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A Carta
Ele tinha acabado de se mudar. Era um apartamento pequeno e mobiliado, perfeito para alguém com poucos meios que vinha do interior para estudar engenharia. Não poderia desperdiçar. Olhou a pequena morada com um pouco de melancolia. O lugar parecia vazio demais e grande demais só para ele apesar de consistir em dois cômodos e um banheiro. Organizou como pôde seus pertences para passar a primeira noite e logo deu por falta de algum lugar onde deixar seus óculos antes de dormir e colocar uma luminária para atenuar a solidão de seu quartinho.
Resolveu que precisaria de um criado mudo. Nem gavetas precisava ter.
Ao amanhecer, contabilizou o pouco dinheiro que tinha enquanto tomava um café aguado, mal feito por ele mesmo, e sentia saudades do cheiroso café de sua mãe.
Precisaria de um emprego para se manter. Precisava do criado mudo. Decidiu ir explorar a cidade em busca dos dois.
Tudo era agitado, confuso e cansativo. Ele não se identificava com nada. O ritmo incessante das ruas o incomodava. Mas a novidade lhe atraía a vista, tudo lhe parecia novo. Foi tomando um caminho constante, quando deu por si, tinha chegado à universidade onde estudaria dali uma semana. Aproveitando tal coincidência, resolveu conhecer o campus e o prédio onde cursaria.
Oportunamente, soube de um projeto de estágios e logo se inscreveu, esperançoso de conseguir através dele algo com que pudesse se sustentar. As vagas eram para trabalhar na faculdade mesmo, o que facilitaria sua vida. Não tinha alugado o apartamento para morar lá mesmo, só para se esconder. Almoçou um simples sanduíche com suco. Passou tempo caminhando sem rumo. Ganhou um sorriso de uma moça na rua.
Estar em lugar novo é como nascer outra vez. É aprender uma nova forma de viver.
_Ah! O criado mudo! –ele exclamou para si mesmo. Voltou a verificar quanto dinheiro tinha trazido. E ao distraidamente erguer os olhos da carteira, percebeu-se de frente à uma loja de móveis usados.
Providência divina, talvez? Isso lhe pareceu estranho.
Era um bom lugar para comprar seu tão necessário móvel. O preço devia ser mais acessível. Entrou timidamente no comércio um pouco sombrio, procurando algo que o interessasse e um rapazinho simples, de uns 13 anos, veio atendê-lo, surgindo do nada.
_Procurando o quê, moço? –quis saber, bem-humorado.
_Um criado mudo. Um só...
_Criado mudo? Hm... –o menino não parecia certo do que era aquilo. O rapaz sorriu:
_Queria um daqueles armarinhos de pôr do lado da cama... –definiu, para facilitar.
_Ah! Sei! Aqui, olha... aqui tem um... –o menino apontou, agilmente, para um pequenino móvel com alguns trabalhados antiquados e madeira escura fosca do tempo. Tinha uma gavetinha que comportava quase nada e um espaço vago com uma prateleira em baixo onde livros poderiam ser colocados.
O rapaz gostou logo e questionou o preço.
_Pai? Paiê? Quanto que tá o armarinho? –o garoto irrompeu gritando, procurando o pai e olhando em volta.
_Criado mudo, cê quer dizer? Quinze! –ouviu-se apenas.
_Quinze. –o menino repetiu como se o rapaz nada tivesse ouvido.
_E se eu levar aquele abajur? Eu ainda poderia pagar 15? –o rapaz quis pechinchar.
_Ô, sei não... Paiê! Vem cá, por favor, fazer negócio com o moço! –o menino resolveu, porque não tinha autoridade para tanto.
Veio assim o pai do menino, um homem magro de olhos redondos e expressão cansada e pouco contente.
_Pois não, seu moço. Diga aí o que intende... –e não tinha jeito de ser da cidade também.
_Faz para mim o criado mudo e o abajur por quinze reais.
_Mas por que? Duas peças finas dessas! Se o senhor quiser mesmo os dois, não leva por menos de vinte.
_Vinte? É, acho que dá... Não faz muita diferença. –lamentou, concluindo e concordando. –E ajuda para levar pra minha casa? –e ele abriu a carteira e tirou a nota, a maior que tinha consigo, de vinte.
_Ah! Isso o menino dá...
_O menino?
_É! Peça não é tão pesada quanto parece... Você e o menino levam fácil se não for longe...
_Não é.
Então assim foi. Ajeitaram então o abajur dentro da gavetinha e os dois foram carregando o criado mudo pelas calçadas desajeitadamente. Foi um tanto custoso levar a peça pelos dez minutos de caminhada e pelos dois lances de escada acima até a quitinete.
_Pode deixar que para dentro eu mesmo coloco as coisas. –avisou o rapaz. Colocou a mão no bolso e tirou moedas que não contou e entregou ao menino. –Obrigado... compre um doce.
_Que bom! Obrigado, seu moço! –e voltou correndo pelo caminho que veio, usando um sorriso de alegria infantil
Ainda não eram cinco horas. Ele posicionou o criado mudo onde achou melhor e instalou o abajur verde que temia não funcionar, mas ofereceu uma luz quente e hipnótica ao acender. Voltou o rapaz para sua pequena cozinha, contar suas economias com as quais teria de se sustentar até encontrar algum trabalho. Dava para mais três dias com luxo e cinco sem luxo.
Voltou a ajustar suas coisas. E sentindo fome, resolveu comprar uma marmitex simples na padaria da esquina. A noite dava formatos estranhos à vizinhança como se tudo fosse um pesadelo intrigante. Comeu olhando a janelinha no quarto. Tomou um banho gelado porque o chuveiro estava queimado, e depois de ler alguns documentos da faculdade, colocou os óculos no criadinho, apagou a luz do abajur e mergulhou em profundo sono.
Acordou meio descansado, colocou a outra camiseta que tinha e lavou a primeira na pia do banheiro mesmo. Estendeu num varalzinho na cozinha. Fez seu café ruim e bebeu como se fosse remédio. Com o porteiro arranjou o caderno de anúncios do jornal do dia anterior e começou a escolher vagas que podia se candidatar. E esse ritmo seguiu a semana toda, contatando empregadores, fazendo entrevistas, explicando seu caso.
_Sou bolsista... O curso é integral. Mas se o senhor me der esse emprego, vou dar meu melhor.
Procurou muitas vagas de garçom, porque assim podia usar seu único horário livre.
Até que um senhor italiano, dono de uma cantina aconchegante, contratou o rapaz. Ele começou a faculdade junto do emprego, tendo muito pouco tempo para si. Comeu na própria cantina um almoço que virara janta e trabalhou até às duas da manhã.
Mais uma semana corrida, sem parada nem para tomar um ar. Pelo menos seu patrão era bom homem, companheiro com ele, e o curso na faculdade era seu sonho, e assim, ele estava feliz. Tudo valeria a pena no final.
No segundo mês, tudo já lhe era comum e escreveu aos pais longo relato sobre sua nova e desafiadora rotina. E confiante, declarou-se alegre e muito agradecido, e sorria enquanto escrevia o texto, às quatro da manhã, no intervalo de uma resolução de exercícios matemáticos.
_Agora vivo do meu café ruim, que para mim nem gosto mais tem. –acostumara a conversar com si mesmo na ausência de amigos.
Quase não se misturava. Para os outros moradores do prédio, era um mistério. Na aula, falava com um ou dois assuntos breves e banais que não criavam laços. E no trabalho conversava mais por necessidade do que por prazer. Gostava mais da companhia de si mesmo, embora contemplasse com interesse acanhado, mas sincero, as meninas que cruzavam com ele pelos corredores da faculdade. Embora quisesse uma namorada, sabia que aquela não era a hora para isso.
Tinha uma folga quinzenal.
Estava chovendo muito e ruidosamente de forma relaxante quando ele voltou da faculdade, aliviado por não precisar sair para trabalhar. Ia adiantar seus estudos o quanto pudesse e dormir um pouco mais do que o costume.
No fim, dormiu mais do que estudou porque o cansaço era mais faminto que a necessidade do conhecimento. Preferia ter aproveitado melhor a noite livre, mas já não fazia diferença. Valeu para alguma coisa. De manhã, enquanto tomava uma xícara de café, pensava em nada, questionando-se o que estava fazendo da vida e se valia.
Bocejou, apanhou suas coisas e correu para a aula. Todos os dias eram muito iguais, o que mudavam eram as matérias que tinha, mas quase todas falavam de números. As cartas que seguia escrevendo não tinham muito assunto, o sorriso de garçom que usava tinha um brilho forçado, a atenção que dava às explicações era ansiosa pelo fim.
Até que um dia, ao deitar-se exausto sobre sua cama na madrugada de domingo, lembrou-se de um fato curioso: ainda não tinha aberto a gaveta do criado-mudo que estivera com ele já há quatro meses. Sabia que não encontraria nada dentro, mas decidiu olhar, para colocá-la em uso.
Surpreendeu-se em achar um embrulhinho: duas folhas de papel, juntas, dobradas muitas vezes. Podia-se claramente ver que por dentro estavam completamente cobertas de palavras traçadas numa caligrafia fina e apressada, à caneta. Ficou em dúvida se devia ler. A curiosidade, entretanto, foi maior que a discrição. Isso é humano. Segurou o montinho na mão, pensativamente.
Desembrulhou-o logo em seguida.
Lia-se:
"São Paulo, 12 de Fevereiro de de 2006
"Querido André,
"Tenho muito a te dizer. Por isso, resolvi escrever, para que desse modo as palavras possam durar mais tempo.
"Mais um ano começou e eu ainda aqui, sem você. Até parece frase de música. Até parece uma coisa tola. Eu sei que te vi poucas vezes, sei que talvez mal me notou, mas a simples lembrança do som de seu riso me faz viajar para tão perto de você, como se tivéssemos crescido juntos, estudado nas mesmas escolas, partilhado as mesmas brincadeiras na rua. Simples assim... bem simplesmente eu consigo dizer que te amo.
"Até eu queria saber como foi que aconteceu, por isso, nem se assuste se não entender como consegui criar comigo esse sentimento. Não precisa tentar achar lógica para isso, porque dificilmente é possível encontrar lógica em algo tão imprevisível como o amor. O que mais me intriga é a razão de nunca ter sido capaz de dizer isso pessoalmente. Não faltou oportunidade, você mesmo deve lembrar.
"Mas todas as outras em seu redor pareciam ser muito melhores do que eu, principalmente em prender sua atenção. A questão não é que eu me sentisse insuficientemente boa para você, mas talvez você pensasse isso de mim, porque mal me olhava. Muitas vezes cheguei a pensar em consolo próprio que era por timidez que me ignorava, mesmo quando eu falava com você...
"Será que foi tudo real? Me pergunto muitas vezes, quase todos os dias, quando deito no silêncio do meu quarto, pensativa. Foi um desperdício de tempo aquele que eu passei muda ao seu lado, mesmo que tenha sido apenas segundos. Para mim, eram o suficiente para serem chamados de eternidade. Agora já faz um ano que você foi embora. E eu ainda lembro perfeitamente de seu rosto, sempre sorridente, mas muito distante de mim.
"Desculpe se a carta aparece sem avisar - elas são assim mesmo. Arranjei seu endereço com uma antiga conhecida sua, a Carla. A propósito, ela te mandou lembranças e nem quero saber por quê.
"É um tanto desnecessário que eu lhe escreva, mas não estava mais suportando a realidade sem te comunicar o que estive guardando. Pode ter certeza que meu sentimento é sincero, e apesar da ânsia, ele não espera ser correspondido. Não tem porque: quantos quilômetros nos separam mesmo? Ah é, quinhentos...
"Espero que fique contente em saber que alguém ainda lembra de você com muito carinho por aqui. Espero, primeiramente na verdade, que você se lembre de mim. Caso decida responder, qualquer coisa que seja, não me engane - confio que vai ter um pouco de respeito pelo amor que tenho, bem aqui no fundo de meu coração remendado com esperança.
"Já me estendi demais. Me despeço.
"Sempre sua,
"Natália."
Ao terminar de ler a carta, o rapaz não esboçou reação de pronto. Se limitou a pensar sobre o que não ousaria. Quem seria essa moça desperdiçando coração por alguém aparentemente tão descuidado? Curioso. Ele não tinha nada que ver com a situação, mas por que fora de repente incluso nela? A mensagem tinha sido escrita há mais de um ano, não havia motivos para que se conectasse com a história.
Dobrou tudo outra vez, cuidadosamente, assim como a Natália tinha dobrado, e deixou num cantinho perto da abajur. E resolveu voltar a tentar dormir, certo de que não faria nenhuma diferença em sua vida a descoberta feita. A segunda-feira diante dele exigia que dormisse um pouco ou não seria capaz de ir para a aula quando amanhecesse. Que vida maçante essa de ser obrigado a dormir, obrigado a comer, obrigado a estudar Física nas quartas e Sociologia nas sextas, e ter um cronograma de cada dia que não podia ser descumprido, atrasado, muito menos adiantado, e ainda ser garçom em qualquer lugar de São Paulo, que ninguém conhecia ou freqüentava, a não ser os moradores dos arredores do bairro simples e sem atrativos.
Precisava de uma aventura. Alguma coisa para quebrar a monocromia estéril dos dias. Antes achava que morar em uma metrópole sozinho seria aventura suficiente, antes achava que fazer engenharia ia ser emocionante o bastante. Mas de tudo a gente se cansa, somos seres ingratos, mesquinhos e descontentes.
Não aconteceu nada interessante no dia seguinte, nem no próximo ou outro. Ele seguia sua lista de deveres fielmente. Mas uma coisa em especial aconteceu, e que ele mal notou. Tinha feito uma amiga e não estava mais sozinho. Mais uma vez leu a carta de Natália, como se fosse para ele, para absorver tudo o que poderia sobre ela. Então, passou a pensar sobre como era aparentemente, as coisas que fazia ou que pensava e entreter todo tipo de possibilidade, quase como numa brincadeira. E tanto exercitou sua imaginação sobre a moça, tanto criou imagens dela tristonha e também sorridente, que pouco a pouco foi fascinando-se por ela, que tornava-se cada mais real.
Conversava com ela em pensamentos. Ouvia-na responder, tinha definido também como devia ser sua voz. Com ela, discorria suas inseguranças, suas vontades, suas alegrias. Ela era alguém simples, mas bastante inteligente e extremamente sensível. Sobretudo, era ótima ouvinte. Fazia lindas expressões faciais e tinha uma postura modesta, aconchegante, que o convidava sempre.
De vez em quando ela também contava alguma coisa, a voz indefinida dela não lhe feria os ouvidos, mas comunicava uma timidez de quem, embora saiba o que dizer, malmente sabe como o fazer. Mas ele tinha certeza de que Natália gostava da companhia dele também. Ela nunca parecia descontente.
Um dia, chegaram as férias. Ele nem podia acreditar que era verdade e vencera o primeiro módulo da sua empreitada. Cogitou voltar para sua cidade, mas acabou decidindo por escrever uma longa e detalhada carta para seus pais, como há tempos não fazia, contando um pouco de tudo, e falando inclusive sobre a moça.
Estava um pouco grandinho para ter amigo imaginário, é certo, ao mesmo tempo, não devia ser normal, visto cursar engenharia. E quem por muito tempo vive sozinho acaba concebendo coisas que não necessariamente parecem normais para os outros - manias, medos, hábitos e imaginações também.
Mas aparte da citação na carta, Natália era um segredo dele, uma coisa que não estava disposto a dividir com ninguém mais.
Um certo dia, enquanto folheava uma revista qualquer que comprara com um troco, sentado na praça, lhe veio um raciocínio que ainda não tinha perseguido. Se ele tivesse possibilidade de conhecer a Natália real, ele aceitaria? Ou teria medo de que esta jamais correspondesse suas idealizações?
Viu-a sentada ao seu lado, observando preguiçosamente os arredores, as pessoas passeando com os cachorros e crianças numa tarde ensolarada de férias. O rapaz assistiu momentaneamente a moça morena rosada de olhos negros perdida em seus pensamentos.
_Você ainda pensa no André?
_Tento não pensar. Afinal, eu nunca mandei a carta...
Ele assentiu. Natália não parecia desconfortável com o assunto. Mas ela suspirou, olhou baixo, apertou levemente os lábios enquanto franzia levemente a testa. Ela ainda pensava nele. Na verdade, ela estava pensando em André naquele exato momento, ele sabia distinguir. De algum modo, aquilo o aborreceu.
_O que posso fazer para você esquecer dele?
Seu questionamento deixou a expressão de Natália em branco, minutos depois ele já não a via mais. Ainda não tinha imaginado aquilo, assim, ela mesma não poderia respondê-lo.
Era isso então. A imaginação tinha algumas limitações. Ele voltou os olhos para a revista, sem interesse, prestou mais atenção ao latino dos cães e aos risos das crianças.
Voltou para casa, desagradado.
_Boa tarde. -o jovem entrou naquele lugar pela segunda vez em cinco meses. A loja de móveis usados.
O menino, da outra vez, surgiu com uma expressão despojada, olhando-o curiosamente e dessa vez não falou nada.
O rapaz sorriu.
_Você lembra de mim?
_Lembro não.
_Eu comprei, um tempo atrás, um criado mudo aqui.
_O moço fala daquele armarinho de pôr do lado da cama, é?
Ele riu e assentiu:
_É, isso mesmo.
O menino coçou a cabeça, olhando bem o rapaz, como se procurasse algo nele.
_Não tem problema se não lembra. Eu vim aqui perguntar se vocês sabem quem vendeu aquele criado mudo.
O menino seguiu pensando. Ele não tinha as respostas que o rapaz queria e só lhe restava mesmo convocar o pai.
_Paiê! Vem cá, que o moço tem um assunto pra tratar com o senhor.
E lá veio o homem, como da outra vez. Respondia rápido o chamado do filho.
_Qual é o assunto?
_Coisa simples. Só quero perguntar se o senhor me informa de quem foi que comprou um criado mudo de aparência antiga, de madeira escura, que me vendeu meses atrás.
_Ah, para mim lembrar disso agora vai ser difícil.
_O senhor não tem um registro, nada?
_Mais ou menos, só que tenho que procurar e recordar como era o tal criado mudo.
O rapaz fez uma expressão contrariada.
_Que mal lhe pergunte, por que quer saber?
_Tenho um assunto para tratar com essa pessoa.
_É reclamação? Se for, tem é que fazer comigo.
_Não.
O dono da loja pareceu intrigado com a coisa.
_Eu vou dar uma olhada na papelada e já volto. Vai que eu ache alguma coisa que te possa interessar.
_Fico agradecido.
O menino assistiu tudo, sem expressão ainda, como se nada achasse do diálogo. Entrou alguém na loja, ele foi atender. O homem se demorou uma meia-hora, o rapaz não acreditava muito na disposição do homem de se dar ao trabalho, e pensou em ir embora.
_Sua sorte é que passou pouco criado mudo por aqui.
E de repente voltou o dono da loja. O rapaz o encarou, ansioso.
_Tenho aqui essas duas notas de compra de criado mudo. Não tem muita informação não, mas nome e telefone.
_É o bastante. Me passe aqui.
E ele anotou apressadamente os dois nomes e telefones, desapontado um pouco porque ambas as notas estavam em nome de homens.
Emílio e Cláudio, mas ambos telefones de São Paulo.
A primeira coisa que ele fez ao sair da loja, depois de muito agradecer, foi parar num orelhão e sacar o cartão telefônico.
Por ordem alfabética, ligou para o Cláudio então. A voz que atendeu lhe soou fria.
_Eu quero falar com Natália.
_Natália, é? Ela não está. Vai deixar recado?
_Não. O senhor pode me passar o endereço daí, por favor?
O homem do outro lado da linha não gostou do pedido. Quis saber por que. De repente, o rapaz achou que tinha pirado de vez. Mas aquilo não era tão estranho quanto ter uma companhia imaginária.
_É que eu achei uma coisa dela e queria devolver.
_Liga outra hora. Se ela confirmar, aí você vem trazer.
E desligou.
O rapaz achou aquilo muito desestimulante.
Apesar de encontrar o que procurava na primeira ligação, resolveu ligar para Emílio também, por precaução. Porém, realmente não tinha nenhuma Natália lá.
_Natália, quem foi que me atendeu?
_Meu pai, provavelmente.
_Alô, Natália está?
_Sim. Quem gostaria?
Um frêmito correu por todo o moço. Quer dizer que ele realmente ia fazer aquilo?
_Meu nome é Augusto. Posso falar com ela um instante?
_Só um momento.
E a pessoa o deixou esperando.
Então, o grande momento ia acontecer. A possível primeira decepção.
Alguém aproximou-se de Augusto e parou atrás dele, para ser o próximo a usar o orelhão. Aquilo o deixou mais desconfortável, distraindo-o. Levou um susto ao escutar:
_Alô?
A voz era feminina, de jeito doce, mas ela só tinha dito uma pequena palavra sem muita importância, então era cedo para dizer se ele tinha imaginado certo.
_Alô?
Diante do silêncio, ela repetiu.
_Alô, meu nome é Augusto, eu... achei uma coisa num criado mudo usado que comprei e queria saber se é sua.
_O que foi que você achou?
A voz dela ficou inalterada durante a pergunta, mas ele achou ter notado um certo nervoso. Podia muito bem ser uma das imaginações.
_Uma carta dobrada, sem envelope, bem no fundo. Desculpe, eu li... mas...
E houve muito silêncio do outro lado.
Augusto não gostou nada do que ouviu. Ou melhor, do que não ouviu.
_Natália? Ainda está aí? Hã... me desculpe, eu...
_Por que se importa tanto? Não me lembro de carta nenhuma. Realmente vendi um criado mudo meu, mas... quanto a carta...
_Eu sinto ter incomodado. Só achei que gostaria de tê-la de volta. Mas é verdade que uma carta dobrada no fundo de uma gaveta está lá para ser esquecida. Não sei o que me deu.
E ele se explicou, de repente sentindo-se idiota - tanto por ter ligado quanto por estar se explicando.
Natália suspirou.
_Pode jogar a carta fora.
_Eu não vou fazer isso. Primeiro, porque é muito bonita. Depois porque... não me ache louco, mas é a única coisa que eu tenho de você.
O silêncio outra vez.
_Você é louco.
_Hã... Até mais.
E Augusto resolveu desligar.
_Não. Quem é você?
Augusto riu. Para ela, era ninguém.
_Acho que sei como você se sentiu em relação ao André agora.
_Só um momento. Como... hã...
Ela soou confusa e assustada. Augusto não se importou.
_Oras, Natália, não precisa agir assim. E... entendo também porque nunca mandou a carta. Pare de pensar nele, está bem? Pense só em mim. Te acho muito bonita. Adeus.
E sua segunda despedida foi ainda mais definitiva. E não ficou esperando para ouvir resposta. Pendurou o telefone no gancho, e saiu, desapontado, chutando uma pedrinha.
O que ele queria afinal? Que a moça pulasse de alegria do outro lado da linha por que ele achou uma carta que ela nem ao menos queria?
Ao chegar em casa, olhou para Natália - a sua - e suspirou.
_Você podia ter sido mais compreensiva.
Ela o olhou silenciosamente. Colocou um pouco do cabelo castanho atrás de uma orelha:
_Você não me deu muita chance.
Augusto estava irritado, a olhou com desgosto e meneou a cabeça.
_Não tem disso. Não tem disso.
Mas não sabia sobre o que estava falando.
Natália se encolheu perto do batente, entristecida.
_Queria nunca ter te conhecido. Vou jogar a carta fora!
E avançou para o criado mudo, mas Natália investiu nele.
_Por favor! Não seja mau comigo, Augusto!
Ele negou com a cabeça, e tirou da gaveta o papel dobrado como se nunca tivesse sido tocado antes.
_Por que fico fantasiando com alguém que na verdade não se importa comigo? Chega! Tenho preocupações demais.
E era difícil divisar se era com Natália ou com ele que estava bravo.
A moça chorou em silêncio, ajoelhando junto ao móvel, ele segurava a carta com força nas mãos.
Ela era a única coisa que ele tinha.
Sem dúvida, tinha enlouquecido. Aquilo tudo que vivia não era normal. Justo ele, um rapaz simples de cidade pequena deslumbrado por uma moça da cidade que ele mesmo tinha criado. Agora, pelo menos, quando sua Natália falava, usava aquela voz doce e feminina que ouvira ao telefone. E ela mesmo tinha dito bem que ele era louco. Ele realmente estava louco. Não queria que aquilo piorasse, mas foi trabalhar perturbado, enquanto a carta o aguardava de novo dentro da gaveta.
Parou de ver Natália porém. Perdera as forças para imaginá-la. As férias terminaram, as coisas começaram a se regularizar. Eventualmente, teve a sorte de conseguir um estágio na faculdade e acabou deixando de trabalhar na cantina.
Resolveu fazer algum amigo de verdade, embora não achasse exatamente que alguém poderia compensar por Natália. Tinha saudades de vê-la, arrependia-se por nunca ter falado a verdade para ela naquele telefonema: Augusto a amava sem saber por que.
Ela não ia acreditar mesmo.
Nem ele acreditava que, no ínterim, se apaixonou por uma carta. Sim, porque aquela era a base de todo seu imaginário.
E o ano acabou, fazendo-o um pouco mais perto de seu diploma. Mais quatro anos então, não ia demorar tanto.
Por um tempo parou de escrever para casa. E mesmo que tivesse planejado visitar os pais no final do ano, não foi. Achava que, se fosse, jamais voltaria para a faculdade. Tinha de ser mais forte. Por isso, passou o final de ano estudando, trabalhando e pensando quando é que jogaria a maldita carta fora. E finalmente o fez, no aniversário dela de dois anos, quando o papel já começava a amarelar devido ao mau armazenamento.
Augusto encheu a gaveta de coisas, e voltou para a rotina, crente de que tinha, para sempre, se livrado de Natália. Quase não lembrava mais como ela era. Não fazia questão.
Estava chovendo, começando a engrossar. Augusto tinha perdido a hora outra vez. Se não assistisse aquela aula de Pneumática, não ia conseguir fazer a prova da próxima semana. Protegia a mochila como podia, mas seu velho guarda-chuva não parecia suportar, e ele corria rápido demais para continuar com ele aberto.
E no afã de correr, fechar o guarda-chuva e desviar das poças, bateu em alguém que calmamente vinha na direção contrária, num ritmo completamente antagônico ao dele. Acertou em cheio, os dois caíram, os guarda-chuvas espalharam-se. Ouviu o grito de moça ao derrubar a pessoa.
Foi atrás de seu guarda-chuva, ela atrás do dela, mas Augusto olhou para ver se ela estava bem. Aquele perfil moreno e o cabelo pesado nas costas lhe chamou atenção.
_Natália?
Estaria alucinando então? Porque seria muita coincidência ou a loucura dele ressurgindo. Mas aquela loucura era bem física, porque doeu quando se chocaramm. Ficou assustado, olhando fixo na garota.
Ela, hesitante, virou-se assustada. Os olhares se cruzaram e ele viu aquela moça que por algum tempo esteve com ele todos os dias, com algumas mudanças. O cabelo, mais comprido e ondulado do que imaginou, mais claro também, e os olhos puxadinhos para o canto, enquanto ele sempre a vira com grande e atraentes olhos redondos.
_Eu te conheço?
Perguntou de volta, aquela voz era inconfundível.
_Mais ou menos. Eu, uma vez, liguei na sua casa para falar de uma carta. Quase um ano atrás.
A chuva caía, os dois parados com os guarda-chuvas sobre as cabeças no meio da calçada. Ela lançou um olhar desconfiado, incerta do que dizer.
_Me lembro mais ou menos. Não sei. Nunca te vi antes. Como sabe que sou eu?
_Eu disse que te achava bonita. Sempre te imaginei assim. E só.
Ela não entendia como aquilo podia ser verdade.
_Esqueceu dele?
_Do André?
_É.
_Tento, todos os dias.
Augusto podia concordar que era difícil esquecer assim alguém de quem se gostou muito.
_Mas já se foram três anos.
_Eu sei. Mas você também não se esqueceu de mim.
Natália estranhava como a conversava acontecia tal qual já se conhecessem. E o rapaz, com toda aquela história esquisita lhe era uma pessoa intrigante, embora não assustadora.
_Engraçado a gente se encontrar assim, do nada, depois que eu joguei a carta fora.
_Então você jogou.
_É, queria esquecer você. Não deu muito certo.
_Somos muito parecidos.
_Verdade.
E se olharam como Augusto e sua Natália costumavam fazer. E por isso, ele lembrou de dizer:
_Me arrependi de ter jogado aquela carta fora. Ela era como um retrato seu. Por ela, imaginei seu rosto e seu jeito perfeitamente.
Ela ficou constrangida, e olhou baixo, quase sorrindo. Era a cantada mais estranha que já tinha ouvido, se é que fosse uma cantada.
Augusto se esqueceu completamente da aula de Pneumática.
_Natália, quero te dizer uma coisa antes de você sair da minha vida de vez. É uma coisa ainda mais absurda do que tudo que já te falei! Acredita nisso? Mesmo assim, se não dizer agora não vou conseguir falar nunca mais, por isso, lá vai: eu te amo.
Ela quase sem emoção o assistiu pronunciar cada uma das palavras. E mesmo assim, o mais improvável ela conseguiu fazer: acreditou no que ouviu. Alguma coisa no jeito que ele a olhava provava isso. Era extremamente inquietante notar aquilo, mas inegável.
Diante de tanto, assentiu. O que é que faria com aquilo então? Fora capaz de despertar um sentimento forte através de uma simples carta. Suas palavras realmente deviam ter um grande valor. Talvez, se André a tivesse lido então teria conseguido o efeito desejado... Era contraditório pensar nisso ali, naquele momento, mas inevitável.
_Que bom que minha carta cumpriu o objetivo dela. -Sorriu enfim, concluindo.
Augusto sentiu-se muito triste ouvindo aquilo. Ele tinha uma perturbadora quase certeza de que Natália ainda amava André. Isso o decepcionava.
Ela beijou seu rosto molhado da chuva, batendo de leve acidentalmente nos óculos dele. Indefeso, Augusto ficou calado e reajeitou os óculos de lentes respingadas no rosto. Pelo que parecia, ela realmente iria embora da vida dele para sempre. Entretanto, não era isso que queria.
_O que vai fazer agora? -e lacônico, disse, como que para prendê-la mais um pouco a si, tentando aproveitar os últimos segundos.
_Vou esquecer André. -ela ainda tomou tempo de responder, inexpressiva.
_Como? -e isso muito o interessava.
_Com a sua ajuda. -ela esclareceu, como se tivesse sido uma decisão fácil. Porém, poderia ter sido apenas uma decisão apressada.
André sentiu que sonhava ao ouvir isso. Devia ter algo errado. Estava alucinando novamente? Mas antes já tinha se convencido do contrário. Estava confuso. Tinha mesmo enlouquecido, separar as duas Natálias era algo que tinha dificuldade de fazer. E considerou uma porção de coisas numa fração de segundo, finalmente sorrindo, cheio de um grande alívio que achou que nunca sentiria.
Natália não entendia bem o que subentendia com sua própria frase, mas era com tímido contentamento que analisava o moço na sua frente. Estava mesmo na hora de ela pensar em outra pessoa, e melhor ainda se tal também pensasse nela. E trocaram um sorriso.
Boa tarde! Aqui estou eu e minha primeira obra publicada no FictionPress.
Peço que leiam com carinho esse meu primeiro conto e me deixem sugestões, críticas e opiniões, especialmente, quanto ao final. Ainda estou indecisa sobre se deveria terminar assim!
Beijos e abraços!
25.11.2008