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CAPITULO 19: Amizade - Reunião
Agora isso era raro: de todas as pessoas que eram quase impossíveis se ligar para um celular, uma dessas pessoas era a mãe de Aline. Jaqueline simplesmente não conseguia se acostumar de forma alguma com tecnologia moderna, e nada tirava de sua cabeça que as taxas para ligar para celular eram absurdas. Além disso, computadores eram o terror absoluto da mulher, e equipamentos eletrônicos nem se fala. De modernidade ela vivia os produtos de beleza que conseguiram fazer com que seu corpo se mantivesse extremamente bem-conservado para a idade dela, e nada mais.
Mas naquela tarde em particular, ela teria de enfrentar seus temores e adentrar de cabeça o século XXI, pois prometera telefonar para o celular da filha por meio do aparelho fixo da casa para informar se Dayane ligara para lá ou não desde que saíra. A menina planejava algo, o que ficava evidente devido à estranheza de se esperar ligações da garota com a qual nem se falava mais, mas a mãe se prontificou a informá-la.
Claro que se ela estaria enfrentando o inimigo amaldiçoado chamado de celular, a garota havia ligado. Na verdade, agora que tinha percebido: havia ficado quase 20 minutos parada em frente ao telefone pensando se deveria ligar ou esperar a ligação da filha para avisar. Às vezes ameaçava de pegar no telefone, mas pensava melhor e voltava atrás. Aquela batalha estava sendo árdua, mas um dos dois ia ceder: Jaqueline ou o telefone.
Retirou o aparelho do gancho num movimento súbito e rápido, como se agisse assim para não ter tempo de se arrepender. E, consultando sua memória boa para números, começou a discar para a filha. Houve sinal. "Menos mal", pensou ela. Uma, duas vezes. Na terceira alguém atendeu do outro lado da linha:
- Oi, mãe?
- Filha, tudo bem com você?
- Tudo bem sim. A Day ligou?
- Então, filha... Ela ligou sim, falou que precisava de sua ajuda!
Só então Jaque percebeu que tinha falado essa frase com tanta velocidade que até para ela soou confusa.
- Ah, mãe, fala mais devagar?
- A Dayane ligou sim – disse ela com mais calma. – Falou para você ligar que precisa de ajuda!
- Ajuda? Tudo bem, vou ligar para ela aqui do celular. Vou desligar...
- Espera ai, você tem crédito para ligar?
- Claro, mãe, por...
- Você não vai gastar demais, vai? Como vai ligar para mim depois?
- Calma, tá? Eu consigo ligar para as duas e ainda por cima falar bastante. Até, te amo!
- Também te amo. Deus a abençoe!
E Aline encerrou a ligação, logo depois consultando seus contatos na agenda do celular. Partiu para a letra "D", e lá estava o nome "Dayane". Não falava com ela há meses, aquela seria a primeira vez em todo aquele tempo. Sucesso ou fracasso pendiam numa balança sobre o coração da garota.
- Alô? – respondeu uma voz meio sonolenta do outro lado.
- Day, sou eu!
- Ahm? – replicou novamente. Parecia que a garota estava dormindo ainda.
- Aline, Day!
- AH! Desculpa, eu não estava reconhecendo a voz!
A garota soltou uma risada leve e voltou a falar:
- É que cochilei na matéria. Mas quanto tempo! Por que ligou?
- Eu que queria saber o que você quer falar comigo – falou a garota rindo um pouco, dando um ar divertido à frase.
Dayane respirou fundo antes de explicar o motivo. Não era fácil esquecer tudo que a amiga lhe fizera, mas tinha de tentar reatar aquela amizade que já fora tão bela.
- O Guto se acidentou e está triste lá no hospital, queria fazer algo para alegrá-lo. Pensei num bolo, porém como sabe eu nunca fui boa nisso. E gostaria de saber se você poderia me ajudar a fazer um... Nós duas... Como fazíamos antes!
A garota ficou um pouco surpresa com o pedido da amiga, mas não viu problemas, ficou até contente em ouvir isso.
- Tudo bem. Pode ser quando?
- Podemos fazer amanhã? Na sua casa, a minha não tem tudo que precisa para fazer bolos...
- Claro, sem problemas. Amanhã às duas tudo bem?
- Tá, então... Te vejo amanhã...
A garota desligou e se sentiu feliz, parecia que a amizade dela com Day ainda era possível apesar de todos os problemas que ela a havia feito passar, isso deixava Aline bem animada.
De repente o celular dela tocou mais uma vez, ela olhou para ele e examinou quem ligava...
- Quê? Não acredito!
Ela mais uma vez atendeu. Era sua mãe:
- Filha, a operadora não mandou fatura já para você não?
Aline só não xingou Jaqueline por estar imensamente feliz pelo que aconteceria no dia seguinte.
- - - - - - - -
A campainha tocou, e Aline já tinha certeza de quem era. Correu para a porta para atender a amiga.
- Oi, Dayane! – falou apressada sem nem abrir a porta direito, mas deu de cara com sua mãe.
- Dayane? – Jaqueline inquiriu surpresa, entrando – Ela vai vir aqui hoje?
- Ah... Oi mãe, e ela vai sim, por quê?
- Vocês não estavam brigadas?
- Bem, estávamos... Mas ela vem aqui hoje numa tentativa justamente de fazermos as pazes.
- Olhem... Não vão brigar aqui não, hem?
- Hehehe – Aline não se conteve e riu. – Pode ficar tranqüila, mãe.
A senhora se dirigiu ao seu quarto ainda um tanto desconfiada, quando a campainha tocou novamente.
A garota apressada atendeu à porta. Tinha certeza que agora era Dayane.
- Oi Day!
Mas não era!
- O que você está fazendo? - indagou o pequeno garoto Carlinhos, irmão de Aline.
- Esperando minha amiga... - disse ela aborrecida. - E você? Não deveria estar brincando?
- Eu só vim beber água!
O menino se dirigiu até a cozinha, sobre a mesa da qual se encontravam dispostos todos os ingredientes que seriam utilizados no bolo: ovos, farinha, fermento, açúcar.. E, cabisbaixa, Aline começou a imaginar se a outra jovem acabaria por não vir. Vinha sendo mesmo fácil demais para ser verdade. Talvez as feridas que causara em Day demorassem muito ainda para cicatrizar...
Novamente a campainha tocou. Não muito animada, a garota se levantou e abriu a porta. Mas se entusiasmou assim que o fez. Lá estava ela!
- Oi! Me atrasei né?
- Sim, mas não importa agora! – Aline riu um pouco.
- Está tudo pronto? Pensei em trazer algumas coisas, mas...
- Não, tá tudo certo sim, é só fazermos mesmo o bolo!
E, dirigindo-se até os ingredientes, começaram a preparar o que deveria ser um delicioso bolo para Guto. Conforme trabalhavam juntas, divertindo-se e aprendendo uma com a outra, viam quão grande fora a besteira de terem rompido relações. Ao se sujarem de farinha e massa, rirem juntas, colocarem os papos em dia, as duas moças perceberam que não deveriam nunca mais dar ouvidos ao ódio.
Estavam tão distraídas que não perceberam quando Jaqueline se aproximou.
- Ora, ora. Olá, Dayane. Quanto tempo. Como está?
- Olá. Estou bem sim e a senhora?
- Igualmente.
A mãe de Aline ficou olhando para a garota fixamente, o que deixou Dayane um pouco desconfortável.
Até que resolveu perguntar:
- Algum problema, Dona Jaque?
- Não, nenhum... É que vendo vocês assim, de novo unidas... Fico tendo certeza do quanto vale verdadeiramente uma sincera amizade!
E, sorrindo, deixou a cozinha.
Continua...