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Por Leona-EBM
Meu Estagiário
Parte III
E na manhã seguinte, Edward estava de pé, muito bem vestido, olhando para seu anjo que dormia na cama. Ele retirou Benjamin dali, o vestiu e o levou até o andar debaixo, prendendo-o a cadeira de madeira da cozinha, forçando-o a beber e comer alguma coisa.
- Eu vou acordar nossos hóspedes.
- Hóspedes? Que hóspedes?
Edward não respondeu, ele foi até o andar superior e trouxe Helena e Edgar que estavam um pouco preocupados e indignados por terem sido trancados no quarto, mas o diretor disse que eram procedimentos do treinamento.
- Benjamin!? – indagaram os dois estagiários em uníssono ao ver que ele estava preso a cadeira.
O moreno nada disse, apenas exibiu um olhar carregado de preocupação e constrangimento, afinal ele era o responsável pela presença daquela dupla. Edgar deu um passo à frente, a fim de soltar o seu amigo, mas parou ao ouvir um som metálico, seu olhar rodou e ele encontrou um cano de metal apontado na sua direção.
- Quietos. – falou Edward com uma voz um pouco mais grossa e um pouco arrastada, como se fosse do interior.
Helena tremeu levemente e começou a chorar baixinho, resmungando e indagando algumas coisas que estavam em sua cabeça. Edgar deu um passo para se aproximar da garota, tocando no seu braço para acalmá-la, sem tirar os olhos do diretor.
- Agora podemos fazer um bom treinamento. – concluiu com um sorriso cínico nos lábios. – Edgar, pegue a algema que está em cima da pia e prenda Helena como fiz com Benjamin.
O rapaz obedeceu e quando terminou sua tarefa, foi a vez dele de se encontrar amarrado a cadeira, agora os três jovens estavam presos, olhando para aquele maníaco.
Edward balançou a cabeça para um lado e para o outro e depois olhou para o lado, sorrindo para o vazio, então ele começou a falar com alguém que possivelmente estava na sala, mas nenhum dos três conseguia ver.
- Com quem ele está falando? – indagou Helena.
- Eu acho que é com o caseiro. – respondeu Benjamin.
- Tem mais alguém aqui?
- Eu não sei, eu acho que tem um caseiro e a esposa dele. – falou o moreno, que não acreditava muito nessa hipótese.
O diretor terminou seu diálogo e se afastou, voltando minutos depois com uma garrafa de vodka na mão. Ele puxou uma cadeira e sentou-se à mesa, pegando uma faca pontuda e bem afiada.
- Vamos à nossa prova teórica. – ele disse – eu vou fazer algumas perguntas fáceis, que qualquer universitário saberia a resposta. E quem não acertar, terá uma cicatriz no corpo.
O olhar do trio ficou em pânico, Benjamin abriu a boca para implorar por misericórdia, mas não teve tempo, logo ouviu a voz do diretor.
- Quanto a você, não se preocupe, pois seu castigo será outro. Não vou te machucar, meu amor.
Helena e Edgar olharam para o moreno sem entender aquele tratamento. Talvez Edward tivesse abusado do ex-estagiário, porque ninguém sabia da relação íntima deles.
- Ah, como está barulhento aqui hoje! – exclamou com certa irritação – as pessoas não param de falar um minuto sequer.
Benjamin suspirou e disse:
- Não tem ninguém falando.
- Não? Pobre criança, você está tão assustado que perdeu a consciência. – disse, balançando a cabeça negativamente – o meu caseiro está discutindo com sua esposa na sala e ele tem uma faca. Eu acho que não vai sair boa coisa dali. Mas o caseiro que me sugeriu essa lição para vocês.
- Que caseiro?! – indagou Helena num grito choroso.
- Oras, o caseiro. Ele veio nos receber quando chegamos ontem. Não viu que eu fiquei falando com ele?
- Não tinha ninguém ao lado do carro! – falou Edgar, recebendo um olhar assassino do mais velho, então resolveu se calar.
Helena ia falar mais alguma coisa, porém Benjamin lhe deu um toque suave nos pés, a garota lhe olhou e ele balançou a cabeça negativamente, pedindo que ela parasse de perturbar o mais velho. Talvez o único que soubesse da loucura do diretor fosse Benjamin, apesar dos demais já estarem estarrecidos com sua loucura.
- Ou nós cuidamos do que temos, ensinando como deve ser o amor ou então ficamos sozinho. – disse Edward, olhando de canto para Benjamin – foi assim quando você entrou na minha vida solitária. Não fazia nada a não ser conversar com meus vizinhos de vez em quando.
- Os vizinhos do andar debaixo?
- Ah, sim. Eles eram barulhentos demais, eu tinha que ir reclamar, mas acabamos fazendo um pouco de amizade. Eu te disse que tinha amizade com eles.
- Sim, você me disse. – concordou Benjamin, mesmo que soubesse que o andar abaixo do apartamento era inabitado há mais de um ano.
Edward suspirou e passou a mão por sua testa suada.
- Vamos começar. Helena, como sou um cavalheiro eu vou deixar que você comece. – avisou – a primeira pergunta: Qual o nome do artista espanhol que pintou o quatro “Persistência da Memória?”.
Helena arregalou os olhos e balançou a cabeça negativamente, sentindo um frio aterrorizante cortar-lhe a espinha. Ela temia a lâmina fria da faca que estava descansando na mesa.
- Vou dar uma dica: era um artista surrealista.
E ela voltou a balançar a cabeça novamente.
- Ele era espanhol. Ainda não sabe?
Nem mesmo Edgar sabia de quem se tratava. Ver um quadro e apontar um autor é fácil, agora saber o nome deles é muito difícil. Poderia ser vários artistas que fizeram tal obra.
Benjamin abriu a boca para responder e tirar sua amiga daquele sufoco e como resposta recebeu um tapa no rosto que teve força o suficiente para virar toda sua cabeça, estalando seu pescoço, causando ardência e dor na jugular.
- Eu não perguntei para você ainda, amor. Não interrompa. – disse – vou contar a até três, senão responder, terá seu castigo.
A garota voltou a chorar, vendo a faca que até agora descansava, receber uma aparência mais aterrorizante nas mãos daquele homem que se ergueu, caminhando até as costas da cadeira onde estava sentada. Quando Edward falou o número três, ele deu a resposta num sussurro.
- Salvador Dalí. Não é tão difícil. Você deveria ter estudado mais.
E para o assombro dos presentes, Edward encostou a ponta da faca na bochecha da garota, afundando o metal lentamente, tingindo a face cândida com um vermelho vivo que vinha acompanhado de um grito agonizante. O metal foi subindo o corte, até o início do olho direito, afundando-se no seu orbe que se manchou de sangue. Helena gritava apavorada, fechando a pálpebra que lacrimejava, causando mais ardência.
Benjamin e Edgar gritavam, imploravam para que ele parasse com aquela tortura, mas o risco da faca só parou quando chegou no início do corou cabeludo. E satisfeito com aquele quadro ensangüentado, Edward voltou a se sentar na cadeira, pegando um pano para limpar a faca.
- Silêncio ou eu corto os dedos dela e depois a língua de vocês. – falou, vendo que os dois se silenciaram – agora, é sua vez, Edgar. Vejamos... Vejamos... – falava baixinho, balançando a cabeça de um lado para o outro, pensando no que ia perguntar.
- Edward... – Benjamin o chamou.
- O que foi? Não interrompa meus pensamentos.
- Eu faço o que você quiser, mas deixe-os irem. Eu prometo que faço tudo, tudo mesmo que quiser.
- Mesmo? – indagou com um largo sorriso.
- Sim, eu prometo. – falou com convicção.
Edward olhou para trás e comentou alguma coisa com o vazio novamente.
- O caseiro resolveu se juntar a nós para assistir ao treinamento. – falou – o cumprimentem, não sejam mal educados!
Os dois rapazes olharam para o lado de Edward, notando o grau de sua loucura. Ele falava com pessoas imaginárias, era um esquizofrênico e pior, ele era também um psicopata.
- Ah, não fale assim do meu namorado. – disse de repente – eu vou ficar com ciúme. Ah, sim, sim, esse rapaz é amigo dele. Ele é meu novo estagiário e...
O diálogo prosseguiu e Benjamin observou Edgar entortar suas mãos na algemas, tentando sair dali mesmo que seus pulsos se cortassem. O moreno começou a fazer o mesmo, pois ele mesmo acreditava que não ia sair vivo daquela história se continuasse nesse ritmo.
- Mas vamos voltar à prova! – disse de repente – já sei o que vou perguntar. Qual movimento artístico tinha uma obra chamada “O Urinol?”.
- Dadaísmo. – respondeu Edgar imediatamente, para a decepção de Edward.
- Vamos voltar para a Helena. – disse – qual é o nome do artista que vendeu apenas um quadro enquanto estava vivo? Sem dicas dessa vez.
A garota voltou a balançar a cabeça negativamente. Edward voltou a se levantar, contando baixinho, esperando que ela conseguisse falar algo. O diretor estava ficando irritado com aquele choro.
- Matá-la? Acha mesmo? – indagou o diretor, olhando para o vazio – acho que ela está muito irritante. Essa mulher está se sentindo muito especial no meio de tantos homens.
Helena começou a implorar ao ver a faca se aproximando, Benjamin foi pedir pela vida dela e voltou a receber outro tapa de abalar toda a estrutura de seu corpo. Edgar se manteve em silêncio, abaixando a cabeça e olhando para baixo. Ele não queria ver o que ia acontecer, mas mesmo assim ouviu o grito histérico.
A faca havia sido enterrada no seu ventre e agora subia languidamente até os seios, abrindo todo seu corpo num movimento bruto e doloroso. Os minutos seguintes foi marcante, cheio de gritos acompanhados da risada divertida do diretor. E um silêncio fúnebre caiu pelo cômodo quando a vida esvaiu-se daquela bela e inocente jovem que agora estava com a cabeça pendendo para frente.
Benjamin tremeu ao sentir um toque no seu ombro, os braços do diretor abraçaram-no por trás. Ele sentiu o lábio molhado de Edward lhe beijar a bochecha, causando-o nojo e repulsa, mas nada disse, não queria irritá-lo.
- Isso não é uma bela obra de arte, amor?
- Não.
- Não acha? Eu fiz isso por você.
- Não! Não por mim.
- Claro que sim, para o nosso amor. Ninguém vai nos perturbar mais. – sussurrou, acariciando os fios negros com a mão suja de sangue – olhe e veja que vermelho bonito.
- Eu não quero olhar.
- Não? Que pena. Eu tiro uma foto para você ver depois.
- Por favor, pare com isso.
- Quer que eu pare? Eu não estou fazendo nada demais.
- Está sim, está me chateando.
Edward pareceu dar atenção. Ele não queria chatear seu namorado.
- Está magoado comigo?
- Sim.
- Então eu vou parar.
- Por favor, pare.
Edward suspirou e puxou o rosto na sua direção, pedindo para que ele abrisse seus olhos e assim Benjamin o fez, encarando os orbes negros e profundos.
- Você vai parar?
- Se você não ficar mais magoado comigo, eu paro.
Benjamin exibiu um leve sorriso de alívio para a alegria de Edward que adorou ver os olhos azuis brilharem para ele.
- O que!? – indagou de repente num grito, assustando os dois garotos que estavam um pouco mais tranqüilos.
Edward ergueu-se e desferiu um novo tapa na face de Benjamin que ficou sem reação.
- Por... Por que me bateu?
- O caseiro me avisou, como eu sou distraído. Você gosta desse pirralho! – gritou – quer protegê-lo e fica mentindo para mim!
Benjamin e Edgar se olharam, balançando a cabeça negativamente. Aquele homem era louco, o tal caseiro que estava “presente” naquela sala era o verdadeiro psicopata, aquele que o induzia a fazer aquelas barbaridades.
- O caseiro está querendo te fazer mal. – disse Benjamin de repente – ele quer que você cometa mais crimes para ir para prisão e me deixar sozinho com ele.
Edward parou de reclamar e voltou a olhar para o vazio, olhando com certa irritação para o homem imaginário que estava a sua frente.
- Ele te falou alguma coisa, amor? – indagou.
- Sim, sim. Na casa dele, quando eu o vi. Ele me disse algo desconfortável.
- Disse? Por que não me falou?
- Não queria arranjar briga.
E a cena a seguir foi de pura loucura ao olhar de Benjamin e Edgar. Edward começou a bater boca com seu amigo imaginário, caminhando até a sala, apontando a sua faca contra o suposto caseiro. Da cozinha eles podiam ouvir a discussão solitária e o som de alguns móveis sendo arrastados.
- Temos que tentar fugir daqui. – Edgar sussurrou.
- Ele é esquizofrênico, pelos Deuses.
Edgar forçou seus pulsos ao máximo, mas não conseguiu se soltar o máximo que fez foi abrir seu pulso, sentindo uma dor forte e desconfortável. Benjamin também tentou, mas não conseguiu.
- Tente enganá-lo, fazê-lo acreditar que está errado. – Edgar pediu – e o que é que vocês têm?
- Eu saia algumas vezes com ele. – respondeu – mas eu não sabia que ele era louco. Ele é louco e possessivo.
- Ah, Benjamin. Você não percebeu que ele era assim?
- Ele sempre foi atencioso demais, mas ele nunca se mostrou assim. Eu nunca o vi falar com pessoas imaginárias.
- Ele nunca falou com ninguém?
- Às vezes eu o ouvia falando sozinho no corredor do prédio... Ou então reclamando de vozes, mas não pensei que fosse isso! – murmurou, enquanto se contorcia na cadeira.
O desespero, o desejo de tentar fugir fazia com que a dupla esquecesse o cadáver que estava ao lado. Eles estavam em pânico, seus sentimentos eram de sobrevivência, todavia eles pararam de se mover quando Edward voltou, com uma respiração ofegante e um olhar enfurecido.
- Aquele maldito. Não acredito que teve a audácia de brigar comigo. Ele disse que não te falou nada, mas eu não acredito. – disse Edward.
- E o que você fez, amor?
- Eu o coloquei para correr, eu espero que ele não volte. – falou, sentando-se na cadeira.
- Ele me deixava nervoso. – falou Benjamin – Ed, você poderia me soltar?
- Por quê?
- Eu estou com vontade de ir ao banheiro.
- Poderia esperar, eu ainda não acabei com o seu amigo.
- Como!?
- Oras, eu não vou me esquecer dele tão fácil. – disse, erguendo e pegando o revólver que estava em cima da pia.
- O que você vai fazer?
Edward nada respondeu, ele encostou o cano frio e metálico na boca de Edgar, ordenando para que ele abrisse a boca. Benjamin pedia para ele não fazer nada, enquanto observava o dedo indicador começar a puxar o gatilho, o moreno fechou os olhos de repente e abaixou a cabeça ao ouvir o som alto que o disparo causou.
A cadeira que estava Edgar caiu no chão. Benjamin abriu seus olhos ao sentir um toque no seu queixo, encontrando o sorriso de seu doce e ciumento namorado.
- Está tudo bem. Vou levá-lo para o quarto.
As algemas foram abertas, contudo Benjamin nem tinha força para lutar contra aquele maluco selvagem. Ele foi carregado no colo, dando uma última olhada para os dois cadáveres que compunham aquela cozinha. No andar superior, Benjamin foi depositado na cama do quarto e Edward sentou-se ao seu lado.
- Você parece assustado. Mas foi melhor assim, você vai ver. – disse, beijando a testa do moreno – descanse um pouco, enquanto eu limpo aquela sujeira.
Edward olhou para a porta do quarto e resmungou.
- Então, você voltou. Eu disse para ir embora!
Benjamin se sentou na cama, olhando para o quarto vazio, observando a nova discussão que estava surgindo no quarto. Aquele pesadelo não ia mais acabar? Não, não enquanto aquele personagem continuasse a perturbar o diretor.
Edward estava distraído demais conversando com seu caseiro, aos poucos eles foi descendo da cama, ficando do outro lado, ainda sentado, olhando a todo instante para o diretor. De repente se levantou e saiu correndo, passando pela porta sem olhar uma única vez para trás, indo direto para o quintal, sem pensar em nada. Dessa vez não ia procurar ajuda, ia apenas tentar se esconder para depois fugir.
Por um momento olhou para trás e só enxergou uma sombra lhe seguir, todavia estava longe e isso o incentivou a correr mais rápido. Não queria nem sentir a presença de Edward. Ele atravessou um rio e tinha dois caminhos a se seguir, foi pelo o que lhe chamou mais a atenção, enfiando-se no meio do mato, machucando-se com os galhos de árvores que raspavam contra sua pele.
Não sabia há quanto tempo estava correndo, mas não ia parar, não enquanto pudesse respirar. Ele sabia que estava descendo, pois sua velocidade aumentava a cada segundo. Felizmente o caminho era denso, sendo assim Edward teria que segui-lo a pé.
A respiração estava começando a ficar dificultosa. Benjamin começou a andar, olhando a todo instante para trás. Ele era mais novo e mais resistente, seria impossível que Edward pudesse alcançá-lo tão facilmente. E com esse pensamento relaxou, mas algo lhe veio à mente de repente. Edward estava armando! Um tiro podia percorrer uma longa distância.
- “Tinha um vilarejo quando passamos... para que lado ficava?” – refletiu, olhando ao seu redor. E após muito pensar ele rumou para o oeste, vendo que o sol começou a se esconder numa nuvem escura.
O tempo passou e a escuridão começou a ser a única companhia daquele jovem e assustado rapaz. Benjamin parou num declínio e viu a cidade logo a baixo, com uma alegria indescritível no coração. Ele voltou a olhar para os lados, agora poderia encontrar Edward a qualquer momento, e então começou a andar, sempre abaixado, olhando para os lados, se pudesse se rastejaria.
A felicidade incendiou-lhe o peito quando pisou na entrada da cidade. Ele correu até o estabelecimento mais próximo, que era um café que estava um pouco cheio. Quando ele entrou, todo o lugar pareceu parar para olhá-lo. Benjamin estava imundo, tinha sangue e um olhar exausto.
Dois homens se aproximaram rapidamente, vendo-o desabar de joelhos no chão.
- O que aconteceu, filho?
- E-Ele matou... Todo mundo e está atrás de mim. – disse numa voz alta, alarmando as pessoas.
E logo chamaram a polícia. Benjamin ficou sentado numa cadeira, relatando o que aconteceu aos policiais, sendo que alguns já rumaram para a casa que ficava ao norte. E outros tentavam contatar as vítimas que Benjamin havia relatado.
O tempo passou, Benjamin estava na delegacia, com os olhos inchados de tanto chorar. Suas roupas haviam sido trocadas e ele já estava de banho tomado, quando um policial se aproximou do delegado, informando que havia achado os dois corpos enterrados com a ajuda dos cães.
- Você disse que ele é esquizofrênico, certo.
- Eu acho que sim. – falou – ele sempre se mostrou estranho, mas eu não sei se é mesmo.
- Nós iremos levá-lo para a cidade. Mas certamente o procuraremos para novos depoimentos, portanto não saia do estado ou do país.
- Eu vou ficar sozinho?
- Podemos deixar um policial com você no período noturno.
- Só? E se ele aparecer?
- Nós iremos achá-lo, não se preocupe. Agora se prepare, pois sua carona está chegando. E também pedimos que passe nesse endereço. É uma psicóloga muito boa.
Benjamin pegou o papel e foi guiado até o estacionamento. Ele se sentou no banco de trás e ali ficou, ouvindo música, pensando nas cenas terríveis que sofreu. Seu corpo tremia levemente, ele abraçou seu próprio peito e ficou olhando para os lados. Tudo lhe assustava! Se o som da música aumentava, ele tremia, e isso ocorria se o policial brecava, falava alguma coisa com ele, qualquer coisa que lhe chamasse a atenção.
E Benjamin estava na frente de seu prédio, ele subiu e foi até seu apartamento, que se encontrava vazio. Isso não era novidade, seu colega de quarto nunca estava em casa, mas também nunca desejou tanta sua presença como agora. Ele temia o silêncio.
O moreno se sentou no sofá da sala, ficando a ouvir o som dos carros na avenida logo abaixo ou a guitarra alta do vizinho. Nada fora do normal.
O olhar mirou o telefone, ele caminhou até o mesmo e viu que havia cinco mensagens na caixa eletrônica. Apertou o botão com a mão trêmula, dentro de poucos segundos começou ouvir as mensagens. As três primeiras mensagens eram para seu colega, de garotas que ele conheceu em alguma balada. A quarta mensagem foi uma cobrança do banco e a quinta se repetiu.
Benjamin respirou fundo e foi até seu quarto, olhando para o guarda-roupa vazio. Ele estava sem nenhuma roupa, tudo havia ficado nas suas malas que estavam naquela casa sombria. O moreno foi até a geladeira da cozinha e pegou um pote de Iogurte e voltou a se sentar no sofá da sala, tremendo, virando o pescoço para todos os cantos, forçando seus ouvidos a ouvir algo.
- “Eu não acredito que isso aconteceu. Meu Deus, eles estão mortos. Mortos... por minha culpa”.
O moreno encostou sua cabeça no braço do sofá e então dormiu, entrando num universo de pesadelos banhados pelo sangue e gritos de terror e pavor. Com esse tipo de imagens na sua cabeça, ele logo acordou, assustado, encontrando-se no cômodo escuro e vazio. Seu amigo ainda não havia retornado.
Benjamin foi até a janela, olhando para a rua, onde devia estar o carro de polícia que lhe resignaram. Todavia ele não estava mais ali. Certamente que a polícia só agia quando um crime realmente acontecia. O moreno foi até o interfone e falou com o porteiro, contando sobre o que havia acontecido e dizendo para não deixar ninguém estranho entrar no prédio.
- “Calma, Benjamin. Calma... ele não está aqui. Ele não está”.
O telefone tocou e o garoto gritou, rindo baixinho depois ao ver que era apenas o aparelho. O moreno puxou o gancho e ouviu uma respiração alta do outro lado da linha, fazendo todos os seus pêlos se arrepiarem. Ninguém disse nada.
A ligação caiu. Benjamin deu alguns passos para trás, olhando com medo para o telefone que voltou a tocar, ele tremeu e puxou o gancho novamente, colocando-o na sua orelha. Dessa vez ouviu um ruído e a respiração pesada novamente.
- Você não pode fugir de mim.
O mundo de Benjamin caiu quando ouviu aquela voz, ele ficou estático, com os olhos arregalados.
- Eu sabia que ia voltar para casa. Tem muita polícia atrás de mim e eu não fiz nada.
- Não fez nada!? – indagou num grito – você matou duas pessoas!
- Eu não matei ninguém, foi ele. Você viu ele me induzir.
- Ele quem?
- Aquele caseiro maldito, ele queria meu mal como você disse.
- O caseiro não existe, você é louco. Onde você está?
- Perto.
- Perto de que?
- De você.
Benjamin suava frio, olhando para os lados.
- Você ainda me ama?
O moreno não respondeu, desligando o telefone e tornou a ligando para o policial, explicando o ocorrido, engasgando, atropelando as palavras, pedindo ajuda. Vinte minutos depois, havia uma dupla de policiais no apartamento, conversando com o garoto.
- Ele disse que estava perto?
- Sim.
- O carro dele continua na cabana. Havia outro veículo?
- Um barco, é só o que eu sei.
Os dois policiais se olharam não entendo como ele havia conseguido fugir. Talvez tivesse uma moto numa garagem.
- Aconselhamos que você fique na casa de algum amigo seu.
- Eu não tenho.
- Olha, nós vamos deixar uma viatura vinte e quatro horas lá embaixo. Tudo bem?
- Vocês disseram isso antes e não tinha ninguém aqui!
- Mas agora terá, pois o suspeito entrou com contado. Não se preocupe, qualquer coisa nos ligue. Nós vamos grampear seu telefone caso ele ligar novamente, apenas tente deixá-lo na linha por dois minutos para conseguirmos pegá-lo.
- Dois minutos?
- Sim. Nós vamos indo agora.
Os policiais se foram e Benjamin trancou a porta e foi até a cozinha pegando uma faca afiada, para depois sentar no sofá da sala, ligando a televisão. Ele tentava se distrair, mas o medo era algo que não podia ser enganado, não podia fingia ser forte se estava apavorado. E novamente o telefone tocou e lá foi Benjamin, se arrastando, temendo ser o homem que fazia de sua vida um verdadeiro inferno.
- Alô?
- Por que desligou na minha cara?
- Onde você está?
- Perto, eu já disse.
- O que você quer?
- Você, meu amor.
- Quer me matar, pelo jeito.
- Por que diz isso?
- Você me ameaçou.
- Mentira.
- Você me prendeu, me bateu.
- Perdão, eu estava confuso. Ele ficava me falando para te machucar.
- Mas os outros você machucou. Você os matou. Toda polícia está atrás de você.
- Eles vão me prender, me acusar. Ajude-me, Benjamin. Fale para eles que eu não tenho culpa.
- Não.
- Você não me ama mais?
Benjamin olhou para o relógio, ainda faltava poucos segundos para dar os dois minutos pedidos.
- O que você acha?
- Eu não sei. Eu quero saber se você ainda me ama.
- E se eu não te amar?
Um segundo de silêncio.
- Se você não me amar, não vai amar mais ninguém.
- Por quê? Vai me matar também?
Silêncio novamente.
- Você ainda me ama? Eu só preciso saber.
E deram dois minutos, Benjamin desligou e voltou a ligar para a delegacia, informando que havia mantido o diretor durante dois minutos na linha, ele foi instruído a aguardar enquanto rastreavam a ligação.
Benjamin se sentou no sofá e telefone voltou a tocar, mas dessa vez não atendeu. Ele ficou abraçado aos seus joelhos, movendo seu corpo para frente e para trás. Até que caiu na caixa postal, ouvindo a seguinte mensagem:
“Se você não me responde por telefone, eu vou te perguntar pessoalmente”.
- “Se eu ainda te amo? E um dia eu te amei? Só não vou te responder isso, pois não faço idéia de onde você está”. – refletiu, voltando a olhar para a viatura que estava na rua.
Benjamin ficou no sofá até a madrugada, olhando a todo instante para porta, ele não conseguia dormir, mas seu corpo não resistiu até que suas pálpebras se fecharam. Ele dormiu.
O tempo passou, o apartamento estava iluminado com os raios matutinos. Era uma manha chuvosa, o céu estava escuro e os ventos numa velocidade altíssima. Benjamin acordou ao ouvir a porta do quarto batendo, ele bocejou e olhou para os lados, indo até o banheiro para urinar. Ele caminhou até o quarto e viu que seu amigo havia retornado finalmente e agora estava sentado em cima da cama.
- Eu pensei que você não ia mais voltar! – exclamou, entrando no quarto.
Quando pisou no cômodo, ele olhou para os olhos assustados de seu amigo que miravam um canto. Benjamin olhou de soslaio e viu um revólver apontado na sua direção. Era o seu pior pesadelo voltando.
- Eu não sabia de nada. – o companheiro de quarto, chamado Luca, falou – ele me abordou na saída do meu curso ontem.
- “Esperto”.– pensou, sentindo seu corpo se arrepiar, pois tinha medo de olhar nos olhos de Edward – “Entrou de carro, tranqüilamente. Ninguém percebeu. Que bosta de segurança”.
Um leve empurrão fez Benjamin andar até a cama, ele ainda não havia olhado para trás. Quando se aproximou de Luca, ele se sentou ao seu lado ao receber outro empurrão e agora podia olhar para os olhos negros que irradiavam loucura e ira.
Edward estava limpo, bem vestido e com uma ótima aparência. Não parecia que estava correndo pelo mato de policiais. O diretor ergueu o braço e depois o desceu contra a cabeça de Luca que caiu desmaiado no chão, agora tinha a privacidade que queria.
- Pensou que ia fugir?
Benjamin engoliu em seco. Ele balançou a cabeça positivamente.
- Por que queria fugir?
- Eu tenho... Medo de você. – confessou.
- Não deveria. Eu nunca te machuquei. Bom, eu dei aqueles tapas, mas eu estava muito bravo na hora.
- Por favor, não me machuque. – pediu, com os olhos cheios de lágrimas.
Edward colocou a arma no cós de sua calça de trás e empurrou o tronco do menor para trás, que acabou se deitando. O diretor subiu na cama e se sentou no baixo ventre do moreno, erguendo os braços dele para cima, prendendo-os.
- Você viu um lado meio irracional. Perdão se te assustei.
- O que você quer fazer?
- Eu só quero ouvir sua resposta. Por que não me respondeu?
- Porque eu não quero.
- Por quê? Diga-me. Você ainda me ama?
Benjamin fechou suas pálpebras com força e respondeu, balançando a cabeça positivamente. Para depois sussurrar:
- Mas não queria.
Edward sorriu e acarinhou o rosto jovem e belo com uma felicidade indescritível no olhar. Era tudo o que ele precisava ouvir.
- Eu sei que está bravo, mas tudo vai passar.
- Por favor, não machuque mais ninguém.
- É assim que você quer?
- Sim.
- Então assim será, meu amor.
Edward se levantou e o puxou pela mão, colocando seus óculos escuros que estava no bolso da camisa. A dupla saiu do apartamento, indo pelas escadarias até o andar do estacionamento. Benjamin olhava para os lados, mas não havia ninguém para procurar ajuda e não ia ser louco de querer fugir com Edward armado.
Não havia câmeras, somente no elevador. Quando chegaram no estacionamento, eles pegaram o carro de Luca, e saíram sem nenhum problema. Péssima segurança! E já na rua, Benjamin se encostou ao vidro do carro, observando a liberdade das pessoas que caminhavam pelas ruas.
- Está chovendo muito. Eu acho melhor a gente ir para um lugar calmo.
- Que lugar?
- Vamos para o interior, alugar uma casa e ficarmos lá. O que acha?
O carro parou no farol vermelho, Benjamin levou a mão lentamente até o cinto, soltando-o em silêncio, enquanto a outra mão estava ligando o rádio. Quando o farol ficou verde e os carros moveram-se lentamente para andar, o moreno abriu a porta e fechou, saindo em disparada. Ele olhou para trás e viu que o carro continuou parado, Benjamin correu de costas naquela chuva, até que viu o vidro abrir no automático, para encarar o olhar furioso do diretor.
Se eles se encontrassem novamente não havia mais enganação. Com certeza Benjamin seria morto. O moreno virou a esquina e entrou no primeiro estabelecimento que viu, chamando a polícia, todavia as coisas estavam andando para um caminho certo dessa vez. Luca havia acordado no instante que saíram e ligou para a polícia, avisando que seu carro havia sido roubado por Edward.
Benjamin ficou naquele restaurante, esperando uma viatura que chegou um tempo depois com uma boa notícia. Edward havia sido preso finalmente. O terror havia acabado, o agressor juntamente com sua loucura estavam detidos, mas isso não fazia o passado ser alterado e nem mesmo as cicatrizes serem esquecidas.
O policial o deixou na sua casa novamente e lá encontrou seu amigo que estava com uma faixa em volta da cabeça, tomando uma xícara quente de chá, enquanto conversava com uma policial. Quando Benjamin entrou, ele foi abordado para mais um interrogatório, para depois ser designado para o setor psicológico do departamento. Ele com certeza precisaria de ajuda profissional para superar o trauma e a tremedeira que envolvia seu corpo.
- Acabou, Benjamin. – disse Luca, passando o braço envolta dos seus ombros que tremiam.
- Ele pode pagar fiança, advogados e...
- Hei, calma, amigo. Ele não pode pagar fiança por assassinato. Calma, ele vai ser preso. Possivelmente para um manicômio.
- Tem certeza?
- Claro que tenho, ele não vai mais voltar.
Benjamin pareceu sossegar, voltando a sua racionalidade. Ele se deitou na cama quando todos os policiais e os xeretas foram embora. A paz havia retornado ao mundo exterior, todavia suas memórias estavam caóticas, sempre que fechava os olhos lembrava do rosto ensangüentado de Helena ou do disparo que matou Edgar, felizmente não viu o estado que ficou o seu amigo.
Luca fez questão de dormir na mesma cama que seu colega de apartamento, segurando sua mão fria, acudindo-o quando acordava alterado pela madrugada, gritando ou pedindo por socorros e isso não foi só no primeiro dia, mas nos dias decorrentes, todas as noites, mesmo que Benjamin fosse ao psicólogo dos os dias, ele não conseguia esquecer da experiência que teve.
Um ano havia se passado desde a prisão de Edward. Benjamin estava sentado no balcão de um barzinho, ele havia sido arrastado por seus colegas de faculdade. Ele estava melhor, não pensava a todo instante no que havia acontecido no passado, e só em alguns momentos que se lembrava.
O moreno pegou seu aparelho celular que tocou, ele atendeu, mas não ouvia nada por causa da música alta. Sendo assim caminhou até um canto, onde conseguiu ouvir uma voz baixa que indagava:
- Você ainda não me respondeu se me ama.
OoO
E acabou! Eu fiquei imaginando aqueles filmes que passam na sessão da madrugada da rede Globo. Típico filme onde tem um final que não é totalmente feliz. E como disse, nem sempre sabemos como é a mente humana, uma pessoa normal às vezes pode se mostrar muito diferente do que você pensa.
Não aceitem carona de estranhos!
Comentários são bem-vindos. O que acharam dessa história?
10/4/2009
Por Leona-EBM