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Fiction » Fantasy » Claire font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Elyon Somniare
Fiction Rated: K - Portuguese - General/Fantasy - Reviews: 2 - Published: 07-24-08 - Updated: 07-24-08 - Complete - id:2549680

Era uma lenda sobre um barquinho, um pequeno e frágil barquinho, que de dia descansava e à noite pescava, peixes e peixinhos, peixes e peixões. Baptizaram-no de Claire, o pequeno e frágil Claire, tal como a pequena e frágil Claire, a menina desaparecida, a menina do pescador. Mas uma noite, uma negra noite, vieram ondas e marés, vagas e correntes, e afundou-se o Claire, o pobre e frágil Claire, com os seus peixes e peixinhos, com os seus peixes e peixões, com o seu pescador e a pequena, frágil medalhinha dourada, feita de oiro, a medalhinha com a imagem da Claire.

Era uma lenda sobre um barco, um médio e forte barco, abençoado por Santa Claire, nos seus braços protegido, transportando nobres pessoas, sangue azul a correr nas veias, donzela Claire DeVille entre elas, doce e bela donzela, menina-senhora de sociedade. Mas não cumpriu Santa Claire a sua promessa e numa noite, numa negra e fria noite, vieram ondas e marés, vagas e correntes, e afundou-se o barco, o médio e forte barco, com os seus senhores e senhoras, com os seus meninos e meninas, com as suas jóias e moedas.

Era uma lenda sobre um navio, um grande e imponente navio espanhol, de séculos idos, séculos passados, de sereia negra no casco, sereia negra de boa ventura, carinhosamente alcunhada de Claire, a negra e fria Claire. E levava ele na sua alçada tesouros dos outros mundos, ouro e prata em puro estado, coroas e colares, gargantilhas e pulseiras, doirados de oiro e safiras incrustadas, esmeraldas incrustadas, diamantes incrustados… mas não rubis, rubis não, que eram esses os olhos de Claire e má sorte poderiam dar. Mas não foram as cautelas cautelosas o bastante e numa negra, numa negra e cruel noite, vieram ondas e marés, vagas e correntes, e afundou-se o navio, o grande e imponente navio, com o seu oiro e a sua prata, com as suas pedras e as suas jóias, com os seus homens e a sua sereia, a sua negra e fria Claire.

Era uma lenda sobre um navio, um esfarrapado e desfeito navio, que vagava e deambulava, por mares e oceanos, por noites negras sem Lua, fora outrora um navio pirata, era agora um navio fantasma, condenado, amaldiçoado, pobre, pobre navio fantasma. Era uma lenda sobre um tesouro, um inimaginável tesouro de mau agoiro, abandonado pelo navio, pelo pobre, pobre navio fantasma, pois por ele fora amaldiçoado, por ele fora condenado, um tesouro de tão grande imensidão que, diz-se, doira a água que por cima dele passa. Era uma lenda sobre uma jovem, uma jovem e linda menina, uma jovem e vaidosa senhora, Claire, Claire filha do pescador. E viu Claire num dos seus dias, o brilho de um colar, um belo colar sob a água. E viu Claire que mais havia e logo Claire os quis para ela e só para ela. Mergulhou e nadou, nadou fundo, fundo e mais fundo, mas nunca, nunca mais os alcançava, e nadou mais e mais e mais fundo, até que a ele chegou, ao imenso, belo tesouro mal agoirado. Apercebeu-se então a bela e vaidosa Claire que já não retinha ar mas respirava, que não batia as pernas mas nadava, que tinha guelras e barbatanas, que não era agora humana mas sereia, bela e fria sereia.

Era uma lenda sobre uma lenda, era uma lenda que crescera, que se afastara, era uma lenda de uma bela e fria sereia, de um pobre, pobre navio fantasma, de um incontável, inimaginável tesouro, mas no fundo, bem na verdade, era uma lenda sobre um barquinho, uma pequeno e frágil barquinho, sobre uma menina, uma pequena e frágil menina, sobre uma medalhinha, uma pequena e doirada medalhinha. Era uma lenda sobre Claire.



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