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Lips of an angel
Eu nunca acreditei muito em Deus. Okay, talvez eu tenha crescido numa família católica, tenho ido para uma escola católica, tenha até pensado em ser padre. Mas minha fé nunca foi tão forte e firme como todos pensam.
O que me levou a ser médico ao invés de pregador.
Talvez meu cinismo me tenha levado a essa escolha. E eu gosto. Eu adoro salvar vidas, adoro poder ajudar aqueles que precisam, que tem a salvação na ponta dos meus dedos.
Até você chegar.
Quatro dias para o natal. Foi tanta coincidência que na época, se eu soubesse o que sei hoje, se sentisse o que sinto hoje, diria que foi a mão de Deus. Mas bem, eu realizei um caminho tortuoso para chegar a essa consclusão, não?
E devo admitir, você foi meu paciente mais difícil.
Eu não me apego aos meus casos. Isso só me levaria a desilusões e tristezas desnecessárias. Mas você, quando eu peguei sua ficha, quando eu te vi pela primeira vez...foi como se eu tivesse com um anjo a minha frente.
Cabelos pretos, caídos em cachos pela testa pálida pela doença e fragilidade. Os olhos azuis tão claros que eu poderia me afogar neles. Mas o que mais me chamou a atenção foram seus lábios.
Lábios róseos, cheios, como de um querubim. Um sedutor e pecaminoso querubim.
E então você sorriu pra mim. Sorriu como se não estivesse ali, deitado naquela cama dura de hospital, como se não tivesse suas vidas em minhas mãos. Como se fôssemos dois estranhos se conhecendo num bar, prontos para conversar sobre a vida. E aquela fragilidade, aquela ingenuidade foi o que atraiu mais que tudo.
Eu me lembro bem de ter saído do seu quarto com pressa, disposto a começar seu tratamento imediatamente, disposto a curá-lo, pois queria vê-lo com a pele corada, saudável. Queria ve-lo como você deveria ser na sua rotina, vestido com suas roupas normais, e não aquele pijama frio de hospital.
Não morrendo.
Mas claro, se eles mandaram você a mim era porque você estava numa situação crítica. Digamos que não era o primeiro tumor cerebral que eu enfrentava. Mas de repente, era o que mais me afetava. Em anos, desde que eu saíra da escola de medicina.
Sua cirurgia estava marcada para o dia seguinte, pelas minhas mãos. Eu decidira voltar ao seu quarto, decidira conversar com você, discutir as alternativas de tratamento, tudo que um respeitado médico deveria fazer.
Mas de alguma maneira terminamos a tarde conversando sobre tudo e nada ao mesmo tempo. Seu riso era o mais contagiante que eu conhecera, seus lábios entreabertos enquanto aquele som delicioso ecoava pelo quarto.
Você tem idéia do quanto o pensamento em te perder já se tornou doloroso naquela época?
Mas voltando ao assunto de Deus e minha falta de crença nele. Eu fiz sua cirurgia no dia seguinte. Longas horas que se extenderam a tarde inteira. E longas horas do pós-operatório que entraram noite adentro. Eu quase não dormi, pensando que se tivesse fodido algo naquela cirurgia, eu nunca mais veria seus lábios curvarem-se num sorriso.
Véspera de natal. É até muito irônico. Porque assim que eu peguei sua ficha em minhas mãos, seu tumor havia sido retirado sem deixar traços. Não cirurgicamente retirado, apenas...sumido.
Sem traços.
E você lembra o que você fez? Você apenas riu e disse que agora que estaria curado, que adoraria sair para jantar comigo, se você pudesse escolher o local. Você não faz idéia do quanto meu coração pulou naquele dia.
Agora, quando olho pra você, deitado, completamente nú ao meu lado, coberto apenas por um edredon, eu não consigo parar de imaginar se algo teria mudado se naquela tarde eu decidisse não voltar ao seu quarto, antes da cirurgia.
Um ano e contando não me deixam de pensar que você é meu pequeno milagre de natal.
Deus não é um cara tão mal assim, afinal de contas.
Fim