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Ouvi-os rirem-se. Um riso alto, alegre, quase que de inocente divertimento. Mas não o era. Não inocente. Ao meu lado, Glória chorava baixinho, entoando uma reza de uma religião que há muito dissera ter abandonado. Não a censurava. Nunca o poderia fazer, sabendo a dor pela qual passava… Também eu… Também eu desejava ter algo, saber de algo a que me pudesse agarrar num desesperado acto de necessidade. Queria conforto. Queria sossego. Queria vingança. Queria que parasse. Queria que tudo aquilo parasse, dissolvendo-se juntamente com a chuva que começava a cair no meu rosto – isto se ainda o poderia chamar assim.
Ouvi-os afastarem-se, em passos largos e apressados, correndo para longe daquele local, de nós, do nosso sorriso apalhaçado…Algo dentro de mim suspirou em alívio mal-encarado. Poderia ter sido pior. Poderia ter sido muito pior… Era disso que me queria convencer… Era a isso que eu precisava de me agarrar…E sabia o quanto era verdade… O quanto de realidade havia naquele pensamento… Mas não resultava. Não quando era eu a vitima. Porquê eu? Porquê nós? Corri mentalmente tudo aquilo que me conseguia lembrar de ter feito durante a vida. Relembrei a cara deles, esforçando-me por saber se me eram familiares, se havia algo que havíamos partilhado, algum momento antes na nossa existência… Não, nada. Não havia nada, então porquê!?
Glória continuava a chorar, apertando a minha mão com força. Não a agarrei de volta. Não conseguia. Deveria olhar para ela, eu sei que deveria… E encarar a face medonha, desfigurada… afogada no líquido vermelho que tão brutalmente fora arrancado das nossas veias… E ao vê-la ver-me-ia a mim. Tal e qual. Sabia, com uma certeza dolorosa, que na sua desfiguração veria o meu reflexo, e por isso eu não queria olhar, não queria…A chuva tornou-se mais forte, batendo com força no meu rosto e limpando-o da sensação viscosa. Forcei-me a erguer o meu próprio tronco, encostando-o à parede imunda atrás de mim e o meu interior rugiu com toda a dor que o simples movimento me provocara. Mas não podia permanecer ali. Não poderia continuar imóvel, naquele pedaço de chão sujo, esperando que algum bando de festeiros bêbados nos encontrasse. Não. Não desceria mais que isso.
Cega para o que me rodeava, tacteei pelo telemóvel, algures perdido entre os pertences que mais cedo haviam sido descuidadamente atirados por mim mesma para dentro da minha bolsa e marquei o número de emergência. Não sabia o que dizer quando me atendessem. Não sabia sequer se conseguiria falar! Precisava de tentar… Precisava tanto de tentar algo, alguma coisa!
A voz distante da rapariga soou de dentro do aparelho. “Boa noite” dissera ela. Ah! A piada! “Qual a emergência?”. A emergência… Tentei falar; erro crasso. Não sabia que era possível sentir ainda mais dor do que aquela que havia sentido até ao momento… Finalmente, senti uma lágrima solitária a rolar pela minha face. Tinha de falar, tinha de conseguir falar!… Ela não poderia desligar, não na situação em que eu, em que nós estávamos!
Soltei um grunhido, esperando que isso bastasse. Esperança estúpida, sem qualquer tipo de fundamento… Mas era o máximo que podia. Palavras, acabara de descobrir, haviam-se tornado subitamente impossíveis de articular.
“Oh!” – exclamou a voz do outro lado. Com alívio, senti o tom de preocupação que ela detonava. Ao menos não me julgara uma qualquer brincadeira de mau gosto… Era a minha dor assim tão latente nos sons produzidos pelo rasgão que era agora a minha boca? “Mantenha o telemóvel ligado, de outro modo não seremos capazes de a encontrar. Será enviada uma ambulância já, já!”
“Já, já” não era suficientemente rápido. Não para mim, não para Glória. Mas era o melhor, julgava, que poderia conseguir. Mantive o telemóvel ligado, tal como me fora instruído. Do outro lado da linha, a rapariga continuava a disparatar algumas palavras de conforto, sem saber muito bem o que dizer. Não sabia o que me acontecera. Percebera, apenas, que era grave. Grave o suficiente para eu não conseguir falar. Provavelmente imaginara algum espancamento, fruto da euforia libertadora que todos os anos o desejado Carnaval trazia consigo, afinal, ninguém leva a mal…E novamente perguntei-me o porquê. Não haviam levado nada… Não haviam pedido nada… Uma brincadeira... Era tudo, para eles, uma brincadeira…Fechei os olhos. Relembra-los-ia, sabia que sim. Mas estava tão cansada…Talvez se os fechasse… por um minuto só…
“Morte, violação ou cara de palhaço?”
Se adormecesse… Se fechasse a minha mente… Então talvez… talvez…
“Oh, brincadeira de Carnaval?” – rira Glória.
Só por uns minutos… Uns abençoados minutos…
Eles sorriram, repetindo a pergunta.
Então talvez eu poderia…a dor poderia…
“Cara de palhaço!” – exclamaram as duas em uníssono, sorrindo com a alegria de quem ainda tinha toda a noite, toda a vida, pela frente.
Só queria que ela parasse…