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Feliz aniversário Luana (Amora).
14.02.09
Copo D'água.
Por um breve instante pareceu inacreditável e inlógico. Talvez até perigoso.
No fim da tarde a luz alaranjada fundia-se perfeitamente com a luz artificial na sala que refletia na tela do televisor de vinte e uma polegadas sobre um movel limpo e com pouco brilho. O volume foi aumentado naquele momento, mas não houve nenhuma mudança. Parecia estar do mesmo jeito que antes de alterar o som. Meu pai não costumava estar presente nesse começo de noite e eu já tinha me conformado com a sua ausência naquele momente. Silenciaram até a alma e arregalaram os olhos voltando para o programa, onde um homem de terno e gravata vermelha segurava um microfone e um copo d'água, mansamente falava aos seus telespectadores:
- Agora pegue seu copo d'água e coloque sobre o seu televisor, amado.
Assim fez minha mãe que aguardava há mais de cinco minutos com o mesmo em suas mãos. E novamente, por um instante aquilo pareceu inacreditável e inlogico. Por que colocar um copo d'água sobre a televisão se aquilo poderia ocasionar em um acidente? Talvez o sensacionalismo tivesse feito a cabeça de minha mãe. Fiquei quieta observando-a, eu não acreditava naquilo, mas respeitei seu momento.
- Agora feche os olhos - o homem fechou os seus ao dizê-lo e segurou seu copo, mantendo o microfone a uma altura considerável para falar.
Minha mãe e minha irmã fizeram o mesmo dando as mãos.
- Pense em Deus, irmão - o homem falava elevando a mão que segurava o copo -, pense nas Tuas maravilhas.
Talvez elas estivessem pensando. Eu pensei naquele programa evangélico que sempre encerrava com aquele pastor, um copo d'água e uma oração. Cada dia era um motivo para orar. E eu até o fazia, mas nunca coloquei um copo sobre a televisão. Nunca senti verdadeiramente a necessidade de fazê-lo com um copo. Nem por curiosidade.
Ouvi a vozinha de minha irmã de e de minha mãe cochichando quase sincronizadas mas ambas usavam palavras diferentes. A voz lamuriante de minha mãe que meu pai surportava foi substituida por um tom manso de choramingo. E a de minha irmã pareceu fina e mais baixa do que nunca.
Puseram-se a orar por inúmeras causas, no entanto, seus corações estavam entregues a vontade de Deus apenas naquele momento, porque não pareciam mansos e satisfeitos com bênçãos divinas depois daquilo. Eram agitadas e sem tempo no resto da semana. Eu perguntei várias vezes se estava aquilo certo. Tudo indicava que não.
Oraram por cerca de sete ou oito minutos, abriram lentamente os olhos ao ouvir o "amém" e por fim, soltaram as mãos. Minha irmã me olhou de esguelha com aqueles olhos entreabertos e comoventes:
- Você não orou?
- Eu oro sempre - respondi prontamente no presente do verbo -, mas o que vocês farão com o copo?
Ninguém respondeu. E eu nunca soube o que faziam com aquela água. Um julgamento mudo sobre mim provavelmente se revirou em suas mentes, mas nada disseram. Minha mãe por fim desligou o televisor, nenhuma luz alaranjada refletiu no aparelho depois daquele ato.
Pensava eu no porquê da necessidade de um copo para orar se precisavam apenas de nossa fé e corações dispostos para fazê-lo, já que nossa fé surtiria mais efeito sobre nossas causas pessoais pelas quais oravamos. Por um instante eu tinha a impressão que todos os telespectadores se curvavam e oravam para o copo e não prestavam o devido culto a Deus. Contudo, o Senhor me abençoava igualmente a minha familia que orava com um copo d'água sobre um televisor, mesmo eu não fazendo o mesmo.