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Author: Gealsoli
Fiction Rated: K+ - Portuguese - General - Published: 12-06-08 - Updated: 12-06-08 - Complete - id:2604858

Vestígios

Mais um ano de eleições municipais e as pessoas estavam em polvorosa, entusiasmados com a antiga forma de se fazer política. De um lado as andorinhas e do outro os carcarás.

Esta cisão política existe há décadas, legitimando o poder que impera nos sertões do nordeste, onde cada grupo possui os seus líderes, com ramificações de poder que se estende aos seus aliados.

Ademar, sua família e seus iguais assistem de longe esse poder. A ele, incomoda existir a pobreza, a miséria e a fome, que sempre se encontra em seus calcanhares, mas ele não consegue fazer a ligação entre essa realidade e a política, pois permanece ainda mais atado a essa reatualização do passado do que os governantes que elege. Ele peca pela ignorância enquanto aqueles pelo excesso de esperteza.

O comentário geral na comunidade refere-se à quantidade de votos com qual cada candidato vencerá, e Ademar, que nunca foi de ficar por baixo, entra na animada roda, em frente a um boteco qualquer da pequena cidade.

- Eu aposto uma novilha como os carcarás levam essa. E vai ser uma vitória de lavada, grande mesmo, de mais de 3.000 voto! E as andorinha vão tudo ficar com a asa quebrada, pois com esse candidatozinho essas eleição num vai dar nem pro pulo!

Ademar afirmou, acirrando ainda mais a discussão, com o aglomerado de carcarás aproximando-se dele, oferecendo palavras de apoio, enquanto a turma adversária unia as suas forças para revidar o ataque, porque no sertão uma ofensa ao candidato que se apóia é considerada uma ofensa pessoal.

- E esses carcará vão ficar tudo com o bico torcido quando o nosso prefeito se eleger! Vão tudo esconder as cara de vergonha por votar em candidato que perde! – Alguém do outro grupo rebateu.

E assim era conversa que não tinha mais fim, qualquer um poderia jurar que aquilo era uma briga séria, mas não passava de uma forma acalorada de se discutir política, tal qual fosse sobre times de futebol. O fanatismo era sem tamanho.

O “debate” só foi interrompido com a chegada de Seu Tião, um compadre do Ademar, que trazia a notícia de que o Seu Severino, um aliado antigo dos carcarás, havia passado de lado, tornando-se o popularmente conhecido vira-casaca.

Aquilo foi como um terremoto para aquele grupo e várias hipóteses surgiram, como a de que as andorinhas o compraram, ou com dinheiro ou com algum cargo público, porque o Seu Severino não abandonaria os carcarás por coisa pouca. O estranho era perceber que ninguém se indignava com a venda de votos e de apoio político, pois isso era fato natural, presente em todas as eleições.

E enquanto a discussão prosseguia, se aproxima do grupo um jovem de 20 anos, de nome André, filho mais novo do Seu Ademar.

- Boa tarde! – Ele cumprimenta a todos.

Enquanto alguns retribuem o cumprimento, um integrante mais afobado do grupo, alfineta: - Mas olha só, até o carcarazinho veio dar palpite na história! – E muitos riram do comentário.

Antes que o jovem se pronunciasse para falar, Ademar sai em defesa do filho: - Esse é um carcarazinho que tem muito mais cabeça do que muita andorinha gagá! – E o riso seguiu dentro do seu grupo.

Tudo era motivo para se discutir, desde as qualidades pessoais dos candidatos à história política de cada um na região, ressaltando os valores e a importância das suas famílias, o prestígio que possuem, etc.

E um sentimento saudosista se abateu sobre eles, pois as eleições já não são as mesmas de antes...

André, percebendo o clima do grupo, resolve expressar a sua opinião: - Lembro de uns dez, cinco anos atrás, quando o povo se divertia mais nas eleições, os candidato trazia banda grande pra gente ver, até artista da televisão vinha! Era uma época muito animada, muito melhor que carnaval! Se alembra pai, que eu até dizia que eleição era pra ter todo ano?! - Ele coloca a mão sobre os ombros do pai, esperando alguma palavra de apoio.

Ademar olha de relance para o filho e responde: - Pois é André, aqueles tempos eram bons mesmo. Só tem uma coisa que mudou de lá pra cá que eu gostei, que foi sobre a matança que tinha antes, hoje já não tem mais como naquele tempo... – e alguns imediatamente concordaram com ele. – A gente ainda escuta notícia de pistolage na região, mas não é como era antes, sabe.

- Arreparando bem, no nosso município num tem mais desse crime faz muito tempo! O que ainda acontece é quando dois cabra se pega numa briga onde um pode até ser esfaqueado, mas aí o probrema é mais da bebida que deixa o povo valente. – Seu Tião concordou com o amigo, gesticulando muito com as mãos enquanto falava.

- É sim compadre, disso eu num sinto nenhuma falta, mas que o governo podia manter as festança pra gente, ah isso podia! Esse povo de cima faz de tudo pra acabar com a alegria da gente, num vem aqui pra dar um trabaio meió, pra construir mais açude, mas não, só aparece aqui pra tirar as festas, o meió que tem da política! – Reafirmou Ademar, levando muitos a assentirem positivamente com a cabeça.

- Ei pai, num acha que os carcará depois de eleito pode acabar cum essa lei que empata a alegria do povo? - André mais uma vez “opina” na conversa dos mais velhos.

- Eu num sei, mas pode até ser, né? Os carcará são forte, acho que são os único capaz de acabar cum essa esculhambação e dar essa alegria pra nós. – Respondeu Ademar, com um tom vibrante e esperançoso em sua voz, sem ao menos entender a existência das três esferas do poder sob a qual se ampara uma democracia.

- Vala me Deus! Que conversa de doido é essa, Ademar? Força pra isso só quem tem é as andorinha! – Alguém do “time” adversário rebateu, esquentando novamente o clima das discussões.

O tempo era a última das preocupações daquele grupo, que não percebeu o transcorrer da tarde. Em breve o sol iria se pôr e ninguém dava atenção a isso, nem a mais nada que não fosse política. Quem estava sentado levantava-se e quem estava de pé sentava-se, numa sincronia de movimentos que seguia a não tão melodiosa orquestra de polêmicas e intrigas. Muitos deles sentiam-se no direito de falar pelos seus candidatos, inclusive afirmando idéias que os mesmos nunca disseram.

Mas tudo tem o seu fim, até mesmo essa prazerosa conversa. Ademar, que estava sentado, levanta-se para se despedir do grupo:

- A conversa tá muito boa, mas tá na hora de ir, tem muito chão pra chegar lá em casa e num quero ir no escuro, mas antes tenho que dizer só mais uma coisa a todos vocês – ele faz uma pausa e mira o seu olhar sobre todos da roda. - Que eu sou carcará até a morte e conheço todos aqueles que são fiéis a ele. Lá em casa todo mundo vota comigo, a mulhé, os fi, todo mundo lá é carcará! Traíra num tem vez cum a gente, bandiaram pro lado errado, então que se lasque!

Seu Tião levanta-se para prestar apoio pro seu compadre: - É isso mesmo, o Ademar tá certo! Os carcará já fez tanto pela gente, prestou tanto favor, que eu fico revoltado com os covarde da cara lisa que passam de lado! Você tá certo compadre, lá em casa tombém é tudo carcará!

- Ora se eu num tô, compadre Tião! E eu sei que você é um dos nossos, sempre foi! É um aliado antigo e honesto!

- Ah! Agora só falta os dois carcarazinho trocar beijinho! – Alguém do outro grupo provocou.

O sertão nordestino compartilha com o restante do Brasil do preconceito contra os homossexuais, sendo que aqui, principalmente entre os mais velhos, isso está associado à honra de um homem e é considerada uma ofensa muito grave. Um “insulto desse nível” exige resposta, seja um ato agressivo ou até mesmo a zombaria, o que torna a briga um verdadeiro espetáculo.

- Não me venha com essa, andorinha gagá! Olhe pro seu terreiro antes de reparar no dos outros! E questão de cornage é a maior prova de que um home num é bom no serviço, que num gosta da coisa. Dona Mariazinha que o diga, né seu gagá? - Ademar falou zombeteiramente, inflamando a velhacaria das pessoas.

- Vixe! Então quer dizer que nas andorinha só tem corno e viado?! – Um dos carcarás gritou, o que provocou grande confusão, onde cada um queria gritar mais do que o outro. Todos falavam o mesmo idioma, mas ninguém se entendia.

E como Ademar gostava daquilo! Ele até se sentia mais gente, pois sabia que ali o escutavam. O sorriso que trazia tornou a sua expressão mais serena, e só quando lembrou o horário se viu obrigado a recuar.

- Vamos André, precisamo ir pra casa. Amanhã é outro dia e vamo ver essa mesma conversa.

FIM

NOTAS: A andorinha e o carcará são pássaros facilmente encontrados no sertão do nordeste, e como lá é hábito que os grupos políticos se auto-intitulem com o nome de algum animal, achei interessante exemplificar com estas duas aves.

A história contém muitos termos regionais, se vocês sentirem alguma dificuldade para entendê-los, entrem em contato comigo que posso traduzi-los.

E, infelizmente, nem tudo é resultado da minha imaginação.



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