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Fiction » Horror » Vindo das Sombras
DeathCoke
Author of 4 Stories
Rated: M - Portuguese - Horror/Suspense - Reviews: 3 - Updated: 12-29-09 - Published: 05-06-09 - id:2669698

Capítulo 1 – O Encontro

Novamente ele acorda.

Era madrugada, havia dentro de si a sensação de que algo o espionava. Todos os dias, enquanto ele estava só em sua casa aquela sensação lhe perseguia, sempre durante a noite... Em dias anteriores, ele havia olhado inúmeras vezes pela janela, já havia procurado dentro de sua casa e, finalmente, começava a pensar ser coisa de sua cabeça...

Nada melhor que um banho para se livrar de vez desta coisa que tanto o incomodava. Suas mãos brancas tateavam a cama, lentamente. Seus longos dedos seguraram o pano que o cobria e o retiraram, revelando seu corpo pálido e relativamente magro, vestido apenas com uma calça preta, a qual usava sempre. Ao sentar-se na cama, sentiu o vento bater em seu rosto. Aquela noite estava fria como de costume e as cortinas, empurradas pelo vento, batiam na janela suavemente, fazendo um som característico de noites como aquelas.

Seus longos cabelos azulados, lisos e frios como a seda, foram tocados pelo vento. Ele se levantou e caminhou até a janela, morava no primeiro andar da última hospedaria da cidade. De sua janela só se podia ver a floresta densa e as montanhas ao fim do horizonte. A noite tinha uma brisa agradável e ele observava o lado de fora. Algumas corujas faziam um som leve e distante, a lua cheia brilhava no céu, iluminando levemente sua face branca como ela. Seus olhos acinzentados refletiam as estrelas enquanto ele olhava fascinado para a noite. Sua expressão denunciava o quanto ele desejava tê-la para si. Quase se esqueceu da sensação de que alguém o seguia, até que uma sombra moveu-se estranhamente em seu segundo plano de visão, o que conseqüentemente chamou a atenção e o fez parar de admirar as estrelas.

Olhou fixamente para aquele lugar, onde pensou ter visto algo se movimentar. Dois, três minutos olhando, e nada aconteceu. Com certeza aquela era mais uma peça pregada pela sua imaginação. Afastou-se da janela, voltando-se para dentro de seu pequeno mundo. Caminhou em direção ao banheiro e entrou. Ao canto, um recipiente de madeira com água morna que ele esquentara mais cedo para tomar banho e desistira. Despiu-se. Despejou a água dentro de sua pequena banheira. O barulho da água morna caindo quebrou o silêncio e a brisa da noite. Ele entrou na água, agora não tão quente como quando a trouxe mais cedo, mais ainda sim, um ótimo relaxador. Lembrou-se do que sua mãe dizia quando ele ainda era uma criança, quando ela ainda fazia parte deste mundo, das histórias sobre fadas que ela contava para ele e seus irmãos, dos carinhos que ela o fazia quando ele, pequeno, tinha medo de ficar sozinho e lembrou-se de seu modo curioso de ser. Ele sorriu. Memórias boas eram o que mais precisava em mais uma daquelas noites frias de insônia.

A mãe de Katzu era pobre e havia nascido em algum lugar na Rússia. Katzu imaginava sua mãe como uma estátua de igreja, de longos cabelos loiros e lisos. Ela nunca havia lhe contado de onde era, porque abandonou a Rússia, porque veio à Inglaterra ou quem era o seu pai e de seus irmãos. Katzu e seus irmãos mais velhos tinham nomes incomuns. Os mais velhos nasceram naquelas terras e aprenderam seu idioma e costumes. A diferença de Katzu foi que ele não teve tempo para aprender coisa alguma, porque assim que nasceu veio com sua família para a Inglaterra em busca que uma nova vida. A mãe de Katzu encontrou-se com um inglês muito rico. Eles, então, eles se apaixonaram e passaram a levar a vida juntos. Conde Frederich Rhuffer era o nome dele, e logo seriam Aleksei Rhuffer, Arkady Rhuffer, Katzu Rhuffer e Samara Rhuffer, que nasceu depois, filha do Conde com a mãe Rosaile, que logo se tornou a condessa de Rhuffer.

Eles foram morar num castelo de tamanho moderado, herdado por Frederich. O castelo localizava-se no alto de uma montanha, perto da costa, porém não muito próximo das grandes cidades que desenvolviam-se lentamente naquela região. Eles eram fabricantes de armas e faziam as mais pomposas armas de guerra da época, com toda a pouca tecnologia disponível, mas eram consideradas as mais avançadas da região. Usavam-nas para tirar proveito financeiro de todas as pequenas guerrilhas existentes na região e para vender para grandes veleiros que deixavam a costa da Inglaterra para explorar o, até então, desconhecido. Katzu não gostava muito de seus irmãos, mas eles nunca souberam disso. Aleksei era o mais velho, tinha os cabelos raspados com navalha, gostava de se parecer com os oficiais do exército que ele ouvia falar, era bastante alto e forte, vivia para caçar e produzir a maior parte das armas que a família tinha para vender. Era o comandante da casa durante as longas ausências de Frederich em suas viagens a negócios. Sempre batia em Katzu quando ele não o obedecia e xingava o pequeno por ele pensar tão diferente. Arkady era o pacificador da casa. Mais velho que Katzu e mais novo que Aleksei, nunca permitiu brigas discussões. Tinha ideais filosóficos e religiosos muito fortes, o que iam contra tudo o que o inglês pensava, embora Frederich seguia o padrão de vida típico de um burguês da Europa em expansão e sempre o dinheiro e a fama vinham em primeiro lugar. Arkady treinava esgrima e outras artes da espada, lia livros e ditos antiqüíssimos dos quais colecionava, escondido de Frederich e de Aleksei. Sonhava sem ser um monge ou cavaleiro da ordem real. Se parecia com a mãe Rosaile. Seus cabelos eram loiros, tão loiros que chegavam a se confundir com o branco, lisos, bem cheios, despenteados e longos, tinha olhos verdes como esmeraldas, que transmitiam muita força de vontade, vivacidade e concentração. Arkady parecia sempre desarrumado e sujo, pois passava a maior parte do tempo desbravando as florestas e desafiando pequenos ladrões nos arredores da pequena casa. Katzu era o terceiro filho. Sempre pequeno, de cabelos preto-azulados cobrindo os olhos. Quando nasceu, possuía olhos verdes assim como todos os seus irmãos, mas estranhamente não podia enxergar. Até seus 7 anos nunca tinha visto o mundo e passava todo o tempo trancado em seu quarto sem conhecer nada. Apenas ouvia as vozes dos compradores de armas falando em diversas línguas e dos animais que passavam. Com o tempo aprendeu a ouvir as sombras, sentir quando alguém se aproximava e a calcular o tempo. Nessa época Aleksei tinha 15 anos. Sempre freqüentava o quarto de Katzu para se assegurar de que ele estava lá. Arkady tinha 13 anos e todas as noites fazia Katzu ouvir seu treinamento duro para aprender a usar uma espada ou montar os cavalos de Frederich. Samara tinha 5 anos. Nasceu e nunca disse uma palavra. Provavelmente era muda. Katzu nunca sabia onde ela estava, era a única que ele não conseguia ouvir ou sentir.

Esses tempos foram de muito monótonos para a família Rhuffer. Aos 10 anos Katzu passou a enxergar luzes. Em meses ele já podia ver imagens embaçadas. E antes de completar seus 12 anos já conseguia ver como uma pessoa normal, embora tivesse olhos, agora acinzentados, muito sensíveis à luz.

Finalmente pôde ver sua irmã de 10 anos. Longas sombras em fios corriam como água negra brilhante de forma impecável formando seus cabelos, compridos até seus pequenos joelhos. Sua pele era mais branca que a neve, mais fria que o gelo, mais fina que a seda e mais macia que algodões. Era uma verdadeira boneca com vida. Um dos olhos era verde esmeralda como o de sua mãe, e o outro cinza, como o de Katzu. Todos diziam que, além de muda, ela era cega do olho esquerdo, o cinza. Diziam que ela tinha a mesma doença de Katzu e que se não fosse curada, tiraria dela todos os sentidos e todos da família corriam o risco de ficarem doentes também. Ela parecia ter medo de todos dentro da casa, excerto de Katzu, o que ele não entendia, até o dia em que viu uma de suas 'sessões de cura' da suposta doença que ela tinha, e que Katzu havia se curado sozinho. Vários homens a seguravam, tiravam sua roupa e cortavam diversas partes de seu corpo com faca até que ela chorasse, ainda sim sem fazer nenhum som. Batiam nela e a torturavam de diversas formas. Usavam sanguessugas pra tentar extrair a maior quantidade de sangue maligno do corpo dela. Os pais deixavam e os irmãos mais velhos também, pois segundo eles, era necessário fazê-la sentir dor para que gritasse, movimentando as cordas vocais em sua garganta.

Nada disso serviu, Samara nunca disse nada.

Vários anos se passaram. Aleksei tinha agora 23 anos e ia se casar com a filha do dono da maior frota de navios que se tinha conhecimento naquelas terras, que estava sempre em guerra comercial com um outro homem, quase tão rico quanto o primeiro, porém ainda não havia alcançado-o. Eles vendiam armas para ambos, porém com o casamento de Aleksei, passariam a viver no feudo do norte e a fabricar armas somente para eles.

Arkady tinha 21 anos. Conseguiu um cavalo de sangue nobre e um sabre de montaria, entretanto ainda tinha de se esconder da família. Certo dia, Frederich encontrou a espada de Arkady escondida no buraco estratégico, atrás de seus livros em sua estante e a vendeu para dois franceses colecionadores por um preço extremamente baixo. Quando descobriu, Arkady perdeu o controle e ameaçou matar todos da família, fugiu por vários dias, voltando depois, apenas por Rosaile.

Katzu tinha completado 15 anos. Sonhava em ser escritor, ator, pintor, músico e tudo mais. Gostava da noite, gostava da arte e ainda sabia ouvir as sombras e sentir o ambiente. Ele sempre acreditou que os vivos não eram os únicos habitantes do nosso mundo e sempre pensava ouvir vozes ou ver pessoas. Ninguém em sua casa podia imaginar qualquer coisa sobre seus sonhos exceto sua mãe, que já estava velha e agora era maltratada por Frederich. Sentia-se sozinha e estava doente. Sentia ainda pior por não poder chegar perto de Samara porque diziam que ela ficaria doente também e Frederich deixava Samara trancada no porão e todos os dias dava continuidade as 'sessões de tratamento' da pequena. Katzu sempre ia ver sua mãe quando Frederich estava ocupado com clientes, era o tempo necessário para ele aproveitar ao lado dela. Os dois compunham, cantavam e liam o que podiam sempre, embora Rosaile estivesse à beira da morte.

Até que numa noite rotineira da família Rhuffer, barulhos foram ouvidos. Frederich saiu para ver o que era e em segundos foi assassinado. Aleksei e Katzu estavam na biblioteca conversando normalmente sobre a vida do pequeno quando ouviram os barulhos estranhos, foram averiguar. Ao portão do castelo, dezenas de homens contratados pelo segundo maior dono de embarcações do país, armados até os dentes para destruir a casa daqueles que se aliaram ao seu rival. Os homens partiram para cima de Aleksei, que jogou Katzu para trás, afim de protegê-lo e lutou bravamente enquanto sua mãe tentava fugir com Arkady que gritava desesperado por Samara estar trancada no porão. Katzu voltou para lutar, mas Aleksei, com suas últimas forças, disse que o menino fugir e sobreviver pela família, disse que, na floresta, alguma parte do dinheiro da família estava escondido, que a Inglaterra seria um grande país, que as guerras acabariam e que Katzu agora era o único capaz de carregar o nome e a memória deles. Então, chorando como ninguém nunca havia visto, Aleksei empurrou Katzu de volta para a floresta e correu em rumo aos homens que matavam sua mãe e seu irmão, num feitio heróico e épico que o redimiu de todos os pecados que havia cometido cegamente. O pequeno fugiu como nunca, correu como um lobo enquanto ouvia os gritos de Rosaile pedindo por piedade, ouvia seus irmãos, olhou para trás e viu que sua casa pegava fogo.

Ele correu, até que, longe, encontrou uma caverna. Lá ficou e ficou... Noite à dentro, a neblina densa e o frio eram seus companheiros. Ele deitou-se lá e sonhou a noite toda com sua pequena irmã. Foi a noite mais longa de sua vida e, provavelmente, a mais dolorosa.

Katzu deixou escapar uma lágrima ao lembrar do rostinho solitário e triste de sua irmãzinha. Agora ela estaria com 17 anos, provavelmente bonita como era sua mãe.

Ele continuava pensando nela e no resto de sua família. A água percorria seu corpo pálido e o aquecia. Ele agradeceu por ter encontrado do dinheiro na floresta aquela noite, e agora possuía uma vida relativamente boa, para aquela época. Estudava muito. História, línguas, teatro e literatura. Ia deixar na lembrança o nome de sua família como pediu seu irmão.

Depois de tantos pensamentos decidiu ir de volta aos seus cobertores. Ele encheu as mãos com água e molhou o rosto, implorava para que conseguisse ter a sua tão esperada noite de sono quando voltasse para a cama. O banho estava agradável, as coisas ruins, os pesadelos e as memórias pareciam escorrer pelos seus dedos como a água, seguindo direto para o fundo da banheira que era também um poço de desilusões. Enxaguou seu corpo, aproveitando seus últimos momentos debaixo daquela água milagrosa. Saiu da banheira e esperou um pouco pra que as últimas coisas ruins fossem embora junto com as gotinhas d'água que pingavam de seu corpo.

Pegou sua toalha, ali mesmo secou-se por completo, estendeu a toalha novamente e dirigiu-se até seu quarto, à luz da lua, estava bom para vestir-se logo e voltar para a cama. Vasculhou suas roupas, em uma de suas gavetas pegou uma de suas roupas íntimas e em outra, uma calça preta, semelhante a aquela que vestia antes. Virou em direção à cama e andou até ela. Antes de deitar-se, fechou seus olhos para sentir novamente em seus cabelos, a brisa fria da noite. O vento deslizava entre seus fios azul marinho e os movimentava. Em seu rosto havia estampado um meio-sorriso, ele parecia ter se livrado de suas perturbações por completo naquele instante. Abriu seus olhos e voltou seu olhar para a cama, pensou e implorou novamente pelo fim daquela maldita insônia. Deitou-se. Para complemento, as corujas haviam se silenciado, o único som que ouvia era o das cortinas dançando com o vento. Suspirou e sorriu novamente. Estava em paz. Cobriu-se e fechou seus olhos.

Sentia sua mente se afastando aos poucos e as mãos frias de Morpheus enchendo seus olhos com sua mágica areia de dormir. Antes que aquele ritual se completasse ele sentiu uma forte pontada em sua alma, acompanhada da vontade de gritar e desesperar-se. Alguém realmente estava ali! Alguém o observava! Abriu os olhos, desesperado, sentou-se perplexo. Olhou a sua volta, não havia ninguém. Tremulo e cambaleante correu para a janela. A lua brilhava intensamente, o vento brincava com seus cabelos, as corujas cantavam, os fantasmas da noite dançavam com as sombras a música silenciosa que era melodia para seu espírito. Tudo aquilo era sinistro, mas também, perfeitamente normal. O que era aquilo que sentira? Estava ficando louco? Não, pior que isso. Era tudo verdade.

Não podia deixar aquilo continuar então resolveu tirar a limpo. Aproximou-se de seu armário, vestiu-se de forma simples, mas elegante, camisa de linho branca, colete de curo preto e o sobretudo, também de couro preto, com o qual ia para todos os lugares. Vestiu-se. Caminhou para a janela novamente, parando em êxtase por alguns instantes a fim de desfrutar daquela paz novamente, mas desta vez algo o impediu. Uma das corujas voou assustada quebrando aquela harmonia mágica de seus cantos e uma sombra desapareceu em meio às outras estranhamente. Ele ia correr e descobrir o que o observava. Era sua chance de descobrir o que era aquilo que o assombrava e poder dormir em paz. Sem pensar fechou a janela, correu por seu pequeno quartinho. Na porta, calçou uma bota também preta, apressadamente. Abriu a porta violentamente, saiu e a fechou, trancando o mais rápido que podia. Tentava não fazer muito barulho para não acordar aqueles na hospedaria que tinham o privilégio de dormir, o que se tornou um desafio pra ele. Estava com pressa de não perder aquilo que o espreitava, por culpa disso, suas ações eram um tanto afobadas.

Correu pelas escadas o mais depressa que podia, várias vezes tropeçando nos próprios pés e se segurando no corrimão para não rolar de uma vez para baixo. Desceu até o fim as escadas e abriu a porta da pequena hospedaria, violentamente. Na rua não havia qualquer outro além dele, isso fez do lugar algo deserto, e mesmo durante o dia, o lugar era pouco movimentado e nessa noite não foi diferente. Não havia ninguém por ali e a noite parecia ter ficado mais fria que antes. Ele caminhou por ali, foi para o lado mais movimentado, que era onde seguia-se para o centro da cidade, deixando para lá a floresta. A rua estava deserta e nem as velhas prostitutas estavam presentes. Ele suspirou, a idéia de que tinha pirado voltou a habitar sua cabeça. Permaneceu olhando o céu como antes, já que tinha abandonado suas cobertas e descido, não ia desperdiçar a chance de sentir a noite em seu corpo. Seu transe estava começando quando aquela sensação horrível invadiu novamente sua pele, seus ossos e sua alma. Virou-se de costas desesperadamente e viu...

A sombra estranha estava lá, a vista. Encostada atrás de uma árvore, e aquela maldita sombra sabia que ele estava ali a observando. Sem mais pensar ele caminhou em direção a sombra parada atrás da árvore que dava início a uma densa floresta que seguia os redores de sua pequena comunidade. Ele morava num pequeno concentrado de gente, num lugar relativamente próximo à grande Londres, lar do início da modernidade e das primeiras máquinas a vapor. Era a primeira terra a evoluir. Era a primeira grande potência. Lar dos burgueses, dos jovens boêmios, dos novos bordéis, teatros, tudo exportado para os outros países, e também lar de um pequeno de olhos cinzas que caminhava sem saber que ia descobrir que todo esse mundo novo não passa de ilusão.

Katzu caminhou o suficiente para perceber que aquela sombra pertencia a alguém tão humano quanto ele. Caminhou mais e desta vez foi o suficiente para ver que esse alguém era do sexo masculino. Parou. A sombra se movimentou levemente, o dono dela parecia querer se acomodar melhor na casca fria daquela árvore enquanto esperava seu ilustre e irritado companheiro. Sem coragem de prosseguir e encontrar o dono daquela sombra sinistra, ele engoliu sua saliva que parecia rasgar sua garganta. Tremia. Tentou falar, mas nada saia de sua boca enquanto seus lábios se movimentavam. Tentou relaxar, respirou fundo e então:

- Quem está aí? - Ele perguntou. Tremulo, gaguejando.

A sombra se movimentou novamente, pelo vento ecoou uma risada sarcástica e então palavras acompanharam-na, carregadas por uma voz pesada, grave e fria:

- Vejo que finalmente teve coragem para me encontrar...

Essas palavras o fizeram gelar. Seria verdade que sempre foi observado e nunca deu a importância verdadeira a isso? Insistiu em parecer ter o controle da situação, embora já o tivesse perdido desde o começo...

- Quem é você? - Disse, enérgico, recebendo novamente a voz de trovão da figura que ainda se permanecia oculta atrás da árvore:

- Não é meu nome nem a minha pessoa que estão em questão... E sim você... Como se chama, rapaz?

Aquilo pareceu irônico, que tipo de pessoa falaria assim? Ele não tinha muitos amigos, então descartou totalmente a possibilidade de ser alguma piadinha infame...

- Me chamo Katzu Rhuffer. E você? Porque não sai daí? Está com medo, por acaso? - Ameaçou sem querer, não pode conter as palavras.

- Katzu, hum? E não vem até aqui por quê? Será que sou eu quem está com medo?

Pobre menininho, só sentia vontade de sair correndo voltar para suas cobertas quentes de onde nunca devia ter saído. Esperava que fosse mais um de seus horríveis pesadelos. A sombra se movimentou novamente, desta vez parecia que ia sair de lá. O corpo de Katzu se manteve estático, suas pupilas se dilataram, seu coração acelerou e seus músculos travaram.

De trás da árvore surgiu um homem. Era alto, com cabelos longos, lisos e negros como a noite. Refletiam a luz da lua perfeitamente. Ele tinha olhos de um assassino, da cor azul, mas um azul tão claro que podia facilmente se confundir com branco. E a pele sim era branca, talvez mais branca do que se é possível em um humano vivo. O homem de olhos azuis tinha os lábios levemente arroxeados. Tinha unhas compridas e afiadas, eram garras. Estava usando uma túnica preta e uma calça. Era bonito, realmente bonito, os olhos intensos seguidos de um nariz exuberante e lábios de forma impecável.

Sem mais nada o homem estranho deu as costas para Katzu e foi caminhando para dentro da floresta. Indignado como uma criança sem seu doce, o pequeno de olhos cinza o seguiu fazendo perguntas insanas e desesperadas, infelizmente, sem obter resposta alguma. Caminharam durante um tempo até que percebeu que estava se afastando muito de casa, parou. O homem estranho virou-se, questionou com poucas palavras o porquê de tanta dificuldade apenas para segui-lo e recebeu as respostas:

- Estou longe de casa! Que diabos é você? Por que me fez segui-lo? O que quer comigo, demônio?

- Demônios não existem como você imagina, mas você está quase lá. Acompanhe-me e saberá o motivo da minha perseguição, porque quero que me siga e porque eu escolhi você. Aqui não posso responder-lhe. E espero que tenha trancado bem a porta, porque não tenho certeza de que vai querer voltar pra casa depois do que vai ver.

- Eu não vou seguir você, não sei que diabos você é ou que tipo de maluquices está pensando. Apenas me deixe em paz, compreendeu? – Impulsionou as palavras para fora, teria de dizer aquilo, de uma forma ou de outra. Não deixaria sua casa, não dessa forma. Estava completamente apegado aos seus pertences desde o dia em que partiu da casa de seus pais.

- Faça como quiser... Mas não vou te deixar... Não até que aceite vir comigo... Você não entenderia. Ninguém recusa uma ordem minha... Mas isso é assunto para outra hora. – O homem estranho deu um sorriso assustador. Era como se os músculos dele tomassem a forma de uma máscara, das mais bem feitas, a tinta branca na superfície lisa não havia deixado nenhuma imperfeição e aquele sorriso não marcava nenhuma ruga, nenhuma expressão adicional a não ser o sadismo e a psicose moldados especialmente para aquele momento.

Aquela imagem ficou gravada na memória do menino como se entalha uma escultura em mármore. O homem se foi e Katzu não se lembrou em quanto tempo ele desapareceu de sua visão, tão quanto não se lembrou do caminho de volta para casa ou de se deitar em sua cama novamente.

Porém, quando acordou com a luz do sol em seu rosto sentiu-se extremamente desconfortável. Era como se estivesse faltando alguma coisa. Demorou até aceitar o fato de que estava acordado e deixou seus olhos abrirem lentamente. Houve alguma dificuldade para abri-los por completo devido à luz que entrava. Assim que se levantou, a primeira coisa que fez foi fechar as cortinas e sentar novamente na cama para pensar.

Foi um sonho. A melhor conclusão que se podia chegar. Um sonho incomum e bastante real, mas sonhos as vezes poderiam nos dar noções estranhas das coisas. Era um sonho, sim. Aquele rosto, aquela máscara bizarra e a beleza tão monstruosa que chegava a ser assustadora. Aqueles olhos esbranquiçados. Era um demônio, o diabo em pessoa. Dos mais perversos seres que existem, saiu do inferno especialmente para perturbar a vida dos outros e, infelizmente, Katzu estava por ali na hora em que ele decidiu incomodar alguém. Esse pensamento era fácil de aceitar, que um demônio saiu do inferno para perturbar-lhe. Aceitaria também que estava, apenas, no caminho dele. Levantou-se da cama finalmente.

Após lavar o rosto seguiu para a mesa e apanhou um pão de três dias atrás que estava ali em cima e ele comia aos poucos. Não mantinha comida em casa e, na verdade, mal comia em qualquer lugar. O pequeno alimentava-se basicamente de frutas baratas e vinho. Ou qualquer coisa que ele pudesse guardar por muito tempo, como esse pão que ele já dividia durante três dias.

Arrumou-se em seus trajes de costume. Um sobretudo sem as mangas de um pano pesado da cor azul marinho que caia muito bem nele, por sobre a camisa branca de linho e a calça, do mesmo pano pesado e da mesma cor do sobretudo, ajeitou um laço ao redor de seu pescoço, por sob a gola da camisa branca e lá estava: um verdadeiro jovem inglês, na ascensão, entre os ricos e os pobres, uma carniça que ainda conseguia sobreviver sem ter que rastejar pelo esgoto. Os sapatos negros surrados, os únicos que ele tinha, apanhou um punhado de papel que estava sobre a mesa e saiu de seu pequeno lar.

Cumprimentou o visinho do quarto ao lado, que saia arrastando-se porta à fora. Era um velho estranho, tuberculoso e calvo. As vezes Katzu o ouvia tossir violentamente que o pequeno sentia que seus próprios pulmões iriam explodir. Apesar da doença tão forte, o velho insistia em descer todas as manhãs para rezar a missa, era sua única atividade.

Katzu correu pelas escadas deixando o velho para trás, correu para fora daquele casarão que era a hospedaria onde morava e sorriu ao sentir o sol em sua pele e ver as pessoas andando por ali.

Há alguns metros, em direção ao centro da cidade encontrava-se o único Teatro do lugar, e em alguns dias receberiam visitas nobres, estavam trabalhando numa peça única e memorável. As portas estavam fechadas e Katzu deu a volta na possível construção mais bonita da cidade, Aos fundos havia uma porteira de madeira feia e roída pelas traças. O pequeno a empurrou, entrando.

Os outros atores estavam lá, maquiavam-se e arrumavam suas roupas. A velha senhora que cuidava das cortinas e dos bastidores estava lá, correndo de um lado para o outro, com um punhado de papel na mão, brigando de um pra outro:

- Katzu, onde esteve? Está atrasado garoto! Apronte-se pro ensaio! – Ela xingou, enquanto passava pela porteira largando um vidro de sangue falso nas mãos dele.

- Perdoe-me senhora Madelaine. Ficarei pronto em um segundo! – O pequeno sorriu, alegre com a tensão do lugar e correu para o espelho mais próximo.

A peça se tratava da morte de um Conde riquíssimo que deixou sua herança e título para seu filho mais novo em seu testamento. O filho mais velho não agüentou tal traição e aliou-se à uma seita satânica, aceitando oferecer uma alma para o diabo em troca da morte de seu irmão, sem que ele fosse condenado por isso. O diabo pede ao homem que sacrifique sua esposa, que ele tanto ama, e ele assim o faz. Em pouco tempo seu irmão mais novo fica doente e por compaixão o irmão mais velho compromete-se para cuidar do menino, porém a doença era contagiosa e acabou por infectar o tal homem que morre primeiro que seu irmão mais novo. O recém nascido filho do casamento do irmão mais novo com uma plebéia acaba por receber o título e todo o dinheiro.

O papel de Katzu nessa peça era do filho da plebéia, apareceria somente no final e falaria apenas uma frase, porém ele o fazia com a vida e as forças que tinha. Teatro era uma das poucas coisas que ainda trazia o brilho aos olhos solitários daquele garoto e ele nunca o abandonaria.

Os atores no palco encenavam com a magia que só se vê num palco de teatro, as cores e as maquiagens carregadas, com suas bochechas rosadas e suas perucas e penas nos cabelos. O ensaio durou algum tempo e à tarde a chuva invadiu a cidade e eles finalmente encerraram as obrigações. Terminaram com uma bebedeira amigável nos fundos do teatro.

O vinho era bem pobre e tinha um gosto amargo quase insuportável, porém os deixava bêbados sem que pudessem perceber e logo Katzu arrastou-se de baixo da chuva para casa. Trocando as pernas e cambaleante, a única coisa que fez antes de se jogar sobre as cobertas foi retirar os sapatos cheios de lama e em fim deitar-se de qualquer jeito sobre o colchão surrado e antigo.

Sua roupa e seus cabelos molhavam a cama e ele parecia não se importar. Sentiu como se tivesse dormido mas alguém o havia colocado de pé. Estava tudo turvo e ele sentia um frio insuportável, abriu os olhos o máximo que pôde para fitar aquela figura novamente de frente pra ele. Katzu estava do lado de fora da hospedaria, sob a chuva perto da floresta. O homem apenas o olhava.

- O que está fazendo aqui? – O pequeno balbuciou de forma quase impossível de entender.

- Foi você quem veio até aqui... – O homem respondeu enquanto o encarava. Tudo que Katzu conseguia ver dele era o formato enorme e o rosto branco ressaltando dos cabelos e roupas negras com aqueles olhos esbranquiçados assustadores.

- Não, não vim... Eu estava dormindo. Estava em minha cama, dormindo... Eu estava. – Katzu não conseguia mais enxergar, as mãos frias daquela estátua o estavam abraçando e ele tentou se livrar delas, tocando aquele corpo enorme e descobrindo que além de frio como uma pedra, era duro como uma. Não haveria, no mundo, força suficiente pra mover aquele homem dali.

Ele sentiu um cheiro estranho, era um cheiro maravilhoso, mas ele não sabia dizer exatamente do que. Lembrava o cheiro daquelas flores que as velhas viúvas usavam para decorar o túmulo de seus maridos falecidos. Aqueles cabelos frios estavam tocando-o e era deles que vinha o cheiro que o acalmou.

O êxtase daqueles lábios frios o tocando era inexplicável, Katzu nunca tinha dado importância pra esse tipo de coisa, jamais tinha tido qualquer contato íntimo com ninguém e aqueles lábios em seu pescoço faziam-no tremer descontroladamente, enquanto revirava os olhos buscando seus pensamentos desordenados pelo álcool e por aquele ser que o segurava num abraço de pedra assustador. Percebeu que ofegava e tentou se controlar, mas foi inevitável, a sensação de liberdade, intensa, uma liberdade que vinha da alma, como se não precisasse mais daquele corpo bêbado inútil, tudo isso apenas com o toque de duas agulhas sobre sua pele frágil.

Aquele veneno sedutor havia funcionado e o pequeno estava completamente imóvel e extasiado no braço daquele monstro duas vezes maior do que o menino. Desmaiou.

Quando acordou no dia seguinte estava um pouco tonto. Sentou-se e levou a mão à cabeça, tentando aliviar a dor enorme que vinha dela. Não era a primeira vez que o menino havia bebido daquela forma, mas era a primeira vez que sentia aquela sensação e que não se lembrava direito do que havia acontecido.

Parou novamente para pensar. Foi reconstruindo os fatos. Ainda achava que era tudo um sonho. Primeiro ele havia bebido, depois estava em casa. Depois aqueles lábios em seu pescoço. Ele estremeceu, travando seus músculos e engoliu em seco, levando lentamente a mão até o pescoço. Lá estava, a marca de toda a arcada dentária daquele homem estranho, perfeitamente desenhada no pescoço branco de Katzu.

Hesitou em se levantar, ainda com a mão sobre aquele ferimento antigo, era apenas uma cicatriz que estava quase sumindo, apesar de ter sido feito supostamente na noite anterior. Ignorou, ou forçou-se a isso. Levantou e vestiu-se de forma semelhante ao dia anterior, tentou comer o resto do pão que estava lá e sentiu um enjôo enorme no estômago, largou-o lá. Foi sério ao ensaio.

Madelaine percebeu a seriedade do garoto, então não se exaltou com ele naquela manhã. Katzu ficou aéreo o tempo inteiro que esteve lá, perdendo sua única entrada e esquecendo sua única fala.

Alguns comentários foram feitos sobre ele, porém o pequeno fingiu não ouvi-los. Ao final, quem veio falar com ele não foi Madelaine e sim Adriana, a moça que fazia o papel da esposa que seria assassinada.

-Katzu, aconteceu alguma coisa? – Ela se aproximou, timidamente, com as mãos sobre seu espartilho bege e os seus cachinhos dourados perfeitos que emolduravam seu rosto angelical caiam sobre os olhos azuis tão pesarosos ao ver o menino daquele jeito.

- Não foi nada, Adriana... Acho que bebi demais ontem, não dormi direito, foi só isso. – Ele sorriu de forma nada convincente.

- Entendo... Por favor, se precisar de alguma coisa não receie em me procurar está bem? – Ela beijou o rosto do menino com seus lábios de pêssego macios e doces que o fizeram o menino corar.

Adriana saiu, deixando-o apenas com sua risadinha de criança brincalhona. Ela era realmente linda e amável, tinha 18 anos de idade e a aparência de uma criança. Nunca escondeu que era apaixonada por Katzu, mas sempre que esse assunto começava, o pequeno dava um jeito de desviá-lo. Nunca teve interesse por ela, apesar de achá-la completamente bela.

Abandonou mais cedo o teatro aquele dia e foi para casa ficar na companhia de seus livros, a fim de tentar esquecer aquela maluquice toda. Esperava sim que aquele homem estranho aparecesse essa noite novamente, então iria se preparar para estar completamente consciente quando ele viesse. Caminhou até a mesa e apanhou o pedaço de pão que havia deixado mais cedo e mordeu-o, conseguiu comê-lo e assim que terminou correu para a janela e vomitou tudo. Cambaleou até a cama e colocou a mão na cabeça que havia voltado a doer. Estava intrigado, não havia comido nada o dia inteiro e quando tentou, acabou por vomitar, nunca mais beberia daquele jeito.

A noite finalmente caiu e Katzu sentiu aquela sensação novamente, a sensação de estar sendo observado. Fechou o livro e desceu, trancando seu quarto e indo em direção à floresta.

- Eu sei que está aí. Apareça. – Ele gritou pras árvores, olhando-as. Não houve resposta. O pequeno começou a se achar louco de novo. Repetiu. – Saia daí! Eu quero suas respostas! Apareça!

- Ora, ora... Convenci você? – O homem falou de trás da árvore, não saiu de lá. Katzu caminhou até ele e o encontrou sentado atrás da árvore, olhando pro nada. O homem levantou-se e encarou o menino com aquele sorriso medonho nos lábios. – Fico contente que não tenha demorado muito.

- Certo, que seja. Só quero saber por que diabos você está me perseguindo. Por que quis que eu fosse com você e o que foi aquilo que você fez comigo ontem. – Tentou parecer enérgico perante aquela figura ameaçadora, não conseguiu, seus joelhos tremiam.

- Quanta pressa. Eu já disse que só posso responder esse tipo de coisa se você vier comigo. – O homem falava com toda a ironia do mundo, ele parecia sim o diabo em pessoa.

- For aonde? E que diferença isso vai fazer..? Me diga pelo menos por que está me perseguindo.

- Vejamos... – O homem olhou as próprias unhas, elas eram compridas e afiadas como garras. – Você nunca se perguntou por que vê fantasmas e ouve vozes? Você nunca se perguntou por que os mortos invadem seus sonhos e assombram você? Eu estou te perseguindo porque sou uma dessas coisas que se atraem por você...

- Está dizendo que... – O pequeno engoliu em seco. – Os mortos se atraem por mim? – Katzu sempre achara isso. Seus sonhos com pessoas que já haviam morrido eram freqüentes e ele sempre tinha a impressão de ver coisas que não estavam lá, ouvir coisas que nunca foram ditas, porém ignorou isso a vida inteira, ou pelo menos tentou.

- É, estou dizendo isso. Se quiser as outras respostas, vai ter que vir comigo. Eu creio que você esteja curioso para saber quem você realmente pode ser... – Ainda havia ironia nas palavras daquele homem, porém era uma ironia assustadora.

- Quem eu posso ser...? Não sou ainda...? Não compreendo... – O pequeno olhou pro chão e puxou o ar pra dentro longamente, num suspiro de dúvida.

- Se eu lhe contar mais coisa aqui, serei obrigado a matar você caso não venha comigo. É isso que você quer? – O sorriso do homem tornou-se mais sádico do que sarcástico. A escuridão ficou maior quando uma nuvem entrou na frente da lua.

Se Katzu tinha algo a dizer, não disse. Nessa hora os pensamentos se esconderam do homem assim como sua alma e ele ficou sem reação. Sua consciência tentava dizer para não segui-lo, mas como ela também havia se escondido, foi em vão. Finalmente aceitou e, quando o homem partiu, Katzu o seguiu floresta à dentro, jogou tudo nas mãos do destino.

Os dois caminharam até uma parte mais densa da floresta. Um pouco mais e agora ele já estava muito longe de casa. Chegaram a um portão velho, com a tintura desgastada, e pequenos espinhos brilhosos nas pontas. De suas extremidades laterais seguiam-se longas cercas altíssimas e farpadas até onde seus olhos cinzas alcançavam. O homem abriu o portão e deu passagem para o ser que o acompanhava. Katzu entrou, deparou-se com um horrível pântano negro, a água borbulhava às vezes, quando se tornava possível enxergar os olhos sedentos dos predadores que habitavam-no.

A cima desse pântano havia um estreito caminho de pedra que servia de ponte para sua travessia. E pouco mais acima disso, uma densa neblina, tão grossa que quase era possível cortá-la com uma faca. Katzu olhou para trás, tremulo novamente. Esperava algum sinal do homem estranho. E o homem nada fez, tomou a frente e seguiu pelo estreito caminho de pedra. Logo atrás, ia Katzu com seus cabelos azuis e olhos cor da neblina. Estava assustado, sempre se questionando sobre o que fazia ali e porque não ficou em casa desfrutando da sua insônia, que inclusive era mais agradável do que aquilo que estava vivendo. Após uma caminhada razoável pelo pântano e a neblina, os dois param em frente a uma porta de madeira. Parecia ser bastante pesada e velha. O homem bateu duas vezes. O som das batidas era alto e tenebroso, soava como um trovão para o coração acelerado do pobre insone.

Depois de um instante, passos puderam ser ouvidos, vinham se aproximando da porta. A maçaneta se movimentou e, lentamente, a porta abriu-se revelando um outro homem. Este tinha a pele cadavérica, olhos negros e sem sentimentos, cabelos brancos escorridos pelo rosto, unhas grandes e amarelas. Parecia estar morto. Os lábios secos e rachados da figura cemiteriosa se moveram para falar. Uma voz seca e desgastada saiu:

- Boa noite, Mestre Magnus. Seja bem-vindo de volta.

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