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Já se escreveram histórias sobre princesas e seus príncipes, sobre moços de estrebaria e donzelas que lavavam o chão. Contaram - se histórias sobre guerreiros e quem os esperava em casa, sobre bruxas e feiticeiros, sobre dragões e arqueiros. Os mais velhos descrevem - nas aos pequenitos que as sonham em noites de lua cheia.
Mas esta história é diferente.
Esta história não fala de finais felizes, nem de amores e tristezas, nem de criaturas fantásticas, nem de reinos longínquos. Não, esta história não fala de nada disso e, ao mesmo tempo, fala de tudo. Esta história é a de uma moça, a de uma donzela, a de uma rapariga, e da bailarina que dançou para todas elas.
Era uma caixa delicada, de branca cerâmica trabalhada por mãos velhas e conhecedoras. Era uma caixa feita de paz e amor, repleta de ingénuas rosas pintadas. Era uma caixa feita de música, em que a bela bailarina rodava.
Quando a moça a recebeu de presente de um amado, a bailarina era jovem, de cabelo de chocolate, sapatilhas brancas e reluzente saia de vidro. A bailarina dançou noites sem fim ao som da romântica melodia, movendo - se como se a música fosse parte de si, embalando a moça para o reino dos sonhos, onde a vida é fácil e amantes ficam juntos para sempre.
Noite após noite, o amado descia à vila, lançava pedrinhas à janela, a moça acendia uma vela. E à luz da lua, ao som da melodia, sob o olhar curioso da bailarina, trocavam juras de amor, sussurravam promessas, murmuravam planos para o futuro. O que aconteceu à moça e ao seu amado a bailarina nunca descobriu, pois numa noite fria, em que os dois se abraçavam lá dentro no quarto, um rapaz entrou pela janela entreaberta e levou a bailarina consigo, enfeitiçado pela luz no seu olhar.
Era uma caixa delicada, levada numa noite fria de um quarto quente. Era uma caixa feita de paz e amor atirada para o mundo real, perdida numa feira poeirenta. Era uma caixa de música que tocava uma canção vazia.
A donzela passou uma primeira vez pela banca onde a bailarina chorava, deitada no pano queimado pelo sol. Passou uma segunda vez e parou, olhando para todos os outros objectos que ali estavam, desde a boneca de trapos ao cão de vidro. Apontou dois ou três dos seus companheiros e depois indicou a bailarina, sorrindo abertamente, e perguntou o preço. Puxou de uma bolsa e contou as moedas, que verteu para a mão suja do homem. Abraçou a bailarina contra si e levou - a no coração.
Numa casinha pequenina, feita de pedra fria e portas que rangem, uma velhinha dormia na cama dura, gemendo entre dentes e chamando a neta. Apertou - lhe as mãos quando a donzela entrou no quarto, fazendo - a arrepiar - se de tão frias que estavam.
A donzela sentou - se na cadeira à cabeceira e cuidou da doente, passando - lhe panos quentes pela face gelada, ajeitando - lhe as cobertas, servindo - lhe a sopa acabada de fazer.
Quando a velha se acalmou, a donzela fez a bailarina dançar, ficando a observar os seus gestos delicados, preocupados, ouvindo a música triste e lenta, vendo os olhos de vidros chorarem a alma que partia. Ao cair da noite a donzela cobriu a avó, beijou - lhe a testa gelada, chamou o médico e deixou a bailarina só, na noite, esquecida nos degraus da igreja.
A bailarina envelheceu rapidamente, deixada aos cuidados dos elementos, e já pensava estar para sempre perdida quando uma rapariga que por ali brincava trocou os bolinhos e as chávenas pela caixa de música.
Era uma caixa circular, de pés de cristal, debruada com delicados fios de ouro. Era uma caixa gasta e gaga, com uma bailarina cansada e desastrada, de passos hesitantes. Era uma caixa rachada, velha, deixada ao acaso na escadaria de uma igreja.
A rapariga achou - lhe piada, quando a viu perdida, abandonada. Deixou as amigas para trás, os bolinhos e as chávenas de chá, apresentou - se gentilmente à bailarina e levou - a consigo para casa.
A bailarina cantou, ainda assustada, numa voz terminada, a sua canção lenta sobre a saudade e infâncias perdidas, dançou um pouco, desconfiada, enquanto a rapariga dela cuidava.
Escovou - lhe os cabelos com um pequeno algodão, arranjou - lhe novas sapatilhas e deu - lhe de beber. Cantou com ela uns quantos versos e compôs - lhe o vestido, devolvendo - lhe a dignidade.
A bailarina dançou então a noite inteira, embalando a rapariga em sonhos doces e felizes, sussurrando - lhe palavras meigas quando a rapariga suspirava.
Era uma bailarina, uma moça, uma donzela, uma rapariga. Era uma melodia e muitas histórias. Era uma caixa de música e a sua vida.