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Fiction » Supernatural » Contra o Tempo font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Nammy
Fiction Rated: T - Portuguese - Tragedy/Supernatural - Reviews: 8 - Published: 02-28-09 - Updated: 08-07-09 - id:2641121

Why is light given to those in misery, and life to the bitter of soul,

(Por que se concede luz ao miserável e vida aos amargurados de ânimo)

to those who long for death that does not come?

(... que esperam a morte, e ela não vem?)

Who search for it more than for hidden treasure,

(Eles cavam em procura dela mais do que tesouros ocultos)

Who are filled with gladness and rejoice when they reach the grave.

(Eles se regozijariam por um túmulo e exultariam se achassem a sepultura.)

( Jó, capítulo 3)

Contra o Tempo

Já faz algum tempo desde que me tornei ‘isto’. Nunca escolhi ser um Andarilho, jamais pensei que após a morte tudo iria ser diferente do que acreditava. Eu queria paz, não desejava mais sofrer, queria apenas ter o que chamam de descanso eterno.

Mesmo que eu tenha procurado por isso, ainda sinto por ter feito tal espetáculo; mas não me arrependo. Porque foi assim que descobri qual o meu papel neste mundo.

Capitulo VI

Arrependimento

Mika parecia se divertir ao caminhar calmamente pelo pequeno jardim nos fundos do Hospital, suas pernas não pareciam obedecer bem suas ordens, mas mesmo assim ela não reclamava; sua curiosidade superava a dor. Seus olhos sempre seguiam as pequenas crianças que brincavam logo à frente, ela não se atrevia a olhar para o lado e perceber que estava louca, afinal, somente ela podia ver aquela pessoa.

Pedro a acompanhava sempre com o olhar perdido, não conseguia se concentrar muito bem sabendo que podia ver aquelas coisas acima da cabeça de cada pessoa presente naquele hospital, a expectativa de vida das crianças que pareciam não ser muito longa e a dos pobres senhores, estes que já não pareciam estar energéticos como antes. Seus olhos se perdiam em milhares de números enquanto tentava adivinhar quanto tempo ainda teriam aquelas crianças doentes; sua curiosidade batia em poder ver a expectativa de Mika, mas algo o impedia de ver... Medo, talvez?

- Será que fiquei louca? – A voz de Mika rompera a concentração de Pedro, o rapaz voltara seus olhos apenas para o rosto dela, ignorando os números acima de sua cabeça. A garota apenas balançara a cabeça. – Foi assim da última vez, não foi?

- Última vez? – Pedro repetiu a última frase, não estava seguindo muito bem o raciocínio de Mika.

- Quando eu te salvei. – Ela respondeu em tom de brincadeira, seus olhos se encontraram com tudo não tivesse passado de um sonho, mas você está aqui de novo.

Por alguma razão que nem eu sei explicar. Era só o que Pedro podia pensar no momento, nem mesmo ele sabia que atração ele possuía por aquele prédio e em especial, por aquela desconhecida.

- Você não parece assustada, devia estar. – Ele resmungou, revirando os olhos.

- Assustada com você? – Ela pareceu rir. – Por qual razão? Qualquer um poderia surgir no parapeito de uma janela.

- Todos os dias pessoas caem de janelas? Nossa, que ótimo. – Pedro resmungou consigo mesmo. Não conseguia acreditar na insanidade de Mika.

- Eu acredito no impossível. – Ela continuara a sorrir. – Também acredito na fábula do destino, sabe? Que todas as coisas já existem por uma razão... Senão, eu não estaria aqui neste momento falando com você, não é?

Ele acenara com a cabeça, surpreso com a fala de Mika. A garota parara de andar e dera um longo suspiro de cansaço; seus olhos já estavam fundos e praticamente sem cor, as olheiras estavam mais evidentes. Sua doença era realmente algo extraordinariamente assustadora.

- Será? – Pedro esfregara a mão em seus cabelos rebeldes, ele encarara Mika com certo interesse. – Quer dizer que está viva porque o destino assim definiu? Eu te encontrei porque era nosso destino... Não me soa como um argumento bom.

- Não é mesmo um bom. – Ela disse, seus olhos procuravam algum lugar para que pudesse descansar. Não demorou muito e encontraram uma cadeira próxima da entrada do hospital. – Mas eu acredito que exista uma razão para que eu esteja viva. Você pode ver?

Mika estendera seus braços sem esperar a resposta do rapaz, pele que Pedro considerara outrora bela e sem qualquer mancha, agora estava mais nítida para ele; dezenas de cicatrizes, cortes recentes e furos de agulhas podiam ser vistos por toda a extensão dos dois braços de Mika. Em um deles, Pedro pôde reparar que havia uma agulha presa em sua pele com a ajuda de algumas fitas.

- Eu tenho uma doença que já devia ter me matado há muito tempo, mas por alguma razão eu ainda continuo aqui. – Ela dizia como se já estivesse cansada, a batalha contra a doença parecia ser de longa data a julgar pela maneira como Mika a retratava. - Desde que me entendo por gente, acho que sempre vivi neste lugar. Conheço todos os enfermeiros, todos os médicos e até os para-médicos. Meus pais dizem que adquiri essa doença com 6 anos de idade e que a probabilidade de sobreviver a ela, naquele tempo, era nula.

Pedro não parecia surpreso.

- Em uma das crises da doença, eu fiquei por um longo tempo desacordada, meu pai me contou que os médicos o desacreditaram. – Mika dizia enquanto sorria ao mesmo tempo. – E por alguma razão, eu subitamente fui me recuperando. Será que isso não é destino?

Mais parece trabalho de algum Guia, Pedro pensava consigo mesmo.

- Mas isso a fez ficar presa neste hospital. – Pedro observou. – O que tem de bom nisso?

- Eu estou viva. – Ela disse com convicção.

Como uma palavra podia destruir todo o mundo. Como aquela palavra ferira Pedro violentamente. Era como se uma flecha houvesse atravessado seu corpo todo e atingido seu peito, as palavras de Mika foram únicas e arrebatadoras.

Ela não desistira de viver como ele, tinha orgulho por tal ato e não se arrependia. Isso era mais do que um golpe fatal em Pedro, Mika estava lhe mostrando o que ele jamais teve; a vontade de continuar vivendo.

Corando violentamente, ele se erguera do local em que estava sentado com agilidade e ficara de costas para a garota; as mãos sobre a boca, os olhos distantes e o corpo trêmulo.

- O que foi? – Ela perguntou ficando surpresa com a reação do Andarilho, Mika também tentou se erguer, mas fora surpreendida por uma onda de cansaço; ela se sentara imediatamente, ofegando. – Ah-!

Pedro se voltara para ela, desesperadamente.

- N-N-Não é nada! – Ele respondeu depressa. – Fiquei apenas surpreso com sua determinação. Não é algo que eu tenha... Ou melhor, tive.

- Mas... – Mika olhava com cansaço para o Andarilho. – Você fala como se estivesse morto, não pode desistir de viver.

Pedro sorrira levemente para a garota.

Eu sabia. Ela pode ver através de mim, pode ver o que sinto... Mas ainda assim, ela não sabe dos motivos. Era o que ele pensava consigo mesmo, a pequena batalha em sua cabeça ainda não terminara.

- Eu já desisti. – Pedro lhe lançara um sorriso.

Mika balançara a cabeça, sem estar surpresa com a fala depressiva do rapaz.

- Não, não desistiu. – Ela sorriu radiantemente como sempre. Aos olhos de Pedro, ela parecia um diamante que não parava de lhe ofuscar, sendo ele apenas um cascalho. – Eu vejo aquela luz.

- Luz?

- Quando uma pessoa tem a determinação para viver, seus olhos brilham. – Ela disse com firmeza. – Você ainda a tem, então ainda não desistiu de viver.

Era irônico ela falar de luz, quando Mika era verdadeiramente a luz; uma tão ofuscante que fazia Pedro se afastar cada vez mais.

- Que engraçado o destino. – Ele rira de si próprio.

- Hm? – Mika o encarara com surpresa.

- Se eu tivesse conhecido alguém como você antes, acho que... – Ele guardou o restante da frase para si. – Deixa pra lá. – Pedro olhara para o relógio em seu pulso e percebera quanto tempo havia perdido naquela conversa, recordara que havia deixa Mari no Chronos assim como Yuri e os demais; ele fora assaltado por um arrependimento enorme. – Ih!

- O que foi? – Mika perguntou depressa.

- Não está ficando tarde? – Pedro disse desconversando. – Uma pessoa doente precisa de repouso.

- Besteira! – Ela retrucou fazendo um pequeno bico. – Estou perfeitamente bem! Hoje o Roberto disse que eu poderia ficar mais tempo aqui fora.

Roberto? Ah, devia ser aquele para-médico que Pedro e Marianne viram no dia em que corriam para resgatar Tom. A pessoa que também podia ver os mortos, mais outra pessoa tola que também que devia acreditar em destino.

- Mesmo assim. Quer continuar bem? Então tem que descansar. – Pedro cruzara os braços, estava ficando impaciente com a despedida. Não estava tão animado com o reencontro dos novos amigos que conseguira, Mari certamente o mataria... de novo.

Mika parecia incomodada com a despedida apressada de Pedro, se erguendo lentamente ela se aproximara do Andarilho.

- Você vai voltar? – Ela perguntou com uma voz ansiosa.

Ela fora pego novamente de surpresa com as palavras delicadas de Mika.

- Não acho que iria gostar da companhia de alguém tão sem graça como eu. – Ele brincou.

- Pelo contrário! Você é muito interessante, estou curiosa a seu respeito! Se puder, venha me visitar de novo! – Ela dizia animadamente. – Nunca conheci alguém como você, tão misterioso!

Misterioso? Heh, novo adjetivo para Pedro guardar em sua caixinha de elogios e apelidos.

- Você fala como se eu fosse o especial aqui.

- E não é? – Ela sorriu.

Ele sorrira brevemente e lhe dera as costas.

- Vou te visitar sempre então. – Ele sibilou em voz baixa. Mesmo que não desejasse, havia algo em Mika que certamente o atrairia de volta.

Ela acenara com a cabeça, o olhar ligeiramente perdido em pensamentos; Mika acenara sem que Pedro percebesse. O rapaz já estava correndo na direção pela qual havia surgido.

Mika admirou suas costas até que desaparecesse por completo, ao perceber que ele não estava mais próximo dali, ela abaixou a cabeça.

- Mika? – Uma voz diferente vinha por detrás.

A garota virara o rosto rapidamente pensando ser Pedro, mas se assustara ao ver Roberto; o para-médico que costumava cuidar de seu caso quando ainda era um mero enfermeiro. Os olhos ametistas do amigo de Mika indicavam que ele era a mesma pessoa que Pedro e Mari haviam evitado no dia da corrida pelo resgate de Tom.

O rosto era carregado de pequenas cicatrizes na direção do queixo, pequenas e profundas marcas do que pareciam ter sido cortes; sua pele era de um tom mais bronzeado do que os demais que Mika conhecera até o momento, a face de Roberto estava encoberta por uma fina camada de barba.

- O que está fazendo aqui fora? – Ele perguntou com uma voz aborrecida. Estava vestindo um uniforme de enfermeiro com o emblema do hospital. A cor verde-claro predominava nos trajes do rapaz que estava de braços cruzados.

- Ah, disseram que eu podia sair hoje um pouco mais. – Ela revirou os olhos.

- Quem disse? – Ele bufou.

Mika suspirou e se dera por vencida.

- Tudo bem, ninguém deixou. Eu meio que escapei, heh. – Ela sorrira amigavelmente.

- Então você meio que irá voltar. – Ele colocara sua mão no ombro de Mika. – Se seus pais descobrirem sua arte, tenho certeza de que irá ficar um bom tempo de castigo.

Mika sorrira como sempre, seu olhar reluzira ao se encontrar com os de Roberto que por um momento parecia paralisado. O sorriso maroto da garota novamente o pegara desprevenido como sempre, mas era exatamente assim que Mika era.

- Não adianta fazer essa cara, eu já estou vacinado! – Resmungou.

- Ah, droga. – Ela lamentou. – Mas não me arrependo de ter saído hoje.

- Hm, por quê? – Ele parecia surpreso. – Brincou muito com as crianças?

Ela dera de ombros.

- Acho que cada vez mais está valendo a pena lutar contra essa doença... Assim posso conhecer mais pessoas, mais o mundo. – Ela estendera a mão para o céu azul que havia tomado conta do cenário, com poucas nuvens e de cor belíssima, Mika estendia a mão como se quisesse tocar o além. – Como eu gostaria de conhecer mais o mundo.

Roberto não entendera bem a fala de Mika e a ignorara, com seu mal-humor de sempre, ele a levava com pouca vontade de volta ao seu quarto de onde, provavelmente, ela não sairia tão cedo.

Antes que pudessem entrar no prédio, Roberto lançara um último olhar na direção em que Mika estava e percebera um grupo de desconhecidos discutindo.

- Será que... – Ele apertara a visão, mas não podia reconhecer o grupo.

- Roberto? – Mika o encarara com impaciência.

- Hm? – Ele desviara a atenção para a garota. – Não é nada... – E sendo assim, ele esquecera o alvo que estava lhe dando curiosidade.

Mesmo não tendo dado atenção, o que Roberto deixara de investigar na realidade era Yuri, Marianne e Pedro discutindo em alto e bom som.

Marianne não parava de gritar com o novato, assim como ele se encolhia para tentar fugir para outro lugar e fingir não escutar o sermão.

- Aquela expectativa de vida não é normal! – Yuri analisava consigo mesmo.

- Com certeza. – Mari dizia com os braços cruzados. O olhar ainda fixado em Pedro. – Uma expectativa que constantemente aumenta e em seguida diminui, sem ter uma hora determinada. Sabe o que isso significa?

Pedro balançou negativamente a cabeça.

- É claro que não sabe. – Yuri e Mari soltaram a voz em coro.

- Você podia ter sido atacado por um Morte! Idiota! – Mari gritava com as mãos sendo sacudidas para todas as direções. – E se você fosse chamado para alguma corrida? E se a garota de repente, estivesse morrendo?

- Provavelmente ele seria morto... Ah, ele já morreu. – Yuri sorria consigo mesmo, ele parara de brincar ao perceber o olhar irritado de Mari. – Digo, digo... Nós iríamos ajudá-lo, não é mesmo?

- Não é questão de ajudar! – Mari retrucara instantaneamente. – Aquela garota pode nos ver, pode colocar o segredo em risco! Aliás, todos poderíamos parar de existir.

Pedro balançou a cabeça, inconformado.

- O que tem demais em descobrirem que nós existimos? Exorcistas, macumbeiros, sei lá... Não sabem que nós existimos?

- Isso e aquilo são coisas diferentes. – Yuri dizia calmamente, mas sem deixar de transparecer seu tom irônico. – Essas pessoas são sensitivas, podem perceber que existimos, mas nunca conseguem nos achar. Pode-se dizer que nem o Conscientes sabem quem realmente somos.

- Aquela garota é uma Consciente. Ela sabe que existimos, mas sequer tem noção do que fazemos e pelo que lutamos. – Mari continuou a explicação.

Pedro parecia surpreso com a fala de Mari.

- Por isso não podemos abusar da sorte. Lembra do cara que vimos na entrada do hospital? – Perguntou ela com firmeza.

Pedro acenara a com a cabeça.

- Ele sabe quem somos, ou pelo menos acha. Toda vez que estamos correndo pra salvar alguém... aquele idiota sempre tenta intervir.

- Coitado. É trabalho de um herói da justiça salvar pessoas inocentes de mortes trágicas. – Yuri brincou.

- Não falei com você. - Marianne lhe dera um tapa na cabeça, fazendo Yuri se calar. – Voltando ao assunto, você precisa estar ciente da situação. Você é um suicida, uma pessoa que existe para proteger outras e não expô-las ao risco.

- Mas o que tem de perigo em visitar uma doente? Aliás, eventualmente ela irá morrer não é mesmo? – De alguma maneira, dizer tais palavras fizera o peito de Pedro se apertar; parecia que todo o discurso sobre viver que Mika havia lhe dito, fora em vão.

Mari dera um longo suspiro.

- O problema é que Conscientes normalmente são alvos, e dos melhores. O poder que eles possuem poderia e muito aumentar o exército do Éden ou Hades. – Ela comentava. – Cada Consciente que um Morte ou Guia resgata, é como se fosse uma arma nuclear nova, pronta para entrar em combate.

- Mas eu pensei que nosso trabalho fosse evitar que pessoas morressem. – Pedro retrucou.

Yuri balançara o indicador de maneira categórica.

- Não é bem assim. Pode não parecer, mas o trabalho de todas as pessoas que já morreram se resume em apenas uma coisa: Temos que angariar o maior número de almas para começar uma verdadeira guerra, vocês são apenas o empecilho que nós contamos. – Yuri dizia com calma. – Tanto Mortes como Guias tem o poder de tirar a vida de uma pessoa.

“É como se pudéssemos reduzir o prazo de permanência desta pessoa de maneira agressiva, e dependendo do caso, ganhamos um ajudante poderoso na batalha, não é algo que gostamos de nos gabar... mas ordens, são ordens.”.

Pedro olhava chocado para a dupla, sem acreditar no que ouvia. Devia ter se acostumado com tal coisa, toda hora sempre lhe vinha alguma surpresa. Na altura do campeonato, já devia saber que nada mais lhe surpreenderia.

- Então por que lutamos? É uma batalha injusta! – Pedro retrucou.

- Ah, Mortos-Vivos deveriam ser que nem nos filmes, só gemer e comer carne... Reclamar não estava nos planos. – Mari revirou os olhos. – Escute bem. Nós existimos para enfrentar esses dois idiotas, Mortes e Guias. Se uma pessoa já está morrendo, é nosso dever garantir um julgamento adequado a ela... Se não, é nosso dever impedir que ela seja sacrificada.

“Por que acha que temos essa força descomunal que nos faz correr além da compreensão humana? Temos resistência que poucos humanos teriam, não precisamos dormir com freqüência; ou melhor, preferimos não fazê-lo; e alimento é algo que não necessitamos, apenas desejamos.”

Falando dessa maneira, até que fazia sentido.

- O trabalho dos Guias é servir como os Juízes, somos o que vocês chamam de São Pedro. Seguramos a chave que dá acesso ao Éden ou Hades. Dependendo da conduta em vida da pessoa, podemos garantir acesso a qualquer local. Se assim desejarem, podem ser como vocês.

- Andarilhos... – Pedro murmurou.

- ‘Tá aí uma boa definição. – Yuri sorrira. Ele colocara as mãos sobre a cintura e continuara a falar – Se bem que, ultimamente nosso chefe anda querendo que recolhamos o máximo que pudermos de almas para acabar com a guerra de uma vez só, isso é cansativo.

- Hm, então foi por isso que você apareceu no hospital? – Pedro indagou.

- Mais ou menos. Eu fiz uma promessa a certa pessoa de que cuidaria da dama mais ingênua do mundo. – Dizendo isso, ele lançara um sorriso maldoso para Mari que simplesmente o ignorara. – De qualquer forma, não se descuide Novato. Você ainda não sabe bem da história que nós possuímos, com o tempo tudo irá se esclarecer conforme ir se acostumando com o mundo dos mortos...

- Ou como todos dizem: Mondo che il Dio non può vedere. Ou na língua mais utilizada, o Mundo que Deus não pode ver. – Mari dizia de braços cruzados. – Esta é uma terra de ninguém, esperando apenas para ser destruída. Urbania é apenas uma parte dela, logo você irá ver como o mundo é vasto e possui tantos Sui, ern, Andarilhos.

Pedro limpara o peito que estava sujo de terra, com a qual Mari havia usado para socá-lo. Ele dera um pequeno sorriso para a dupla.

- Se é para viver desta maneira, por que não tentar, não é mesmo? – Ele dizia com uma expressão incomum. Estava com um sorriso torto, tremendamente difícil de ser demonstrado. – Acho que vale a pena tentar existir nessa era.

- Oh, será que colocamos juízo na cabeça dele? – Yuri animou-se.

- Eu prefiro contar com outro acidente de avião com mais de 145 vítimas a resgatar do que acreditar que esse moleque mudou do dia para a noite, mas... Se é assim. – Mari parecia mexer em algo que estava no bolso de seu pequeno vestido; o bolso era quase invisível aos demais, mas ao analisar atentamente a vestimenta, podia ver que havia mais de quatro bolsos ao redor da garota. Ela retirara um pequeno pingente.

O objeto era brilhante como qualquer jóia seria, parecia ser feito de prata; o colar era pequeno o bastante para ficar no punho de Pedro e leve o suficiente para não incomodá-lo.

- Demorou, mas até que enfim aceitou seu destino... Pedro Christophen Mendes. – Marianne dizia com frieza, ela erguera o pequeno colar com um pingente em forma de ‘A’. – O ‘A’ deste pingente simboliza, no alfabeto grego, Alfa. Começo. É um pouco irônico, mas este é o símbolo do que você chama de Andarilhos. É o símbolo que carregamos com orgulho, é o que demonstra nossa classe. – Ela mostrara a pequena jóia em seu próprio peito, balançando conforme caminhava.

Irônico mesmo.

Pedro aceitara sem cerimônia o pequeno pingente e o prendera ao seu punho esquerdo, com todo o cuidado que pudera. Ele admirara a jóia por alguns instantes até ser interrompido por Mari.

- Este pingente é precioso, por isso proteja-o bem! Caso contrário... – Ela estralava os dedos com uma aura violenta emanando de si.

- O que isso tem de tão especial?

- Significado que você não é mais novato. – Yuri sorrira como sempre. – Agora é um Sui-digo, um Andarilho. Ainda continua sendo um idiota de cara fechada, mas significa que você aceitou o que é. Hm, que chato... Mais um empecilho para meu serviço. Você já sabe o que deve e não precisa mais de ajuda.

- A jóia também é como um sinalizador, se um Andar

- Está arrependido? – Mari indagou.

Arrependimento era algo que Pedro estava decidido a não nunca mais possuir, iria existir naquele mundo assim como Mika iria batalhar por sua vida. Estava pronto para enfrentar qualquer obstáculo apenas para continuar existindo.

- Posso ter me arrependido de muitas coisas, como por exemplo, tem conhecido alguém tão desumano como a Fredderick – Dito isso, Mari parecia estar pronta para socá-lo senão fosse por Yuri e seus braços poderosos, segurando-a. – Mas eu acho que não me arrependerei do dia em que decidi acabar com minha vida como Inconsciente. Eu era tão alheio ao mundo! Claro, viver é uma dádiva não é... Mas... Acho que só depois de morrer que percebemos o quão incrível era esse dom.

“Mas já que estou morto, não posso me arrepender. Estou começando a achar que foi ao morrer que minha vida verdadeiramente começou, eu estou tendo realmente algum propósito para poder existir e com toda a certeza, acho que posso chamá-los de amigos... Coisas que não me recordo de ter tido em vida.”.

Mari e Yuri pareciam ligeiramente acanhados com a declaração de Pedro.

- Sabiam disso não é? – Pedro dizia enquanto caminhava na direção dos novos amigos, pelo menos para ele. – Meu irmão gêmeo morreu pouco tempo antes de eu decidir acabar com minha vida; ele era a única razão que me fazia permanecer vivo, porque ele era minha única família e meu único e verdadeiro amigo... Quando ele morreu, eu realmente achei que não serviria para mais nada.

- Ah, você fala do irmão gêmeo? – Yuri observou curioso. – Hm, interessante essa relação. Se não fossem irmãos, diria que eram um casal apaixonado.

- Não era bem assim! – Retrucou Pedro indignado, era como se fosse a enésima vez a explicar tal assunto. – Meu irmão me tinha como um conselheiro e até mesmo como amigo. Como sempre estivemos sozinhos em Urbania, criamos meio que um mundo só nosso, aonde somente nós podíamos entrar. Podíamos até adivinhar o que o outro pensava, apenas olhando.

- Ahh, é isso que chamam de ligação entre irmãos que ouvi outro dia. – Mari comentou. – Dizem que gêmeos, trigêmeos e afins possuem uma ligação difícil de explicar; é como se a alma houvesse sido dividida de acordo com o número de crianças nascidas.

- É, eu ouvi isso também! – Pedro disse rapidamente. – Isso influencia após a morte?

- Difícil dizer. – Yuri respondeu. – Boatos correm por aí, alguns deles dizem que filhos nascidos no mesmo dia e irmãos de aparência igual possuem um poder incrível, capaz até de surgir após a morte. Pode-se dizer que você virá a aprender alguns truquezinhos, ou algo do tipo... Mas não é nada demais, acho. – O Guia ficara pensativo. – Acho que isso iria lhe trazer uma hipersensibilidade ou algo do gênero.

- Ah, então esta hipótese está descartada. – Mari revirou os olhos.

- HEI! – Pedro retrucou.

- O que foi? Estou falando a verdade, você é a porta em pessoa. Sensibilidade é algo que com certeza você não nasceu para ter.

- Seus elogios sempre me comovem, sério. – Pedro deu as costas para a Andarilha.

- De qualquer for-!

E antes que outra palavra pudesse ser dita, o barulho já conhecido de pulsar estava sendo emitido nos relógios do trio; os olhares se cruzaram instantaneamente como se já dividissem certa intimidade.

Pedro olhou atônito para Mari que já conhecia o ritual, mas desta vez ela encarava Pedro com paciência.

- Como eu disse, para aqueles que morreram, a corrida nunca acaba. O cronômetro começou, corra ou ficará para trás. – Mari sorrira e começara a correr na direção que apontava o relógio.

Pedro sorrira de maneira pesarosa, era inevitável mesmo que outro chamado ocorresse. Com a vontade irresistível de correr e talvez até mesmo um desejo que até então ele não sabia se possuía, o jovem Andarilho começara a trilhar os mesmo passos que os demais; com a velocidade, tudo o que havia restado era sua sombra desaparecendo lentamente Urbania adentro. Os passos ágeis seguiam para o mesmo destino que Mari e Yuri e sem perceber, muitos outros Andarilhos pareciam correr com ele, dividindo um mesmo sorriso cansado e depressivo; o sorriso de alguém que desejava salvar alguém.

- Isto está se tornando perturbador. – Resmungou alguém ao observar que o trio partira.

- Aquele moleque não poder ser a reencarnação do Antigo. – Resmungou outra voz, desta vez soando irritada. – Dizem que sua alma se dividiu em duas e o poder duplicou, obviamente.

- Não está descartada a hipótese então? – O outro lhe encarou com curiosidade.

- Definitivamente, não vou deixar meu pai saber da existência desse moleque. Ninguém precisa saber. – A voz de confiança beirando a arrogância declarou, os olhos de cor rubi reluziram com a luz do dia. – Ficaremos observando seu progresso, qualquer problema... Já sabe, não é mesmo, Cerberus?

O homem de cabelos longos, presos em um cabo-de-cavalo cuidadoso, assentiu com a cabeça.

- Sim, sua alteza. – Ele se curvara fazendo uma breve reverência para a desconhecida. – Não compartilharei estas informações com o Senhor Hades.

- Ótimo. – A jovem sorrira com orgulho.

Aquilo que temo me sobrevém, e o que receio me acontece.

Não tenho descanso, nem sossego, nem repouso, e já me vem grande perturbação.



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