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Capítulo IV
"Porém Deus sabe o que senti quando vi lágrimas de Diana e o seu gosto da soledade" (Afonso Lopes Vieira em “Diana”)
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Paul saiu apressadamente do metro, fugindo à sua sujidade e escuridão. Ademais, sentia-se sempre ligeiramente claustrofóbico quando se encontrava na obrigação de viajar naquele meio de transporte sobrelotado. Talvez tivesse vindo a desenvolver um certo receio de se encontrar entre muitos seres da sua própria espécie…
Caminhou vários minutos no mesmo passo acelerado, fazendo o tortuoso caminho até aquele local. Finalmente, parou em frente do pequeno memorial que os amigos haviam insistido em fazer, e surpreendeu-se por ainda o encontrar em pé. Desde o dia do acidente que se recusara a lá ir, não sendo uma surpresa grandemente inesperada que o mesmo já não se encontrasse como se lembrava. Os ramos de flores encontravam-se murchos, com as folhas secas e partidas e a fotografia que antes mostrava uma sorridente mulher de meia-idade a segurar um pequeno rapaz no colo já pouco mais era do que um pedaço de papel empapado e ressentido pelos maus-tratos que a natureza lhe havia dado. Quanto ao ursinho de Eric, já lá não estava, provavelmente levado por alguma criança que ainda pudesse fazer uso dele. Por alguma razão, esse era um pensamento que lhe trazia um pouco mais de conforto ao espírito.
Continuou a andar, aproximando-se da borda da ponte e observou as águas turvas por baixo de si. Estava escuro e tinha dificuldade em as ver, mas a imaginação de as saber assim enganava-lhe os olhos, fazendo-o acreditar que efectivamente via as suas pequenas movimentações, formadas pelas correntes que o rio tão disciplinarmente escondia abaixo da superfície. Fora ali, naquele exacto local, que Elaine tivera o seu acidente. Fora ali, naquela mesmíssima ponte, que Diana o impedira de terminar com a sua vida. Ainda se lembrava da sua voz, doce e autoritária, ordenando-lhe que descesse, que a ouvisse… E da sua hesitação, prosseguida por uma nervosa obediência. Nessa noite, travara-se uma batalha épica entre o instinto de conservação da vida, que gritantemente o puxava para o solo, insistindo em batalhar como sua âncora, e a solitária depressão, que regada pelo álcool e pelo desgosto o incentivava a mergulhar no desejado descanso. E em tudo isto reinava a ansiedade, infiltrada em toda a subconsciência das suas emoções, ilusionando novas dimensões que o levavam ao extremo. Sim, naquela noite, Paul estivera perto de acabar a vida. Diana impedira-o, era certo, mas por quanto tempo? Amava-a e em tudo lhe era grato, mas aquele desejo ainda o assombrava, alimentando-se do rodopio de emoções que Diana fora capaz de abrandar mas não de eliminar. Não é que ele quisesse morrer. Não queria. Todavia, não possuía a aptidão de descortinar uma diversa e igualmente eficaz solução. O problema não era a morte, não, o problema era a vida.
***
Leslie bateu com o pé no chão, uma, duas, três vezes, demonstrando o seu desagrado com a demora do mortal. Seguira-o convicto de que assim descobriria o seu local de repouso, a casa onde Antoine o podia encontrar e esventrar – assim o esperava –, mas a “coisa” estava a revelar-se mais lenta do que pensara e Leslie encontrava-se tremendamente aborrecido. Àquela hora, já deveria estar a deliciar-se com uma desejada refeição, feliz por ter caído nas boas graças de um dos vampiros mais poderosos da sua sociedade. Em vez disso, estava de pé, em cima do passeio, a ser olhado de lado por um jovem drogado que tentava desesperadamente descobrir se ele era um agente da autoridade ou um inofensivo prostituto que não soubera escolher bem o local de negócio. Quão podre era a vida humana!
Sorriu, sentindo-se ligeiramente melhor ao ver o mortal descer da ponte e fazer sinal a um dos muitos táxis que passavam loucos pelas ruas da cidade que nunca dorme. Imediatamente, desenterrou uma das mãos do bolso da gabardine, fazendo também ele uma indicação a um dos automóveis em serviço. Nessa noite, sair-se-ia bem.
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“Mortais” dizia Antoine “não sabem usar o que têm. Eles têm poder, têm cabeça e têm capacidade, mas rejeitam tudo isso e nem eles mesmo sabem o porquê. Rasgam o que verdadeiramente interessa e abandonam-no na sarjeta, seguindo em busca do prazer fácil, da volúpia da carne e do veneno. Foi assim em todas as eras, Diana, e sempre será. São abutres, sedentos de sangue e sofrimento, afogando-se em podridão e fazendo-o mais por prazer que por qualquer outra coisa. Não precisam de matar para sobreviver, e no entanto fazem-no. Não precisam de forçar e violar para alcançar o prazer sexual. Mas fazem-no. Julgam-se no topo da cadeia alimentar, julgam-se o melhor dos animais, frisando a linha do racional e do irracional, mas não passam de bestas pretensiosas. Tu própria sentiste já na tua pele o egoísmo destas criaturas, e ainda assim me perguntas o porquê do meu desprezo? Ouve-me então, Diana, que te vou contar uma história…”
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Paul parou à entrada do apartamento, fazendo tilintar o molho de chaves a meio caminho entre o seu corpo e a fechadura. Estava atrasado e as probabilidades de Diana se encontrar preocupada eram muitas. Não gostava de a ver preocupada, em parte porque consciente ou inconscientemente ela acabava por o demonstrar através de uma intensa irritabilidade. Respirou fundo e enfiou a chave na fechadura, rodando-a duas vezes e entrando em casa.
- Querida? – chamou, espreitando cautelosamente em cada um dos compartimentos antes de entrar nos mesmos, revistando-os em busca da amante. Chegou ao quarto, convicto da pouca probabilidade de ela se encontrar no mesmo local onde a deixara. Diana não gostava de se sentir presa no mesmo sítio durante muito tempo. – Diana?
- Estás atrasado – respondeu por fim a acusadora voz, indicando-lhe a sua presença na casa-de-banho. Aproximou-se da mesma, deparando-se com a Caída envolta numa toalha branco-sujo e servindo-se de outra no mesmo tom para secar os cabelos molhados. Utilizava o espelho, semi embaciado, para olhar directamente para ele. – Onde estiveste?
- Fui visitá-los – respondeu Paul, sabendo que não seria necessário acrescentar mais à explicação. Viu Diana torcer a face numa careta de desgosto e uma pontinha de culpa começou a arder-lhe no peito. Diana não o merecia, ele alterara-a de um modo que sabia não ser o dela. Diana merecia mais que o seu amor egoísta e acorrentado. Também para ela seria melhor, muito melhor, que ele desaparecesse…
- Antoine pode estar em qualquer lugar – continuou Diana, esforçando-se por se recompor do choque que acabara de receber. Sabia que Paul ainda mantinha recente na lembrança a esposa e o filho perdidos; mantê-los-ia sempre, como era da sua natureza, mas daí a arriscar a sua vida para apenas rever o local em que os perdera… – Da próxima vez espera. Irei contigo.
Paul anuiu, sabendo que mentia. Levar Diana era algo que não poderia fazer, por um conjunto de razões que a amante não perceberia – por razões que por vezes ele mesmo não compreendia.
Avançou alguns passos, abraçando-a por trás e enterrando a cara na linha suave do seu pescoço. Inspirou fundo, sentindo a mistura de cheiros que prevaleciam em Diana, desde o sangue até à adocicada lavanda. Afastou do pensamento a ideia de que aquilo era uma das muitas armas que ela usava para atrair as suas “presas”, humanos normais, homens como ele – ou como Walter Alyar – cujo único pecado fora o de se deixarem levar por um luxúria correspondida – ou assim o pensavam. Beijou-lhe o ombro, sentindo-a deixar cair a toalha e virar-se de frente para ele, usando os lábios para brincar com as suas linhas, provocando-o. Deixou-a acariciar-lhe rosto, beijando-lhe as pálpebras fechadas, o nariz e os cantos dos lábios, voltando a repetir o percurso no sentido inverso e depois novamente no sentido original. Sorriu, sabendo o quanto aquele jogo a tentava mais do que o tentava a ele. Diana gostava de o provocar, de o convidar a ceder às suas libidinosas tentações, mas mais do que isso, gostava de sentir, de saber, que o provocava, que o conseguia, que detinha o poder para isso. Fez-lhe a vontade, cedendo e tomando-lhe os lábios com força, uma força vigorosa que para ela pouco mais era que a fraca tentativa de uma criança, mas que lhe agradava e deleitava. Mordeu-lhe os lábios, tomando cuidado para que não os rasgasse, não fosse o cheiro a sangue, ainda que o dela própria, aliar-se ao fulgor do acto, alterando momentaneamente os sentidos da Infiel. Diana correspondeu, mantendo no seu limite o esforço do auto-controlo, concentrando-se em retirar as roupas do amante que tão casmurramente se mantinham no caminho. Um arrepio percorreu Paul, ao sentir o súbito contacto da pele nua com o ar, agora limpo de qualquer vapor que o banho de Diana poderia ter provocado. Viu-a sorrir travessamente enquanto olhava para o seu membro erecto e corou, sabendo que ela o gozava mudamente pela rapidez com que reagira. Não era algo que realmente incomodasse a nenhum dos dois.
Diana voltou a aproximar-se, beijando-o de forma suave e alongada, enquanto caminhava para trás, de encontro à parede, puxando-o junto a si. Amava-o como nunca amara a nenhum outro e procurava demonstrá-lo com um desespero e urgência que raramente havia vivido. Não sentiu dor quando ele a penetrou, sussurrando-lhe desnecessárias palavras de conforto e bem acolhidas palavras de carinho. Ergueu as pernas, abraçando-o e cruzando-as nas costas dele, tomando-o como único apoio para além da parede fria atrás de si. Chorou. Chorou, sabendo-se unida aquele que amava, sabendo-se senhora de um acto que poucas vezes tivera a oportunidade de praticar com a intensidade e emoção que transportava agora.
- Paul – chamou. – Paul…
Repetiu o chamado que mais se assemelhava a um gemido vezes e vezes sem conta, sentindo a visão falhar-lhe à medida que ele a penetrava cada vez mais fundo, unindo pelo laço carnal o que o espírito já há muito juntara. Finalmente, sentiu-o chegar ao seu limite, preenchendo-a enquanto chamava pelo seu nome. Deixou-o afastar-se antes de o abraçar novamente, depositando-lhe um beijo rápido nos lábios.
- Que bonito – brincou, fingindo-se zangada com o amante. – Agora obrigas-me a tomar um segundo banho.
***
“Eram tempos de guerra, como o são quase todos os tempos. É que bem vês, Diana, são poucas as épocas de paz. Estas meramente têm a oportunidade de existir nos intervalos das guerras e das batalhas, quando nenhum dos combatentes tem o poder para se defrontar e são necessários anos e recursos para a reconstrução. Finda esta, tudo volta ao mesmo, à morte e devassidão que eles tanto amam e adoram. Naqueles tempos, os soldados guerreavam nos campos de batalha como iguais, em orgulho e dignidade, mas a podridão chegou às suas almas, e a guerra moveu-se para os campos de cultivo, para as aldeias e para os mortais que pouco ou mesmo nada sabiam sobre as artes do pelejo, e impotentes viam as suas plantações destruídas e as suas casas a desfazerem-se em chamas. Mas pior, muito pior, era verem o cruel assassínio das suas mulheres e das suas crianças, violentamente rasgadas na sua pureza, forçadas a uma relação física cruel e brutal que jamais poderiam desejar. Nesses tempos, havia um homem…”
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Martha arregalou os olhos, incerta sobre se deveria acreditar ou não nas palavras do anjo. Depois lembrou-se que anjos não mentiam, que eram puros e bondosos e que nunca, nunca mentiam. Nesse dia, não precisara de ir à escola. Segundo o anjo, não voltaria a lá ir.
- Nada ensinam que te possa vir a interessar – dissera o anjo. – Em História contam a parte que lhes interessa, adulterando factos com a sua visão dos acontecimentos. As Línguas encontram-se numa mutação constante, assim como tudo o que se relaciona com ciências e tecnologias. A matemática seria a única que poderia empregar alguma utilidade, mas também essa se ensina em casa. Não, a escola só serviria para perguntas dispensáveis de mortais dispensáveis. Educação que é educação, faço-ta em casa, com quem de saber.
E Martha aceitara, feliz em o fazer. Não gostava da escola. Era grande e barulhenta, com muitos gritos e meninos a brigarem, fazendo surgir as tais aranhas e outros bichos, embora estes, que nasciam dos berros dos meninos, não fossem tão grandes e assustadores como aqueles que nasciam das discussões do pai e da mãe. Sentiu-se um pouco triste porque não voltaria a ver as amigas nem a professora, mas depois lembrou-se de que no dia anterior elas tinham ido para os baloiços sem lhe dizer, e que a professora não acreditara nas “suas” aranhas, dizendo-lhe que não devia ter medo, que eram só um fruto da sua imaginação… Não, Martha não se sentia triste por não poder voltar à escola.
- Já tens tudo? – perguntou o anjo, voltando a entrar no quarto dela. Tinha dado uma volta ao apartamento, antes de se dirigir à cozinha para fazer alguma coisa ao pai e à mãe. “É preciso esconde-los” dissera. “Aprende isto, Martha, que é muito importante. A discrição é o que nos tem mantido na penumbra, no segredo da sobrevivência. Nunca, nunca te esqueças de a manter.”
- Sim – respondeu a rapariga, segurando contra si o grande cão de peluche que raramente deixava para trás. Tinha quase o tamanho dela e o zíper que se encontrava cosido à sua barriga denunciava-o como sendo um brinquedo de extrema utilidade. Martha gostava de o usar como mala ou mochila e naquele momento o cão albergava dentro de si um pijama, muda de roupa interior, alguns artigos de higiene e os seus brinquedos favoritos. Não lhe metera roupa normal, o anjo dissera para não o fazer, que ele mesmo trataria de lhe comprar um guarda-roupa.
- Óptimo! – exclamou o anjo. – Nesse caso, fica tudo resolvido. Anda.
Agarrou-lhe a mão, levando-a até à cozinha, onde o pai e a mãe já não se encontravam. Martha parou, agarrando o cão com força e olhando interrogativamente para o outro anjo que lá se encontrava de pé, observando tudo à sua volta com um tique estranho nas mãos. Torcia-as consecutivamente, como se estivesse nervoso e simultaneamente alegre com alguma coisa. Quem era aquele homem? Achara que também era um anjo porque era bonito, como o seu anjo, mas agora que o via melhor… Havia algo, alguma coisa que os diferenciava, dizendo “este anjo não é igual, talvez este anjo não seja tão anjo quanto o teu anjo.” Uma lógica confusa que se encaixava com perfeição na sua criativa mentalidade.
- Este é Leslie – disse o anjo. – Vai ficar contigo durante algumas horas.
Martha abriu a boca, os olhos arregalando-se em urgência.
- Algumas horas – repetiu o anjo, acalmando-a. – E depois irei buscar-te.
Fez um sinal ao anjo menor, Leslie, que rapidamente se dirigiu para ela, abrindo as feições num sorriso resplandecente. Martha sentiu-se inundar pela vergonha dos seus pensamentos. Leslie era um anjo, não um homem, e aquele sorriso não deixava dúvidas.
- Pequena – disse Leslie – vamos um pouco para minha casa?
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As luzes brilhavam, estranhamente mais vivazes que em todas as outras noites, e os sons da cidade misturavam-se numa amálgama de rugidos algures entre o suave e o áspero. Diana caminhava apressada, afastando-se e esquivando-se dos obstáculos com uma mestria e agilidade inumanas que aqueles com quem se cruzava não pareciam reparar. Deixara Paul no apartamento com a promessa de que voltaria o mais cedo possível – e o compromisso dele em aguardar lá por ela. Estava cansada de hesitar, farta de temer a sua impotência. Não era uma criança indefesa, esperando, temerosamente, pelo raspanete rígido da mãe por uma travessura inocentemente feita. Era uma mulher. Uma mulher adulta, um ser independente e tremendamente poderoso. O primeiro passo, sabia, era encontrar o denunciante, Leslie, se não estava em erro. Felizmente, Elwood fora perspicaz o suficiente para lhe deixar a morada do vampiro falador. Mais tarde, agradecer-lhe-ia.
***
“Esse homem não era mais que os outros” continuou Antoine. “Trabalhava a sua terra e sustentava a sua família, a sua mulher e a sua filha de tenra idade. Não conhecia o significado do termo felicidade, conquanto também não conhecesse o sentindo da palavra infelicidade. Era um homem simples, com momentos de um e de outro – até uma nova guerra ter estoirado. Sabes, Diana, ele não era um homem de armas, não as conhecia nem as manuseava, mas numa campanha isso pouco importava e todos em condições físicas para tal eram obrigados a pelejar. E o homem foi, lutando pela sua vida, pela terra e pela pátria. Viu coisas medonhas, coisas com que nunca sonhara e que o passaram a assombrar. Era uma tarefa ingrata, a de guerrear com irmãos da mesma espécie, homens que se sabiam iguais, com famílias, sonhos e ambições. Mas era algo necessário, algo que se teria de engolir e moldar, num esforço dito sobre-humano; de outro modo, jamais se poderia manter a consciência sã e não cair no poço sem fundo da loucura provocada. Foram tempos difíceis para esse homem, assim como para todos os outros. Mas tal como começara, a guerra eventualmente acabara, e o homem encheu-se de felicidade pela sua improvável sorte. Estava vivo. Vivo e saudável, como poucos o poderiam dizer. Acima de tudo, poderia voltar para a sua casa, para a sua terra… Veria novamente a mulher, que deixara grávida ao partir, e a filha, cujos anos já a deveriam ter tornado numa jovem bela e esperta! Ou assim o pensava o homem, desconhecedor, ainda, do que se modificara na sua ausência. É que a guerra, Diana, raramente se circunscreve a campos de batalha, não, área de tão reduzido tamanho é algo que a desgosta, que a oprime, e os seus pavores gostam de se expandir, de se alongar…”
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Antoine estacou em frente à morada que lhe fora dada por Leslie e soltou um esgar de desdém. Outro cubículo numa caixa de cubículos a que chamavam casa. Na sua ânsia de construções fúteis e desnecessárias, que mais tarde ou mais cedo acabariam por cair em ruínas de esquecimento, os mortais haviam chegado à conclusão de que era necessário poupar espaço – e escolheram-no fazer através da compactação dos seus lares. Que coisa esperta, aquela, de sacrificar o conforto de um bom lar sem vizinhos por todos os lados!
Sem qualquer tipo de dificuldade, arrombou a porta, forçando a sua entrada no apartamento, apenas para o encontrar vazio. Praguejou baixinho contra Leslie, que se atrevera a uma informação falsa e incompleta, antes de se aperceber do cheiro que pairava no ar. Diana estivera ali, assim como um mortal que nem morrera nem ascendera. Não, Leslie não se enganara, aquele era o local correcto, Diana e o mortal é que de algum modo – ou sorte – o haviam abandonado… Não importava. Naquele momento, desconhecer o seu paradeiro já pouco ou nada interessava. Tinha o cheiro do mortal, um odor misturado em ansiedade, mortalidade e tabaco. Com aquilo, facilmente o encontraria.
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Era um local escuro, escondido algures pela cidade. Diana perguntou-se como fora possível para o casebre manter-se vivo todos aqueles anos, escapando-se a demolição certa que o substituiria por um imponente arranha-céus. Supunha que o actual dono do local tivesse algo a ver com isso…
Com um chute certeiro deitou a porta abaixo, arrancando-o dos gonzos e esperou que o outro vampiro viesse de encontro a ela, alarmado pelo estrondo que fizera. Não se enganara.
- Quem…? – começou Leslie, vindo a correr dos fundos da casa com as presas em riste. Parou, reconhecendo o seu intruso e se o sangue que lhe corria nas veias ainda fosse o seu, teria empalidecido. – Diana!
- Eu – confirmou Diana, empregando o tom duro que tantas vezes usara antes de conhecer Paul. Antes de ali chegar questionara-se sobre se havia perdido a pratica, mas rapidamente se apercebeu que os traços vincados de personalidade raramente desapareciam, permanecendo sempre como nossos. Viu o vampiro encolher-se perante a autoridade da sua pessoa. – Leslie, chegaram-me ao conhecimento rumores sobre a tua língua que me são extremamente desagradáveis.
Leslie recuou alguns passos enquanto endireitava novamente as costas, numa tentativa de a enfrentar de igual para igual. Por momentos, pareceu a Diana que iria mentir, negando a acusação ou fazendo-se de desentendido. Mas também aquele Infiel mantinha em si o seu orgulho.
- Falas do mortal pelo qual te embeiçaste? Aquele a quem recusas ascender conquanto também não lhe dês o uso para o qual é destinado? – Cuspiu para o chão, em desprezo. – Tu e os teus, achando-se tão grandes, tão senhores de si mesmos e dos outros, mas nem sóis capazes de falar as coisas palavra por palavra, recorrendo a “rumores” e “diz que disse”! Fazendo uso de indirectas quando o assunto vos é delicado ou vergonhoso! Sim, eu falei a Antoine do teu mortal, aquele que segues como se fosses uma vadia, humilhando-te a ti e à tua espécie!
- Leslie… – rosnou Diana em tom de aviso. Não esperava a súbita explosão do outro e em nada aquele alojo de palavras lhe estava a agradar. Sentiu o corpo ficar instintivamente rígido e as presas a mostrarem-se, enquanto que um rosnar baixo e contínuo saía do fundo da sua garganta.
- Mas Antoine resolverá tudo! – continuou Leslie, ignorando os sinais que Diana lhe enviava. – Ele expurgará novamente o nosso nome da lama em que egoistamente o atiraste! Devolver-nos-á o orgulho, a dignidade! A honra que nos é devida retornará ao seu devido lugar!
- Antoine não sabe onde ele está! – exclamou Diana, subitamente alarmada pelo discurso do vampiro menor. Havia, entre eles, uma ordenação. Uma hierarquia que Leslie se encontrava propositadamente a quebrar e isso assustava-a, ou não fosse aquele um dos indícios de que existia algo, alguma coisa, que o outro sabia e ela não.
Leslie sorriu, quase iluminando o compartimento de entrada.
- Oh, sabe sim – escarneceu, alargando o sorriso. – Com certeza não julgaste que eu faria o serviço pela metade? Ademais…
Não conseguiu terminar a frase. Com um grito de raiva, Diana saltou para cima do Infiel, levando-lhe a mão à boca e trazendo consigo a língua amaldiçoada. O vampiro teria gritado em dor, se o pudesse. Em vez disso, desfez-se em lágrimas, furioso por não as conter e cravou as unhas nos braços da Caída, arranhando-os continuamente enquanto tentava desesperadamente chegar-lhe ao pescoço. Diana deixou cair o órgão húmido e esponjoso no chão, e forçou o seu peso contra o vampiro. Com uma rasteira, fê-lo cair ao chão, usando o seu próprio corpo para o manter aí preso. Sentia a ligeira ardência provocada pelos arranhões mas nada mais. A mente toldara-se-lhe numa névoa espessa que apenas com dificuldade a deixava ver o inimigo à sua frente. Sabia que o desespero de sobreviver o fazia revidar com mais força do que aquela que normalmente possuía. Sabia igualmente que essa vontade em viver era contrabalançada pelo poder que naquele momento a raiva e o desespero lhe forneciam. Ouviu o vampiro soltar um som abafado que equivaleria a um grito alto e estridente quando lhe arrancou o olho esquerdo. Não esperou que ele se recompusesse para dar o mesmo destino ao direito…
“Paul… Paul…” O nome repetia-se, gritante, na sua cabeça, enfurecendo-a, alimentando a sua impiedade para com a criatura abaixo de si. Olhou para aquele face distorcida, para as órbitas vazias e a boca sem língua. Pouco mais havia naquele rosto do que até então fora belo. Agora, nada mais era do que uma massa disforme, clamando mudamente pela morte. Gritou, perante o acto inesperado do vampiro, que ainda com as unhas cravadas na pele do seu braço, aproveitara o seu breve momento de distracção para enterrar as presas na mão que tão cruelmente o privara da visão e do paladar. Sentiu o sangue escorrer à medida que Leslie lhe rasgava as veias, lutando com tudo aquilo que ainda lhe restava. Doía. Doía, mas não a mataria, não o salvaria e ambos sabiam disso. Com a mão livre, Diana rasgou o pescoço exposto do outro vampiro, inundando o chão abaixo de si num mar de sangue fresco. Sentiu o aperto das presas enfraquecer, à medida que o sangue se espalhava pelo chão, levando consigo a vitalidade de que necessitava para a vida eterna. Em breve, nada mais restaria do vampiro do que uma carcaça seca e enfadonha. Segurou-o, sentindo-lhe as fracas tentativas para se soltar cada vez mais débeis e cansadas, até desaparecerem por completo. Com alívio, soltou-se das presas e das unhas, que haviam permanecido cravados em si e arrastou-se até à parede, encostando-se à mesma enquanto esperava que a névoa se levantasse e a visão retornasse em seu pleno. Com a fúria e fulgor do momento, tudo o resto para além de Leslie desaparecera do seu campo de visão, transformando-se numa massa negra e facilmente ignorável, todavia, agora que a excitação de sentimentos se acalmava, o ambiente ganhava novamente forma perante si, deixando-a ver o lar daquele a quem matara…
Levantou-se, sentindo-se subitamente hirta. “Merda” pensou, devolvendo o olhar da pequena rapariga que, encostada à ombreira da porta de acesso aos fundos da casa, a observava com um misto de terror e fascínio. Sentiu-se gelar, questionando-se sobre há quanto tempo estaria a rapariga ali. Pior que isso, era o que estava a rapariga ali a fazer? Uma criança mortal em casa de Leslie… Uma criança que não poderia ser comum, que não poderia ser normal ou não se encontraria ali, viva e em bom estado… Uma criança que acabara de assistir a uma chacina entre dois Imortais… O medo dominou-a, cegando-a para a razão, para o que era lógico e racional. Mais uma vez, deixou de ver, deixou de pensar, sentindo apenas a urgência da sobrevivência, de eliminar aquele que a arriscava… As emoções da contenda com Leslie retornaram, fazendo-a avançar sobre a rapariga, ignorando o pavor que se espelhara nas feições infantis e a irracionalidade das suas acções. Naquele momento não era Diana. Naquele momento não era a Caída, a amante ou a mulher. Naquele momento, ela era uma criatura encurralada pelo seu próprio temor, procurando desesperadamente por lhe fazer frente, enfrentando todos aqueles minimamente relacionados com a causa do seu medo e da sua angustia, nada mais desejando do que os matar, do que os eliminar… Agarrou a criança, que congelada pelo pavor não se conseguira forçar a mexer um músculo, e sentiu-se subitamente puxada para trás. Debateu-se, entrando em pânico perante a entrada de um novo inimigo forte o suficiente para a prender de encontro a si, imobilizando-a pela força e sussurrando-lhe palavras de calma e conforto. Conhecia aquela voz… Conhecia aquele tom… Lentamente, sentiu o medo e a irracionalidade esvaírem-se de dentro de si, devolvendo-lhe a faculdade dos sentidos e do racional.
- Elwood? – chamou, sentindo-o afrouxar o aperto. À sua frente, Ethan segurava a rapariga entre os braços, acolhendo os seus soluços. O temor encheu-a novamente, desta vez, por saber o que por pouco não fizera. – É vossa? – perguntou, erguendo a cabeça para olhar Elwood nos olhos. O irmão abanou a cabeça em negação.
- Antoine – respondeu Ethan, afagando a cabeça da pequena. – Foi Antoine quem a tomou.
- Como…? – começou.
- Temos estado vigilantes – respondeu Elwood. – Com certeza que não achaste que abandonaríamos a cidade depois de ver os problemas que aqui se desenrolavam?
- Achei – respondeu Diana, livrando-se completamente do abraço. – E tenho motivos para isso – acrescentou. Estava certa, tal como Elwood o sabia. Algum tempo atrás, Elwood pouco se interessaria do que acontecia ou deixava de acontecer àqueles que não pertencessem à família por si criada. Já Ethan demonstrava uma humanidade rara e diversas vezes inoportuna entre os seres da sua raça. Era estranho para aqueles que o conheciam há tanto tempo quanto ela, ver Elwood a deixar-se influenciar por um dos Imortais que ele mesmo ascendera.
- Paul! – exclamou, lembrando-se subitamente de que Antoine era já conhecedor do seu paradeiro. E ela que obrigara Paul a jurar que esperaria por ela em casa, onde era seguro. – Eu tenho…
Elwood consentiu com a cabeça, vendo-a sair de imediato pela porta arrombada. Olhou para o corpo disforme de Leslie e suspirou, sabendo que dificilmente conseguiria evitar a sujidade nas suas roupas quando o levasse lá para fora.
- Que vamos fazer com ele? – perguntei Ethan, seguindo o olhar do amante. Mantinha a criança ao colo, que ainda em choque optara por se refugiar no seu ombro, escondendo aí o rosto ameninado. – Não podemos correr o risco de o deixar aí, pode ser encontrado por mortais…
- Levamo-lo lá para fora – respondeu Elwood. – E deixamos que o nascer do Sol resolva o assunto com a dignidade que este pobre diabo merece. Mais preocupante é a rapariga.
Ethan encolheu os ombros, fazendo com que a criança estremecesse perante a súbita movimentação.
- Antoine deve tê-la deixado aqui com intenções de a vir buscar, não há muitos problemas a resolver…
***
“Aquela seria uma manhã que o homem jamais esqueceria” afirmou Antoine. “Chegara à sua aldeia natal, feliz por regressar, mas rapidamente tal sentimento se esbateu, perante a realidade que agora ele encontrava. Não restava muito da sua aldeia, algumas casas em ruínas, muitas cinzas e ainda mais corpos. Corpos de amigos, corpos de companheiros… O pavor encheu o homem, inundando-o pelo medo e ele correu, como nunca correra, em direcção à sua casa, ao seu lar, temendo pelo que lá encontraria, esperançoso de que estivesse errado e que por um milagre, que apenas por um milagre, ela, elas, tivessem conseguido escapar… Mas ai dele, que nunca tal corria como desejado. O homem chegou ao local onde a sua habitação se deveria erguer, simples e modesta, mas alegre e adequada, e encontrou ruínas, como já esperava, e corpos pelo chão. Não conseguiu reconhecer o da filha, talvez não estivesse ali, ou talvez se encontrasse de tal forma deformado que se tornava uma tarefa ingrata a de a procurar… Mas a mulher… A mulher encontrou-a, já com indícios de podridão, as perna abertas perante a entrada forçada e pior, muito pior… O seu ventre grande e redondo, já nos fins da gravidez, encontrava-se aberto, assassinado pelo exterior. O homem viu a mãozinha, já formada, com os cinco dedinhos, e chorou perante as bestas que haviam cruelmente assassinado uma criança da mais pura inocência, uma criança que nem ao mundo tivera oportunidade de vir…E o homem gritou para os céus, amaldiçoando Deus e os seus, amaldiçoando tudo o que naquela terra se mexia... Até ter surgido aquele que nele reconheceu o âmago de uma raça superior, e a ela o ascendeu, ensinando-o, educando-o… E é por isto, Diana, por episódios como este, tão comuns e abundantes, que desprezo aquela raça. Mortais nada mais são que vermes egoístas e senhores do seu nariz, convencidos da sua sapiência, do seu saber e superioridade... E na verdade não são nada, nada mais que as restantes criaturas que eles tão desdenhosamente desprezam.”
***
“Se alguma coisa me acontecer” dissera Elaine “promete-me que serás forte. Não, não me interrompas, sabes tão bem como eu que percalços acontecem, sejam acidentes ou doenças. Se alguma coisa me acontecer, promete-me que serás forte, que aguentarás. Não te esqueças, meu amor, que esta criança vai precisar de um pai.”
Paul prometera, afagando-lhe o ventre cheio, prestes a dar à luz. Mas como poderia ele manter a promessa se também Eric havia partido? Nada lhe havia restado pela qual lutar… Excepto Diana, a sua bela Diana… Mas também ela sofria, dia após dia, noite após noite, vendo o quão incompleto era o seu ser, o quão agrilhoado se encontrava o seu amor…
Virou-se, o coração aos pulos perante o reconhecimento da ténue movimentação de ar que Diana lhe ensinara a diferenciar. Viu um homem alto, imponente, parado a fixá-lo, lado a lado com o memorial de Eric e Elaine. Mesmo de longe, conseguiu perceber o charme que dele emanava, e não fosse o saber quem ele era – o que ele era –, tê-lo-ia seguido para qualquer lado.
- Boa noite – cumprimentou. O Imortal retornou-lhe a saudação no mesmo tom polido e educado de que Paul fizera uso. – Se vieste para aquilo que Diana teme…
- Vim – interrompeu o vampiro, aproximando-se alguns passos, embora parecesse ter o cuidado de manter uma distância razoável. – O que fizeste à minha filha é imperdoável, vejo-te a ti como único causador da sua desgraça.
Paul anuiu, concordando em que eram aqueles os seus erros.
- Permite-me ao menos que seja eu a colocar um fim. – Sorriu, como que troçando de si mesmo. – Morrer com dignidade está na moda.
- Sempre o esteve, entre vocês – retorquiu Antoine, levando a sério o que o outro dissera como uma brincadeira nervosa. – Gregos com veneno, romanos pela espada, cristãos com leões… O único conceito que se inova é o de “dignidade”. O resto, a ideia da morte aceite e recebida, permanece inalterável consigo mesma.
- Desprezas-me – afirmou Paul, deixando morrer o sorriso zombeteiro.
- Chego a odiar-te – confirmou o Caído. – Tu, mais do que qualquer mortal, tudo fizeste para nos envergonhar.
- Não era minha intenção.
- Nunca o é.
Encararam-se em silêncio, cada um deles procurando descortinar o que passava pela mente do outro. Finalmente, Paul suspirou, indicando a sua desistência. Com a dificuldade que o peso dos trinca e picos anos de vida já se fazia ressentir nas articulações, subiu para a beirada da ponte, encarando as águas que mais cedo nessa mesma noite havia estado a enamorar.
- Se te pedir que lhe digas que a amo…
- Não o farei – cortou Antoine. Paul aceitou com um aceno mudo.
- Já o esperava – afirmou. – Ainda assim, eu amo-a.
***
Sentiu um baque, como se uma parede de emoções tivesse vindo de encontro a si, retirando-lhe todo o ar que tinha no peito. Encontrara o apartamento de Paul arrombado e não precisava de entrar no mesmo para o saber vazio.
“Não”pensou. “Não, não, não!”
Saiu do edifício a correr, ignorando o porteiro que a chamava, desconfiado com todos os vaivéns que se passavam naquela noite mesmo debaixo dos seus olhos. Não sabia se deveria ficar apreensiva ou aliviada por Paul ter quebrado a promessa e abandonado o apartamento, mas naquele momento isso pouco lhe importava. Precisava de o encontrar, precisava tanto de o encontrar… Formou uma lista mental de todos os sítios onde ele poderia estar àquela hora. Não eram muitos, Paul sempre fora uma pessoa de locais fixos e hábitos longos, então… “A ponte!” pensou, acelerando ainda mais a velocidade a que corria. Não se importava com os mortais que a poderiam ver, que a poderiam sentir… Em todo o caso acabariam por esquecer ou achar que a mente lhes estava a pregar partidas. Daquele modo chegaria mais rápido do que qualquer táxi naquela cidade o poderia fazer.
***
“Acusam-nos de sermos ignóbeis, de sermos cruéis… Criaturas vis e amaldiçoadas a quem até Deus virou as costas… E talvez tenham razão naquilo que dizem, talvez nós sejamos essas criaturas impiedosas. A questão é que bem vês, Diana, eles são o mesmo. Sem poder e sem autoridade, são idênticos nos insultos que sobre nós fazem recair… E igualmente idênticos naquilo a que chamam ferir. Nunca duvides, Diana, da sua capacidade de se lacerarem a eles e a outros, mascarando-se depois em inocência e boas intenções, prosseguindo sempre nestes seus joguetes. Pobres e ignóbeis criaturas! Hoje ainda existem alguns que o sabem, da nossa existência, que não são o maior dos caçadores que caminha pelo “seu” mundo, mas tempos virão em que nem esses poucos existirão, e caminharemos livres, poderosos, provavelmente aborrecidos pela facilidade das nossas presas.”
***
- Antoine! – gritou, no momento em que a figura conhecida entrou no seu campo de visão. Orou a todos os deuses que alguma vez haviam tido um culto por entre as civilizações, pedindo-lhes para que Paul não estivesse ali, para que Antoine ainda não tivesse feito nada...
Estacou ao pé do Infiel, inconscientemente registando na sua mente que o mesmo se encontrara debruçado sobre a ponte até à sua chegada.
- Diana, minha filha – saudou o vampiro, abraçando-a. Pareceu não se importar com a imobilidade da imortal. – Estava prestes a ir à tua procura. Tens uma nova irmã, uma criança terrivelmente esperta de nome Martha.
Diana estremeceu, recordando a menina que quase matara ainda nem há uma hora atrás. Desviou a imagem do pensamento, concentrando-se naquilo que ali lhe trouxera.
- Paul? – perguntou, afastando-se do abraço do Pai e olhando-o com ferocidade. Antoine não respondeu, limitando-se a girar a cabeça para o lado, na direcção das águas turvas que teimosamente permaneciam na sua tarefa de constante renovação até ao mar, ignorando as tragédias que em si albergavam.
- Não… – murmurou a imortal, ouvindo a própria voz a embargar com a dor que impiedosamente a atacara de surpresa. – Não, ele não pode ter cedido…
- Um mortal curioso – comentou Antoine, como se comentasse casualmente alguma trivialidade. – Esteve um passo à minha frente, o que já de si é estranho. Contudo, era egoísta, terrivelmente egoísta.
As lágrimas começaram a deslizar pela face de Diana; lágrimas que, para seu espanto, nada mais eram do que simples e comuns gotas de água ligeiramente salgada. Não se julgava capaz de as produzir desde o momento em que deixara de ser humana…
- Ele tinha-me a mim – soluçou. – Ele tinha-me a mim e mesmo assim… mesmo assim… preferiu-os a eles… Eles estavam, estão mortos, por deus, como é possível?
Antoine aproximou-se novamente, passando-lhe um dos braços pelos ombros.
- Não te estás a esquecer de algo, Diana? – perguntou. A Caída levantou a cabeça, olhando-o interrogativamente. – Também tu estás morta, Diana. E todavia vives. Há muitos anos que tens sido avisada sobre este egoísmo, sobre esta mágoa que tão característica é dos pretensiosos mortais, mas quiseste, tiveste de te envolver, de experimentar por ti mesma… Pois bem, minha filha, ele agora foi, desapareceu deste mundo por sua escolha e vontade, tal como tu no fundo sabias que ele o faria.
Diana abriu a boca para argumentar mas Antoine cortou-lhe a palavra, respondendo antecipadamente aquilo que ela iria dizer.
- De que outra maneira irias tu, tão possessiva e orgulhosa, permitir que coisas como visitar esta ponte, este memorial, acontecessem? De que outro modo deixarias que fosse dele a escolha de ascender ou não à raça em que o querias? Retira a poeira dos olhos, Diana, e vê aquilo que até agora tens negado a ti mesma. Volto a repetir, ele já fez a sua escolha e arcou com as consequências dos seus actos. E tu, Diana? Que vais tu fazer?
Diana retirou um lenço de linho do bolso das calças, assoando-se e limpando as lágrimas. Deixou-o cair nas águas, num gesto simbólico em que ignorava todo e qualquer pensamento ambientalista.
- Não sou fraca – afirmou. – E ainda há muito pelo qual desejo viver.
Antoine torceu os lábios, satisfeito.
- Em breve o mortal não será nada mais do que uma memória indigna.
Diana permaneceu em silêncio, guardando para si a resposta de que Paul jamais seria pouco mais que uma memória, assim como também nunca o seria indigno. Paul era, e sempre o seria, a representação do que para ela era agora o amor. Com ele amara e fora amada, e isso não poderia, por mais décadas, por mais séculos que vivesse, ficar a um nível tão baixo quanto a de uma memória. Paul seria, para todo o sempre, o seu amante, o seu desejado…
Fechou os olhos, respirando fundo e sorrindo perante a vitória do seu intento. O odor de Paul ainda ali se encontrava. Um cheiro único ao qual ela se habituara e acostumara. Uma fragrância que se altera ao longos dos dias, dos meses que com ela convivera. Naquele cheiro, ela sentia como que a interligação que entre eles havia existindo, perpetuando para todo o sempre o sentimento que haviam desenvolvido. Naquele cheiro, características de ambos encontravam-se reveladas, unindo-os, aliando-os como um só… Era um aroma doce, um aroma único…
“É um odor” pensou Diana “a sangue e cigarros.”
Sobre a história
E eis a prova viva e escrita do quanto uma história é capaz de se dominar a si mesma e ao autor. A ideia surgiu-me inicialmente como uma one-shot, onde apenas tinha o princípio e o fim, tudo o resto foi-se desenvolvendo à medida que escrevia. Para minha desgraça, estava a chegar ao final do primeiro capítulo quando me apercebi de que teria de escrever uma shortfic. A partir daí, começava cada capítulo com um sorriso de satisfação por o saber o último (compreendem, tenho projectos a mais em lista de espera XD), ao que S&C (sigla inteligentemente dada pela Lady Freak XD) respondia “Ai é? Pois toma lá que já te lixas” e assim acabamos com uma shortfic de quatro capítulos, sendo que este último foi o maior capítulo que eu alguma vez escrevi (já devem ter notado que eu sou fã de escrever capítulos pequenos).
Odeio o Paul. Quando o comecei a escrever, ele era-me indiferente e até agora nunca tinha compreendido bem como é que os autores poderiam não gostar das suas personagens, em especial quando elas eram as principais – agora que isso me aconteceu, já o percebo. A maneira como ele e a sua personalidade se foram desenvolvendo foi algo necessário e que me agradou, mas o resultado disso não. Ele é egoísta, fatalista e por vezes apetece-me mandar-lhe dois pares de estalos. Por outro lado, também é a prova viva da minha convicção de que uma pessoa não pode ser completamente alterada por amor – portanto, raparigas a quem os namorados batem e abusam e que suportam isso convictas de que eles acabarão por mudar por amor… Pá, isso nunca acontecerá e o mais provável é acabaram vítimas de violência domestica se não resolverem ganhar espinha dorsal e os meterem já a andar.
Quanto a Diana, tudo o que demonstrou durante esta história é uma parte dela muito particular. No geral ela é um pouco mais como aquilo que demonstrou em relação a Leslie, Elwood e Ethan do que aquilo que mostrou a Paul e ao leitor. Como a maioria das pessoas, a personalidade dela é bem variada e age distintamente com base na relação que tem com as pessoas/vampiros.
Sejam simpáticos, foi a minha primeira vez a escrever/descrever(?) sexo heterossexual e não sou a pessoa mais experiente no assunto (para que conste, eu NÃO acho que seja assim tão meloso e bonito, nem que as pessoas chorem de comoção). Não o planeava fazer, aliás, não planeava muitas das coisas que agora me vão obrigar a subir o ranking e a meter mais avisos, só me lembrei “Ei! Se tiver coragem agora ficava aqui bem uma cena e tal” no momento em que o Paul enterrou a focinheta no pescoço da Diana.
Por fim, muito obrigada por lerem =). Reviews seria fófinho e eu ficaria extremamente feliz.
Bjs
Ely