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Fiction » General » 20 de junho de 2009 font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Shinigami Agatha
Fiction Rated: K+ - Portuguese - General/Drama - Reviews: 2 - Published: 06-21-09 - Updated: 06-21-09 - Complete - id:2688094

20 de junho de 2009

Querida mãe,

A mudança está sendo cansativa, não vou negar. Mas creio que, semana que vem, tudo estará pronto e poderei dizer se valeu a pena ou não. Por enquanto, posso afirmar que já me sinto um pouco mais independente. Sei que a senhora ainda deve estar brava, mas os pais criam os filhos para o mundo, não é? Eu a amo e espero que se acalme, pois tudo anda maravilhosamente bem por aqui.

Beijos,

Adriana.”

Enviou o e-mail e sentiu uma baforada de poeira. As quatro paredes do pareceram mover-se para causar sufoco. A lâmpada era de um amarelo-alaranjado doentio. Um fedor pairou no ar pueril, era proveniente do banheiro, um pequeno espaço onde o vaso sanitário se definia como um buraco no chão. O local possuía muitas outras qualidades. E Adriana tentou esquecer todas, visualizando o notebook, uma das poucas coisas que trouxera da casa dos pais, que a mimavam ao máximo. Lembrar deles igualava-se a receber um abraço. Mas o orgulho a dominava. Ela jamais admitiria sentir saudades da antiga moradia. Por isso, via-se obrigada a remendar blusas e requerer o “um centavo” de troco na taberna.

Mudar os hábitos não era fácil. Mas a moça era persistente. Naquele dia, depois de perceber que o local onde se encontrava era péssimo, tentou esquecê-lo fechando os olhos e, quando deu conta de si, a fome falava alto. A barriga roncou. Roncou. E roncou. Até que Adriana não suportou mais, levantou-se, pegou alguns trocados e saiu de casa com a intenção de comprar um bom macarrão instantâneo.

A jovem não andara um quarteirão quando se perguntou por que as ruas estavam tão vazias numa noite de sábado. Mal sabia ela que já era madrugada. Saíra de casa sem visualizar o relógio e sem perceber que pegara um daqueles sonos bem leves, em que não há sonhos, em que parece que não passou um único segundo desde que se fecharam os olhos. Mas o tempo passara de verdade. Já estava na hora em que bêbados estão voltando dirigindo para casa. Bêbados velhos. Bêbados jovens. Qual a diferença? A concentração de álcool no sangue é a mesma. Álcool e tragédia.

Um pneu arranhou o asfalto. De repente, Adriana sentiu-se encurralada. Um bando de jovens (a única coisa que ela notou era que eles eram jovens, enquanto eles perceberam várias coisas nela, inclusive a cor de pele mais escura) formou uma roda com ela no centro. Um deles se destacou por segurar um pedaço de madeira, o qual voou no ar, com um único alvo em vista. E, em menos de um segundo, tudo escureceu para Drica, que não chegou a ver e sentir os socos, os chutes, os cuspes, o choro da mãe, o desejo de vingança do pai.

No jornal estampou-se uma notícia com o título “Moça é espancada por estudantes de Medicina”. Os jovens do dia anterior tiveram seus 15 minutos de fama. Um deles chegou a dizer “A gente bateu, mas não era pra matar...”, enquanto outro perguntou detalhista “Tem certeza de que ela não era mesmo prostituta?”, e, outro, ainda sob efeito do álcool, afirmou “Preto tem mesmo é que morrer!”.

Os pais dos estudantes de Medicina pagaram para os filhos serem libertados. A notícia foi abafada. Tudo voltou a normal para eles. Em menos de um mês depois, a notícia estava focada em outra situação. Houvera mais uma brincadeira de crianças inocentes. Só que, daquela vez, o culpado por enfear a paisagem era um homem cuja unha do dedinho do pé tinha um pouco de fungos.



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