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Author: Goldfield
Fiction Rated: T - Portuguese - Drama/Suspense - Published: 08-07-09 - Updated: 08-07-09 - Complete - id:2706784

Intermitências

Nota: Este pequeno conto é uma side-storie do original “A Revolução dos Vampiros”. É sugerida a leitura dele e também da história “Ernest Adams: ORIGEM” para uma melhor compreensão deste texto.

Agosto, 2005.

-- Apertem os cintos! – disse uma das aeromoças pelos alto-falantes do avião. – Em poucos minutos estaremos pousando no Aeroporto Internacional de Guarulhos, São Paulo!

O sinistro homem de jaqueta e óculos escuros levou novamente o copo de uísque à boca. A bebida desceu por sua garganta, ardente. Em seguida, retirou algo de um dos bolsos da jaqueta. Era uma foto, retratando uma bonita jovem de cabelos negros, usando um vestido da mesma cor. Após alguns instantes contemplando aquela imagem, o indivíduo guardou a foto novamente, enquanto uma lágrima surgia debaixo de seus óculos escuros e escorria por seu rosto.

-- Veja mamãe! – exclamou um garotinho, sentado no assento da frente, apontando para o homem. – Esse senhor está chorando!

-- Deixe-o em paz, Zeca! – repreendeu a mãe.

Aquele sujeito era Ernest Adams, agente do FBI. Enxugando a incômoda lágrima, o federal norte-americano começou a pensar na reviravolta em que sua vida havia se transformado desde aquele último encontro com Rosemary, numa noite de verão. As palavras dela ainda ecoavam em sua mente:

Nós reunimos os mais sábios, e algo terrível está para acontecer. Não sabemos ao certo, mas parece que será no Brasil. Um vampiro incitará os demais a guerrear contra os humanos, iniciando a terrível cruzada da perdição, o dia do julgamento que nós tanto tememos... As trevas dominarão, e o dia será noite para sempre! Assim como Baltazar desejava...

O nome Baltazar trazia terríveis memórias para Adams, assim como Rosemary. Se os tais sábios estivessem mesmo certos, algo muito sinistro estava para acontecer. Mas, como o agente do FBI odiava todos os amaldiçoados, acreditava que aquilo tudo podia não passar de um grande engano. E torcia com todas as suas forças para isso.

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Em seu quarto de hotel, Ernest Adams encontrava-se sentado sobre a cama, braços cruzados e pensativo. Raciocinava sobre a missão da qual fora encarregado, e a enorme responsabilidade que carregava nas costas. Mais uma vez, as palavras de Rosemary ecoaram em sua mente:

Se você falhar, tudo estará perdido, tanto para os humanos quanto para os vampiros. Você não pode fracassar, Adams. Tudo depende de você...

Cada vez mais se convencia de que fora ela mesma – e não os tais sábios – a responsável pela previsão de um levante de vampiros no Brasil. Ela possuía o dom, ou fardo, para predizer tal coisa.

Perturbado, o agente do FBI levantou-se e caminhou até uma janela, de onde era possível ver boa parte do iluminado centro de São Paulo. Suspirou demoradamente e, olhando para sua mala preta sobre uma cadeira, murmurou:

-- É preciso sair, afinal... A noite me espera!

Ernest Adams sentia-se um estranho naquelas ruas. Quando os paulistanos o fitavam, o agente do FBI sentia-se um verdadeiro forasteiro indesejado. Ele chegava a dominar a língua portuguesa, mas não se arriscava a iniciar qualquer tipo de diálogo.

Súbito, sorriu. Talvez aquelas pessoas não chegassem a odiá-lo, elas apenas achavam esquisito alguém usar óculos escuros à noite. De qualquer maneira, o federal norte-americano tinha uma missão a cumprir, e não sabia ao certo por onde começar...

Por mais que tentasse, não era capaz de superar aquela sensação de estranheza perante as pessoas. Ele era diferente delas, e sabia muito bem disso. Na verdade, ele era diferente até daqueles considerados diferentes...

Com tais pensamentos atordoantes, Ernest Adams passou na frente de um beco sombrio, e ouviu alguém gritando desesperadamente dentro dele, uma mulher. Algo de errado estava ocorrendo.

O agente do FBI, por trás dos intimidadores óculos escuros, passou a fitar o interior da viela. Adentrando-a a passos cautelosos, certo de que penetrava em território inimigo, ouviu novamente a mulher gritar:

-- Socorro! Um ladrão!

-- Cale a boca! – respondeu uma voz masculina, com enorme grosseria.

Adams se aproximou, e aos poucos dois vultos humanos tomaram forma: uma mulher de cabelos compridos, expressão de pavor, e um homem encapuzado, tendo numa das mãos um revólver que apontava para a vítima enquanto, com o outro membro, segurava uma bolsa que provavelmente pertencia a ela. Um assalto, sem dúvida alguma.

-- Afaste-se dela! – interferiu o federal norte-americano, empregando seu português carregado de forte sotaque.

-- Como é que é, gringo? – riu o meliante, voltando-se na direção de Adams. – Quer morrer, é?

-- Devolva a bolsa dela e desapareça! – ordenou Adams, dentes cerrados.

-- Não faça isso, moço! – preocupou-se a vítima do crime.

-- Tarde demais, gringo valentão!

Dizendo isso, o bandido disparou com o revólver. A bala atingiu o peito de Adams. A mulher gritou horrorizada. Mas, para espanto do atirador, o agente do FBI continuou de pé, dando apenas um pequeno recuo. O buraco provocado pela bala podia ser visto na camisa branca sob a jaqueta de Adams, mas, incrivelmente, não havia sangue no ferimento.

-- Quê? – espantou-se o criminoso.

A mulher viu, de olhos arregalados, Adams caminhar até o assaltante. Este disparou mais duas vezes, atingindo o norte-americano novamente no peito, mas ele desta vez nem sequer recuou. Desesperado, o meliante viu-se agarrado pelo pescoço, enquanto ele ordenava:

-- Devolva a bolsa!

Pálido pelo medo, o bandido soltou o objeto, que foi apanhado pela mulher. Em seguida Adams largou o criminoso, que saiu correndo assustado, e o agente do FBI olhou para a vítima, a qual disse, num sorriso de gratidão:

-- Muito obrigada, moço!

-- Vá embora, e esqueça o que houve aqui!

-- Sim!

A mulher deixou o beco rapidamente, enquanto Adams, pensativo, observava a viela tomada pela escuridão. Aquele era seu destino. Era impossível resistir a ele.

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Ernest Adams olhou para o céu sem estrelas. Era quase meia-noite, e cedo ou tarde choveria. A luz da lua atravessava as nuvens carregadas, iluminando a fantasmagórica calçada.

Conforme o agente do FBI caminhava, ia se lembrando da letra de uma música do “Iron Maiden”:

Eu sou um homem que anda sozinho

E quando estou andando numa estrada escura

À noite ou passeando pelo parque

De fato, Adams era um homem que andava sozinho. A escuridão parecia querer engoli-lo. Se isso realmente ocorresse, pelo menos, o federal norte-americano estaria livre de sua penosa missão.

Existe no centro de São Paulo um mosteiro beneditino. Lá se encontra um homem que pode ajudá-lo, seu nome é frei Gabriel Gonçalves. Juntos, poderão descobrir qual vampiro na cidade possui o livro, e o destruirão antes que possa corromper seu dono.

O maldito Livro de Profecias dos Vampiros.

Além disso, Rosemary deixara claro que, naquele momento, não era recomendável relatar a ninguém sobre o iminente perigo. Uma ação precipitada por parte deles poderia apressar o tão temido dia do juízo final, quando humanos e vampiros seriam varridos da face da terra após uma guerra cheia de carnificina, iniciando a temida “noite eterna”.

Por enquanto, a prioridade de Adams era chegar ao mosteiro.

Quando estou andando numa estrada escura

Eu sou um homem que anda sozinho

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O frei Gabriel Gonçalves acordou assustadíssimo, com o som de um forte trovão. Seu pequeno e escuro dormitório foi rapidamente iluminado pelo raio, e logo a penumbra voltou a envolvê-lo, enquanto o religioso temia voltar a dormir.

Era talvez a centésima vez que tinha o mesmo pesadelo desde que decidira tornar-se monge, quatro anos antes. Nele, estranhas sombras invadiam o mosteiro à noite, e aniquilavam todos os religiosos, um a um. Gabriel era sempre o último a ser morto, após ver todos os outros serem eliminados sem poder fazer nada, e, quando as sombras o atacavam, sentia enorme dor e angústia, acordando logo depois.

O frei sabia muito bem que tal pesadelo estava associado ao fato que o fizera ingressar na vida religiosa...

Gabriel nunca mais havia saído do mosteiro, não exatamente por medo. Aquilo era uma retirada estratégica. Recluso, Gonçalves estaria protegido e poderia saber mais sobre o grande mistério que envolvia os acontecimentos daquela macabra sexta-feira, 17 de agosto de 2001. Ele já havia obtido grande número de informações dentro do mosteiro, mas ainda aguardava a hora certa para sua vingança...

Por mais que tentasse se entregar à vida espiritual, mais perto de Deus, Gabriel não conseguia parar de pensar no que havia acontecido à sua família. Ele pretendia punir os culpados a qualquer custo. Assim como Josué havia reconquistado a Terra Prometida por meio da força, o frei acreditava que sua luta tinha apoio divino, por combater as forças das trevas. E era isso que o motivava a iniciar sua caçada, muito em breve...

Na visão dele, era esse mesmo destino, essa mesma meta, que fizera com que se tornasse guardião, dentro do mosteiro, do coração ainda pulsante do vil vampiro “Manuel Maligno”, aniquilado séculos antes, mas cujo último despojo ainda intrigava os religiosos e prenunciava alguma nova calamidade futura.

Nisso, mais um forte trovão, e Gabriel percebeu que não mais conseguiria dormir até o sol nascer. Não devia faltar muito para o fim da madrugada. O frei, olhando para o teto, começou a reconstituir pela milésima vez aquela cena em sua mente, ocorrida numa chuvosa noite de agosto, assim como aquela...

Mas, perdido em suas lembranças e planos, ouviu um som a mais além da forte chuva e os trovões. Ele concentrou-se naquele ruído, procurando identificá-lo. De repente, tudo praticamente aquietou-se, porém em seus pensamentos apenas aquele barulho persistiu. Parecia algo batendo no chão, fora do quarto: passos.

O frei preocupou-se. Nenhum monge costumava caminhar pelos corredores do mosteiro àquela hora da madrugada. Gonçalves perguntou-se quem estaria perambulando pela velha construção, com aparente lentidão e calma.

Questionou-se sobre o som, achando que afinal não passava de invenção de sua cabeça. Mais tranqüilo, o religioso começou a fitar seu escuro quarto, um verdadeiro cubículo, onde dormia todas as noites desde que chegara ao Mosteiro de São Bento, o santo protetor contra o inimigo. Com dificuldade ele conseguiu distinguir alguns objetos no dormitório, auxiliado pelo clarão de um ou outro raio.

O frei relaxou. Estava num lugar santo, repleto de pessoas comprometidas com Deus. Encontrava-se seguro ali, de qualquer tipo de ameaça...

Súbito, a porta do quarto se abre com extrema violência, e Gabriel por pouco não salta para fora da cama devido ao susto. Surge um vulto na entrada do dormitório, que se aproxima, desconhecido e assustador. Um raio ilumina rapidamente suas feições: era um forte homem de jaqueta encharcada e óculos escuros. O coração de Gonçalves batia tão acelerado que o religioso pensou estar a ponto de ter um enfarto.

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Frei Gonçalves fitava aquele homem com curiosidade a apreensão, enquanto este explicava os motivos de sua vinda ao Brasil. Sua fluência no português era de matar qualquer estrangeiro de inveja, apesar de seu inconfundível sotaque norte-americano.

O estranho visitante e Gabriel estavam trancados naquele dormitório há horas, falando sobre os condenados da noite, os amaldiçoados, como o estrangeiro preferia chamá-los. Vampiros, conversavam sobre vampiros.

-- Eu não vejo como posso ajudá-lo, senhor Adams! – disse o frei, gesticulando com nervosismo. – Não posso sair deste mosteiro, pelo menos agora!

-- Gonçalves, você é simplesmente o mortal que mais sabe sobre vampiros neste país! O tempo que passou trancado neste mosteiro serviu para que estudasse sobre eles como poucos estudaram! Precisa me ajudar, a hora de sua vingança chegou!

O religioso fitou o federal norte-americano por um instante e mordeu os lábios. Relembrando aquela terrível noite, o frei perguntou:

-- Senhor Adams, sabe o que é chegar em casa após um dia exaustivo na faculdade, encontrar tudo banhado em sangue, seus pais decapitados e sua irmã sem uma única gota de sangue no corpo, morta após ter sido estuprada?

A resposta de Adams foi tirar os óculos escuros, fitando o chão por um instante. O agente do FBI parecia atordoado. A tragédia do frei lembrava a de Rosemary. Ao erguer a cabeça, Gabriel ficou sem ar ao perceber que os olhos do estrangeiro eram apenas dois globos brancos sem vida, e que mesmo assim ele parecia enxergar como poucos.

-- Posso dizer que já desci ao inferno, e agora estou pagando por meus pecados no purgatório!

-- Ah, meu Deus! O que aconteceu com o senhor? O que você é, afinal?

-- Baltazar Dracul.

-- Que tem ele?

-- Sabe quem ele era?

-- Um nome que sempre causa agitação entre os vampiros. Seguidor das idéias do Conde Drácula, tentou há alguns anos iniciar uma revolução nos Estados Unidos que levaria os condenados ao poder. Mas foi morto por um...

-- Meio-vampiro! – concluiu Adams.

-- Sim, pelo que vejo você também conhece a história!

-- Claro. Fui eu quem o matou.

Frei Gonçalves arregalou os olhos, enquanto Adams voltava a ocultar os seus com os óculos escuros. Era simplesmente inacreditável! Gabriel estava frente a frente com o meio-vampiro que havia aniquilado aquele o qual era considerado um dos vampiros mais cruéis e sádicos que já haviam existido!

-- O senhor quer que bilhões de pessoas tenham o mesmo destino de sua família? – indagou Adams, irritado. – Se essa revolução começar, não vai se limitar apenas a São Paulo. Ela vai se espalhar por todo o mundo, e não haverá vampiro ou meio-vampiro capaz de derrotar seu líder! Será o fim dos tempos, frei!

Gabriel olhou para o teto. Apesar de ter se preparado tanto, a visita de Ernest Adams o pegara desprevenido. Não se sentia pronto para sair do mosteiro. O mundo do lado de fora era perigoso, e o frei precisava reconhecer que havia desaprendido a viver nele. Para piorar, se suas suspeitas estivessem corretas, os assassinos de sua família fariam de tudo para eliminá-lo assim que colocasse os pés para fora de São Bento.

Adams deu um suspiro, enquanto tirava algo de baixo da jaqueta úmida. Era um cartão. Estendendo-o para o religioso, disse:

-- Pegue. Aí está o endereço do hotel onde estou hospedado. Espero que mude de idéia.

Gonçalves apanhou o cartão e o norte-americano levantou-se, caminhando até a porta do quarto, sob o olhar confuso e indeciso do frei.

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De volta ao quarto de hotel, Ernest Adams, sem camisa, encontrava-se sobre a cama, sentado em cima de seus pés, pernas cruzadas, cotovelos apoiados nos joelhos e olhos fechados. Iluminado pelos agradáveis raios solares que entravam pela janela, o agente do FBI meditava profundamente, num estado de intensa concentração e relaxamento. Por um momento, agradeceu a seu ancestral pela grande fé que este possuíra, a qual havia evitado que Adams se tornasse um vampiro ao ser abraçado por seu antigo amor. Como um meio-vampiro, o norte-americano poderia continuar aproveitando a saudável luz matutina, letal aos condenados da noite.

Por um instante, Adams suspirou demoradamente. Ele sentia que às vezes ainda podia sofrer com a dor dos ferimentos provocados pela batalha contra Baltazar Dracul, anos antes. O batismo de fogo de Ernest no mundo do sobrenatural e inexplicável. Algumas feridas nunca cicatrizam, principalmente aquelas no coração... Lembrou-se das palavras dela antes de morder-lhe o pescoço, fincando seus caninos em sua carne antes humana: “Salve-me!”. Tal súplica ecoava agora na mente do federal, como um desejo maior que a própria vontade de viver. “Salve-me!”. Adams salvara Rosemary, mas quem seria capaz de salvá-lo?

Um clamor perdido na escuridão... Uma súplica espoliada na penumbra de uma alma sofrida, corroendo suas entranhas dia e noite. Lágrimas reprimidas, ranger de dentes disfarçado, uma vivência fúnebre e sombria...

“Salve-me!”.

Amat victoria curam

Luiz Fabrício de Oliveira Mendes – “Goldfield”.



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