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Fiction » Young Adult » Elevator Love Letter font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Sofia Lemos da Costa
Fiction Rated: K - Portuguese - Romance - Reviews: 2 - Published: 04-11-09 - Updated: 04-11-09 - Complete - id:2658890

O relógio já ressonava, os ponteiros quase alinhados no cimo. Era mais que horas de ir para casa. Anna desejava a sua cama, queria os seus lençóis macios e o cheiro familiar. Mas o frio era-lhe insuportável.

Olhou à volta. Era a última pessoa no seu piso, ou pelo menos foi o que lhe pareceu. Suspirou.

O frio, o vazio, o silêncio. Porque tinha de viver assim? Merecia também uma vida, uma família, um abraço e um sorriso ao chegar a casa. Precisava de algo mais.

Desligou as luzes e o computador. Tirou os óculos e esfregou os olhos. Tinha mesmo de descansar.

O elevador acolheu-a com a campainha que tocava de andar em andar, sempre suave, sempre igual. Ela gostava do elevador, da sua campainha, das suas luzes - sempre tão previsível, sempre alí, sempre estável.

Anna precisava de uma vida assim. De alguém na sua vida, diga-se antes.

Quando tinha sido a última vez que tinha estado com alguém? Já se haviam passado uns bons meses. tinha sido um homem bem mais velho, casado com uma senhora de pele repuxada e com uma mala que custava mais do que Anna recebia por mês, certamente.

Conhecera-o num bar, um onde nunca ia, um onde só ia quando estava desesperada. Ele pagou-lhe um copo, meteu conversa, tocou-lhe na perna suavemente. Acabara por leva-lo para sua casa, não fosse a mulher aparecer mais cedo ou telefonar.

A noite não lhe valera o vestido amachucado nem a maquilhagem esborratada. Não fora nem metade daquilo que ela imaginara. O homem tomou duche e saíu ainda de noite, para não ser apanhado.

O elevador tocou uma última vez. Anna estava cansada. Cansada do dia, cansada da noite, do trabalho, da solidão, do vazio, do frio.

- Boa noite, Anna - um rapaz cumprimentou-a quando chegou à entrada.

Ele era jovem, bonito, com o cabelo certo e as roupas engomadas. Tinha um sorriso afável e os seus olhos cor de mel pareciam brilhar. Anna não sabia o nome dele, nunca tinham sido apresentados. E de que valeria serem apresentados? Ele nunca deixaria de ser o rapaz que se despedia dela todas as noites.

Anna sorriu-lhe e acenou-lhe, ainda que tristemente, abrindo a porta para o frio da noite.

Agora que pensava nisso, estaria o rapaz lá todos os dias? Porque o encontrava sempre, saísse às seis da tarde ou à uma da manhã? Talvez trabalhasse na recepção. Ou fosse estafeta. Que idade teria ele? Uns vinte e cinco, talvez.

Caminhou para casa, abraçada ao casaco. As ruas estavam quase desertas, excepto pelos homens que passeavam os cães e os namorados que se abraçavam às portas das casas.

Que idade tinha ela? Não se sentia nova, mas não se lembrava de ter feito anos assim tantas vezes assim. Abriu a mala e procurou pela carta de condução - vinte e três. Vinte e três?! Era possível? Talvez, mas não se sentia nova...

A casa recebeu-a silenciosa, fria, sem um olá nem boa noite. Olhou-se ao espelho à entrada; há muito que não o fazia. Os seus cabelos chocolate estavam apanhados num desalinho, volumoso e encaracolado. Os lábios pequenos estavam cortados e secos, devia pensar em por batom de vez em quando. Os olhos, por trás dos óculos de massa escura, estavam cansados e fechavam-se contra a sua vontade. Estava curvada, dobrada sobre si mesma, escondendo o corpo o melhor que sabia. Não se queria ver. Talvez tivesse vinte e três anos, quase vinte e quatro, mas definitivamente não se sentia assim.

Descalçou-se à porta e largou a mala a um canto. Cambaleou para o quarto e adormeceu ainda vestida.

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Ela já se fora. Mais uma vez não tivera coragem para lhe dizer que gostava dela, para lhe pedir para ir tomar um copo com ele, para lhe contar como se apaixonara pela maneira como apanhava o cabelo rebeldemente, como esfregava os olhos debaixo dos óculos e suspirava sempre no fim. Gostava da maneira como ela sabia erguer a voz e não deixava que a pisassem; pelo menos no que tocava ao trabalho.

Era quase meia noite, confirmou Gabe no relógio de pulso. Estava a chegar aquela altura novamente. Tinha aprendido as suas rotinas, a maneira como, de vez em quando, saia e voltava no dia seguinte fresca e sorridente. Nessa altura sairia da empresa à hora normal, no meio da confusão. Por duas ou três semanas Gabe podia apanhar o mesmo elevador sem ser suspeito, mas ela ia ficando mais e mais tempo sentada em frente ao computador, saindo mais tarde a cada dia que passava. O seu limite era perto da meia noite e meia. Por volta dessa altura voltava a sair e o ciclo repetia-se.

O carro estava frio, mas a música alegre aqueceu-o rapidamente, enquanto ele cruzava as ruas iluminadas. Os bares começavam a meter os jovens na rua, estava na hora de eles irem para casa, e a receber os mais velhos, os mais bens vestidos, os que pagavam mais.

De que tipo de música gostaria ela? Do jazz profundo e do rock calmo, quase que podia apostar. Gostaria certamente de mulheres que cantavam pelos seus direitos e dos homens que confessam o seu amor por algo mais que a beleza exterior. Era por essas pequenas coisas que ela sorria. Gabe seguia-a varias vezes, andando perto dela na rua, como se estivesse a acompanha-la, ou leva-la às compras. Queria pode-lo fazer de verdade, de a levar pela mão. Porque não tinha coragem suficiente para a convidar?

Talvez no dia seguinte, talvez se ela viesse com aquela saia aos quadrados e a camisa que ele tanto gostava... Talvez se ela saísse quase à uma.

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Anna levou a camisa branca, mas deixou a saia aos quadrados em casa - para quê aperaltar-se quando ninguém iria reparar nela? As suas calças pretas eram bem mais cómodas.

De manhã defendeu uma mulher que lutava pelos filhos e à tarde um combatente que tinha perdido a casa por não a ter pago enquanto estava de coma nas terras de Oriente. Depois de comer um wrap quente deixou-se ficar no escritório a olhar para o monitor. Já passava da uma quando ela desligou o computador, pegou na mala e entrou no elevador.

Observou as portas a fecharem-se lentamente até que um ténis gasto se atravessou entre elas, fazendo-as voltarem a abrir.

- Boa noite - cumprimentou o rapaz de cabelos castanhos e olhos de mel. - Estás muito bonita, Anna.

A porta fechou-se e ele olhou-a de frente. Anna corava levemente, desviando os olhos para o chão e desviando o cabelo da cara.

- Obrigada.

Porque estava tão embaraçada? Ele era apenas um rapaz novo, extrovertido. Certamente tinha dito aquilo sem pensar; da mesma maneira que cumprimentava uma senhora velhinha no autocarro ou agradecia quando paravam para o deixar passar na passadeira. Nada de mais.

- Anna?

Olha para cima. Olha para cima. Os ténis dele eram velhos, pretos. O direito tinha um buraco no lado de fora e de lá espreitava uma meia azul clara. Olha para cima. Olha para cima. O esquerdo estava mais gasto, como se ele jogasse futebol e fosse canhoto. Olha para cima.

- Sim?

Gabe respirou fundo. Por momentos pensou que ela não iria olhar, nem responder. Porque o iria fazer, de qualquer das maneiras? Ela tinha o seu mundo, e ele não fazia parte dele. Ele era apenas o rapaz que lhe desejava as boas noites, estafado, depois de ter descido incontáveis lances de escadas a correr para acompanhar a velocidade do elevador.

- Já jantaste? - coçou a cabeça. - Quer dizer, queres ir comer qualquer coisa?

Piscou os olhos. Ele convidara-na para sair? Não, não podia. Ninguém a convidava para sair há... demasiado tempo. Devia ter fome, e não queria comer sozinho. Era triste comer sozinho. A sua barriga revoltou-se audivelmente.

- Claro - sorriu timidamente, prendendo o cabelo atrás da orelha.

Gabe estava radiante. Levou-a até ao seu carro pequeno, com os estofos vermelhos e os detalhes prateados, ligou o rádio baixinho e levou-a ao seu restaurante preferido na cidade - sabia que estaria aberto por mais algum tempo.

Era pequeno, ficava na zona antiga, tinha uma esplanada aquecida com vista para o rio e a comida vinha sempre óptima. Gabe gostava de lá jantar todas as noites, mas sozinho era apenas triste. As empregadas de mesa olhavam para ele com olhos tristes e sorriam o mais que podiam, como se assim o fizessem sentir mais acompanhado.

Anna estava fascinada com as luzes reflectidas na água escura, a luz da lua bailando sobre eles e o pequeno barco à vela que velejava lentamente, cortando as águas.

Pediram a primeira coisa no menu e, rapidamente, Anna deixou a timidez para trás. Falou rapidamente, contou-lhe tudo o que sabia, queria e sonhava. Há quanto tempo não se abria com quem quer que fosse? Era fácil de falar com ele. Sempre tão atento, os seus grandes olhos de mel pregados nela como se sorvesse tudo o que ela lhe dizia e daí se sorria sem reparar e ela gostou do sorriso - fácil e simples, como estar com ele.

Gabe estava fascinado. Ela era tudo o que ele sempre imaginara - desde a voz alta e certa, aos gestos largos e o sorriso fácil. Porque se mostrava sempre tão triste quando saia do trabalho à noite? Os cabelos encaracolados de Anna reflectiam as luzes de tal maneira que, inconscientemente, Gabe teve de lhes tocar.

Silêncio.

Ele tremeu. Ela corou.


N/A: Às vezes nem eu sei porque raie escrevo as coisas. Vi o título da música no nick de uma amiga há algum tempo e, algures no meu inconsciente, aquilo ficou gravado - tinha de escrever uma história sobre aquele título, aquelas três palavras.

O Gabe e a Anna não têm cidade, não têm último nome e, na realidade, não têm muito mais do que eu escrevi aqui, mas eu gosto deles assim - simples.

Já agora, a música "Elevator Love Letter" é dos Stars



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