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Fiction » General » I am not there I do not die font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Elyon Somniare
Fiction Rated: T - Portuguese - Supernatural/General - Reviews: 9 - Published: 09-23-08 - Updated: 10-25-08 - Complete - id:2575594

- Quero viver – declarou Luís.

-Não te lembrarás de nada – recordou Oriana.

- Nem em sonhos?

- Talvez – admitiu a rapariga. – Talvez sonhes com a tua vida passada, mas não saberás que o era. E esquecerás esse sonho como esqueces a todos os outros.- Ainda assim, quero viver.

- Reencarnação, então?

Luís não teve tempo de voltar a confirmar com uma palavra ou aceno de cabeça. Num momento discutia qual o destino que iria escolher, no outro sentia-se dissolver. Gritou. Gritou como nunca o fizera em vida. Não era doloroso, não era sequer desagradável, mas a sensação era similar, tão similar… Lembrou-se das águas a envolve-lo, do desespero do ar a fugir-lhe rapidamente enquanto os pulmões clamavam, inutilmente, por mais, por um pouco mais… E dela, da sua vida, a deixa-lo dentro daquelas pequeninas bolhas de ar… não, a deixá-lo não, a ser erradicada, afastada, por ele mesmo.

- Luís! Luís!

Soava tão longe aquele eco… Já o ouvira, onde é que já o ouvira?

- Luís, olha para mim!

Ah, sim, a rapariga dos olhos cor de sangue. A Morte.

- Luís, olha para mim! Luís!

Tão barulhenta! Tão irritante!

- Se te deixares abandonar ao desespero não conseguirás reencarnar.

Reencarnar? Do que é que ela estava a falar? Ele ia morrer. Afogara-se, não tinha vida, ela fugira e não a conseguia encontrar… Ia morrer, sabia disso, não houvera escolha…


-E essa é a minha única opção?

- Não, podes vir comigo para o Limbo e continuar o caminho da morte.

- Limbo ou reencarnação?

- Exactamente – confirmou Oriana. – Qual deles?

- Quero viver! Ainda assim, quero viver!


Não, houvera escolha, ele escolhera! Ele escolhera viver!

- Olha para mim Luís.

Ele queria olhar, queria tanto, tanto, olhar… Onde é que ela estava? Não a encontrava, não a conseguia encontrar. Onde? A voz! Teria de seguir a voz…

- Luís…

Mas era difícil, tão difícil, ignorar a sensação de sufoco… A voz, a voz… Seguir a voz… antes que fosse novamente tarde de mais… Viu-os. Brilhantes, vermelhos, chamativos. Os olhos, os olhos cor de sangue.

- Olha para mim, Luís – repetiu a rapariga. – Olha para mim.

E ele olhou, fixando-se nos olhos, concentrando-se no sangue que neles havia, esquecendo e diminuindo o sufoco, o medo, a aflição.

- Boa sorte, Luís – a rapariga parecia sorrir. Não conseguia dizer se com os lábios, mas os olhos, os olhos sim, sorriam, definitivamente, sorriam. – Não voltes a menospreza-la.

E tudo desapareceu. O frio, o sufoco, o alívio e a rapariga. Os olhos! Não queria que os olhos desaparecessem! Que olhos? Não se lembrava, não se conseguia lembrar… Do que é que não se conseguia lembrar? Não sabia. Não fazia mal. Esqueceu-se de que havia alguma coisa para se lembrar. Esqueceu-se do que era lembrar. E, finalmente, esqueceu-se do que quer fosse, porque, afinal, era ainda um amontoado de células em formação, o que haveria para se lembrar?


- Oh!

Ana Maria soube quem ela era no momento em que ela lhe apareceu à frente. Não gostou nada de a ver. Primeiro porque apareceu entre ela e o quadro de representação do Juízo Final – uma obra-prima como poucas, na sua opinião – que se encontrava a admirar e segundo porque suspeitava que a vinda dela terminaria com a boa vida – ou boa morte – que Ana Maria tinha andado a levar.

- Lamento, mas eu tinha mesmo de vir – disse a rapariga, entrelaçando as mãos atrás das costas e inclinando ligeiramente a cabeça, de modo a que a cortina de cabelos negros se inclinasse quase toda de um só lado. – E também lamento não ser uma trombeta de anjo.

- Não lamentas nada – retorquiu Ana Maria, reconhecendo a alusão a um dos seus primeiros pensamentos aquando a sua morte. – Detestarias ser uma trombeta de anjo.

- É verdade, não lamento isso – concordou a rapariga. – Mas lamento mesmo ter tido de vir.

- Por isso é que chegaste atrasada? Eu já morri há uma semana.

- Quatro dias, na verdade – corrigiu a rapariga. – Vocês têm muito a tendência de baralhar o tempo depois de mortos.

- Perdoem-nos por isso.

A rapariga riu.

- Não vais fazer a apresentação oficial? – continuou Ana Maria. – Ou arrastar-me daqui para o meu Julgamento? És a Morte, se não estou em erro.

- Não estás, mas pessoalmente prefiro que me chamem Oriana.

- Aquilo que te deixar mais confortável, Oriana, não estou propriamente em posição de negociar, mas não me respondeste à pergunta que verdadeiramente me interessa.

- A do Julgamento? – Oriana voltou a rir-se. Se havia algo que Ana Maria não esperava, era que a Morte tivesse tamanha boa disposição. – Seria de esperar, não seria? Mas se fosse assim já terias passado pelo portão. Não, a verdade é que não queres ir a Julgamento. Não queres seguir a religião que seguiste durante a tua vida.

- Não te percebo, criança. – Tornava-se difícil erradicar o hábito de chamar criança às jovens mulheres que lhe aparecessem à frente, por mais certezas que tivesse de que aquela jovem em específico tinha, com certeza, muita mais idade que ela mesma. – Eu acredito na religião que me foi ensinada.

- Não é disso que se trata – explicou Oriana. – Nenhum de nós…

- Nós?

- Nós, a Morte. Com tantas pessoas no Mundo acreditas que seria possível para uma só Morte recebe-las a todas? Não daria conta do recado! Somos vários, todos nós indivíduos diferentes e todos nós a Morte.

- Percebo. Mas dizias?

- Nenhum de nós duvida qual é a tua fé e o quanto acreditas nela, apenas acontece que neste momento, não a queres seguir, achas que é cedo, achas que ainda deves aproveitar o que te resta para fazer aquilo que não pudeste fazer em vida. Mas Ana Maria, tens de ver, é que já não te resta nada.

- Ora, porque não?

- Já morreste.

Ana Maria suspirou e olhou para o tecto. Sabia que ainda havia algo, sentia-o. Olhou para os orbes vermelhas da Morte, procurando alguma coisa que lhe indicasse qual a atitude a tomar, as palavras a dizer, os gestos a fazer… Sentiu-se avaliada. Era como se estivesse a ser avaliada, testada… A rapariga não lhe estava a dizer tudo o que lhe podia dizer, não lhe estava a expor todos os caminhos que ela podia percorrer.

Oriana voltou a sorrir.

- Então? – perguntou.

- Eu – começou Ana Maria – não morri de causas naturais.

- Pois não – concordou a rapariga, voltando a inclinar a cabeça numa atitude que indicava espera.

- Não me suicidei – continuou Ana Maria. – Nem o meu corpo deixou de me poder suportar. Fui vítima de homicídio. Fui assassinada pelo meu Miguelinho.

Oriana assentiu com a cabeça, incitando-a a continuar.

- Vim para aqui cedo de mais, e por isso não quero ir a Julgamento também cedo de mais. Quero aproveitar os anos que ainda teria vivido para correr Mundo, fazer o que não poderia ter feito em vida, conhecer outros locais, pessoas, civilizações e modos de vida. Apreciar a arte que nunca estive apta a apreciar, e saber mais, muito mais, sobre o Mundo em que vivi!

- Terias de vaguear como um espírito, condenada a ser nada mais que uma assombração.

- Um preço que me parece justo.

- E só tens os anos que terias vivido caso me tivesses encontrado pelos meios naturais.

- É o bastante – Ana Maria não conteve um sorriso. – Serão muitos, a julgar pela vida anormalmente longa da minha mãe, avó e bisavó. Felizmente, acredito na genética.

Oriana gargalhou. Era a primeira vez que Ana Maria a ouvia gargalhar, soava tão incrivelmente humana que rasava o surreal.

- Sim, essas foram um osso duro de roer – concordou Oriana. – Mas quando as encontrei sabiam exactamente para onde ir e o que fazer. Hoje são tão poucos os que possuem tantas certezas...

- Então – continuou Ana Maria, desejando tornar as coisas bem claras de modo a poder voltar a gozar a sua morte sem mais perdas de tempo – estamos resolvidas? Vaguearei pelo Mundo até que voltes a vir ao meu encontro?

- Sim. És livre até que eu venha novamente ao teu encontro.

- Óptimo.

- Mas, Ana Maria, – não gostou daquele “mas”, não gostava quando havia um “mas” – não te deixes ser vista pelos vivos.

E sorrindo uma última vez, desapareceu tão silenciosamente como tinha aparecido.

Ana Maria permitiu-se sentar no chão frio de mármore do museu, ignorando os visitantes apressados que a atravessavam na sua ânsia de ver o máximo de quadros e estátuas possíveis. Então aquela é que era a sua morte!


Oriana espreitou pelo canto da porta, procurando-o com o olhar por entre as milhares de pessoas que ainda ali estavam. Mas ele já lá não o estava. De certo modo, já o sabia, apenas o quisera confirmar.

- Se procuras por Dário Brandel – a voz de Spilce soou atrás de si – já vens tarde. Atravessou o portão à coisa de duas horas.

- Conclui que sim – respondeu Oriana, dando meio volta e abraçando-o. Spilce levou a mão ao alto da sua cabeça e começou a afagar-lhe carinhosamente os cabelos. Tal como ela, também ele já havia passado pela experiência de ser humano e mortal. – Foi a minha primeira remessa desde que voltei – começou Oriana, falando com a testa encostada no seu ombro. – Dário e Ana Maria foram fáceis, mas o outro… o Luís… era um suicida, Spilce. Diz-me se não é maldade!

- Duvido que seja, fizeram-me o mesmo quando voltei – fez uma pausa. – Acredito que há um objectivo qualquer por trás, tenho de acreditar.

- Se há, está muito bem escondido – resmungou Oriana. Spilce estreitou o abraço, apertando-a mais contra si.

- No fim, ele escolheu a vida, não foi? – disse. – Talvez… talvez seja aí que nos devemos concentrar. Na nova vida que nasce, na escolha que no final foi tomada. Não te sentiste feliz por ele, Oriana? Não sentiste felicidade quando ele quase que implorou que lhe fosse dada uma nova oportunidade?

Oriana assentiu com a cabeça, ainda a pressionar a testa contra o ombro de Spilce.

- Não foi a primeira vez que te sentiste assim por alguém que não tu?

Fora! Era verdade, como não se pudera ainda ter apercebido de tal alteração no seu espírito? Mudara. Sabia que tinha mudado, afinal sempre tinha trazido sentimentos. Só não sabia que isso alteraria em tamanha proporção o seu modo de sentir e ver o Mundo e os outros que nele habitavam. Retirou a testa o ombro de Spilce, olhando-o directamente nos olhos pela primeira vez desde que voltara da sua vida humana. Vermelho com vermelho. Morte com Morte.

- Foi – sussurrou. – E ri-me. E gargalhei. E senti-me tão feliz! Tão feliz!

- Porque eles o estavam – explicou Spilce. – Aqueles a quem guiaste.

- Aqueles a quem guiei – repetiu Oriana para si mesma. – Mas há mais, muitos mais! Já os ouço “estás atrasada”, “por onde tens andado?” “só mais uns dias!”. Querem-me, e ao mesmo tempo não me querem, mas quanto a isso não é como se houvesse grande escolha, não é?

Spilce riu-se.

- Se não falares mais coordenadamente, não conseguirei seguir a tua linha de raciocínio – advertiu-a.

- Tenho de ir – repetiu Oriana, aparentemente sem o ter ouvido. – Estão à minha espera.

Era isso, só podia ser isso; estavam à sua espera. À espera da Morte, que os guiasse, que os elucidasse e acompanhasse. À espera de quem lhes iluminasse o caminho a escolher, de quem desembaraçasse os nós de confusão que se lhes formavam mais e mais nas ruelas da mente.

Spilce deu-lhe a mão.

- Vamos – sussurrou. - Vamos juntos.

N/A: É, postagem mais cedo que o previsto... que dizer, apeteceu-me, não é como se alguem fosse reclamar. Culpo o título, terei de descobrir como se altera. Bjs e um excelente Halloween XD



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