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Esta pequena história foi escrita quando eu estava no meu sexto ano, a partir de uma sugestão no livro de Língua Portuguesa da altura. Se forem Brasileiros e acharem que há algo estranho com a minha escrita, é provavelmente porque eu sou Portuguesa. Espero que isso não vos incomode! :)
Anjo de Ano Novo
Era o Ano Novo de 2002. Na casa dos Cerqueira reinava a alegria. A Sra. Cerqueira festejava com champanhe na companhia do marido e dos filhos: Mariana, Jorge e Matilde.
Mariana tinha quinze anos. Era rebelde e namorava com um rapaz mais velho, Manuel, moço comportadíssimo que a tentava pôr no lugar, sem sucesso.
Jorge tinha doze anos e só vivia para os estudos. Passava horas no computador a passar os seus textos a limpo e era o melhor em tudo.
Matilde era a filha mais nova, com apenas cinco anos. Era muito sonhadora, como convinha a uma criança da sua idade, e era muito carinhosa para todos, excepto Mariana, por quem tinha uma forte antipatia.
Naquele dia, Mariana já tentara de tudo para agradar a Matilde, sem sucesso, porque a menina fazia questão de mostrar que odiava a irmã mais velha.
Quando soaram as doze badaladas da meia-noite, todos ergueram as taças – champanhe para os adultos, sumo para os pequenos – e brindaram ao ano novo que acabara de chegar.
Às duas da manhã, depois de muita festança, foram-se todos deitar. O quarto de Matilde era o único no terceiro andar, uma vez que todos os outros se situavam no segundo.
Matilde estava muito sonolenta. Pouco tempo depois de se ter deitado, ouviu uma musiquinha muito suave, que vinha do telhado. Espreitou pela sua janelinha que dava para a Lua e viu um anjo no telhado, a tocar flauta.
- Que anjo tão lindo! – exclamou ela.
O anjo, que estava à chuva, levantou-se com cuidado e disse:
- Tenho um presente para ti.
E entregou-lhe uma boneca.
- Muito agradecida! – disse Matilde.
- Agora vai para a cama e dorme com os anjos! – falou o anjo.
E ela foi.
No dia seguinte, Matilde foi ao quarto da irmã. Esta estava a vestir a sua camisola e saia preferidas. A camisola era vermelha, justa e não tapava o umbigo. Quanto à saia, era curta, de xadrez. Terminava a combinação com botas até aos joelhos. Matilde aproximou-se dela e afirmou:
- Esta noite vi um anjo. Ele trouxe-me um presente.
Mariana sacudiu os longos cabelos negros encaracolados e perguntou:
- Ah sim? E então o que foi que ele te trouxe, querida?
Matilde compôs um ar zangado e, em seguida, respondeu:
- Trouxe-me uma boneca. Se tu fosses uma irmã de jeito, talvez eu gostasse mais de ti, se me trouxesses uma também, mas como só te ocupas dos teus namorados…
Mariana olhou para Matilde, tristíssima. A irmã mais nova não só não desconfiara que fora ela o “anjo” do telhado como ainda a tratava mal. E disse:
- Tu não gostas de mim, eu sei, mas eu gosto muito de ti, acredita. Mas também tens de compreender que eu não sou nenhuma caixa registadora, da qual se tira tudo o que se quer. Eu gastei os meus últimos trocados numa coisa que não posso contar a ninguém, percebes? E agora vens-me dizer que queres uma boneca! Matilde, também só vens ter comigo em ocasiões destas!
Matilde voltou as costas à irmã e foi-se embora. Mariana, assim que a ouviu descer as escadas em direcção ao primeiro andar, saiu do quarto e foi bater à porta em frente. Ninguém respondeu. Bateu novamente. Ninguém respondeu outra vez. Ia bater pela terceira vez com toda a força quando a porta se abriu e apareceu Jorge.
- Até que enfim! – exclamou ela.
- O que é que queres? – inquiriu ele.
- É por causa da Matilde. Ela ainda não percebeu que eu sou o anjo do telhado.
- Tu tens cá cada ideia! – resmungou o irmão – Se alguma vez escorregas e cais, estou para ver quem é que te leva ao hospital!
- Deixa as gracinhas para outra altura. Ajudas-me ou não?
- Ajudo-te em quê?
- A subir outra vez ao telhado, ora!
- És doida!
- Pois sou. Só que desta vez eu tenho de entrar no quarto da Matilde sem ter de empurrar a porta, que range que se farta, como tu bem sabes.
- Para que é que tu queres entrar no quarto da Matilde?
- És mesmo parvo. Para lhe entregar a outra boneca! Ou julgavas que ias ficar com ela aqui no quarto para sempre?
E Mariana apontou a boneca que se encontrava junto a uma enorme pilha de livros de estudo.
Finalmente, após um longo silêncio, Jorge aceitou.
E assim foi. Naquela noite subiram as escadas e fizeram uma corda de lençóis que amarraram a uma perna de um armário muito antigo e pesado. De seguida, atiraram-na pela janela e Mariana desceu com a boneca debaixo do braço. Parou numa espécie de telhadinho em frente à janela do quarto da irmã, onde estivera a noite anterior, fazendo de anjo. Abriu a janela e, antes de entrar, sussurrou para o irmão:
- Podes descer!
E Jorge juntou-se-lhe.
Entraram ambos pela janela, que deixaram aberta. Puseram a boneca em cima da cama junto à menina mas, quando já se iam retirar, Matilde abriu os olhos.
- O que estão a fazer aqui? – perguntou, estremunhada. Ergueu-se e viu a boneca em cima da cama, junto às suas pernas.
- Obrigada! – disse e, pulando da cama, abraçou os irmãos, que se tinham sentado no chão na esperança de não serem apanhados.
- Sabes, eu era o anjo de ontem à noite. – disse Mariana.
- Foste o meu Anjo de Ano Novo. – sussurrou-lhe a irmãzinha carinhosamente ao ouvido.
E, enquanto estavam os três assim abraçados, ouviu-se ao longe uma musiquinha suave e angelical.
FIM!
Nota da Autora: Olá! Gostaram? Então comentem, por favor!