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Fiction » Fantasy » Dizem eles font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Elyon Somniare
Fiction Rated: K+ - Portuguese - Fantasy/Supernatural - Reviews: 4 - Published: 05-30-08 - Updated: 05-30-08 - Complete - id:2524412

Correm pela boca do povo histórias várias sobre aquela casa, não uma casa no monte ou isolada, mas no centro, mesmo no centro da aldeia, velha, antiga e conservada. Assombrada, acrescentam eles, nas histórias cada dia mais fantasiadas.

Contam uma história de amor proibido, entre a menina da casa e um moço de estrebaria, ou talvez um criado ou monge, acabado de chegar. Já não o sabem bem os aldeões, mas era uma história de amor, era pois, entre uma senhora e um padre, ou entre uma menina e um criado. E à noite, dizem eles, naquelas noites de Lua Nova em que se poderiam os amantes encontrar sem temor de pelo luar serem vistos, se ouvem sussurros, promessas de amor.

Contam uma história de louco escritor que sonhava e sonhava e se esquecia de viver. Ou vivia, sim, em mundos e lugares por ele criados e por ele apenas conhecidos, vivia no passado e no futuro mas não, nunca, no presente, no aqui, no agora, e diz, conta o povo, que de tanto sonhar acreditou que era verdade o mundo em que vivia e mentira aquele em que nascera. E de louco, de loucura, se enforcou o escritor e à noite, dizem eles, naquela primeira noite de cada mês, se ouvem proclamadas histórias, contos e aventuras, viagens imaginadas.

Contam uma história de criança endiabrada, anti-Cristo, dizem eles, mas anjinho quando o queria, criança de opostos e contrapostos que com o fogo gostava de brincar. Maravilhava-se, diziam, com as chamas, suas cores e movimentos, sua alma de devoração, destruição, de vida. E sozinho viu-se um dia em casa, ele, criança endiabrada, criança de inocência, sozinho viu-se a com o fogo brincar. Chegaram tarde os socorros para a criança salvar, acrescentam os mais maldosos sobre a agonia do menino a morrer a tentar escapar “encontraram o corpinho, negro, negrinho como carvão, mas sem dúvida o corpinho, escondido, encolhido, atrás da porta que não abria. Como o poderia? Fechada ela ficara!”, contam eles, aqueles mais maldosos. E à noite, dizem eles, naquelas noites quentes de Verão, se ouvem gritos e choros de apertar um coração.

Contam uma história de donzela, donzela presa, enclausurada, donzela bela, helénicamente, afrodisiacamente, bela. Quis o pai a filha trancar para dos perigos a afastar, mas prisão com janelas não pode os sarilhos evitar. Pois passou, dizem eles, um cavaleiro que ao ouvi-la cantar logo por ela se foi enamorar, querendo logo com a dama casar, mas não, não podia o pai a mão da filha dar, porque era perigoso, porque era duvidoso. Aceitou o cavaleiro tal veredicto sem reclamar, e outro depois dele, e outro, e outro, e ainda outro, e nenhum, nenhum deles, por ela quis lutar. E à noite, dizem eles, naquelas noites amenas de Primavera, se ouvem cantar canções de amor, de desgosto e de traição.

Contam uma história de velha senhora solitária, abandonada, solteira e não amada, porque não o quis ou porque não o pode, pianista de renome, mas o nome, esse, não, nunca, nunca o dizem. Pianista, é o que eles dizem, e é tudo, nada mais. Contam que pelo piano deixou o marido, ou que a deixou o marido por culpa e graça do piano, já não o sabem bem, mas todos, todos dizem que era o piano o seu amante. E à noite, dizem eles, naquelas noites de Quarto Minguante, se ouvem a pairar notas ténues de piano.

Contam uma história de um grupo de jovens, jovens estudantes, adolescentes, talvez, divertidos com o oculto e a brincar com o outro mundo. E contam, dizem eles, que quiseram um dia um ritual lá fazer, e logo se erguem vozes contra, que não era dia, era noite. Dia ou noite, dizem eles, fizeram os jovens o que não deviam e com quem não o queria eles brincaram, gozando, perturbando, e nunca, nunca mais os jovens se viram novamente, desaparecidos, dizem eles, evaporados, contam eles. E à noite, dizem eles, naquelas noites de Quarto Crescente, se ouvem cantarolados feitiços e magias em vozes jovens de estudante.

Contam uma história, duas histórias, três histórias! De jovem e de idoso, de menina e de menino, de amantes e de loucos, de amor e de traição, de pianos e labaredas, de forcas e fantasmas, de donzelas e cavaleiros, contam uma história, duas histórias, três histórias, sobre aquela casa, velha e antiga, conservada e assombrada, no centro, mesmo no centro da aldeia, e à noite, dizem eles, naquelas noites de Lua Cheia, se ouvem no ar histórias sussurradas.



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