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Fiction » Young Adult » Clara S font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Elyon Somniare
Fiction Rated: T - Portuguese - Drama/Hurt/Comfort - Reviews: 3 - Published: 01-01-09 - Updated: 01-01-09 - Complete - id:2615939

N/A: Esta história um shoujo-ai, para quem não sabe, contem referências leves a uma relação entre duas pessoas do sexo feminino (e não, de modo algum um shoujo-ai seria pornografia -.-´). Então, quem gosta que continue, quem não sabe que avance de pensamento aberto e quem não gosta que faça o que quiser, só não me venham encher a paciência depois.


Há coisas que tentamos não esquecer mas não conseguimos. Pequenos recados, momentos fugazes, nomes, caras, fulano ou sicrano, o horário daquele tal programa, a razão porque estamos zangados com ele ou ela, quando foi que começamos a pensar desta ou daquela maneira, os anos de casado ou de namoro… Uma quantidade extravagante de pequenas coisas sem importância, reduzidas à sua pequinês face às restantes memórias que sobre elas se impõem.

E depois… Depois há as coisas que tentamos, que queremos, esquecer. E são tão grandes os nossos esforços para o fazermos que falhamos, falhamos tão redondamente que nos sentimos a cair na escuridão do nosso fracasso, gritando interminavelmente por uma ajuda que nunca virá, que não poderá vir. Tal como Clara. Com Clara enganei todos os outros. Com Clara enganei-me a mim, numa fantasia doce, tão doce… Acreditei que o havia feito, que o havia esquecido. Mas era ingénua, sempre o fora, e ela voltara, na primeira oportunidade, na primeira brecha, para me assombrar, reflectindo tanto naqueles grandes olhos, abertos em confusão, a culpa que me consumia desde sempre, desde o fatídico dia. “Olha para mim, Leonor, olha para mim” dizia ela “Vê o que me fizeste, Leonor!” E acordava a chorar, envolta na minha culpa, demasiado fraca para me desculpar, demasiado covarde para me redimir.

- Leonor? – A voz entaramelada de sono da outra Clara soava ao meu lado. – Leonor?

- Não é nada, Clara, volta a dormir, não é nada.

- Outro pesadelo?

- Sim, não te preocupes, não há nada com que te preocupares.

E a sensação crescia mais e mais em mim. Queria dizer-lhe que estava tudo bem, que não voltaria a acontecer, que nunca mais voltaria a acordar por minha causa, que nunca mais teria de se preocupar por minha causa. Mas não podia, porque mentiria. Não lhe queria mentir. Não uma segunda vez. Não a esta Clara.


- Clara! Clara!

- Leonor! Larga-a! – gritou Gaspar, tentando agarrá-la pelos punhos e retirá-la dali à força. – Está morta! Não vês que está morta?

- Não! Não pode!

- Está em estado de choque – interveio Joana. – Dá-lhe um estalo. Ai! A minha perna!

- Deixa-te de palpites e fica aí quieta antes que te magoes mais do que já estás – retorquiu Gaspar, lutando ainda por manter uma violenta Leonor junto a si. – A ambulância já não deve demorar muito a chegar.

- CLARA! Aguenta, querida, vai ficar tudo bem, eu prometo, vai ficar tudo bem! Vai...

-Leonor – murmurou Gaspar, cedendo um pouco na força com que a segurava ao ver que pouco a pouco a resistência ia diminuindo, substituída por um choro baixo e nervoso, logo abafado pelas sirenes. – Pequenina Leonor.

- “Ninguém pára o INEM” – cantarolou Fábio, mal conseguindo mexer os lábios. – “Ninguém pára o INEM olé ô!”

- Fábio – advertiu Gaspar.

- O meu canário fugiu, Gaspar – retorquiu o loiro. – O meu canário fugiu.

- Óptimo! – exclamou Joana. – Uma diz a um morto que vai ficar tudo bem e outro fala de canários! Muito bom!


Fechava os olhos e ela aparecia. Linda, com os seus olhos enormes, castanhos e emotivos, o seu ar traquina e a trança mal feita a balançar pelas suas costas abaixo, como que pedindo que a soltassem para se mexer a seu bel-prazer. Tinha o cabelo brilhante dos cremes que usava e a pele menos cuidada dos chocolates que comia. Mas era linda, morena o suficiente para disfarçar, pálida o suficiente para assegurar o quão fugia do Sol. E novamente a culpa, o remorso, daquilo que eu tinha cometido. Ela era a criatura a quem eu tinha proibido o Mundo, que eu havia roubado ao Mundo, evitando que outros a vissem, que outros a conhecessem, que se fascinassem, que a amassem… Eu fi-lo. Eu, estupidamente, fi-lo.

Não aguentava e abria os olhos. E lá aparecia ela, pálida, pálida como a morte, fria, desnorteada. A trança desaparecera, afogada num emaranhado de cabelos que se uniam pelo pó e pelo sangue. Os olhos, tão grandes e expressivos, estavam mortiços, vazios. E eu gritava, pedindo que me dessem vida, que me transmitissem uma centelha que fosse da vida que antes albergavam com tanta alegria. Mas eles ignoravam-me, mantendo-se como nada mais que meras orbes castanhas e inexpressivas. Mortos. Como ela.


- Como é que ela está?

- Vai ficar bem – respondeu Gaspar, entregando-lhe as revistas para a mão e sentando-se no único banco disponível. – Pelo menos fisicamente. Quer dizer, não vai ficar louca, mas é natural que não reaja bem à morte da Clara, pelo menos no início. Os médicos não disseram nada, mas acho que há o risco de uma depressão. E tu, Joana? Como está a tua perna?

- Engessada – retorquiu a rapariga, apontando para o fundo da própria cama, onde se via uma grande massa branca a envolver a perna erguida da rapariga. – É o caralho para dormir. – Ignorou o olhar atravessado que a mulher com quem partilhava o compartimento lhe lançou. – E o Fábio? Já saiu daquele estado de choque esquisito?

- Segundo ele nunca na vida teve um canário – informou Gaspar. – Embora tenha tido um periquito.

- Está rijo que nem uma pedra, portanto.

- Com excepção do braço ao peito, sim, está.

O silêncio instalou-se entre os dois, apenas interrompido uma vez ou outra pelo folhear das revistas que Joana parecia ver sem grande interesse e uma tossidela ou outra da cama do lado. Mas não podiam – e possivelmente não queriam – adiar mais o assunto.

- Como é que é possível – começou Joana, sem nunca retirar os olhos da revista que tinha em mãos – que todos nós tenhamos sofrido coisas menores enquanto que a Clara… – a voz embargou-se-lhe, impedindo-a de continuar. Tentou respirar fundo para conter as lágrimas que insistiam em querer cair, mas não conseguiu muito mais que uma forte fungadela.

- Ela ia no lugar do pendura… no lugar do morto.

- Mesmo assim não…

- E sem cinto – interrompeu Gaspar, observando com peculiar atenção a ponta dos próprios sapatos.

- Ah…Ia mesmo?

- Sim. Ia mesmo.


Queria estar sozinha. Queria estar com ela. Mas eles não deixavam, não queriam deixar. Ela nunca aparecia quando eles estavam. Porquê que eles apareciam? Porquê que eles queriam aparecer? A campainha tocava, não parava de tocar. Ding-dong, fazia a campainha, ding-dong, faziam eles. E a outra Clara não estava aqui para os calar. Tinha que ir eu. Tinha que deixar Clara para os calar.

- Chiça, Leonor, não conseguias demorar mais um bocado para abrir a porta? – perguntou Fábio, levando a mão aos próprios cabelos. Não gostava do cabelo do Fábio. Era loiro, encaracolado, nada parecido com o dela, com o da Clara. O do Gaspar gostava mais, eram mais parecidos, tinham a mesma vivacidade, a cor quase igual… Mas não eram os cabelos dela. Não eram a trança dela.

- Diz-me que não te esqueceste, Leonor – suplicou Gaspar, aparecendo por detrás de Fábio. Esquecer? Esquecer de quê? Eu nunca me poderei esquecer dela, do que lhe fiz…

- Ah! Esqueceste-te! – acusou Fábio. – Esqueceste-te que hoje é o nosso jantar!

As tais coisas que não queremos esquecer mas esquecemos. As coisas pequenas, insignificantes. O jantar que mensalmente fazemos todos juntos… sem Clara.

- Acho que está na altura de levarmos a Clara junto – interveio Gaspar.

Assusto-me. Dou um passo atrás, tropeço e caio. Clara? Como assim levar Clara? Que brincadeira de mau gosto fora aquela? Clara estava morta, ele sabia disso, ele sabe disso!

- LEONOR! – gritam ao mesmo tempo, avançando para me ajudar a levantar. Fábio é mais rápido. – Que se passa contigo, rapariga? Ultimamente pareces mais… mais… distraída. Isso, mais distraída contigo mesma, abstinente do mundo, com a cabeça na Lua, virada para o teu próprio univers…

- Já percebemos a ideia, Fábio – interrompeu Gaspar. Olhava-me de forma curiosa. Não era preocupação. Não era estranheza. Era… temor?

- Bem, então que achas? – continuou. – Levamos a Clara? Vocês já estão juntas há algum tempo.

A outra Clara! Ele falava da outra Clara, não da Clara!

- Sim, ficaria muito contente se não houvesse problema da vossa parte.

- Leonor, Leonor – cantarolou Fábio. – Estás a ficar com um modo de falar muito formaaaal.

- Acabei de to sugerir – respondeu Gaspar, ignorando completamente a intervenção de Fábio. Era, sempre fora, a melhor atitude de lidar com ele quando se lembrava de começar a lançar brincadeiras podres para o ar. – Claro que não há problema nenhum.


- Já fazem dois meses Leonor – insistia Joana. – Tens de ultrapassar isso.

- Eu estou a ultrapassar – retorquiu Leonor com azedume. Joana limitou-se a olhar em volta do apartamento, torcendo o nariz ante a visão das caixas de pizzas espalhadas pelo chão, do pó que se acumulava e das pilhas de papelada que se erguiam pelo compartimento, chamando por quem resolvesse pegar nelas e fazer toda a variedade de tarefas que albergavam, desde contas a serem pagas até relatórios a serem entregues e artigos a serem escritos. Concentrou novamente a sua atenção na rapariga alta que se encolhia o mais que podia dentro do cobertor em que se enrolara no sofá. Não queria nem pensar há quanto tempo é que ela não tirava aquele fato-de-treino. A mão voou-lhe antes que pudesse tomar conta das próprias acções. Não que se tivesse impedido, de qualquer das maneiras. Com satisfação, viu algo para além de angústia e remorso acudir à face da amiga. Leonor olhava para ela com estupefacção espalhada por todo o rosto. E com a face direita a ficar cada vez mais rubra à medida que o impacto do estalo se ia fazendo visível na pele, verdade seja dita.

- A ultrapassar uma ova! – exclamou, apontando-a com o dedo em riste. – Agora ouve o que vamos fazer e acredita que, por todos os génios mal acreditados deste mundo e do outro, não vou aceitar outra coisa que não um sim ou sinónimo como resposta! Vamos chamar o Fábio e o Gaspar para limparem esta merda toda que andaste a fazer no teu apartamento, …

- Mas…

- Mas nada, eles que se façam úteis e cala-te que ainda não acabei. Pelo entretanto, vais tomar banho, usar aquela espuma para cabelo fantástica que tu tens – hoje já não dá mas amanhã iremos ao cabeleireiro –, vestir uma daquelas roupas fabulosas que eu sei que tens escondidas no armário e que eu vou descobrir e a seguir vamos sair.

- Joana, eu já disse que estou a ultrapassar isto! Só preciso de tempo! Só de tempo! A Clara…

- E eu já disse que só são aceitáveis respostas afirmativas. Agora desanda para a banheira e não te atrevas a tentar escapar. Vou entrar numa discoteca lésbica só por ti, ouviste?


Usei a chave que Gaspar me tinha dado para entrar no apartamento. A outra Clara seguiu-me, um pouco hesitante e a ajeitar nervosamente o casaco.

- Não é um teste – disse, tentando acalmá-la. – Já estivemos todos juntos várias vezes e sabemos que eles gostam de ti.

- Isto é diferente – respondeu, abanando a cabeça com uma seriedade que noutros tempos ter-me-ia feito rir. Mas eu já não ria, já não sabia como o fazer. De certo modo, é mais uma das coisas de que me esqueci e não me lembro. – Isto é O jantar, o terem-me convidado é… é como se me estivessem a dizer “já não és estranha, já és um de nós”.

- Que estupidez – retorqui. Fora uma bênção para eles quando a outra Clara apareceu, viram-na como um anjo salvador, como a peça que voltaria a colocar tudo nos eixos, levando-nos de volta ao carrossel onde rodopiava-mos sem parar… Ela tornou-se no tudo deles, adoram-na e só ela parece incapaz de ver, qual mulher mentalmente cega, o pedestal em que a idolatram. Para eles, a outra Clara seria o meu remédio da Clara.

- Leonor? – chamou a voz de Gaspar, logo seguida pela aparição do mesmo. – Olá, Clara, tudo bem? Que estão aí fazer no hall de entrada? – fez um gesto a indicar-nos a porta da sala. - Já só falta a Joana, como seria de esperar, e o Fábio resolveu experimentar uma receita nova qualquer que aprendeu no curso, deixei uma tarte de carne e cogumelos no microondas só por via das dúvidas…


- Devo dizer – começou Clara – que fiquei verdadeiramente surpreendida ao receber o teu telefonema.

Leonor levou o café aos lábios e bebeu todo o líquido de um gole só. – Ora, porquê?

- Posso fazer uma lista por escrito e entregar-ta no segundo encontro – brincou, rasgando um dos guardanapos do café em pequenas tiras e fazendo bolinhas de papel, empilhando-as depois à sua frente. – Ou dizer-te já de caras que ontem à noite parecias um zombi arrastado contra a sua vontade. – Pegou numa das bolinhas de papel e atirou-a em direcção à careca do cliente sentado na mesa em frente à sua.

- Bem – começou a responder Leonor – tenho tido imenso trabalho nos últimos mese… – parou, fixando a rapariga à sua frente que de momento a usava como um álibi para se esconder do pobre careca que, ao terceiro ataque de bolas de papel, girava desesperadamente com a cabeça para todos os cantos do café em busca do culpado. Não iria conseguir mentir-lhe. Na verdade nem achava que tal valesse ali a pena. – Tenho estado mal nas últimas semanas – disse. – Entrei em depressão. Acho que os meus amigos se fartaram de se sentirem impotentes e pegaram nas rédeas da situação. Portanto sim, fui arrastada, mas sou muito mais viva que um zombi.

- Deveras – concordou Clara, arremessando uma última bola de papel. – Ah, como eu te invejo esses amigos! Está calor, não está? Já pagaste pelo café? E se fossemos até aquele parque ali – sugeriu, apontando para uma vasta área verde onde famílias faziam o seu passeio de domingo com crianças alegres e barulhentas, cruzando-se com os desportistas do costume e um ou outro casal mais idoso. – Tem uma fonte e-n-o-r-m-e, e se fossemos agora lá para dentro ainda conseguíamos uns vinte ou quinze minutos antes de o encarregado nos vir dizer para sair.


A conversa corre incessante por todos os cantos da mesa. Outra vez. Nenhuma memória que envolva a Clara é relembrada. Outra vez. Nenhum comentário sobre Clara e a outra Clara partilharem do mesmo nome é feito. Outra vez. É uma tal sensação de sufoco que me envolve, que o ar parece fugir do espaço à minha volta. Obrigo-me a beber um gole de água para me acalmar. Sei que não é por mal, que não me querem mal, pelo contrário. Mas eles querem, querem tanto que esqueça quem não posso, que ignore quem não quero… e principalmente, acima de tudo, que substitua o impossível, o que nunca, jamais, será substituível. Não conseguem, como é que não conseguem?, notar que não é ela, que nunca será, que é a outra, a outra Clara e não a Clara?


- Ah, deixa estar, Leonor, eu própria faço as apresentações – interferiu Clara, notando a hesitação da namorada em a apresentar aos amigos. – Chamam-me Clara – disse, sorrindo e estendendo a mão ao que se encontrava mais perto de si. – Ãh, quer dizer, é esse o meu nome, por isso é que me chamam assim, pois, que outra razão poderia ser, não é? Não costumam dar nomes próprios como alcunhas… acho.

- Cla…Clara? – repetiu Joana, engasgando-se com as palavras. Lançou um olhar significativo a Fábio, ocupado demais a alternar os seus próprios olhos entre Calar e Leonor para a notar.

- Fecha essa boca, Fábio, ainda te entra um mosquito por aí dentro – intrometeu-se Gaspar, posicionando-se em frente a Joana de modo a agarrar na mão, ainda estendida de Clara. – Prazer. A mim chamam-me Gaspar, é alcunha.

- Sério? – perguntou Clara, parecendo animar-se do nada.

- Infelizmente não – respondeu. – Mas gostaria que fosse, é demasiado mau como nome.

Segurou o riso ao ver a rapariga desinchar como um balão furado.

- Discordo – resmungou ela. – Tem história.

- O quê, os três reis magos? – riu-se o moreno. – Tens mau gosto, Clara.

- Ai – deixou escapar Leonor, chamando novamente a atenção sobre si.

- Tudo bem, Leonor? – perguntou Joana, demonstrando preocupação no tom de voz.. Lembrava-se ligeiramente daquela rapariga, senão se enganava fora com ela que Leonor estivera em que praticamente a arrastara porta fora para sair consigo.

- Sim, foi só um arrepio – tranquilizou-a Leonor. – Desculpa-me, Clara, estes dois são a Joana e o Fábio, o Gaspar já se apresentou portanto já está tudo.


- Foi t-ã-o divertido – disse a outra Clara, enquanto tirava os sapatos. Bocejou e atirou-se para cima da cama, resplandecente como sempre o era na sua alegria. Amo-a tanto. Tanto, tanto tanto! Mas não sei, não consigo saber, qual delas a que mais amo. – Temos de o fazer mais vezes.

Notei que estava à espera de resposta.

- Claro – sorri. – Todos os meses.

Todos os meses da minha vida. Da vida que deveria ter ido em vez da dela.

- É fantástico, devia ter tido acesso a este tipo de vida mais cedo – continuou a outra Clara. Mais rápido do que eu o poderia alguma fazer, libertou-se das roupas, atirando-as de qualquer maneira para o chão e vestiu o pijama. – Mas cansa muito. E amanhã eu tenho de levantar ceedooo!

- Nesse caso devias coser a boca e entrar nesse teu mundinho de sonhos cor-de-rosa.

Deitou-me a língua de fora.


- Quem é a Clara S.?

- Onde ouviste esse nome? – perguntou Gaspar, desacelerando o passo. Faziam já algumas semanas que acompanhava Clara no seu passeio pelo parque aos sábados de manhã e não havia, garantia, maneira mais prazeirosa de fazer exercício e perder peso. Clara deitara-o abaixo com o irrefutável argumento de que deveria estar a confundir os dados que tinha sobre caminhadas com os que tinha sobre sexo.

- Ouvi a Joana e o Flávio falarem sobre isso – respondeu. – Calaram-se quando entrei na sala e pior ficaram quando a Leonor entrou quase logo em seguida pelo outro lado.

- É melhor sentarmo-nos – suspirou Gaspar. Clara assentiu, virando-se para a borda do caminho e indo sentar-se prontamente na relva. – Eu estava a sugerir os bancos… – murmurou Gaspar, optando, contudo, contudo, por não travar uma batalha perdida e seguindo o exemplo da amiga.

- Então… – incentivou Clara, após alguns minutos de silêncio que Gaspar passou a estudar a vida quotidiana de um carreirinho de formigas.

- Então – repetiu o rapaz. – O nosso grupo… era um grupo de cinco pessoas. Andamos quase todos em faculdades diferentes mas conhecemo-nos por volta dessa altura e surpreendentemente temos estado a conseguir manter as coisas como elas eram na época dourada…Ou estávamos.

- A quinta pessoa… – estimulou Clara.

- A quinta pessoa era a Clara. Clara Sobreiro, mas por uma razão idiota qualquer que já não me lembro começamos a ganhar o hábito de lhe chamar Clara S. – explicou. – Provavelmente teve origem numa brincadeira qualquer da altura. Ela – hesitou. – Ela e a Leonor começaram a namorar pouco depois de nos termos “cimentado” como grupo.

- Uma ex-namorada – resumiu Clara.

- Sim – confirmou Gaspar. Depois acrescentou num tom entre o azedo e o desgostoso – Mas não é como se tivesses que te preocupar muito com essa parte. O acaso já tratou disso. – Interrompeu-se, parecendo notar o desentendimento que iria provocar. – Desculpa, não é contigo que eu estou a reclamar, estou zangado com as coisas. Não é algo que seja muito “materiável”, e acabo por despejar o mau humor em cima de outras pessoas.

- Não faz mal – tranquilizou-o Clara. – Mas eu sei que há mais e realmente gostava de o saber.

Gaspar suspirou, cansado. Se ao menos Fábio e Joana soubessem manter aquelas desumanamente grandes bocas fechadas!

-Que mais queres saber? – perguntou, dando-lhe a hipótese de ser ela a escolher a informação dada. – Sinceramente não consigo ver o que mais há sobre a Clara S. que te possa interessar.

- Onde é que ela está?


Estou finalmente sozinha. Estou finalmente com ela. Olha-a, reflectida no espelho, substituindo o reflexo que deveria ser a minha cópia fiel. Mas ela é muito mais desejada que uma qualquer imagem reflectida do monstro que sou. Lá estão os olhos, aqueles grandes, lindos, olhos castanhos. “Olha para mim, Leonor” cantarolavam eles “olha para mim. Porquê, Leonor? Porquê, Leonor? Eu amava-te, Leonor, eu julgava que me amavas, Leonor!”

E amo! Amo como nunca poderei amar a outro alguém! Sinto-me culpada! Sinto-me suja, mentirosa. Falhei com Clara quando duvidei do meu amor. Falhei com a outra Clara quando falhei em a amar. Falhei com eles, fazendo-os acreditar, dando-lhe falsas, estupidamente falsas esperanças no impossível. Falhei, falhei, falhei. Falhei na minha inútil existência. Falhei em tudo.

“Eu amava-te, Leonor, eu amava-te” repete ela, abrindo e abrindo cada vez os grandes olhos castanhos. Como desejo ver novamente aqueles olhos rejubilantes de alegria! Mas não posso. Não lhe posso dar a vida que lhe tirei, não a posso trazer de novo até mim…

“Leonor… Leonor”

Pousei os olhos sobre a caixa de comprimidos que ali ficara esquecida. Não eram da outra Clara, não precisava deles. Não eram meus, sei que não, nunca, tentaria apaziguar as minhas insónias, as minhas noites de tortura merecida. De quem… Lembrei-me! Da Clara. Eram os comprimidos da Clara, como era possível que ainda ali estivessem, abandonados pela casa, esquecidos tal como ela?

“Leonor… Leonor”

Ela continua, chamando, chorando no seu desespero imortal. Não quero que seja imortal. Não quero que chore para sempre, quero acalmá-la, limpar-lhe as lágrimas e apaziguá-la. Não a posso trazer até mim. Mas quero estar com ela, quero ir até ela!


- Há cerca de dois anos e meio – respondeu Gaspar. – Tivemos um acidente de carro quando estávamos a voltar de uma festa de Ano Novo.

- Outch – deixou escapar Clara.

- A Leonor estava sóbria – continuou Gaspar, ignorando a interrupção – e portanto era quem ia ao volante. Mas houve o condutor de um outro veículo que…não estava assim em tão boas condições. Foi feio de se ver.

- Imagino… -murmurou Clara, abanando de seguida a cabeça. – Não, afinal não imagino – corrigiu-se.

- A Clara S. e o condutor do outro veículo tiveram morte instantânea – explicou Gaspar. – Desde então a Leonor tem-se culpado a si mesma pela morte da Clara S., chegou a entrar a depressão, tínhamos decidido tentar algo para a ajudar a sair disso quando a conheceste. Acho que conseguimos alguma coisa mas é sempre delicado falar na Clara S., temos evitado roçar o assunto a todo o custo.

- Então… é essa a história.

- Sim, é esta a história – confirmou Gaspar, respondendo a uma pergunta que não houve. – Como vês ela está num local onde não tens de sentir ciúmes.

Clara deitou a cabeça para trás e começou a gargalhar de um modo tão vazio, tão oco, que Gaspar se perguntou sobre se a rapariga teria dupla personalidade. Ouviu-a a rir-se daquela maneira ininterruptamente durante vários minutos, até ficar com falta de ar e parar para recuperar o fôlego.

- Não tenho de me preocupar? – repetiu. – Não tenho de me preocupar? Gaspar, a Leonor não está curada da depressão, nunca esteve! Acredita em mim, vivo com ela, ela n-ã-o quer ficar curada. E se ela não quer não há a-b-s-o-l-u-t-a-m-e-n-t-e nada que tu ou eu ou qualquer herói do mundo possa fazer para a ajudar. E agora dizes-me que a pessoa com quem tenho de “competir” está morta? Não há competição possível! Ela será sempre o ideal de perfeição, o amor platónico com o qual eu nunca me poderei vir a igualar!

- Vai com calma, Clara, tu não…

- Gaspar – interrompeu-o Clara. – Se me dizes que estou a ser egoísta parto-te a boca. A Clara S. está morta. Eu estou viva. Sou eu quem está ao lado dela, sou eu quem a conforta, quem a apoia, eu tenho estado a colocar-me a mim mesma em segundo lugar, tenho estado com ela, tenho-lhe dado o meu amor mesmo sabendo que para ela eu não represento o papel principal. E isto, asseguro-te, é contra os meus ideais, mas não consigo deixá-la, não consigo!

As lágrimas começaram a correr-lhe copiosamente pela face abaixo, molhando todo o caminho desde os olhos até ao queixo. Gaspar procurou por um lenço limpo durante alguns segundos antes de se aperceber que não valia a pena, que ela nem se tinha sequer apercebido das lágrimas. A medo, abraçou-a. Primeiro timidamente, depois com mais força, oferecendo-lhe a única coisa que valia a pena oferecer no momento. Alívio.

- Um dia ela vai deixar-me, Gaspar – afirmou Clara. – Eu sei que vai.

- Não digas disparates – respondeu rapaz tentando, desajeitadamente, consolá-la. – Porquê que haveria de te deixar? Ela adora-te! Não acredito que te trocasse por alguém ou mesmo pela própria solidão.

- Pela Clara S. – murmurou Clara. Gaspar sentiu um arrepio a subir-lhe pela espinha acima. O tom usado por Clara lembrava tanto uma daquelas fatalidades gregas, que temeu a possibilidade de ter entrada, inadvertidamente, numa. – Se isso acontecer não sei se vou ficar livre ou…

- Se isso acontecer – sossegou-a Gaspar. – Eu vou estar aqui, muito mais presente e útil do que fui com a Leonor. Não vou falhar uma segunda vez, Clara, não vou, eu juro.

Clara riu-se, voltando a faze-lo despreocupadamente como sempre o fazia e aliviando o amigo.

- Não acho que fique no mesmo estado que a Leonor – disse. – Se acontecer algo, e eu desejo ardentemente que não, conheço-me o suficiente para dizer que vou ficar… inconsolável? Destroçada? Seja o que for, vou sentir a falta dela, vou sentir auto-piedade porque não a terei aqui e precisarei dela nem que seja para dizer o quanto gosto dela, mas acabará por passar. Passará porque não morrerei, continuarei viva, não só de corpo mas também, mas especialmente de alma.

- Clara…

- É a minha vez de jurar, Gaspar, e eu juro-te, eu manter-me-ei viva.



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