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É da Índole
É da índole da TPM a vontade de chorar, a vontade de ficar na cama e pensar em qualquer coisa, ou simplesmente olhar para algo e pensar na vida. É a vontade de abraçar e não passar disso; de entrar em contato com a pessoa que você gosta e passar o tempo com ela, em silêncio, imaginando besteiras, besta coisas que nos divertem... É querer assistir filmes, emocionante e triste, besterol ou sagaz, comendo chocolate com o pijama que você mais gosta.
É ficar sensível.
É a vontade de matar, esganar, torturar qualquer um que a ofenda com gestos ou palavras; de gritar e espernear quando lhe negam algo, mas não pode porque vão te chamar de criança e você agora já é mocinha...
É ficar irritada.
É sentir aquela dor cruciante que te faz implorar por tudo e por todos sabendo que ninguém pode fazer nada... É saber, depois de toda aquela dor, que você mereceu – de um modo ou de outro – e que não se deve curvar por orgulho, pela vergonha que traz para outras sofrendo o mesmo que você... É não agüentar mais e – mesmo sendo extremamente embaraçoso – colocar suas pernas em cima da mesa, da cadeira, em sua escola, com sua família, na frente de estranhos... Apenas para fazer a dor parar.
É sofrer.
É querer uma massagem, que estale sua coluna e relaxe seus nervos... É a vontade de se deixar submissa nas mãos do massagista, de sentir as mãos comprimindo sua carne, e recomeçar o ciclo vicioso de pensamentos ridículos...
É ficar manhosa
É sentir o instinto impedindo essa entrega insensata e deixar a mente divagar sobre o apego aos sentidos ou o resguardo impróprio do corpo.
É ficar indecisa.
É querer se largar da realidade e se desprender das responsabilidades; é não querer conversar – palavras desgastariam suas idéias mirabolantes – mas não é necessariamente querer se isolar.
Talvez, não sei, depende.
É querer expressar as inúmeras reações químicas ocorridas em seu corpo através da pintura, da poesia, da dança...
É dizer 'tanto faz para mim' quando impaciente, quando perguntada se prefere esse ou aquele outro lá.
É querer pecar dormindo só mais um pouquinho num dia de chuva... - a Preguiça tomando conta... - Tomar sorvete quando aquela gripe se foi só porque você está com desejo... - agora a Gula controlando... - É querer dinheiro para comprar aquela blusa (nem tão charmosa assim) mas que te atraiu – principalmente porque está em promoção e é a única na loja –... Avareza, aparentemente tão simples no mundo atualmente.
É estar com desejo de tudo, muito mais do que nos outros dias.
É ter Ira quando seu cabelo se recusa a ficar apresentável logo hoje... É ficar curiosa (só curiosa) com a estranha sensação do pouso suave dos lábios obsequiosos de seu conhecido no pescoço - como a Curiosa serpente que circundou Eva, levando-a até a maçã proibida - É ficar ainda mais intrigada quando esses lábios passam a ser mais firmes e freqüentes, diminuindo a tensão vagarosamente... - deixando a Luxúria instalar-se no momento - Até o ponto em que você quase se esquece que deveria estar fazendo outra coisa naquele momento.
É ficar mais suscetível a tudo, muito mais do que nos outros dias.
É pensar em si mesma, trancando-se no quarto e não falando com quem deveria, pensando em seu mico naquela festa importante quando na verdade aquela pessoa sofreu o mesmo que você - deixando a Soberba dormir em sua cama assim - É sentir Inveja por pequenas coisas: sua unha quebrada e sua amiga com a dela pintada. É tentar parar de mudar. É passar pelo ridículo rindo com os amigos sobre o plural do substantivo ‘pouso’, ou discutir como uma louca que a expressão ‘em ninhar’ existe – você a conhece desde que se entende por gente e várias vezes seu cabelo esteve eneado – apenas para provar que você estava certa.
É ser orgulhosa...
É querer pedir “traz para mim!” inúmeras vezes por dia e trazer tormento para muitos durante dias todos os meses...
É ficar pidona...
É aporrinhar todos e ainda assim querer sua presença... É provocar, importunar, reclamar e ainda assim ficar deprimida quando as pessoas se afastam.
É ser tudo um pouco mais...
É aceitar o humor terrível que a acomete. É fazer ‘tudo pelos meus caprichos’. É ceder à tentação e sê-la ao mesmo. TPM não é apenas tensão pré-menstrual, é tempo para o mistério. Da vida, da mulher. É conhecer a inconstância das coisas e ser instável. É aproveitar os hormônios alterados para desvendar segredos... É descobrir suas múltiplas facetas... É ser transformada e permanecer assim.
É um terror para machos e um suspense para nós. Mas é bom, faz bem... É um pouco de aventura no mar conturbado do seu Eu interior.
É querer passar por todas essas situações quando a vontade bate, mas não poder satisfazê-la.
É negar sua vontade, e essa, com certeza, é a pior parte da TPM. É de sua índole ser assim, tão contraditória.