu amava o meu. Meu cavalheiro que agora concentrava-se em dirigir para longe daquela selva estéril que era o piche negro, molhado e deserto. Prometi a mim mesma que colocaria aquele lugar no mundo de Deidre.

As luzes da cidade passavam por nós, rápidas, e ele disse mais uma ou duas palavras. Em resposta, pus a mão sobre sua coxa, levemente, e deixei que meu sorriso fosse interpretado como ele queria que fosse. Sentia dentro de mim aquela sede, aquele desejo intenso por sentir algo além. Lembrei-me de minha vida, de todas as pequenas loucuras que fiz simplesmente porque queria sentir, saber como era. Lembrei-me da sensação vertiginosa e nauseante de estar em um balão, lembrei-me daquela corada prostituta que me sorrira tão amargamente naquela noite em meu quarto, lembrei-me até daquele fim de semana passado junto a novos hippies e a quilos de maconha rapidamente queimada. Não desejara nada daquilo para mim, e na verdade abominava a idéia de fazer cada uma daquelas coisas. Mas sabia que nunca poderia me controlar, que precisava saber descrever, contar... tudo.

Uma sensação fria se apossou de mim, envolvendo minhas costelas, quando estacionamos o carro na garagem da casa dele. Tinha tudo planejado, sabia como iria fazer aquilo...mas senti medo. Medo de que outros descobrissem, que tudo acabasse mal... medo, simples e arraigado, de estar fazendo algo errado, de estar passando dos limites.

Até me lembrar que tudo, tudo o que acontecesse, seria uma nova experiência. Oh sim, no fim, eu sempre ganharia aquele jogo. Eu era meu próprio Deus.

Permiti que ele me puxasse delicadamente pela mão para dentro da casa. Já estivera lá outras vezes, conhecia seus cantos, sua mobília. Já sabia qual seria o lugar perfeito para nós dois, para nosso momento. Deidre mesmo o escolhera, aquela bancada na cozinha, ampla e fria e com poucos objetos de cozinha, suficientemente grande para nós dois e suficientemente prática para meus objetivos. Não o olhei, caminhei lentamente para a cozinha, sem acender qualquer luz, apenas deixando que o brilho fraco da iluminação branca lá fora fosse o suficiente para meus olhos.

O senti as minhas costas, me seguindo. Exatamente como devia ser. Alcancei a cozinha e me virei para ele, então lhe dei um sorriso malicioso, encostando meu corpo a bancada e abrindo levemente minhas pernas, pedindo silenciosamente que ele se encaixasse entre elas. Ele me obedeceu, cegamente, avançando em minha boca com voracidade, borrando meu batom vermelho e erguendo, ao mesmo tempo, minhas pernas para junto do corpo dele. Me vi sentada no balcão, e o puxei para cima também, evitando cuidadosamente as facas no faqueiro, rindo, dizendo-lhe alguma coisa pervertida, que aumentou ainda mais o volume que ele tinha sobre a calça de pano sintético. A calça e seu sexo rígido e quente se esfregavam em minhas coxas nuas com nossos movimentos, e meus seios reagiram a seus toques. Minhas costas, agora livres da blusa, se colaram ao material frio da bancada, aquele azulejo pequeno... podia sentir seu padrão em minha pele claramente. Ele, sempre tão controlado e gentil, já começava a ofegar e se esfregar em mim, como todos os animais no cio, prontos para despejar seus materiais genéticos sobre qualquer coisa quente.

Inverti as posições, o despindo e jogando suas roupas no chão, longe da mesa onde estávamos. Fiz o mesmo com as minhas próprias roupas, e senti-me sobre ele. Estava muito mais excitada que normalmente, podia sentir mesmo minhas coxas já umedecidas com minha própria secreção, pronta para agir eu mesma como um animal. Mas havia requinte em minha forma de sentir prazer. Havia delicadeza e propósitos sublimes por trás da minha libido. Fetiche? Não...não diria fetiche, apenas uma vontade acima da carnal. O vi revirar os olhos e chamar por mim.

- Me chame de Deidre...

Pedi num murmurio. Ele me olhou, em duvida, e pressionei seu sexo contra minhas coxas.

- Me chame de Deidre! Eu vou chama-lo de Marc...por favor...

- Certo...Deidre...

Sim, assim era melhor. Oh céus, era tão melhor! Cavalgar Marc, ser ela...ser aquela linda mulher, aquela mulher forte, que precisava fazer aquelas coisas por...oh céus, eu poderia passar meses tentando descrever aquela sensação. Eu provavelmente passaria, até achar a formula perfeita, até descobrir como contar aquela história...

- Marc...Marc nh...você é tudo na minha vida...diga que você me quer Marc, diga agora!

- Eu quero você Deidre...eu que...quero...

- Diga que sente muito pelo que aconteceu com meu irmão! Ahn...

- Mas você não tem um irm...

- DIGA!

Seus braços passeavam pela minha pele fervente, seu sexo tremia de ansiedade dentro de mim. Seus olhos, semi cerrados, demonstravam prazer e surpresa, talvez um pouco de estranhamento. Meus joelhos estavam colados aos frio azulejo do balcão, e as facas do faqueiro tremiam perto de nós, com os movimentos bruscos.

- Sinto muito pelo que aconteceu com seu irmão! Oh, isso, aí...céus...

Senti o orgasmo chegar, de fazendo tremer e pensar se conseguiria. Eu precisava conseguir, eu precisava!! Senti quase que de surpresa meu doce rapaz, tão transtornado, deixar escapar um jato prematuro de esperma dentro de mim. EU PRECISAVA!

- Eu te amo Marc! ...Me desculpe!!

Minha mão saiu do peito dele e alcançou o cabo de uma faca de peixe num único movimento rápido. Olhei em seus olhos, quando o orgasmo e a surpresa e o medo se mesclavam nele quando observava meus movimentos de baixo, e então enterrei a faca no peito dele.

Ele gritou, eu gritei, gemendo, sentindo meu corpo explodir em ondas consecutivas de um orgasmo incrível. O sangue saiu muito mais rápido e muito mais quente do que imaginei que seria, inundando minhas mãos e antebraços quando puxei novamente a faca para mim. A luz quase inexistente, era negro e brilhante, incrível. Os olhos dele, sempre tão corretos, se abriam em terror, duas estrelas negras magníficas se extinguindo para sempre.

- Me desculpe Marc...precisava ser feito... – murmurei, quando a onda daquela sensação inebriante passou. Senti um bolo de sal na garganta, e derramei uma lagrima por ele. Apenas uma, que caiu sobre o peito ensangüentado e se mesclou ao sangue. Ele tentava se mover abaixo de mim, mas eu lhe dera meu presente final exatamente a altura do coração, e seus dedos pressionados fortemente ao redor da minha cintura não podiam fazer nada além de me arranhar. Sua vida se esvaía rápido, tão deliciosamente rápido... uma faca, um simples utensílio de cozinha...podia me fazer virar Deus!

Por fim seus dedos afrouxaram, e seu peito parou de arfar descontroladamente. O sangue parou de esguichar, e simplesmente passou a correr pelo tórax já inundado, descendo pelo corpo dele, formando um rio pelos azulejos, começando a pingar no chão. Eu ouvia as gotas, grossas, perfeitamente audíveis no silencio que se seguiu. Uma após a outra, regularmente. Seus olhos abertos me encaravam, vazios.

Finalmente então, consegui responder a pergunta que me fazia a tanto tempo. Como será...matar?


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