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Contra o Tempo
Prólogo
O silêncio estava começando a lhe incomodar, aquela falta de movimentação também não deixava de lhe causar certa irritação. As poucas coisas que podiam, e com certeza, chamariam sua atenção já se encontravam naquela pequena sala muito bem decorada; uma carta que estava em sua mão, algumas pessoas que sequer ele deveria conhecer e um idiota que se sentia o dono do mundo em tentar entender a dor que ele deveria estar passando.
“Mas que grande besteira” – Ele dizia para si mesmo, enquanto admirava a carta cheia de rabiscos e manchas de terra e fuligem. Estava mais do que óbvio que aquela carta havia sido falsificada, não, ela devia ter sido escrita por alguém que não fosse ele!
Seus olhos, muito cansados depois de dias sem uma noite decente de sono, olhavam sedentos à procura de alguma presença naquela sala, algo que o fizesse sair daquela sensação de vazio e lhe trazer de volta á realidade. Ele aguardava ansiosamente a entrada dessa pessoa pela porta dourada que estava a sua direita, como se fosse um noivo esperando a entrada de sua amada... Mas ao contrário de uma cerimônia de casamento, a noiva não chegava e assim sua ansiedade sumia lentamente.
Seu transe havia sido quebrado com um toque gélido das mãos do gentil senhor que acabara de entrar, ele erguera a cabeça para analisar a figura que o tirara de sua espera com um olhar pouco amigável. Erguera-se calmamente e ficara de frente com o senhor – de aparência bem cuidada – que trajava um belo terno com gravata igualmente escuras, óculos tão escuros quanto a cor de suas roupas. O estranho dera um sorriso enquanto ajeitava os cabelos grisalhos para trás, sem perder a elegância.
- Pete, deve estar sendo duro para você, não é mesmo... meu filho? – O final de sua frase soara um tanto amarga. Ele não tinha o direito de dizer aquela palavra, aliás, ele jamais tivera tal direito. Parecia até que ele havia se tornado seu pai e tomado as rédeas de tudo... Suas palavras de conforto também haviam soado com algo mecânico, algo dito depois de alguns segundos ensaiando-as mentalmente. Nada vindo com sinceridade ou com amor. – Saiba que seu tio estará aqui por você, independente do que ocorrer. Nossa casa é sempre bem vinda.
Apenas mais algumas frases de conforto, nada muito amável vindo dessa pessoa. Era de se esperar, o tio de Pedro nunca fora lá uma pessoa muito sincera. Sempre que mentia, ele descobria no mesmo momento. Não havia sido diferente naquele instante, seu tio estava relutante em dizer que ele poderia morar novamente em sua casa... Afinal, se casara recentemente. Quem iria querer um resto, um adolescente problemático em sua casa?
- Eu sei. Nem precisava dizer... – Ele respondeu com pouca vontade. Os olhos amendoados de Pedro se voltaram para o chão. As pequenas pigmentações de olhos chamaram a atenção de seu tio que jamais olhara para o rapaz tão minuciosamente como naquele dia. Seus cabelos estavam estranhamente descuidados para tal ocasião, caídos relaxadamente sobre seu rosto e escondendo a dor que o preenchera. Os pequenos fios dourados reluziam com as luzes da sala. – Mas já estou sendo um incômodo. Eu nem tive cabeça pra pensar nisso tudo e o senhor fez algo excelente, desculpe pedir tudo em cima da hora.
O senhor dera um sorriso amargurado.
- Bom, tudo pelos meus dois mais queridos sobrinhos. – E lá estava ele mentindo de novo. Mas desta vez, a mentira ate que fora convincente; lágrimas estavam brotando de seus olhos e uma expressão cheia de remorso preenchia seu rosto. – Eu tenho certeza que Rafa iria desejar, está tudo da maneira como ele gosta. Sem muito requinte, nada muito mórbido.
Pedro virara a cara para o tio, seus braços – não muito fortes e desprovidos de grande massa muscular – se cruzaram demonstrando irritação com o que ele acabara de dizer. O nome proibido, algo que ele não estava querendo escutar ou falar, o nome da última pessoa em quem ele acreditava que seria sua companheira até o fim... Mas lhe abandonara sem sequer dizer uma palavra.
- Ah, desculpe. – Seu tio balançara a cabeça, havia percebido o erro de pronunciar o nome de Rafael. – É tão recente, foi tudo tão depressa... Não deveria ter mencionado o nome dele.
Pedro balançara a cabeça, não era culpa de seu tio. Rafa era o culpado, ele partira sem sequer dar notícias e ainda por cima abandonara Pedro; abandonara-o assim como seus pais fizeram. Ele estava só e isso não podia mais ser mudado.
- Tio... – Pedro encarara o senhor com um ar de preocupação. – O que a mídia está dizendo sobre isso?
- O mesmo estardalhaço de antes. Ahh, em 10 anos as coisas não mudam. – O pesar estava novamente presente em sua voz. – Eles acham que existe alguma maldição sobre os Mendes.
Maldição? De fato, a família de Pedro provavelmente deveria estar sobre o efeito de alguma magia negra ou alguma maldição vinda de pessoas invejosas. Sua família estava se desintegrando a cada dia depois que os pais de Pedro morreram em um acidente de avião. E agora, o único parente com quem Pedro tinha uma ligação forte se fora... A única pessoa com quem ele podia contar fosse para o que fosse.
- Era de se esperar. – A carta que estava na mão direita de Pedro se amassara ao ser apertado no momento de indignação do rapaz. – A família maldita, deve dar uma ótima matéria. – Ele estava sendo sarcástico, isso era perceptível.
- Por isso quis algo fechado. Alguns repórteres estão lá fora, tem certeza que não quer falar com eles? – Ele perguntou á Pedro, na esperança que o rapaz decidisse afastar a imprensa do local.
Pedro balançara a cabeça e levara a mãos aos cabelos arrepiados, uma pequena mania sua quando estava incomodado com algo. Mordera levemente a parte inferior de seus lábios finos e caminhara lentamente até a porta dourada pela qual seu tio entrara.
- E dizer o quê? Lá se foi outro membro da aclamada família de médicos de Urbania. Rafael Mendes, irmão de Pedro Mendes, morreu em um acidente de carro enquanto viajava para Nova Iorque com alguns amigos bêbados. – Pedro dera uma risada irônica – Ótimo, devo salientar também que meu irmão sequer me avisou que ia para os Estados Unidos e eu, descobri tudo quando o IML de lá ligou?! SERÁ QUE EU TENHO QUE FAZER ISSO? – Ele batera o punho contra a parede branca.
Suas mãos tremeram ao pensar na hipótese de olhar na direção do caixão que estava localizado mais ao fundo da sala, num local escondido da vista de Pedro. O caixão modesto, branco com pequenos desenhos dourados, estava delicadamente erguido por um apoio e estava rodeado de grandes crisântemos e íris – flores favoritas de Rafa. E acima do caixão havia uma grande foto do irmão de Pedro, uma foto que para os que não conheciam os Mendes poderia ser facilmente confundida com uma foto de Pedro. Sim, Rafael e Pedro eram gêmeos.
Nesse momento, Pedro deslizara na porta tentando encontrar algo que o apoiasse. Ele estava cansado de tanto esperar pela chega de seu irmão, estava tentando imaginar como seria se tudo aquilo fosse um sonho. Seu corpo foi se locomovendo lentamente para fora da sala onde o velório estava ocorrendo, estava indo contra a massa que começava a chegar. Pessoas da alta sociedade vinham prestar suas condolências para o herdeiro da família de cirurgiões da maior cidade do planeta. E Pedro não dava à mínima.
- Pete, aonde vai? – Seu tio resmungara, andando atrás do rapaz. – Nós ainda não terminamos. Meu escute, filho!
Pedro parara instantaneamente de caminhar, seus passos incertos se voltaram para a direção de seu tio de maneira violenta. Pedro agarrara a gravata do tio e o empurrara contra uma parede que estava á poucos metros de onde eles estavam, o rapaz olhara com ferocidade para o senhor.
- É você quem não está entendo, velho. – Suas palavras saíam quase inaudíveis, mas o tom de ameaça permanecia ali. – Acabou... Tudo. Minha vida inteira se tornou vazia... Não há razão para ficar aqui. – Cada palavra, cada pensamento e cada pausa que Pedro fazia lhe cortava o coração. Sua intenção era se afastar de cada membro da família que não o desejava e enfim desaparecer nesse mundo. Ele havia perdido tudo, até mesmo a única pessoa com quem tinha o privilégio de dividir uma estranha ligação que somente gêmeos poderiam ter. – Eu estou acabado.
Ele largara lentamente a gravata do tio que ainda estava respirando rápido por conta do susto, seus passos voltaram a ser oscilantes e ele começara a buscar o caminho que o levaria à saída daquele lugar impregnado de memórias, aquele local que logo ficaria cheio de parentes oportunistas e primos distantes que iriam querer dividir uma herança que Pedro sequer faria questão.
A sensação de solidão lhe tomava o corpo de maneira monstruosa, parecia que cada parte de seu corpo era consumida vorazmente e impiedosamente. Pedro estava só; não havia mais mãe, pai ou sequer uma “casa” para qual voltar. Não lhe restara mais nada, exceto, é claro, sua vida.
“Vida” – Pedro pensara consigo mesmo, uma palavra que agora lhe soava cruel e que parecia rir de sua cara. Não havia sobrado nada com vida para ele, nem mesmo o amor de seus tios... Nada. Não valia a pena viver, não para ver o que iria sobrar do que ele chamava de vida.
Caminhando para fora do grande prédio, Pedro dera de cara com a grande massa de repórteres que o soterravam de perguntas indiscretas, de acusações e de flashes das câmeras dos fotógrafos. Mas mesmo assim, ele caminhava sem dar a mínima, olhando apenas para o nada, ele não estava mais dentro da realidade.
Suas mãos começaram a ficar trêmulas e após um longo tempo de caminhada sem destino certo, a pequena que ele carregara desde o início do velório com tanto cuidado, escapara de suas mãos e se abrira no meio de uma rua movimentada. A carta começara a se molhar assim que a chuva caíra, perdendo todo o conteúdo que havia e Pedro parecia não ligar.
Pedro já não estava mais vivo.
HEY PETE!
Desculpa ter que mandar uma carta tão pequena, mas cara! Você ‘tá perdendo simplesmente a melhor temporada aqui nos Estados Unidos!
Eu estou curtindo o máximo as férias, foi mal não te contar, mas você sabe que o Tio Marcelo não ia deixar que eu viajasse com meus amigos, não sei o que ele vê de errado neles... Mas enfim, a faculdade começa em Março, certo? Pode apostar que vamos estar lá, juntos como sempre, cara!
Não vá arranjar uma namorada sem me contar, huh!
21 de Janeiro de 2009
Rafa
Rafael Christophen Mendes
Nascimento: 18 de Agosto 19XX
Data de óbito: 22 de Janeiro de 2009
Viver é tão solitário.