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Disclaimer: Isso é tão maluco que só pode ser completamente meu
Categoria: Fable
Classificação: Livre
Beta Reader: Não foi betado
Sinopse: Uma Floresta Magica antes do Tempo ser o Tempo pode ter sido onde nasceu o Espirito do primeiro homem.
Notas: Até agora eu não sei de onde isso saiu. Sérião.
Uma Fábula sobre as Criações
Houve um tempo, muito antes do Tempo ser como nós o conhecemos, que o mundo todo e tudo o que existe era uma grande Floresta Mágica. Nesta Floresta Mágica existiam criaturas, que eram como os animais que nós conhecemos hoje, mas eram ao mesmo tempo diferentes, porque todos eles falavam, eram eternos e só existia um de cada tipo.
Portanto existia um urso, chamado Urso, e que era o Rei das Terras do Urso.
E existia um lobo, de nome Lobo, Rei das Terras do Lobo.
Existia um Peixe, e um Cavalo, e uma Arara, e uma Libélula, e todos eram Reis e Rainhas de suas terras. E todos conviviam em harmonia, porque desconheciam qualquer coisa que não fosse a paz. Mas, embora falassem, eles quase nada sentiam, porque, como eu disse, eles desconheciam tudo além da paz, e na paz muito poucas coisas são criadas e demoram muito tempo para ficarem prontas. E portanto, não se criava muitos sentimentos, e os que se conheciam eram só os que eles precisavam para viver em seus mundos.
Então todos os animais, únicos, eternos e imutáveis, viviam suas vidas apenas porque não conheciam a morte, e não conheciam nada além daquilo que viviam.
Uma vez, alguém (o Macaco, talvez, mas hoje já não se sabe com certeza), teve uma idéia. As idéias eram uma coisa rara por lá, porque as idéias só nascem quando alguém sente que precisa mudar algo, e os animais raramente sentiam isso em suas Terras na Floresta Mágica. Mas o Macaco, e digo o Macaco porque conta-se que ele era o metido a ter idéias de vez em quando, resolveu que seria interessante que todos os animais se encontrassem de uma só vez em um lugar onde existisse muita comida, e sons agradáveis. Seria interessante porque nenhum animal estaria em suas Terras, e algo além da paz talvez pudesse ocorrer.
Foi assim que se fez a primeira Festa.
Na primeira Festa, ninguém sabia o que fazer. Uns chegaram perto dos outros, comeram o que tinham que comer, falaram “Eu sou fulano, eu sou siclano, na minha terra há isso e aquilo”, e depois, não havia mais nada a dizer. Porque os animais, como eu disse, não conheciam quase nenhum sentimento.
Mas naquele momento nasceu um sentimento novo. Nasceu em todos os animais, como uma necessidade para que a paz fosse mantida e a Festa não acabasse mal. Nasceu o sentimento de necessidade. Eles precisavam de algo para conversar, porque conversando eles talvez pudessem se divertir, e se divertindo a paz seria mantida. Mas com a necessidade, surgiu a Criação.
E a Criação surgir assim. Como eles sentiam necessidade, resolveram fazer algo a respeito. Então começaram a doar partes de si mesmo para formar uma coisa nova. E assim, Criaram algo.
Primeiro veio o Macaco, e cedeu a forma de seu corpo. Depois veio a Aranha, e cedeu suas habilidades manuais. Então se aproximou a Arara, e cedeu sua fala rápida. E logo em seguida o Tigre deu a Criação a habilidade de caçar. O Urso cedeu um coração, e o Lobo presenteou-lhe o dom do mistério. O Cavalo aproveitou o coração e colocou nele a liberdade, mas logo em seguida o Búfalo colocou o ‘amor a terra’ em cima da liberdade, e dizem que embora o coração fosse infinito, a liberdade e o amor a terra brigam até hoje por seu lugar. Seguindo aquele exemplo, vários animais também colocaram suas doações no coração, como o Leão que deu ao ser o desejo da liderança, e a Cobra-Cega que instalou por lá a duvida. E a Borboleta, que insistiu em doar a beleza.
Mas outros animais usaram outras partes do corpo da Criação, que era na verdade a forma do Macaco. A Corça colocou a ansiedade bem na boca do estomago, e a Águia deu ao ser olhos além da vista, que podiam ver apenas o que queriam. A Coruja, entretanto, achou a cabeça um bom lugar pra colocar a inteligência, e logo o Sapo resolveu também colocar lá a contemplação. Com a contemplação e a inteligência ali, o Gato se sentiu obrigado a colocar também na cabeça os pensamentos. Já o Peixe colocou os belos movimentos nos pés, e já que estavam nesta onda, o Cisne resolveu colocar nos joelhos a fraqueza ante as coisas belas e horrendas.
E assim, animal por animal deu seu presente a Criação, a primeira delas, até que aparentemente todas as coisas haviam sido dadas. Mas o ser continuava lá, imóvel, e os animais começaram a pensar que afinal de contas não era possível Criar, quando se deram conta que havia alguém que ainda não tinha dado seu presente. Eles haviam todos se esquecido, porque esse animal vivia tão longe que raras vezes algum outro animal o tinha visto, e ele levara dias para chegar até a Festa.
Era a Fênix.
Agora vocês dirão, a Fênix não existe! Mas eu explico. Naquela época antes do Tempo, não existiam muitos mundos como agora, só um, e realmente tudo o que existia estava nele. Não só os animais que conhecemos, mas também aqueles que achamos que só existiram no passado ou na nossa imaginação. Afinal, o passado e a nossa imaginação são outros mundos que existem no nosso Tempo. E a Fênix era tão real quando o Escorpião ou o Elefante.
E a Fênix disse:
- Darei a Criação a faísca da vida, que será a minha morte, e portanto viverei dentro dela para sempre.
Os animais nunca tinham ouvido as palavras Vida e Morte antes, mas a Fênix era estranha, sábia como a Coruja mas artista como o Grilo. Então eles aceitaram a oferta.
Quando a Fênix chegou perto da criatura, ela se incendiou. Todos gritaram, achando que estava tudo arruinado, porque o fogo mais rápido que fagulha se espalhou para a Criação. Mas enquanto assistiam, experimentando mais uma nova sensação além da paz (algo que hoje chamamos de desespero), aquele fogaréu todo, algo aconteceu.
A Fênix sumiu, e não se via vestígios dela. Mas a Criação estava diferente. Ela se mexia, olhava para todos os lados, piscava com os olhos brilhando, testava tudo em seu corpo quanto conseguia testar ao mesmo tempo. Parecia curiosa, elegante, desajeitada, sonolenta, desperta, risonha, triste, tudo ao mesmo tempo. Foi só então que os animais entenderam o significado da palavra Vida.
Então a Criação falou. No começo, falou apenas bobagens sem nexo, mas depois conseguiu falar direito. Ela apertava o peito, onde ficara o coração, e parecia hesitar, procurando pela habilidade de cantar que o Grilo lhe dera. Por fim, sentou-se, contemplativa como o Sapo, e desatou a ter algo que nenhum animal experimentara até então.
Sonhos.
E a Criação cantava seus sonhos como quem relatava a coisa mais bela, e a mais terrível. E ela parecia acreditar em alguns dos sonhos, e desacreditar em outros, e ficava confusa quanto a vários deles. Os animais começaram a se divertir com aquilo e a primeira Festa finalmente ficou animada. A Criação dançava, inventava coisas a velocidade da luz, e as esquecia logo depois, para em algum tempo voltar a lembrá-las. E a Criatura sentia-se forte, e depois sentiu algo que era o desejo, por alguém igual a ela. Atribuiu-se tal esquisitice aquela mistura toda que se fizera no coração, agora todo cachoalhado pelos movimentos. E a Criação mudava tão rápido, tão rápido que os animais mal conseguiam acompanha-la.
Por fim a Criação foi se sentindo fraca. E voltou a contemplação, enquanto seus pelos antes brilhantes se tornavam cinzentos como os do Lobo. Parecia que a Criação não duraria muito mais, e então os animais entenderam o significado da palavra Morte.
A Criação voltou seus olhos para cima, vendo o que queria ver, confundindo seus sonhos com a realidade, naquela ânsia que lhe causava o desespero de se perder para sempre. E Então a Criação disse.
- Eu fui criado por vocês, nasci, vivi, e vou morrer. Portanto, com minha inteligência, com meus pensamentos, com meus desejos e medos, acredito em algo que criou a todos vocês, que nasceram um dia, estão vivendo agora, e vão morrer. Acreditar significa sonhar, e sonhar significa acreditar. E eu acredito e sonho com essa criatura que está além de todos nós. Ela se chama Deus.
E então a Criação deitou-se, suspirando pela ultima vez. E se foi.
No começo, todos os animais ficaram tristes, desacreditando em seu retorno. Mas aconteceu algo mágico, que era mais mágico que tudo na Floresta Mágica. A terra engoliu a Criação, e depois de algum tempo, a terra o entregou, vivo, novo em folha, e novamente confuso e perdido, como se não se lembrasse de nada. Estava um pouco diferente, mas estava exatamente igual. E começou a viver outra vez, e a dizer novamente aquelas coisas sobre aquele tal Deus.
E foi assim que os animais começaram a acreditar na Criação, mesmo que soubessem que nunca tinham nascido, nem nunca iriam morrer. E acreditando, o sonho se tornou real.
E foi assim que nasceu Deus, que criou os animais e os homens, apenas depois de ter sido criado por eles.