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Lá fora era de noite. O céu, tingido em tons de roxo e azul-escuro, estava silencioso e frio. Os candeeiros de rua ressonavam calmamente, a pálida luz amarela criando sombras nas paredes dos prédios. Um carro passou a rua suavemente, sem acordar o bebé que dormia no andar de baixo, mas foi o suficiente para fazer a jovem levantar-se. Deixou a cama de mansinho e pegou na camisa azul clara, esquecida no chão. Abotoou dois botões “à bêbedo” e passou uma mão pelo cabelo despenteado, afastando-o da cara. Bocejou.
A lareira crepitava sedutoramente, aquecendo-a, fazendo a sua pele clara reluzir em tons dourados. Sentou-se frente ao velho tocador de madeira escura, trabalhado à mão por algum homem muitos anos antes de ela sequer existir, e esfregou os olhos. A camisa descaiu-lhe do ombro direito, mas não se preocupou com isso. Dormira apenas uma hora ou duas, não sabia bem, mas a noite convidava-a a reviver o passado.
Num canto, encostada ao espelho, estava a sua caixa de jóias. Era pequena, redonda, de madeira cortada tão profundamente que se tornava transparente em algumas partes. As bordas tinham sido banhadas a ouro, delicadamente, como se a caixa fosse presente para uma princesa. No entanto tinha-a recebido aos dezasseis anos, prenda da mãe, que a recebera da avó, que a comprara a um senhor que morava no fim da rua. Abriu-a com as pontas dos dedos, tentando fazer o mínimo de barulho possível, e puxou, de debaixo dos colares e brincos, quatro fotografias.
Focou a primeira e sorriu. Já não se lembrava da cara dele. Há quantos anos fora? Virou a foto e procurou a data. Seis anos. Ainda se lembraria ele da dela? Duvidava, ele nunca a amara. Também ela não gostara dele, sequer. Beijara-o porque queria um conto de fadas, queria um príncipe encantado, alguém que enlaçasse os dedos nos seus e apenas isso bastasse para o fazer sorrir. Enganara-se profundamente. Mãos dadas nunca o fariam feliz e ela percebera isso desde o primeiro dia. Não sabia porque mantivera a mentira... Talvez gostasse da ideia de que tudo pudesse mudar - até ela poderia ter-se apaixonado por ele. Provavelmente não, mas era demasiado nova para o saber...
Sorriu e passou à segunda fotografia. Ele era envergonhado. Não sabia o que dizer ou fazer. Ela mostrara-lhe o mundo, contara-lhe sobre tudo e sobre nada, partilhara com ele tudo o que conhecia. Não sabia se tinham durado muito tempo ou pouco, tinha sido tudo demasiado estranho, demasiado rápido, demasiadas noites sem dormir e dias a conversar. Foram zangas e reconciliações, planos para um futuro longínquo e mudanças de humor. Talvez tivessem sido anos, talvez apenas meses. Poucos tinham sabido dele, e os que sabiam não compreendiam o que eles tinham. Eles também não sabiam bem, procuravam por algo diferente, algo que não tinham. Como é que tudo acabara mesmo? Talvez tivessem apenas desistido de forçar algo que nunca existiria.
A terceira foto tinha sido tirada por um fotografo e eles sorriam de mãos dadas. Ah... Ele e os seus olhos verdes... Tinha-a enganado e marcado um encontro com ela sem que percebesse. Levara-a a casa e deixara-a acordada à noite. Tinham-se passado dois anos desde a última vez que se deixara levar por falinhas mansas. Era tempo de se deixar ir, de mergulhar de cabeça, sem pensar no que podia acontecer. Foram três meses de mensagens e massagens, sorrisos, boleias, olhares tímidos e abraços demorados. Ela gostava do perfume dele e das suas mãos grandes. Gostava de quando as punha contra as suas e as via tão mais pequenas - sentia-se protegida. Mas ele pensava no futuro... Ele não a queria perder, mas não suportaria sofrer. Deixou-a sozinha quando ela menos esperava, sem mais uma palavra, sem pedir para lhe devolver o que deixara com ela. Nada. Talvez por isso ela não se importasse de pensar nele. Talvez por isso não houvesse dor, apenas a doce lembrança dos seus olhos verdes e mãos grandes.
A última fotografia fora tirada pouco tempo depois. Era um mundo completamente diferente. Caracóis castanhos e lábios tímidos. Ela mudara-o e, por isso, ainda hoje ele lhe estava grato. Ela gostara muito dele, deixara-se apaixonar pelos planos para o futuro, pelo romantismo, pela ingenuidade, pelo cavalheirismo. Sabia desde o início que não ficaria com ele - era perfeito, mas não era isso que ela procurava. Foram felizes durante vários meses, pareciam encaixar como peças de um puzzle, mas ela sabia o esforço que fazia para caber no mundo dele, no que ele ambicionava, no que ele queria. Decidira por fim a tudo antes que não pudesse voltar atrás. Conversara durante várias horas com ele, sentados no escuro, as mãos dadas. Vira-o chorar e derramara as suas próprias lágrimas. Não o queria perder, mas também não queria prender nenhum dos dois a uma história sem “felizes-para-sempre”.
Suspirou e sorriu para as quatro fotografias. Demorara tanto tempo... Talvez ele não existisse mesmo, o príncipe encantado que procurava. Recolheu as memórias e voltou a guarda-las na caixa de jóias, sob os colares e anéis.
O sol rompia o horizonte, lentamente, pintando o céu de rosa e dourado. Meteu os pés frios dentro da cama e aconchegou-se contra o homem deitado a seu lado. Ele prendeu-a com um braço sonolento e ela beijou-lhe os lábios suavemente. Poderia não ser o príncipe encantado descrito nas histórias, mas ela também não era a donzela em apuros.