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Nas sombras de um sonho – Capítulo 3
A primeira impressão que Brian teve de Chris foi que ele era mais velho. Por volta dos trinta anos. E pelo jeito que ele conversava entusiasmado com Jack sobre a música que gravariam, bem mais experiente. O baterista girou uma das baquetas entre os dedos, seus pés batendo no chão inconscientemente, como se tocando um instrumento imaginário.
- O que é essa concentração toda? – perguntou Kyle, sentando-se ao lado dele, uma partitura em suas mãos.
Brian olhou de lado, vendo o tecladista morder um muffin, seus olhos concentrados nas notas a sua frente.
- Estou apenas pensando se essa música seria a ideal para gravarmos juntos com o Chris.
O moreno encarou-o com um risinho.
- Por um acaso você já viu a letra que o Jack escreveu? Nós vamos arrasar com ela.
Brian arqueou a sobrancelha e Kyle revirou os olhos. Ele pegou outro pedaço de papel e entregou-lhe.
- Agora faça sua lição de casa senhor baterista. – comentou Kyle entre risos, dando mais uma mordida no seu muffin.
Brian apenas levantou-se, indo até sua bateria, sentando-se no banquinho, começando a ler a música:
If I started from the top
And worked through my way down
There’s no reason for me
To live forever…
Brian arqueou a outra sobrancelha, seus dedos girando a baqueta.
- Se chama “Eternal”. Você gostou?
O moreno ergueu os olhos para dar de encontro com Jack apoiado contra a bateria, de frente para ele. O guitarrista sorriu tímido.
- Ela foi escrita há quase dois anos atrás, não sei se continua tão boa assim.
O moreno riu, colocando a baqueta em cima de um dos tambores. Ele jogou o banquinho para o lado, dando espaço para Jack.
- Me mostra o que você tem em mente.
Jack deu a volta no instrumento, pegando a baqueta e apontando um pedaço da letra.
- Esse começo seria somente dois acordes do Chang e um leve toque no prato pra você.
Do outro lado da sala Chang afinava seu baixo, os longos cabelos pretos presos num rabo de cavalo. Ele olhou para os dois jovens na bateria discutindo a música, Jack sorrindo e mostrando os acordes para Brian, que sorria de volta. O japonês revirou os olhos.
- Idiotas. – murmurou para si.
Se eles não conseguiam enxergar o óbvio, não sabia quem conseguiria mostrar a eles.
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Cinco meses depois, dezembro de 1987.
- Eu não consigo acreditar nisso!
Chang e Kyle não paravam de rir enquanto Jack ia ficando cada vez mais vermelho. Chris deu mais um gole na cerveja, limpando a boca com as costas da mão.
- E então...quando chegou a hora de apresentarmos, esquecemos completamente de avisar o Jack que havia aquele buraco no fim do palco. – comentou Kyle, rindo – Eis que ele ta lá, todo empolgado, tocando que nem um verdadeiro rockstar. Ele foi caminhando pelo palco e eis que o pé direito dele pisa em falso no buraco.
Chris gargalhou e Jack afundou no assento, rindo sozinho e escondendo o rosto entre as mãos.
- Eu olhei por um segundo ele estava lá e no outro ele não estava. – comentou Chang, um sorriso adornando seus lábios.
Brian chegou à mesa onde estavam todos reunidos com um sorriso.
- Posso saber qual foi a piada?
Kyle deu espaço ao seu lado para o baterista sentar e assim que ele o fez, o tecladista passou os braços pelo ombro dele.
- Estávamos contando ao Chris da vez em que Jack caiu do palco em uma apresentação nossa no colegial.
Brian riu, beijando o pescoço dele.
- Ah, essa história.
Jack ergueu o rosto.
- Como assim você sabe dessa história?
O moreno riu.
- O Chang com umas bebidas a mais vira um verdadeiro falador.
O japonês escondeu o riso enquanto bebia mais cerveja. Jack ergueu-se, bufando.
- Eu não acredito.
Kyle segurou-o pelo pulso.
- Calminha aí Jackie. Quem mandou ser estabanado? Aposto que você está morrendo de vontade de contar algo embaraçoso sobre mim e o japa.
O baixista apenas deu um tapa na cabeça do tecladista.
- Ouch, Chang!
- Já disse pra não me chamar de japa. – comentou Chang.
Jack, Chris e Brian desataram em gargalhadas. O baterista levantou-se, arrumando os cabelos que estavam presos num frouxo rabo de cavalo.
- Bom, eu vou pegar uma cerveja pra mim. Alguém mais quer?
- Mais uma rodada pra todo mundo. – comentou Chris, tirando uma nota de vinte do bolso – Por minha conta.
- Vem, eu te ajudo com as bebidas. – comentou Jack, indo na direção do baterista.
Ambos foram em direção ao bar, e logo pararam no final do balcão, esperando pela vez de serem atendidos. O local estava cheio por ser uma sexta-feira à noite. Jack se espremeu ao lado de Brian, ambos quase encostados na parede.
- Você demorou. – comentou o guitarrista. Ele olhou de lado, arqueando a sobrancelha – Aconteceu alguma coisa?
- Meu padrasto.
Jack suspirou. Desde que eles começaram a levar a sério o assunto da banda, eles chegaram a uma decisão. Se eles quisessem se dedicar totalmente à Miracle, eles teriam que sair da Berkeley.
O guitarrista sabia o quão difícil fora aquela decisão para o baterista, pois o ambiente na casa dele não era dos mais acolhedores, desde a morte de sua mãe. Ele e Chang tiveram sorte com os pais; aparentemente a situação não era a mesma para Brian.
- O que ele disse dessa vez? – comentou Jack, levantando a mão a afagando os cabelos frouxamente presos.
- O de sempre, que eu deveria me envergonhar de ter largado a Universidade por um sonho tão fútil, que eu deveria me preocupar com a minha educação. Mas hoje... – Brian suspirou, inconscientemente recostando-se contra o afago em seus cabelos – Ele teve a coragem de dizer que minha mãe ficaria desapontada se estivesse viva. Deus Jack, eu quase quebrei a cara dele.
Jack não pôde evitar. Ele encostou o rosto contra o pescoço de Brian, ainda afagando seus cabelos.
- Você sabe que isso é mentira, não sabe? – disse abafado contra o pescoço dele.
Brian suspirou e fez Jack encará-lo, seus dedos tocando o rosto dele levemente.
- Obrigado Jackie.
O guitarrista encarou-o, piscando.
- Pelo que?
- Por ser você. – retrucou Brian, dando de ombros.
Jack sorriu.
- Sempre que precisar Brian.
Eles se encararam, subitamente perdidos no olhar um do outro. Brian estava muitíssimo distraído com jeito que Jack mordia o lábio inferior, aquela boca ficando mais e mais vermelha. Ele começou a inclinar-se, seu coração disparando ao ver que Jack apenas o fitava, sem se afastar.
- O que vão querer rapazes?
O feitiço quebrou-se como vidro. Ambos voltaram o olhar para o barman, que os encarava com um sorriso acolhedor.
- Cinco cervejas. – comentou Brian, tirando a nota de vinte dólares do bolso e entregando ao robusto homem.
- É pra já. – respondeu o barman, indo buscar as cervejas.
Brian suspirou assim que o homem saiu da frente deles e Jack desviou o olhar para a mesa onde seus amigos se encontravam.
- Cara, mal posso esperar para gravarmos um disco, assim quem sabe você tenha dinheiro para sair da sua casa.
O baterista sorriu.
- Bom, quanto a isso...
Jack sorriu para ele de volta.
- O que foi?
O barman voltou com as cinco cervejas. Brian pegou três e Jack duas.
- Vem, quero falar com todo mundo.
Eles seguiram de volta para a mesa, onde encontraram Kyle e Chris entretidos numa conversa. Chang terminava sua cerveja, ouvindo a música ambiente. Brian sentou-se ao lado de Kyle, colocando as bebidas na mesa e Jack sentou-se ao lado de Chang.
- E então Brian, que tal nos contar agora? – disse Jack, assim que todos pegaram a cerveja.
- Contar o que, hein? – disse Kyle passando o braço pelos ombros dele, tomando um gole da sua cerveja.
O baterista sorriu e tomou lentamente um gole da bebida em sua mão, sentindo os olhares em expectativa na sua direção.
- Bom, rapazes... – seu sorriso se alargou – Nós temos um contrato. E se vocês concordarem, começamos a gravar logo depois do ano novo.
Jack e Kyle exclamaram alto, erguendo-se da mesa.
- Caralho não acredito! – riu Kyle, abraçando Brian.
Os outros começaram a rir, falando alto, abraçando um ao outro. Jack finalmente se aproximou e encarou Brian, sorrindo largamente. O baterista deixou a cerveja na mesa e aproximou-se, abraçando-o apertado.
- Nós conseguimos Jack. – murmurou Brian rente ao seu pescoço.
O guitarrista sentiu um arrepio percorrer seu corpo ao ouvir aquela voz tão perto do seu ouvido. Ele abraçou-o de volta, igualmente apertado.
- É, nós conseguimos Brian.
A celebração durou quase a noite toda e quando era por volta das quatro horas da manhã eles caminharam de volta para Berkeley. Kyle pegou uma carona com Chris, pois precisava voltar para a faculdade no primeiro ônibus. Chang e Jack ajudaram a levar um alegre Brian, que estava completamente bêbado. Eles entraram o mais silenciosamente possível nos dormitórios da Universidade, Jack pedindo para Chang vigiar a entrada. Logo ele praticamente carregou o outro pelo corredor. Ambos começaram a rir sozinhos, falando besteira. Jack apoiou o baterista contra a parede, pegando a chave dentro do casaco.
- Porque você quis voltar aqui e não pra sua casa é um mistério.
- E ouvir meu padrasto falar merda pra mim de novo? Não obrigado. – Brian riu. – Além disso o Thomas ta na casa da família dele, vou ter o quarto só pra mim. Ele falou que eu podia usar sem problemas.
Jack revirou os olhos e voltou a se concentrar na fechadura. Finalmente conseguiu abrir a porta e quase caiu dentro do quarto com o impulso que deu para abri-la. Ele não estava totalmente sóbrio.
- Depois eu que estou bêbado. – comentou Brian, abraçando-o por trás.
Jack riu alto e depois tampou a boca com a mão, ainda rindo, temendo que o som tivesse acordado metade do corredor. Eles entraram no quarto e o baterista fechou a porta com o pé. Jack foi ajudando-o até a cama, empurrando-o com um toque em seu peito. Brian riu enquanto caía de costas contra a pequena cama. Ele sorriu travesso e puxou Jack pelo pulso. O guitarrista não estava no melhor do seu equilíbrio e logo ele caiu desajeitado em cima de Brian.
- Ouch! Se eu acertei algo indevido, a culpa é sua Brian.
O moreno riu, apoiando-se contra os travesseiros, sua mão direita tirando a franja dos olhos claros de Jack.
- Felizmente você não acertou nenhuma parte sensível. – comentou.
Jack riu, apoiando os braços do lado do corpo do Brian. O riso foi morrendo aos poucos, mas ele ainda mantinha um sorriso enviesado no rosto. Brian piscou e então sorriu também.
- Cara, eu estou muito bêbado.
O guitarrista riu baixo.
- Eu também.
Brian mordeu a boca então o puxou pela camiseta, beijando-o. Jack sorriu dentro do beijo, totalmente bêbado para sequer pensar o que aquele gesto significava. Ele apenas abraçou o baterista pelo pescoço, deixando o peso do seu corpo ficar contra o corpo de Brian. Ambos fecharam os olhos, sentindo o gosto de cerveja e tequila naquele gesto. Brian puxou Jack pelos cabelos, aprofundando o beijo e num gesto lento e quase atrapalhado, virou seus corpos na cama, ficando por cima.
Continua...