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Fiction » Supernatural » Sangue e Cigarros font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Elyon Somniare
Fiction Rated: K+ - Portuguese - Romance/General - Reviews: 6 - Published: 09-02-09 - Updated: 11-01-09 - Complete - id:2716518

Resumo: Tempos houveram em que tudo era medo, em que todos, todos eles sabiam que era ao cair da noite que se estendia o reino deles, dos Caídos, dos Infiéis... mas isso eram tempos e agora nada era assim...
Naquela noite, ele perdera tudo. Naquela noite, ela surgira na sua vida. E a corda apertava-se no pescoço de ambos, desesperados quando juntos, desesperados quando separados.

Capítulo I

Tempos houveram em que tudo era medo. Um medo respeitoso, petrificador, que descia lado a lado com a escuridão da noite. As portas eram trancadas e as janelas fechadas, por todas as ruas se viam mães a chamarem os filhos e esposas a invocarem os maridos, querendo-os junto de si, na segurança do lar. Elas sabiam, todos eles sabiam, que era nessa altura que se estendia o seu reino, dos Caídos, dos Infiéis… Um reino de negrume, de mortandade… Um reino de sangue… e de vida eterna.

Nesses tempos saíam os incautos, os sarcásticos e os não-crentes, irresponsáveis perante si mesmos. Vagueavam por entre o negro, alegrando-se em bebidas e afundando-se em mulheres, pobres criaturas que imundas na sua pobreza outro caminho não tinham senão aquele. Em elas raramente eles tocavam. Tinham um sangue impuro, sem sabor… Amargurado pela angústia que as consumia e pelo sofrimento que as corroía… Mas a eles… Ah, a eles! Os incautos, os não-crentes! Que manjar! Que refeição! E como eram fáceis de abandonar, aqui e ali, aqueles corpos… Mas isso eram tempos que passaram e agora nada era assim. Agora todos, todos eles eram não-crentes. A escuridão, essa, fora por eles domada – assim o pensavam. Saíam alegres e em grandes grupos, movimentavam-se noite fora, preocupados, talvez, com um ladrão ou um raptor… Mas nunca, nunca com os Caídos, os Infiéis… Haviam declinado na sua crença, já desacreditavam a sua existência, e que erro… Que erro!

- Talvez – sussurrava o homem, num sorriso que julgava sedutor – um local mais discreto?

A mulher olhou-o com os frios olhos negros. Desde a sua entrada naquele bar que ele a observava, encantado pela sua figura invulgarmente bela. Divertida, havia-o sentido a passar os olhos pelas suas formas esbeltas e bem torneadas, prestando uma especial atenção aos lábios carnudos e aos cabelos cor-de-mel que lhe deslizavam até meio das costas. Fora um exemplo seguido por muitos outros homens – e mulheres – dentro daquele espaço, mas fora ele o primeiro a ganhar coragem para se aproximar, com falinhas mansas e bebidas oferecidas... Tal como ela planeara que alguém o faria.

- Sim – ronronou. – Seria agradável.

O sorriso dele ganhou tons de agrado e presunção enquanto pagava a conta e a conduzia à saída, falando sobre um qualquer local do seu conhecimento perfeito para passarem a noite. Ela não o ouvia.

- Não – pediu, vendo que ele se preparava para chamar um táxi. – Vamos antes a pé…

Ele piscou os olhos, confuso.

- Mas ainda são uns bons seis quilómetros….

- Então caminhemos um pouco – argumentou a mulher. – Está uma noite tão bonita…

- Como negar algo a essa voz de veludo? – gracejou ele. E porque não fazer-lhe a vontade, porque não prolongar a noite? Já a tinha e não lhe restavam quaisquer dúvidas sobre o modo como ambos iriam acabar…

- Querida, – disse ele, ao fim de algum tempo a andar sem destino – talvez devêssemos voltar para trás, esta rua não é segura e começa a ficar tarde.

- Não? – repetiu ela. – E porque não?

Começou a ficar nervoso. Havia algo na voz dela que o agitava, despertando-lhe a urgência de correr o mais depressa possível para um local menos temeroso, menos… dela.

- É demasiado isolado… – gaguejou. – Não se vê vivalma!

Ela suspirou, antes de negar o seu quase pedido.

- Não pode ser.

- Co…como?

- Se formos para um local mais movimentado ver-me-ão. Não podemos voltar.

Sentiu as gotas de suor inundarem-lhe a testa e voltou a reprimir o desejo latente de fugir para longe da mulher que seduzira para companhia. Que idiotice, era apenas uma mulher, facilmente a dominaria… E que mal lhe poderia ela fazer?

- Anda, querida, é altura de irmos para o tal hotel de que te falei – afirmou, emprestando uma certa imperatividade à frase.

- Sim, talvez – concordou por fim a mulher. Ele sorriu, aliviado, desconhecendo que nunca lá chegariam.

***

Irritado, esmagou o cigarro de encontro ao cinzeiro. Não havia prometido a si mesmo que deixaria de fumar? Como o iria conseguir se de cada vez que se sentia entediado sacava de mais um? E depois ela queixar-se-ia, que não gostava do cheiro, que a incomodava. Ele não queria que ela se queixasse…

A porta da entrada bateu e o cheiro a sangue inundou-lhe as narinas. Sentiu-a imobilizar-se, antes de a voz dela percorrer o corredor, atravessando a ombreira da porta até aos seus ouvidos.

- Paul? És tu?

- Diana – limitou-se a chamar, deixando-a adivinhar a resposta pela sua voz. A figura esbelta e sedutora da mulher materializou-se à sua frente. “Não” corrigiu-se. “Ela apenas foi rápida no andar e eu lento no olhar.” Envergava um casaco de peles sobre um vestido moderno cujo corte brincava com a imaginação de quem a via e o cheiro a sangue nela impregnado pareceu intensificar.

- Foste novamente à caça? – perguntou, acendendo um novo cigarro. Diana torceu o nariz, ante o gesto inconsciente do homem.

- Também nós, os Caídos, precisamos de nos alimentar – argumentou, retirando o casaco de peles e sentando-se na poltrona em frente à dele. – Que fazes aqui, Paul? Sabes que não estás seguro na minha presença.

Permaneceram em silêncio, desafiando-se um ao outro com o olhar. Não eram amigos, e nunca o seriam, ainda que não se odiassem ou desprezassem. Haviam sido, em tempos, um caçador e sua vítima. Mas houvera algo naquele homem de cabelos negros e aspecto vulgar, sem nada que o fizesse destacar dos demais, que a levara a poupar-lhe a vida, resignando-se aos abraços da sede naquela noite. Fora, descobriria Diana mais tarde, o olhar desesperado dos seus olhos azuis-bebé. Neles, ela reconhecera a mesma solidão, o mesmo temor que a atormentava.

- Nunca nos deveríamos ter encontrado novamente – cedeu por fim Diana. – Foi um erro teres vindo à minha procura.

- Foi um erro teres deixado que eu te encontrasse – retorquiu ele. – Cheiras a sangue.

Ela sorriu, ante a naturalidade com que ele fizera o comentário. Um mortal normal não o sentiria, não possuía o olfacto suficientemente desenvolvido para tal, mas ele… Ele era diferente.

- Cheiras a fumo – respondeu, alargando o sorriso ao vê-lo atrapalhar-se em desculpas enquanto afogava o cigarro no cinzeiro atafulhado com beatas e cigarros semi fumados. Desejava-o, como o desejava…

- Que vieste aqui fazer? – perguntou, cruzando as pernas e encostando-se às costas da poltrona. – Sabes o quanto me tentas com a tua presença…

- És forte – cortou Paul, levantando-se e andando de um lado para o outro da pequena sala, que à parte das duas poltronas e de uma pequena mesinha se encontrava apenas mobilada com uma quantidade extravagante de estantes lotadas com livros de todos os tamanhos e feitios, tornando-a ainda mais pequena. A única janela permanecia oculta por um pesado cortinado verde-escuro, mantendo o compartimento na penumbra necessária. – Aguentarás o tempo preciso e as vezes necessárias, não tenho dúvidas.

- Confias demais no meu amor – sussurrou Diana, mais para si do que para o homem que caminhava com destreza pela sala atafulhada. – Um dia a minha natureza apanhar-te-á desprevenido – gracejou. – E saberás como se sente cada um dos homens que caiem no meu encanto.

Ele sorriu, voltando a sentar-se no seu local inicial. Era um sorriso frio, desprovido de alegria.

- Sabes que não o poderás fazer – murmurou, dobrando-se para a frente e agarrando-lhe nas mãos. – Se o fizeres quererás tornar-me um dos teus…

- Não tenho dúvidas – respondeu imediatamente Diana. – Devia tê-lo feito na noite em que te encontrei. Tu e eu – acrescentou – somos amantes, quer o queiramos quer não.

- Mas eu não posso ser imortal.

- Não – concordou ela a contra gosto. – Não podes…

- Naquela noite, – continuou Paul – sabes o que eu ia fazer naquela noite?

Sim, ela sabia-o.

- Saíste do bar, foste para a ponte.

- Foi a noite em que perdi tudo.

- E eu? – irritou-se Diana. – Sabes quantos dos que encontrei teriam desejado estar no teu lugar?

Paul largou-lhe as mãos, fixando-se nos olhos negros que brilhavam em fúria. Os lábios vermelhos arreganhavam-se, deixando ver as presas brancas e imaculadas, sem uma mancha sequer do sangue que haviam estado a roubar ainda nem há duas horas. Dentro da sua fúria, permanecia bela. Mas não temida, não por ele.

- Muitos – admitiu. – Ou mais provavelmente, todos.

Ela pareceu acalmar.

- A tua mulher e o teu filho… São eles que nos impedem, que te impedem.

Paul não respondeu, deixando-a continuar a falar.

- É por eles que renegas a vida eterna, que me renegas. E ainda assim persegues-me, e fazes da tua presença uma constante na minha vida… Se os outros soubessem… Se o meu clã… Ah, Paul, se o meu pai, o meu criador, soubesse do quanto me sujeito por um mortal que ao mesmo tempo me repudia e acorrenta! Estaríamos acabados, acabados! Eu, tu… Terias a morte que tanto desejas! Irias, por fim, de encontro à tua mulher e filho, que dizes que te esperam.

- Eu sei que me esperam – afirmou Paul. – No meu espírito não restam dúvidas quanto a isso, no dia em que morrer, eles estarão à minha espera.

- Que mórbido – resmungou Diana.

- Diana, minha Diana – sussurrou Paul, levantando-se novamente e beijando-lhe a testa. – O sofrimento que é ver-te assim… Bem sei o quanto te magoo, o quanto te arriscas e controlas por minha causa… Mas não vês que não te resisto? Não me resta outra opção senão a de te desejar no que resta da minha vida (“Curta vida” – murmurou Diana). As correntes também a mim me alcançam…

- Sou um fantoche na minha raça – suspirou Diana. – Fui reduzida a um fantoche.

- Não digas disparates.

- Não são disparates, Paul. Aquilo que conheces de mim e aquilo que eu faço por ti não é o que sou! O modo como sempre acabo por me rebaixar perante ti, um mortal! Ah! – exclamou com desprezo. – É como se o coelho tivesse domesticado o lobo! Foi o meu orgulho, Paul, o orgulho da minha raça, que atirei ao rio naquele noite, maldita noite em que te encontrei!

O silêncio voltou a instalar-se entre ambos. Diana fechou os olhos, recusando ver a expressão de Paul. Magoara-o, sabia que o fizera quando mencionara o rio, aquele malfadado rio… Mas porquê? Porquê que ele não percebia que era com ela que ele deveria estar agora? Porquê que ela insistia em lhe respeitar esse desejo, a ele, um ser inferior, fraco…

- Arrependes-te? – perguntou por fim Paul.

- Não! – sobressaltou-se Diana. – Nunca! Mas não consigo… não sei… Tudo isto me é novo.

As gargalhadas dele sobressaltaram-na, apanhando-a desprevenida.

- E para mim não é? Julgas que não me sinto como se tivesse levado uma tareia da realidade? Até aquela noite a tua raça não era mais que um mito de criança!

Nervoso, tacteou os bolsos do casaco em busca no maço de tabacos. Diana observou-o a levar o cigarro aos lábios com as mãos trémulas, talvez de raiva ou arrependimento, não o sabia. A explosão dele, mais do que enfurece-la, tivera o dom de a acalmar. Também ele tinha razão no seu ponto de vista. Também ele sentia a corda a roçar-lhe o pescoço, apertando-se de cada vez que estava com ela e estreitando ainda mais de cada vez que não estava.

- Estamos condenados – murmurou, fechando os olhos. Estava cansada, tão cansada…

- Desculpa-me – disse Paul. – Não me devia ter descontrolado.

- Não – retorquiu Diana. – Tens razão no que dizes. Ambos temos.

- Queres que vá?

- Tens onde ficar?

Ele sorriu.

- Arranjo.

- Paul…

- Tenho, não te preocupes. Por vezes esqueces-te que vivo nesta cidade.

Ele tinha razão.

- Então vai, por favor – suspirou Diana. – Estou cansada…

- Eu sei, meu amor – murmurou Paul, levantando-se. – Eu sei.

Ajoelhou-se em frente dela, esperando pelo seu consentimento para se aproximar. Diana sorriu, debruçando-se sobre ele e juntando os lábios de ambos num beijo leve.

- Vemo-nos em breve – despediu-se Paul, quebrando o contacto e levantando-se novamente. Diana seguiu-o com o olhar até à saída da pequena saleta e esperou até ouvir o som da porta da rua a fechar-se atrás dele. Depois deixou-se cair novamente para trás, amaldiçoando-se pela sua fraqueza.

***

Começara a chover. Uma chuva forte e constante que fustigava qualquer um que se atrevesse a enfrentá-la.

“Raios!” pensou Paul, refugiando-se dentro de uma Igreja. “Só me faltava mais esta…”

Parou, apercebendo-se subitamente do local onde se encontrava. Não entrara ali ao desconhecido mas por alguma razão apenas agora se apercebia da aura que iluminava aquele local de oração. Virou-se de frente para o altar, fazendo uma respeitosa genuflexão ao mesmo tempo que as mãos realizavam o sinal da cruz. Incerto sobre o que fazer depois disso, dirigiu-se a um dos bancos, ajoelhando-se e juntando a mãos numa oração àqueles que já tinham partido. As estátuas dos santos e Nossas Senhoras pareciam observá-lo, analisando passo a passo o que ele fazia. Não as repudiava. De certo modo, sentia-se protegido pela sua presença, ainda que fosse a fria presença de meras estatuetas: o que representavam oferecia-lhe conforto suficiente.

- Meu filho – murmurou uma voz inesperada ao seu lado. Paul sobressaltou-se, interrompendo a oração. – O que…? Ah, senhor padre!

De pé a meio do corredor entre a entrada e o altar, um homem pequenino e idoso observava-o curioso. As vestimentas que envergava facilmente o denunciavam como sendo um padre daquela religião.

- Meu filho, estás encharcado! – exclamou o homem, mantendo o tom de voz baixo, ainda que audível. – Vem, tratemos de secar essas roupas.

Paul levantou-se, seguindo-o obedientemente pelos corredores laterais da Igreja até uma porta semi-escondida atrás de um pilar. Permaneceu mudo, vendo o padre fazer emergir um molho de chaves por entre as vestes e utilizar uma delas para abrir a porta. A baforada de ar quente apanhou-o assim que a atravessou.

- Tiveste sorte esta noite, não ficaste do lado de fora por uma questão de minutos – comentou o padre. – Tinha acabado de trancar a porta exterior quando notei a tua presença.

Falava enquanto mantinha um ritmo constante de andamento, levando-o por corredores e um ou outro lance de escadas. O ambiente perdera o seu ar solene, e nada havia nas paredes de pedra que lhe indicasse onde se encontrava, excepto, talvez…

- Que é isto? – perguntou. – Uma escola?

- Sim, julguei que o sabias – respondeu o padre sem se virar para o olhar. – É um colégio de rapazes, dirigido pelos nossos padres…

- Padre – começou Paul. – Não quero ser rude…

- Ninguém o deveria querer, meu filho.

-… mas não posso aceitar a vossa hospitalidade. Refugiei-me na Igreja apenas momentaneamente, enquanto a chuva não passasse.

O padre parou, quase fazendo Paul ir de encontro às suas costas. Virou-se para ele, usando um tom de voz gentil mas firme.

- A esta hora da noite não é seguro um homem andar sozinho por aí – afirmou. – Existem mais perigos do que aqueles que imaginais. Além de que – acrescentou – pelo som que ouvimos de lá de fora, a chuva ainda está longe de parar.

***

Diana ouviu as bategadas de chuva baterem de encontro à janela. “Pobre Paul” pensou, secando os longos cabelos com uma toalha branca. Logo em seguido torceu o nariz, verificando que o banho não fora suficiente para afastar o cheiro a fumo que Paul lhe deixara na pele. Resignada, vestiu o roupão vermelho e pegou num dos muito livros que se espalhavam pela saleta, sentando-se na poltrona onde Paul estivera. Abriu-o e começou a ler sem, contudo, lhe prestar grande atenção. Em breve o dia nasceria, privando-a da possibilidade de abandonar o apartamento. Que cárcere, que prisão! Queria tanto tê-lo ali…

***

- Aqui tens, jovem – ofereceu o padre, estendendo-lhe um molhe de roupas secas. Paul reprimiu o riso ante ao uso da palavra “jovem” em relação a si. – Infelizmente, e apesar do tempo que passaste no banho – continuou, sem qualquer tipo de acusação na voz –, as tuas roupas ainda não secaram. As pessoas gostam de oferecer roupas velhas em demasia à caridade e muitas acabam arrumadas num monte à espera que sejam precisas. Julgo que estas te devem servir.

Serviam, mas estavam longe de ser o género de roupa com que Paul sairia à rua.

- Padre – chamou Paul, sentindo um súbito desejo de desabafar.

- Podes ficar neste quarto até amanhã, não está a ser usado por nenhum dos rapazes – continuou o homenzinho. – Tenho é de avisar de que cá estás ou ainda alguém acaba por chamar a polícia…

- Padre! – chamou novamente Paul, desta vez conseguindo a atenção do outro. “Mas não…” Calou-se, hesitando sobre se deveria continuar ou não.

- Vá, vá, então meu filho – disse o padre, dando-lhe palmadinhas nas costas como a uma criança pequena e fazendo-o sentar numa das duas camas de solteiro presentes no quarto. – O que te preocupa, meu filho? Sabes que nenhum servo de Deus hesitará em ajudar…

- Não há ajuda possível, senhor padre – respondeu Paul, soltando um esgar amargo. – Agora já não há…

- Tolice! Não ouviste já, meu jovem, que a esperança é a última a morrer?

Paul sorriu, novamente um sorriso triste, sem alegria ou contentamento. Pensou naqueles para quem rezara. Pensou em Elaine e no filho de ambos, Eric, ambos mortos… mortos naquela fatídica noite… Se ao menos… Se ao menos tivesse sido ele a ir buscar Eric ao infantário e não Elaine! Se ao menos tivesse sido ele… Se tivesse cumprido o horário que ambos tinham estipulado para alternarem entre si quem iria levar e buscar a criança!

- Então, então, meu filho – murmurou novamente o padre, vendo as lágrimas começaram a deslizar copiosamente pelo rosto firme daquele homem adulto.

Se tivesse sido ele! Então talvez o acidente não se tivesse dado, e ela ainda estivesse viva, educando Eric, amando-o e protegendo-o! Não, nada poderia ajudar… Estava feito, eles tinham desaparecido e nem Deus nem Diana o poderiam ajudar… Diana… Pensara, inicialmente, que era um anjo; um anjo que descera dos céus para o ajudar nos seus intentos em se juntar a Eric e Elaine… Mas não. Diana não era um anjo, e encontrava-se muito longe de o ser. Contudo amava-a, de um modo louco, sobrenatural, como nunca chegara a amar Elaine. Diana era um frenesim apaixonante. Ainda assim… Ainda assim… Ela não conseguia, ela não bastaria… Porque Elaine o chamava, segurando Eric, e acenando para ele, esperando pelo seu regresso, pela união prometida… E ele iria, porque a amava, de um modo mais calmo, mais terno e gentil, que duraria uma eternidade.

- Padre – disse, limpando as lágrimas. – Vampiros existem?

O padre endireitou-se, ficando subitamente rígido. O receio brincava-lhe nos olhos, dizendo a Paul que sim, que ele achava que sim e que lhe mentiria.

-Tolice, meu filho – respondeu. – Que tolice de crianças!

***

O dia nasceu, trazendo consigo os primeiros raios de Sol que timidamente começaram a avançar pela cidade. Infelizmente para eles e felizmente para Diana, nunca chegariam a passar as escuras cortinas que propositadamente os mantinham afastados daquela moradia e respectiva senhora.

Com um gesto seco, Diana fechou o livro, não se preocupando em alterar o lugar do marca-páginas. Não havia prestado atenção ao que lera e não, mais valia reler novamente com a devida atenção. Levou a mão à boca para esconder um bocejo. Era ainda cedo para se deitar mas a noite fora longa e psicologicamente mais atribulada que o normal. Fechou os olhos por um momento, pretendendo descansá-los apenas um pouco. Sem se aperceber, adormeceu.

***

Murmurando um “bom dia” à vizinha que lhe retribuiu a saudação com um olhar enviesado – muito provavelmente por o estar a ver a chegar a casa àquela hora da matina com as mesmas roupas com que saíra na noite anterior – Paul entrou em casa, fechando a porta atrás de si com um suspiro de alívio.

- Enfim, paz! – exclamou, entrando no quarto e deixando-se cair em cima da enorme cama de casal. Por momentos teve o instinto de estender a mão para o seu lado direito, acariciando os cabelos curtos de Elaine. Parou com a mão no ar a meio caminho, lembrando-se que ela não estaria ali. Precisava de se mudar, de abandonar aquela casa. Ali permaneceria eternamente rodeado pelos fantasmas que eram agora a sua família.

– É uma casa demasiado grande para um homem só – murmurou, fechando os olhos. Saíra cedo do Colégio cristão que o albergara durante a noite, ou melhor, fugira cedo, querendo evitar um novo encontro com o pequeno padre que tão veementemente insistira para que passasse lá a noite. Desde que lhe colocara a sua questão que sentia o olhar temeroso do padre sobre si, fazendo-o sentir-se estranho, impuro. Soltou um estalinho com a língua, indeciso sobre se deveria zangar-se ou rir-se com o assunto.

- Cheiras a sangue.”

Que pensara o idoso padre? Que talvez ele se referisse a Lúcifer ou seus demónios… Mas levara-o a sério, não duvidava. A expressão que se lhe desenhou na face ao som da palavra “vampiro” não oferecia dúvidas de qualquer género. Mentira-lhe. Mentira-lhe e fizera-o deliberadamente, temeroso das criaturas sobre quem se falava. Os Caídos, os Infiéis…

- Também nós, os Caídos, precisamos de nos alimentar.”

As palavras do padre ressoaram-lhe na lembrança. “A esta hora da noite não é seguro um homem andar sozinho por aí” dissera. “Existem mais perigos do que aqueles que imaginais”. Perigos, que perigos? Era a eles que se referira? Talvez sim, talvez não. Talvez se referisse a meros ladrões, aos usuais perigos entre humanos… Mas não fora isso que… algo na sua voz… um tom… uma ênfase… que lhe dissera que não, que ele se referia a algo mais obscuro, mais temeroso… Ah! Diana! Com ela, sabia-o, estaria seguro. Amava-a e ela amava-o, como poderia, pois, ser para ele um perigo? A outros, talvez, mas a ele… Não, nunca!

- Confias demais no meu amor.”

Diana, a sua doce, arrebatadora Diana… Com um sorriso de satisfação deixou que a sua imagem lhe inundasse os pensamentos. Recordou as suas formas, a suas expressões… o seu riso e as suas lágrimas…Recordou os encontros, curtos e tortuosos, em que se amavam e discutiam… Não seria suposto acontecerem, eles não o deveriam… eles não poderiam… Mas como resistir, como não o querer se a separação lhes oferecia tanta dor quanto a junção? O problema estava, haviam decidido, na origem, naquele encontro, naquela noite… Ela estava bela, superior na sua pessoa, buscando alguém, alguma alma desafortunada com a qual saciaria a sua fome, a sua sede… Ele estava um farrapo, alheio a tudo, alheio a todos… Fora nesse dia… Nesse malfadado dia que eles haviam perecido… Um acidente, um descuido, diziam eles, ah! Seria mais um louco com as mãos assolapadas a um volante que não merecia! Matara-se e com ele resolvera levar mais dois inocentes… E ele, desesperado, decidira afogar-se nessa noite, bebendo bebida atrás de bebida, álcool atrás de álcool…

- Saíste do bar. Foste para a ponte.”

Pagara a conta e saíra do bar. Estava ainda sóbrio, não sabia como, mas uma ideia piscava no seu espírito. Porque não um verdadeiro afogamento? Era tão lógico, tão tentador… E ela surgira nessa altura, pousando-lhe a mão no ombro com delicadeza “Não o farás” sussurrou, puxando-o com firmeza para baixo. Lembrava-se de se perguntar como seria possível alguém ter aquele tipo de força. Lembrava-se de lhe perguntar se ela era algum anjo e da gargalhada sarcástica que ela soltara. Nessa altura amara-a. Á sua força, á sua beleza e ao riso, mas, principalmente, á sua vida. Aquilo que ela era, aquilo que ela seria. Elaine era Elaine. Diana era Diana.

- Sou um fantoche na minha raça!”

“Não sou igual aos teus” afirmara ela no segundo encontro, que ele forçara e ela deixara. “Sou cruel, sou perigosa.” E ele insistira, que muitos eram assim. “Eu mato os teus sem remorso ou hesitação.” E ele argumentara que se tentara matar sem remorso ou hesitação. Ela riu, finalmente. Chamou-o teimoso, casmurro... E mostrou-lhe; mostrou-lhe o que era e o que fazia. “Não faz mal” dissera ele. “Tu és tu e somos amantes quer o queiramos quer não.”

- Padre… Vampiros existem?”



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