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Fiction » Mystery » Livraria Desfeita font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Sofia Lemos da Costa
Fiction Rated: T - Portuguese - Tragedy/Mystery - Reviews: 5 - Published: 12-30-08 - Updated: 12-30-08 - Complete - id:2614994

A noite caía lentamente, demorando-se nas janelas abertas, deslizando suavemente como quem volta a casa depois de uma longa jornada, espreitando por entre os prédios como quem procura a cura para uma qualquer maldição, percorrendo cada avenida e viela como quem conhece todas as pedras da calçada que pisa. O azul da tarde misturava-se com o lilás e confundia-se com os rosas e dourados no horizonte, como o rufar dos tambores que antecipa o grande final. Duas ou três estrelas brilhavam timidamente no céu, temendo estar fora de tom, flutuando tão alto quanto é possível, cintilando tão suavemente como o bater do coração de uma criança adormecida. Vinda de Oeste, a brisa irrequieta cheirava o doce e a canela que vinha das cozinhas, envolvendo-os e levando-os nos seus gélidos sopros, deixando para trás apenas o que restava na taça reservada para o pai.

Nas ruas da cidade os candeeiros eram acesos pelo homem de escadote alto e bigode de encaracolar, e as flores recolhidas por uma dona rechonchuda, de cesto de verga no braço e lenço branco na cabeça. As crianças já tinham dito as suas preces, de joelhos na pedra fria, sido aconchegadas pelas mães nas camas fofas e recebido o beijo de boa noite. Os senhores viravam os sinais das portas, trancavam as lojas e metiam a chave no bolso, acenando a quem passava na rua, por vezes desejando-lhes as boas noites e abençoando a família. Numa janela de um quarto escuro, no primeiro andar, as senhoras desviavam os cortinados tão perfeitamente bordados pelas mães, e sorriam aos transeuntes, esperando pela silhueta no fundo da rua que lhes tiraria aquele peso do peito.

Cipriano inspirou profundamente, esboçou um velho e cansado sorriso, e apagou a vela que tinha acendido no balcão. Fechou os dedos em volta das chaves que tilintaram, alarmadas, e caminhou no escuro para a porta de madeira com vidros foscos, correndo a mão nas lombadas dos livros adormecidos nas prateleiras, sentindo-lhes as capas ora macias de papel envelhecido, ora calosas de incontáveis anos de uso, repetindo mentalmente os títulos que tantas vezes lera. Abrandou o passo quando o luar lhe beijou os sapatos gastos, pensando na sua pequena Beatriz, deitada no berço, sob a canção de embalar da mãe - se se apressasse chegaria antes dela bocejar uma última vez e mergulhar no mundo dos sonhos. Procurou a chave certa e destrancou a porta de madeira pesada.

No dia seguinte faria uma semana a cura lhe fora entregue para protecção e segurança. Chegara pelas mãos de uma moça jovem, de cabelos doirados como o sol da manhã e olhos verdes e brilhantes como os campos na mais bela Primavera. Trazia-o embrulhado em ricos tecidos cujos tons alternavam quando a luz sobre eles incidia, como se aquele livro nada mais fosse do que uma relíquia de família que lhe fora deixada em testamento por um qualquer parente e de que a jovem se quisesse desfazer, não sabendo o valor do mesmo. A moça entrara na pequena e empoeirada livraria quando o sol se escondia no horizonte, com o livro nas mãos e um sorriso ingénuo nos lábios rosados. Fora muito educada com quem se cruzara e segurara a porta aberta para a dona Josefina, que tinha ido à procura dum livro para o neto que agora se interessara pelas Américas, depois dos astros e da literatura. Cruzara a livraria num passo quase dançado, com a saia castanha a varrer o chão, e pousara o embrulho no balcão de madeira. Apresentara-se sob o nome de Catelyna e falara com um sotaque carregado. Desembrulhara o livro com gestos delicados enquanto entoava baixinho uma canção antiga, há muito esquecida pelas gentes, e recebera com um sorriso o anel de prata envelhecida que Cipriano lhe entregara, entre as moedas de cobre. Antes que alguém se apercebesse, a jovem desaparecera das ruas, escondendo-se nas sombras até encontrar a carroça que a trouxera de um lugar distante.

O livro estava na posse de Cipriano havia seis dias e na madrugada seguinte alguém chegaria com o sol, bateria ao de leve no vidro e espreitaria como uma criança impaciente, deixando marcas no vidro. O velho deixá-lo-ia entrar e cumprimentá-lo-ia com um sorriso e, tal como tinha ensaiado durante tantos anos, dir-lhe-ia que a livraria só abria dali a alguns minutos, mas que para um leitor impaciente, a sua porta estaria sempre aberta. O homem de barba por fazer rir-se-ia de uma piada que não tinha sido pronunciada, como se ele soubesse algo que mais ninguém sabia, e dir-lhe-ia que procurava algo que mais ninguém nas redondezas tivesse lido. Cipriano fingiria ponderar no assunto e passeá-lo-ia pelos corredores ainda escuros, apontando-lhe a Ilíada e a Odisseia, de Homero, a Eneida de Virgílio, Os Lusíadas de Camões, The Faerie Queene de Spenser e Paradise Lost de Milton. O homem recusaria todos com um sorriso e dir-lhe-ia quando os lera e o que achara deles e, por fim, acabaria por lhe pedir que lhe mostrasse o último livro que recebera. Cipriano dar-lhe-ia o livro com o segredo, receberia do homem o anel de prata envelhecida e os dois despedir-se-iam com dois beijos, antes mesmo de a mais madrugadora dona se levantar para a lida.

O chiar da porta pareceu ecoar no silêncio da noite que acabara de se deitar na cidade, fazendo um rato escuro fugir por entre as pedras da calçada para uma valeta aberta no meio da estrada. Tinham-se passado muitos anos desde que um rato preocupara as gentes da cidade, e muitos mais desde que um rato negro fora avistado.

Cipriano retirou a chave da porta e arrepiou-se quando uma lufada de ar frio brincou com o seu bigode prateado. O Inverno aproximava-se em passadas largas. Talvez fosse acertado comprar mais lenha na semana seguinte, antes que a procura aumentasse o preço. Desceu o primeiro degrau de pedra e, às escuras, encontrou a fechadura. Puxou a porta contra si e rodou a chave com força - track. Uma segunda sombra cresceu nas janelas de vidro fosco, até se tornar mais alta que a do velho livreiro. O ar gelou.

A figura era humana, mas as feições disfarçadas eram as de uma ave dourada. Uma capa negra e pesada encobria-lhe os cabelos e lançava sombras ameaçadoras na máscara reluzente. O pesadelo tornara-se realidade. Cipriano recuou assustado, mas os degraus que tantas vezes subira e descera com a maior das facilidades traíram-no e caiu sobre eles.

- Onde está? - perguntou a figura encarapuçada numa voz gélida com um sotaque carregado.

As palavras faltavam-lhe. Queria dizer que não sabia do que o homem falava, que era engano. Mas de que serviria? Certamente saberia que mentira, ou não o teria encurralado à porta da sua livraria. Queria dizer-lhe que nunca saberia o segredo, que não o tinha, que nunca o vira, que nunca o veria. Mas de que serviria? Queria dizer-lhe que não conseguiria compreender as palavras inscritas na complicada receita, que mesmo que as compreendesse nunca obteria os ingredientes, que mesmo que os obtivesse nunca seria a tempo de salvar quem quer que ele quisesse salvar. Mas de que serviria? Seria morto à mesma. Era isso, ia morrer ali, sozinho, naquela noite, nas escadas de pedra. O chão ficaria manchado com o seu sangue e ninguém saberia que morrera a tentar proteger algo de tão secreto e tão importante, como a cura para a peste. Ali pereceria, sob o número 13 da Rua Direita.

- Onde está? - insistiu o homem.

Só por cima do seu cadáver, o que, ironicamente, ia certamente acontecer. Puxou o braço direito para trás, segurou-se firmemente aos degraus frios e desferiu um golpe de punho cerrado na máscara.

O metal dourado feriu-lhe os nós dos dedos, já vermelhos e gastos da idade, mas o homem gemeu entre dentes e pronunciou algo numa língua imperceptível. Cipriano mordeu a língua, esqueceu a dor e preparou um segundo ataque. Desta vez o homem com perfil de ave estava preparado e levou a mão ao interior da capa, fazendo reluzir na luz da noite a lâmina de dois gumes.

- Onde está? - perguntou o homem uma última vez.

O livreiro procurou levantar-se, deixando as chaves que ainda segurava escorregarem-lhe por entre os dedos. Tombaram na borda do degrau e escorregaram para a calçada em duas demoradas batidas de coração. Os olhos dos dois homens seguiram-nas, e o atacante colocou a sua bota negra sobre elas.

Cipriano, ainda caído nas escadas, recuou nervosamente, como para se defender do destino já traçado. Um relâmpago iluminou os céus. A lâmina subiu num gesto que tinha tanto de delicado quanto de ameaçador. No cabo do punhal brilharam três pedras verdes. Em silêncio o velho livreiro implorou por clemência, e dos seus olhos verteu uma única lágrima, quando a lua brilhou nos olhos disfarçados pela máscara. Eram azuis, frios, desesperados. E foram a última coisa que Cipriano viu.

O punhal bem treinado cortou através da pele e dos músculos, e a vida escuou-se da fina linha desenhada no pescoço do velho.

Sem esperar nem mais um segundo, o lorde britânico procurou a chave que abriria a porta de madeira e entrou na livraria. Teria de estar ali escondido, no meio de tantos outros livros, o livro que protegia a cura. Rapidamente avançou pelos corredores, folheando apressadamente os livros.

Começara a busca havia várias semanas, quando o primeiro rato negro aparecera na capital, e finalmente conseguira descobrir onde parava a receita secreta. O lorde tinha duas filhas, duas belas jovens de longos cabelos doirados e olhos azuis como o oceano. As suas vidas eram-lhe mais preciosas do que qualquer outra coisa jamais pensada. Aos primeiros sinais de que a peste invadira a grande ilha, o lorde havia-as enviado para longe da cidade londrina, longe o suficiente para que a peste não as encontrasse. Mas a peste espalhara-se mais rapidamente do que teria sido esperado, e o lorde alarmado confiara nos rumores e procurara a cura, dia e noite. A busca levara-o a França e depois a Itália. Dali seguiu-lhe o rasto até o sul de Espanha, onde acabara por descobrir que tinha sido deixada em Portugal por algum tempo. Agora teria a cura e poderia levá-la de volta e estar preparado ainda antes das suas preciosas filhas terem contacto com a peste. Só precisava de encontrar o maldito livro.

As prateleiras haviam sido despidas e os livros jaziam danificados no chão de pedra fria. Outro relâmpago cortou a noite. O homem estendeu a mão enluvada para um livro velho, de capa de couro negro. As páginas estavam amareladas pelo tempo, algumas delas tinham pequenas anotações, outras os cantos marcados. E, perto do centro, estava a cura. Fora escrita com pena e tinta negra pela mão de vários homens, cada linha num dialecto diferente, cada linha contendo um pouco de esperança. Fechou o livro com força e guardou-o na capa. Depois saiu rapidamente, saltando sobre corpo inerte do velho livreiro, e desapareceu na noite, como um rato negro.

Uma, duas, três gotas. A chuva lambeu janelas e telhados, e serpenteou pela calçada, diluindo o sangue derramado, apagando a violência, deixando para trás o corpo sem vida e uma livraria desfeita.



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