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A pequena corou e encolheu-se no banco ao sentir o olhar de cada um dos colegas de turma pousados sobre ela mesma. Fosse o que fosse que esperara, com certeza que não era aquilo.
- Como assim, já leste o livro todo? – perguntou a professora, abanando o livro “O peixinho dourado” de um lado para o outro. – Só vos entreguei os livros ontem!
- Mas eu li! – exclamou a rapariga, agarrando o estojo com força. – Li-o ontem à noite, até posso dizer como é a história, começa assim…
A sala permaneceu em silêncio durante alguns minutos, sendo a voz fina e infantil da pequena o único som audível, contudo, a natureza dos seis e sete anos rapidamente se manifestou, devolvendo ao compartimento o burburinho das crianças que, maravilhadas pela oportunidade de se escaparem a uma nova lição, se distraíram em conversas sobre as brincadeiras que deveriam ser feitas no intervalo e quem deveria ser o quê. Apenas a professora permanecia atónita, ouvindo a tímida aluna descrever num resumo mal ordenado, mas ainda assim correcto, a história daquele livro infantil.
- E é isto – finalizou a rapariga, olhando insegura para a professora, a qual lhe sorriu em troca. Nesse dia, a pequena levou um outro livro para casa, como prémio pela vontade demonstrada.
***
- Sara, está com atenção! – avisou a avó, notando pelo olhar vago que a pequena já partira para outro planeta. – Anda lá, vá, eu acabei de te ensinar isto!
A contragosto, Sara voltou a focar o olhar no livro de português à sua frente, reprimindo um suspiro que sabia que iria arreliar a avó. Não queria voltar a ouvir o quanto também lhe era custoso perder uma bela tarde de Setembro, quando o tempo já não estava tão quente mas ainda não estava muito frio, para ficar ali a dar-lhe explicações de gramática. Também não queria aborrecer a avó, não gostava de aborrecer as pessoas, elas ficavam tristes e depois também ela ficava triste por as saber assim. Por outro lado, não desgostava de gramática, apenas achava difícil ter de decorar todas aquelas regras, afinal, ela sabia usa-las na prática, no dia-a-dia, e usava-as bem, porquê que tinha de saber os nomes, os quando e porquês?
***
- Só tens estes livros? – perguntou Sara, olhando abismada para a meia dúzia de livros que pobremente caíam uns sobre os outros na estante lotada de brinquedos e bugigangas. Os gritos das brincadeiras das outras crianças soavam cada vez mais próximos, indicando que as mesmas haviam saído da sala e se dirigiam ao quarto de dormir.
- Só e já está bem – retorquiu a pequena aniversariante. – Não somos todos como tu, que tens as prateleiras cheias.
- São só duas… – respondeu Sara, mordendo os lábios e dando-se subitamente conta da diferença entre ela e as amigas. Sempre achara que todos liam o mesmo que ela, afinal, a mãe lia muito e estava sempre a dizer que o avô também lia muito… A irmã nem tanto mas lá ia lendo, e quando queria conseguia ler as legendas dos filmes muito, mas muito rápido! Não era toda a gente assim? Mas se não liam… o que é que faziam com o tempo em que ela lia?
***
A porta abriu e bateu quase de seguida, indicando que a mãe tinha acabado de chegar. Sara ergueu ansiosamente os olhos para a avó, num pedido mudo para que lhe desse a sua liberdade.
- Vai lá cumprimentar a tua mãe – cedeu a avó. – Já fizeste os exercícios quase todos, amanhã continuamos.
A face rasgou-se-lhe num sorriso, enquanto saltava da cadeira e corria em direcção à mãe, deixando para trás os medonhos livros de exercícios abertos e desordenados, com as canetas e lápis a rolarem-lhes em cima.
- Então, Sara, calma! – advertiu a mãe antes de a abraçar e retribuir os mimos. – Com dez anos já não te posso pegar ao colo. Deixa-me pousar os sacos, tenho um presente para ti, mas antes preciso de saber se te portaste bem – acrescentou, olhando significativamente para a avó, que havia seguido a neta.
- Sim, portou-se bem, fez os exercícios direitinhos – respondeu a avó num tom um tanto ou quanto indeciso. Nessa altura, Sara não o notara, e se a mãe se apercebera, fingira que não.
- Ah, ainda bem! – exclamou, tirando um livro de um dos sacos e depositando-o nas mãos da filha. – Dizem que é muito bom, tem estado a fazer imenso sucesso lá fora.
Sara observou o livro, arregalando os olhos perante a grossura do mesmo… Nunca tinha lido nenhum tão grande… e…
- Não tem imagens – disse, folheando o livro para reconfirmar novamente aquilo em que não queria acreditar. Não que precisasse de ter uma imagem por folha, mas “Os Cinco”, “Uma Aventura, “O Colégio das Quatro Torres”, “Colecção Mistério”… todos eles, tudo o que já havia lido tinham uma imagem ou outra por entre as folhas…
- Bem, já estás a ficar crescida, acho-te perfeitamente capaz de ler um livro sem desenhos – respondeu a mãe. Sara escondeu a decepção o melhor que conseguiu e abriu novamente um sorriso, agradecendo à mãe o presente que lhe dera. Sozinha, voltou a olhar para a capa. Era um desenho feio de um rapaz de cabelos pretos e óculos com uma capa vermelha horrorosa a voar agarrado a um livro com as páginas abertas. Por trás dele estava um castelo, cheio de torres e em tons claros, rodeado por uma floresta cujas árvores podiam muito bem ter sido desenhadas por ela mesma, que nem tinha grande talento para o desenho. Uma tira de papel rodeava o livro, garantindo que milhares de crianças por todo a Europa já se haviam deixado enfeitiçar. “Sim, pois claro” pensou sarcasticamente Sara, arrumando o livro numa prateleira. “Só se forem muito estúpidas.”
***
- O que é que estás a ler? – perguntou Ana Luísa, debruçando-se sobre Sara. Relutante, a rapariga desviou os olhos do livro, mostrando-lhe a capa do mesmo. A amiga leu o título do mesmo, franzindo o rosto ao não reconhecer as palavras.
- É bom? – perguntou novamente. – Agora passas os intervalos a ler isso.
- É muito bom! – respondeu Sara, subitamente excitada pela oportunidade de falar sobre a sua primeira e empolgante paixão. – É o melhor que já li! Mas acho que este é o segundo… Eles estão numa escola e estão no segundo ano e às vezes falam de coisas que aconteceram no ano anterior. Quando acabar de o ler vou procurar a ver se existe mesmo outro.
- A minha mãe está sempre a dizer-me para ler mais – lamentou-se Ana Luísa. – Depois emprestas-me?
- Empresto! – garantiu Sara, ansiosa por espalhar a sua nova descoberta.
***
Haviam-se passado dois meses desde que recebera aquele livro, mais dia, menos dia. Estava entediada, aborrecida e sem nada para fazer. Na verdade, já nem se lembrava do “presente” medonho que a mãe lhe dera. O melhor seria, talvez, procurar nas prateleiras algum livro para reler, havia alguns assim, bons o suficiente para isso… Estranhou ao ver uma lombada desconhecida. Com cuidado para não deixar os outros caírem, retirou o livro em questão da prateleira, observando novamente a capa feia e agora um pouco amassada de tão apertada se encontrava entre os outros. Leu o título, antes de o virar e ler o pequeno resumo na contra-capa. Encolheu os ombros e deitou-se de bruços na colcha da cama. Já agora, não lhe custaria nada ler aquilo…
***
- Felizmente a ti sei sempre o que hei-de dar – gracejou o padrinho. – Se não é um livro, é outro livro.
- Também pode ser dinheiro – murmurou a rapariga, deitando-lhe a língua de fora à laia de brincadeira.
- Que vais estoirar em livros – retorquiu o padrinho.
- Deixa-a lá, só lhe faz bem – interrompeu a mãe. – Ao menos fica com cultura. Podias era não estar sempre a ler o mesmo – acrescentou.
- Eu não estou sempre a ler o mesmo!
- Claro que estás, quantas vezes já leste esse livro? – perguntou, indicando o livro que ela trazia na mão naquele exacto momento.
- Doze – respondeu Sara a contragosto. – Mas também leio outras coisas!
- Doze é demais! – continuou a mãe, ignorando a fraca defesa apresentada pela filha. – Se queres ser uma boa escritora tens de ler outras coisas!
- Eu sei – resmungou Sara. Ela sabia. Mas nenhum outro lhe oferecia o mesmo que aquele livro lhe oferecia. Porquê que não a podiam deixar em paz?
***
“E juntos avançaram até à entrada para o mundo dos Muggles.”
Sara parou, olhando a última frase do livro que recusara durante meses. Naquele momento, também ela se sentia como se tivesse acabado de sair de um mundo de magia e feitiçaria, ficando forçada a enfrentar novamente o cinzento e banal mundo Muggle. Como, mas como pudera negligenciar aquele tesouro, aquela maravilha, de tal forma que só naquele momento descobrisse o quanto estivera a perder?
Fechou o livro, lendo novamente o título.
- “Harry Potter e a Câmara dos Segredos” – murmurou, saboreando as palavras. Aquilo, acabara de descobrir, era a sua vida. Ou, talvez melhor dizendo, o primeiro grande ponto de viragem que a alteraria. Harry Potter.
***
Eram poucos. Naquela altura, ainda eram poucos e a informação escassa. Encontrar fãs com quem falar e discutir era árduo. Encontrar produtos que se quisessem comprar era impossível, não existiam e nem eles sequer pensavam nisso. Sara leu o segundo livro, quebrando o seu próprio recorde. Em seguida procurou pelo primeiro, e leu-o em menos tempo ainda. Meses depois descobriu, com a alegria inesperada de quem nem sequer o imaginava, que o terceiro havia acabado de sair. Numa noite, emborcou 411 páginas, um feito inédito que anos depois lhe pareceria fácil demais – afinal, lia algo de que gostava. Mais do que ler, sentiu. Naquelas páginas, naquelas linhas, sofreu, riu, amou e chorou. Deus!, até saciada ela se sentia quando acabava as descrições das refeições! Aquilo não era um livro, não o podia ser! Era uma porta, um portal para um outro mundo, uma outra dimensão na qual ela, Sara, era convidada a entrar, vezes e vezes sem conta. E ela entrou, feliz, quase que obcecada. Leu e releu, dez, onze, doze vezes! Parou à décima quarta… E nessa altura eles já eram mais, já muitos sabiam o que era, sobre o era, o quão bom era… Finalmente, foi lançado o quarto livro e a série transformou-se num sucesso mundial, imbatível, com níveis de leitura nunca antes vistos. Crianças que até então nada mais haviam demonstrado senão desinteresse, indicavam-se agora como sedentas daqueles mundos… Novas edições foram feitas, capas especiais, capas diversas, em dezenas e dezenas de línguas, para crianças, para adultos… Mas nenhuma igual à sua. Nunca Sara soube de nenhuma igual à sua... Porque a sua feia capa era uma invejável e orgulhosa primeira edição.
- Daqui a uns anos irão valer muito dinheiro – dissera-lhe o tio; e ela olhara-o, horrorizada. Dinheiro? Que dinheiro? Nunca, jamais os venderia, aos seus livros, com as suas capas feias e toscas, que tanto amava. Mais do que o valor dado por qualquer coleccionador, mais do que uma série em primeira edição, mais do que qualquer fã poderia fazer por ter, aquelas capas eram as capas que a haviam guiado para um novo mundo, repleto de encantos e aventuras, envolvendo-a na sua magia e convidando-a a por lá ficar…Aquelas capas eram as capas com que pela primeira vez ela os repudiara… As capas que não tinham preço. Eram dela, sempre seriam, e o seu valor, esse, tornara-se incalculável.
***
A euforia chegara ao fim. Sem mais esperanças, teorias ou especulações. O último livro saíra, primeiro em inglês, depois em português. Ambos ela tinha comprado e devorado. Sentiu uma quebra na qualidade, mas não importava, era o final de um ciclo, o acabar de uma fase. E daí, talvez não.
- Só o vou ler porque li os outros e não quero deixar a série por acabar – dissera uma, duas, três pessoas! Tantas que o haviam dito! E ela continha-se, mantendo-se calada no seu horror. Sentiu a sorte, a bendita sorte que ainda tinha de os ler por gosto, por avidez. Não era a mesma mania, a mesmo obsessão de anos atrás, mas não fazia mal, talvez assim fosse mais saudável.
Com nostalgia, pegou no segundo livro, o primeiro que a fizera sonhar, e sorriu aos lembrar-se do quanto o julgara grande e grosso… Agora parecia-lhe tão fino, tão fácil de se ler… Dez anos. Dez anos se haviam passado desde aquela altura. Dez anos de adoração que aquelas linhas lhe haviam oferecido… E quem imaginaria que tal poder se ocultaria por detrás de tão feia capa?