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Há muito, muito tempo, numa nuvem distante, um Anjo repousava. Era seu dever guardar pessoas, pois era um anjo da guarda, no entanto, sempre achara a vida dos humanos muito aborrecida. Contudo, certo dia, o Anjo-Mor, chefe de todos os anjos da guarda, aplicou-lhe um castigo, por não cumprir o seu dever: o Anjo iria passar o dia seguinte como um humano, sem asas ou quaisquer outros benefícios, até ao amanhecer.
Ora, tal castigo não agradou, de todo, ao pobre Anjo. Afinal, nunca lhe interessara observar os patéticos humanos, quanto mais viver entre eles durante horas! Mas o Anjo-Mor era alguém a quem o Anjo não podia desobedecer, por isso teria de o aceitar e esperar que o tempo passasse depressa.
Abaixo das nuvens, outro jovem debatia-se com o seu próprio problema. O jovem príncipe de Valentim, o reino que o sector de nuvens do Anjo guardava, atingiria a maioridade dentro de meses, e a lei de Valentim ditava que teria de escolher alguém com quem casar, até esse dia. No entanto, casar era algo que o príncipe não ansiava.
Porém, o rei já estava farto de esperar que o seu filho se decidisse a escolher uma rapariga para desposar. Assim, decidiu organizar um baile, em que o príncipe teria de escolher a sua rainha. Tal ideia não agradou ao belo príncipe, mas não teria outra solução, senão obedecer ao seu pai.
Logo, a palavra espalhou-se por todo o reino. Tanto homens, como mulheres, se animaram com tal notícia. Os homens teriam oportunidade de se exibirem perante o rei, esperando ser aceites na guarda real. Quanto às jovens, teriam a hipótese de deslumbrar o príncipe e, eventualmente, casar com ele.
Já a Lady de Valentim, via este baile como uma oportunidade de usar uma pequena poção que a sua mãe deixara, antes de morrer. Se a Lady conseguisse levar aquela poção aos lábios do príncipe, não só esqueceria qualquer paixoneta que tivesse, como cairia nos braços da primeira pessoa que beijasse. Só teria de comparecer no baile e esperar pela oportunidade certa.
Entretanto, noutro canto de Valentim, também o pequeno Anjo descobrira o baile dessa noite. O amável Duque de Valentim, ao encontrá-lo completamente perdido e confuso, ofereceu-se para o ajudar a levar ao baile. Com uma condição, claro. O Anjo teria de ser o seu par, para essa noite.
O pobre Anjo aceitou, sem pensar muito no assunto. Pelo menos, se estivesse ocupado com o baile, o tempo passaria muito mais depressa, e retornaria às nuvens. Nenhum anjo deveria passar pelo que ele estava a passar. Afinal, um anjo sem asas, é como um humano sem pernas.
Ao cair da noite, já todo o reino se encontrava reunido nos portões do palácio. Belos tecidos, jóias brilhantes e penteados magníficos passavam pelas portas do palácio, dando vida e cor ao baile.
A Lady foi das primeiras a chegar. Depressa deslumbrou os presentes com a sua presença, incluindo o rei. Dançaram durante um longo tempo, e logo o rei soube que o príncipe teria de casar com aquela jovem. O príncipe, porém, não demonstrou qualquer interesse na rapariga, dançando com ela, contrariado.
Quando o Anjo e o Duque chegaram ao baile, já a música havia começado, e os pares dançavam pelo salão. Assim, também eles se juntaram aos dançarinos, maravilhando os presentes, pois o Anjo não dançava como um humano - dançava muito melhor -, e depressa o resto dos convidados parou para os observar. Finalmente, o Anjo estava a desfrutar o seu castigo. Iria provar, de uma vez por todas, o quão patéticos os humanos eram.
Teriam assim continuado durante o resto da noite, se os olhares do Anjo e do príncipe não se tivessem cruzado. Apenas se olharam durante uns segundos, o tempo que o Anjo demorava a dar uma volta sobre si mesmo; mas nesses segundos, o mundo parou. Príncipe e Anjo souberam, naquele momento, que tinham encontrado as suas almas gémeas.
Caminhando por entre os convidados, o Príncipe aproximou-se do Anjo. Pediu permissão ao Duque para dançar com o seu par, e assim o fizeram. Durante toda a noite, príncipe e Anjo dançaram. Mais nada existia à sua volta, apenas o olhar um do outro.
O relógio deu as doze badaladas. Pararam por momentos. Com um sorriso, o Príncipe conduziu o Anjo até aos jardins do palácio. Debaixo da lua cheia, que resplandecia sobre eles, conversaram durante horas. Conversaram como se fossem velhos amigos, como se se tivessem conhecido durante toda a vida.
Contudo, o Anjo tinha um prazo. Ao amanhecer, teria de voltar para as nuvens. Infelizmente, naquele momento, era algo que o Anjo não desejava. Aproveitando a distracção do Príncipe ao admirar o amanhecer, o Anjo desapareceu, regressando ao seu local.
Assim, o Príncipe retornou ao palácio, convencido de que tinha deixado escapar o amor da sua vida. Quanto ao Anjo, voltara para as nuvens. Aprendera a lição: a vida dos humanos era muito mais interessante do que parecia, dali de cima.
Semanas mais tarde, em Valentim, já a Lady levara a cabo o seu plano. Já era uma habitué do palácio. O Rei adorava-a e estava convencido de que ela seria a mulher ideal para o seu filho. Todavia, por mais que o Rei de Valentim desejasse seguir as leis, amava demasiado o filho para o obrigar a casar com alguém que não desejava.
Então, a Lady preparou uma poção para o Rei, convencendo-o de que era um simples sumo. Mal os lábios do Rei tocaram o líquido, ordenou de imediato que o Príncipe casasse com a Lady. O pobre príncipe, vendo-se sem escolha, não teve outra alternativa, senão pedir a mão da jovem em casamento. Logo, os preparativos para o casamento começaram.
Ao chegar o fatídico dia, a maldosa Lady tinha como anjo da guarda, nada mais, nada menos, que o apaixonado do Príncipe. Para seu infortúnio, o doce Anjo apercebeu-se do seu plano de trocar a bebida cerimonial pela poção que iria fazer o Príncipe apaixonar-se pela primeira pessoa que beijasse.
Alarmado, o Anjo partiu em seu socorro, ignorando os avisos dos seus amigos. Sabia que se passasse o portal para o mundo dos humanos, jamais voltaria a ser um anjo da guarda. Porém, preferia trocar a sua imortalidade pelo amor do Príncipe, que viver eternamente, sem ele.
Ao chegar ao palácio, já o Príncipe havia ingerido a poção. O Anjo só teve tempo de gritar para chamar a atenção do seu amado. Todos os presentes olharam espantados, para o belo ser de grandes asas que estava parado à porta da igreja.
O Príncipe, não conseguindo conter a sua felicidade, acorreu para os braços do Anjo, chorando de felicidade. Já a Lady, pegou na lança do guarda mais próximo e trespassou o frágil corpo do Anjo, interrompendo o beijo apaixonado que os jovens trocavam.
O Anjo, esvaindo-se em sangue, caiu nos braços do Príncipe, inerte. Assistindo à dor do seu filho, o Rei ordenou que os seus guardas prendessem a Lady. Quanto ao Anjo, sentia-se lentamente a perder a vida.
Contudo, uma brilhante luz surgiu por cima dos presentes, obrigando-os a fechar os olhos. O Anjo-Mor descera à Terra para salvar o Anjo. Ainda não chegara a sua hora; agora que o Anjo finalmente encontrara o seu caminho, teria uma vida inteira para o percorrer, ao lado do Príncipe.
Repleto de felicidade, o Príncipe abraçou a sua alma gémea, jurando-lhe amor eterno. O Anjo, radiante, beijou-o, selando a sua jura. Príncipe e Anjo subiram, então, ao altar, casando-se. Extasiado com a felicidade do seu filho, o Rei abençoou-os a ambos, desejando-lhes um reinado próspero e repleto de boa fortuna.
E assim, Príncipe e Anjo viveram felizes para sempre.