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- Não, idiota! Eles estão de férias! Logo virão me pegar e vai ficar tudo em paz – a mocinha afirmou, com a certeza no brilho dos olhos, e a insegurança no fundo do coração.
- Você é muito sonhadora. Ninguém vem nos pegar. Você tem de parar de sonhar com o príncipe encantado, com o Papai Noel... Seus pais simplesmente a abandonaram. Você está sozinha, como todos nós – disse um moreninho, mostrando a língua.
As palavras foram cruéis para uma garotinha como aquela. Ela sempre acreditava no que os pais diziam. Enquanto, por outro lado, também se tornara claro à sua visão a situação pela qual as crianças naquele refeitório estavam passando. Mastigavam somente de boca aberta, quando mastigavam, pois na maioria das vezes somente engoliam a gororoba do prato. A aparência não era nada agradável: Crianças semelhantes a cachorros perebentos, com roupas esfarrapadas, cabelos entregues aos piolhos, unhas encravadas, descalças, com cáries. Em suma, faltava o reconhecível carinho de mãe.
- Jasmim, deixe seu coração guiá-la. Quantas vezes seus pais mentiram sério para você? Se acreditar no que eles falam, não ligue pro que esse leso fala – um garotinho aconselhou com olhos incrivelmente azuis e brilhantes. Felicidade contagiante.
A garotinha se animou com aquelas palavras. Mas, em um curto instante, lembrou de quem elas haviam saído: do garoto que a tirava do sério e vivia pedindo um beijinho. E, como todos já devem estar cansados de saber, pior do que um garoto que odeia uma menina é o garoto que a ama deveras.
- Ah, Antonio! Você está com mau-hálito!
Jasmim imaginava que Edmundo, o moreno que acabara de dizer que os pais dela não voltariam, era o único garoto que mantinha a boca em perfeita limpeza. Ela sonhava em tirar a BV com ele. E até conseguiu realizar tal desejo. Mas não foi nada agradável: a boca dele fedia como se tivesse acabado de acordar de uma noite de farra; seus dentes batiam os dela; ele queria devorá-la; não conseguia controlar a baba; jogava a respiração contra o rosto dela, horrível, enfim. E Jasmim não conseguiu suportar essa situação. Ela abriu, de repente, os olhos e percebeu que ele mantivera os dele abertos o tempo inteiro.
A partir daquele dia, Jasmim atentou para o fato de o moreno não ser toda aquela coca-cola. Ele se considerava um deus, mas não passava de um porco, principalmente no jeito de ser. Nunca a tratou carinhosamente. E, refletindo mais um pouco, estaria ofendendo um porco ao compará-lo a Edmundo. Suas atitudes o transformavam num lixo humano.
Jasmim queria encontrar alguém que a tratasse bem.
Demorou a perceber que esse alguém estava ali desde o começo.
- No dia em que você aprender o que é tomar um banho! – ela respondeu, sem se deixar levar pelas emoções, logo virando as costas.
Antonio, abandonado no meio do pátio, puxou a camiseta e a levantou ao nariz. Sentindo o cheiro, ou o fedor, apenas disse para si mesmo: “É, talvez ela tenha alguma razão.”.
Como todos os sábios já têm o conhecimento: Antes tarde do que nunca.
Jasmim acordou, percebeu que aquele sorriso reluzente aquecia seu coração, que se sentia melhor quando o via. Ela até se arriscou várias vezes com ele. Tornaram-se melhores amigos, daqueles que fugiam do orfanato para brincar na rua.
- Queria ser um pássaro, para poder voar – Antonio fitava o céu.
- Mas, Toninho, você já é igual àquele urubu – Apontou para um pontinho preto no céu.
Deitados no chão, observando a imensidão azul, tagarelando sem parar, dessa maneira que eles gostavam de ficar, numa monotonia deliciosa.
Anos depois, eles ainda possuíam o mesmo costume. A diferença era que não precisavam fugir do orfanato. Já estavam livres. Presos em trabalhos de adultos. Antonio era ajudante de pedreiro para conseguir se sustentar, e há pouco tempo fora alistado no exército. Jasmim virara garçonete de um bar e, muitas vezes, tinha que aturar quando algum homem nojento passava as mãos na sua bunda.
- Estou guardando dinheiro... Se Deus permitir, vou conseguir pagar um curso de Enfermagem, quem sabe Medicina, e seguirei minha vida. Não quero continuar apodrecendo com essa pobreza... – confessava a moça.
- Já pensou que é mais difícil de ficarmos depressivos quando somos pobres? Não temos o dinheiro para pagar a terapia – falou ele, todo brincalhão.
- Ah, Toninho! Estou falando sério... – Jasmim sorria.
- Do que importa a pobreza? Ainda podemos fazer coisas legais – ele estava confiante.
- Então, me dê um exemplo – ela fazia um desafio.
Agiu rápido. Em um segundo, virara o corpo. Ficou sobre ela, prendeu seus braços, deixou-a imóvel. Os narizes se encostaram. O silêncio predominou. Jasmim engoliu a seco. Antonio apenas deu um sorriso leve.
- No momento em que você quiser, posso lhe dar um exemplo.
Levantou-se e foi embora, sem perceber que não dera tempo o suficiente para qualquer que fosse a resposta da moça.
- Eu... Quero – sussurrou para si mesma.
Jasmim ainda estava abalada quando escutou o bater em sua porta.
Era Antonio. Ele se encontrava agitado. O típico sorriso ausente.
- Fui convocado para a guerra – Tentou agir como adulto.
- Você não vai ficar parado na porta, não é? – Ela abriu o caminho, tentando mentir para si mesma e fingir também ser uma adulta, até o encorajou.
- Vejo nos seus olhos que você está com medo. Isso não ajuda em nada. Você não pode se esquivar de um ataque com medo de se ferir, não pode defender uma pessoa com medo de que ela se machuque, não pode atacar com medo de acertar alguém – Antonio apenas prestava atenção. – Se você se esquivar, não vai se ferir. Se você defender alguém, ele não sairá machucado. Se você atacar alguém, você o acertará.
E ele acreditou nela.
- Aperta mais forte que ela peida! – gritou um dos homens presentes no ônibus, fazendo com que o resto se deleitasse em uma gargalhada.
Vendo que estavam observando a cena romântica, Jasmim sentiu as bochechas esquentarem. Antonio ofereceu o colo, como se dissesse “eles são brutos, você não precisa se acostumar, mas pode se esconder nos meus braços”.
- Antonio? – chamou Jasmim, com a voz abafada no corpo do loiro, agora careca.
- Pode dizer – ele afirmou com um tom cheio de firmeza.
- Me beija? – ela pediu, retirando a cabeça dos braços do moço, exibindo lábios trêmulos.
- Não – ele respondeu com um sorriso maroto.
- Não? – Ela repetiu numa pergunta crédula – Não era isso que você queria?
- Hei! Beija logo a menina! Eu não faria esse desperdício... – berrou o mesmo homem de antes, mas logo parou, porque fora repreendido por um amigo.
- Silêncio! Nunca ouviu que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher? – dissera o outro homem do ônibus.
- Quem foi mesmo que disse que não era para eu ter medo? – continuou Antonio, com o sorriso confiante. – Jasmim, eu voltarei! Você verá! Seu beijo ficará guardado aqui – E apontou para o seu peito, exatamente no coração.
E a rosada considerou que o ônibus atravessou muito rápido a sua vida.
Cada segundo que passou foi uma mordida no coração. Foram meses de luta na guerra e luta interna, tentando controlar os sentimentos. Jasmim sempre pensava em Antonio, e esperava pacientemente alguma mensagem dele. E, certo dia, tal notícia bateu à porta: Um soldado moreno de feições sérias, conhecido de Jasmim desde o orfanato em que vivera.
- Seu corpo estava pesado. Sentia frio. Disse que o campo de combate estava escuro, mas era sua visão que falhava. Falava com dificuldade, para falar a verdade, balbuciava. Fui anotando tudo para você... – Ele entregou um bilhete sujo e amassado às mãos dela.
“Não há comparação entre mim e um humano. Pareço mais um cachorro de rua, o qual se apaixonou por uma flor brilhante, uma estrela. Sei que não vou mais ter de contorcer o meu pescoço para avistá-la. O abismo entre nós cresce cada vez mais. Vou morrer. Mas quero que saiba que vou tentar não chorar. Caso o faça, será de felicidade. Estou com aquele mesmo sorriso bobo, pois cumpri a promessa que fiz para a pessoa que amo. Não tive medo. Esquivei-me várias vezes, pensei que estava protegendo você, e ataquei. Aqui está o nosso beijo. Um beijo manchado de vermelho, gélido e saudoso. Não quero ser assustador. O idiota deitado no chão lamacento ama você. Então, apenas peço que você, minha amada, guarde este último beijo nesta folha de papel encardida.”
- Você cuidou dele até o final, não é? – perguntou Jasmim, sem forças para repreender as lágrimas que brotavam.
- Na verdade, não. Tornamo-nos verdadeiros amigos com o passar dos anos. Não suportaria vê-lo sofrer mais que aquilo. Fui covarde. Fugi de uma pintura cruel da morte – falou Edmundo, cabisbaixo.
- Em pensar que um dia o considerei meu príncipe encantado! – Junto com as lágrimas, saía o nojo que sentia pela pessoa à vista. – Quer que eu acredite no que diz? – Alterava a voz e se aproximava do moreno, que parecia não possuir coração no peito, apenas medalhas. – Um amigo nunca abandona o outro! – Começou a socar, sem muito efeito, o peito de Edmundo. – Agora ele deve estar em uma montanha de corpos pútridos e fedorentos, tornando-se mais um indigente, só mais uma alma nas estatísticas da guerra. – Os olhos mostraram-se distantes. – Ele merece ao menos um enterro digno – sibilou a última frase.
O epitáfio possuía uma frase de Shakespeare que falava a respeito de dizer eu te amo, afirmava que sempre temos que fazer isso, pois pode ser a última chance, uma única oportunidade. E tal mensagem só aumentava a dor no peito de Jasmim.
Ela se ajoelhou em cima do túmulo. Olhou um pequeno retângulo que possuía a foto dele. Sorridente como sempre. Diferente de Jasmim, que ficou ali durante horas, debaixo da chuva, esperando que a água lavasse a alma desiludida com a vida. A tristeza de recordar que amigos mortos nunca retornam ligações.
No cair da noite, no silêncio sombrio, no escuro apavorante, no auge da insônia, no rio de lágrimas, no filme de lembranças, tornou-se um costume falar sozinha.
“Do que adiantou não ter medo? Eu estava enganada. Não devia ter dito aquilo para você. Que bobagem! Você partiu feliz com uma mentira. No final, você não poderia se esquivar, não é? Acha que não me machuquei? Por que choro tanto então? Pensa que essa angústia não dói? Você se foi! Feriu outras pessoas... E elas também não mereciam ter ido. Ninguém merece isto. Só quero que me expliquem o porquê desta loucura toda. Meus antepassados sofreram com combates. Estou sofrendo. Quanta gente vai ter de passar por essa mesma situação? Que droga! Você não cumpriu o que disse ao entrar no ônibus. Simplesmente não voltou. Você também foi tirar férias do mundo que nem os meus pais?”
Colou as folhas de papel ofício uma ao lado da outra. E começou o trabalho. Foi uma tarde de domingo usada em tal projeto. Mas o sorriso que ela esboçou ao concluir valeu a pena. Na verdade, o sorriso que ela esboçou ao concluir valeu o lápis, que ficou no toquinho, pois ela teve de usar o apontador várias vezes até concluir a obra de arte, a qual foi colocada na parede, como um verdadeiro pôster de um grande artista de cinema. E o artista de quem Jasmim era fã se chamava Antonio, o Toninho. Com as próprias mãos, ela desenhou um esboço do rosto dele. As linhas traçadas com cuidado. Os olhos brilhantes. Os cabelos arrepiados. O sorriso cortante e contagiante, nos lábios atraentes, que serviam como ímãs para os beiços de Jasmim, a qual simplesmente cedeu. Terminou dando um selinho na imagem dele. E chegou à certeza de que aquilo seria bem melhor com o verdadeiro rapaz.
Ele, o Pequeno Príncipe. Ela, a flor cativada. Ele prometera que voltaria, pois, como a antiga frase já dizia, tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. E ela tentava acreditar em tal frase. Como sempre, a esperança era a última a definhar.
Príncipes têm coroas. Ela pensou nessa observação e acabou fazendo modificações na imagem colada à parede. Começou e não conseguiu interromper. Primeiro, a coroa. Depois, vestimentas longas e simples, como as de um anjo. E, por último, as asas.
- Não é urubu, mas pode voar.
Deitado na cama, coberto por um lençol branco encardido, sentia a Morte soprar uma mensagem ao seu ouvido. Não conseguia distinguir o que ela dizia. A insana há muito tempo o perturbava, mas, naquele momento, o tom era diferente. E ele sentia que tudo soava como uma despedida.
Encontrou-se consciente. Percebeu que estava no leito de um hospital. Pôde diferenciar duas silhuetas femininas através do tecido que escondia sua cama. A conversa entre as mulheres dói compreendia perfeitamente por ele.
- Foi difícil a recuperação. De 45 homens encontrados com os corpos jogados no campo, mas com o coração batendo, conseguimos salvar sete. O que está deitado nessa cama, Antonio da Silva, logo acordará e será liberado. Ainda há muita falta de verba...
Agradeceu pelo milagre que acontecera consigo.
- Senhora! – Escutou tal grito, muito parecido com a voz da... Aquela voz seria reconhecível mesmo que ele estivesse morto.
- Jasmim, tudo bem? – a mulher saudou.
O homem quis se mover. E falhou. Ele não acreditava que...
- Sim! Tudo ótimo. Já estou preparada para começar a servir ao hospital. Meu certificado já foi entregue. Usarei de todo meu vigor para ser uma enfermeira eficaz – falava animada.
- Ah, desculpa, Jasmim... Como você é novata, ainda não pode cuidar desses feridos. Esta moça a levará para um setor mais adequado. Não se preocupe, Jasmim. Você logo poderá servir neste local.
Já não conversava sozinha. A pintura dele era sua eterna e terna companhia.
- Consegui um emprego melhor. Estou fazendo algo de que gosto. Não é mais o dinheiro que importa... Sabe? – Fazia pausas para recuperar o fôlego ou lembrar de algum detalhe ínfimo – Já sei valorizar as coisas simples. Como tomar um bom banho à noite, andar descalça aqui, coisas que posso fazer aqui em casa. Gosto daqui. Falando nisso, você já sabia que coloquei uma campainha para as visitas que não vêm?
Santas ironias do destino! A campainha tocou no exato momento. Jasmim dissera que não se importava com dinheiro, mas receber uma tarifa a ser paga naquele momento a deixaria bem irritada. Quem ousaria em interferir no seu momento romântico?
O seu próprio amor.
Não se assemelhava a uma miragem e estava muito distante de se transformar em algum espectro. Era simplesmente o Pequeno Príncipe que ia cuidar de sua flor cativada, realizando a promessa do beijo, e mostrando que, com crueldade, o amor só bate à porta de acordo com sua própria vontade e ponto final.
N.A.: Quero agradecer à Aiko, que ajudou na escolha do nome.