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Do Clarão
Milhões de anos à frente da nossa era, o universo em si pouco mudou, continua expandindo-se, com estrelas e planetas nascendo e se extinguindo. Mas um mundo em particular não possui a mesma sorte do universo, os milênios o afetaram de forma brusca, tornando-o irreconhecível.
A vida foi eliminada da Terra.
Nem a existência de seres microscópicos poderia ser detectada, nem o combustível natural do ser, a água, já não mais existia. Os gases que cobriam o ambiente já não continham o oxigênio e sim uma mistura mortal de elementos. Não só a vida foi eliminada, mas também toda e qualquer outra chance de repovoamento.
O planeta estava condenado.
Tudo o que poderia se perceber era um clarão, uma luz resplandecente que emanava do solo branco e outra cor não poderia ser vista, além da mistura de todas as cores, o branco. No planeta, era tudo plano, o que causava a falsa sensação de infinidade. A estrela que representa o sol perdeu o vigor de antes, mas ainda assim possui força suficiente para manter o calor. Ao contrário do que todos previam, a Terra ainda não congelou, ainda...
Não se conhece a explicação para tamanha mudança, nem a história do extermínio dos seres vivos, se foi lenta e gradual, ou se foi brusco e resultado de um massacre. Tudo o que se poderia ter eram hipóteses e nada mais.
Contudo, se observarmos melhor veremos que o absurdo pode existir, que mesmo diante de toda a improbabilidade, uma vida vaga perdida por todo aquele areal branco, sentindo sede e fome, mas ainda assim resistia a todo aquele ambiente desolador. E o mais surpreendente era de que se tratasse de uma vida humana.
Não havia nenhuma explicação lógica para que Edmilson, um brasileiro, filho de agricultores, que na Terra da nossa atualidade também enfrentou problemas não muito menores, de origem social e econômica, caminhasse por aquela imensidão desértica sem possuir sequer o oxigênio.
Mais perplexo do que nós, encontra-se esse jovem de 15 anos, que desperta do sono para a vida e se depara com ela em forma de pesadelo. Afinal, onde estão todos? Onde está tudo? Como ele veio parar no nada?
Perguntas sem respostas... Ele não tinha para onde ir, não tinha onde descansar... e não apenas a sede e a fome o devastava, mas também a solidão, não havia ninguém com quem conversar, compartilhar seus medos e restabelecer sua força. A companhia de um inimigo é melhor do que esse vazio e a péssima sensação de você ser único.
A insolação estava forte, ele não mais resistiu e desabou pesado sobre o chão... chega um ponto que até o mais valente guerreiro se entrega, e este é o melhor adjetivo para ser atribuído ao Edmilson. Antes de fechar os olhos, ele contemplou o nada pela última vez, ele não sabia se devia temer pela vida que lhe escapava ou se devia estar contente por esta situação ter finalmente chegado ao fim. A convicção que ele tinha era de que deveria ter resistido mais, ele ainda nutria esperanças de que encontraria alguém tão perdido quanto ele, encontrando um outro se acharia.
No entanto, a adversidade o impediu de prosseguir e ele era apenas um humano, não um ser dotado de poderes especiais. Se ele detinha um poder, era a sua força de vontade, que por sua vez estava no limite. Aqueles eram seus últimos instantes, se ele pensasse racionalmente agora, perceberia que não tinha respirado desde que pisou no solo branco. Ele apenas pressentia a sua vida esvair-se aos poucos... Até acontecer!
Edmilson abre os olhos com aflição e se depara com muitas pessoas à sua volta, num ambiente completamente diferente de onde se encontrava até então. Ele estava deitado numa maca no corredor de algum hospital público, até há pouco tempo inconsciente, resultado de um acidente de trabalho. Sim, Edmilson é mais um dos milhares de brasileiros que teve a sua infância e adolescência marcada pelo ingresso precipitado no trabalho, explorador de toda a inocência que se permite ter nesse período da vida.
Ele ainda estava fraco devido à pancada que recebeu na cabeça, mas isso não o impediu de sorrir: há pessoas no mundo, nem tudo está perdido.
FIM