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Fiction » Fable » Prazer em fugir font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Lucas Souza
Fiction Rated: K+ - Portuguese - Fantasy/General - Published: 01-06-09 - Updated: 01-06-09 - Complete - id:2618454

Dia quente, até que enfim. É o inverno acabando… Vão nos caçar mais ainda. Não que eu esteja reclamando, nós fomos feitos para correr. Eles aparecem do nada, nós os percebemos, aceleramos até uma moita e ficamos invisíveis. Alguns não conseguem fazer tudo isso, e viram a refeição deles. É assim que funciona. Não vou me rebelar contra um sistema que vem funcionando bem há milhões de anos.

Ou será que eu deveria? E como eu faria isso? Preciso de galhos, muitos galhos para roer, estou com os da frente gigantes; tenho que gastá-los logo, se não, não serei mais bonitinho como os visitantes querem que nós sejamos. Os visitantes também consideram belíssimas as aves de rapina que sobrevoam as redondezas. Só esquecem que elas nos agarram e comem em questão de segundos. Quero ver se essa cena seria bonita, visitantes.

Nossa Senhora, como eu estou reclamando hoje… Nós somos velozes, indetectáveis! E os caçadores estão muito mais interessados nos nossos inimigos! Lagomorfos rule! Eu não posso encher o saco da Mãe Natureza e reclamar de barriga cheia. Cadê aquele mini-penhasco? Deveria ser uma colina, mas é tão íngreme que pode acabar servindo de mini-precipício algum dia. Eu nunca vou lá, porque tenho medo de altura. Aliás, nenhuma presa vai lá. Espere aí, nenhum predador também. Credo, só os visitantes mesmo se aventuram naquele buraco. Para eles não é muito grande, porém, para nós, é um precipício que não tem nada de mini.

É melhor eu voltar para a toca. Minha mulher precisa de mim. Toda hora nascem mais uns pirralhos. Mulher é um termo péssimo… A fêmea da nossa extensa família. Mutiplicamo-nos à beça. Aqueles idiotas nunca nos encontram na toca. Nós sabemos fugir para elas. Como eu já disse, foi o dom que a Natureza nos deu.

Não sei porque os visitantes, os tais do homanos, omanos, húmanos — argh, esqueci o nome daquela espécie —, associam aos nossos principais inimigos a esperteza. Elas estão sempre com fome e só querem saber de nos estraçalhar com as mandíbulas de carnívoro que ostentam. Não têm nada de espertas.

Arrá, eu sabia que acharia o local! Os visitantes estão impressionados com que haja coelhos no precipício deles. Minha esposinha querida aceitou vir comigo para fincar os galhos que andamos roendo. Ela não entendeu muito bem o que eu quero, mas a convenci de que não tínhamos nada a perder. Estas patinhas dificultam a tarefa, mas a persistência é a última que morre, não é isso que vocês húmanos dizem? Daqui a pouco vai vir até repórter fazer matéria sobre os incríveis coelhos que sabem fincar estacas afiadas de madeira na terra. Ficaremos famosos como efeito colateral. Agora é só esperar até amanhã.

Que manhã linda. Perfeita para um cooper no campo. É só eu achar aquela desgraçada. Ali! ALI! Patas, para que as quero! A esposa se preocupa comigo, e acha suicídio, mas quem não arrisca não rabisca, como dizem os colegas homanos.

Aproximei-me o suficiente. A idiota me viu e está desesperada atrás de mim. A Natureza me deu o dom da velocidade. Eu chegarei até o precipício, tenho perfeita noção de onde ele fica. Mais rápido, mais rápido, mais rápido, MAIS RÁPIDO! Nunca corri tanto em minha vida! Quanto mais acelero, mais quero acelerar!

Tudo que eu tenho que fazer é frear na hora certa. Aaaaaaaa-gora! E ela, ela conseguiu parar? Não! NÃO! FUNCIONOU! Hahahahaha! Uma raposa a menos nesta florestinha!

Que nada, não há o que comemorar. Há muitas outras, e eu não conseguirei espetar todas. A Natureza é imbatível — digo, um pequeno pedaço d'Ela não é. Tudo bem, a mesma Mãe Natureza continuará garantindo que nós, coelhos, corramos como loucos das raposas, mesmo um de nós A tendo desafiado um pouquinho. Foi divertido ser predador por um dia.

Mas será um prazer continuar praticando a arte de fugir pelo resto da minha pacata vida. Tudo que desejo é uma morte natural; me recuso a perder para uma raposa, hunf.



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