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Fiction » General » Tōkai font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Blodeu-sama
Fiction Rated: T - Portuguese - Tragedy/Drama - Published: 10-08-09 - Updated: 10-08-09 - Complete - id:2728952

Disclamer: Este conto me pertence.

Categoria: Drama, Angustia, Terror, Morte.

Classificação: +18 (pela carga emocional, nada mais)

Sinopse: Houve muitos avisos sobre sua chegada, mas ninguém realmente sabia. A tragédia nunca pode ser prevista.

Notas: Este conto é baseado no Grande Terremoto de Tōkai, um grande tremor previsto para acontecer nesta região do Japão. Sabem onde vai ocorrer, e qual será a intensidade, mas não sabem quando ele vem. Há medidas preventivas por toda a região, mas ainda assim estima-se que ao menos cinco mil pessoas serão mortas neste terremoto quando ele vier. As partes em itálico são traduções de pequenas poesias que acompanham as musicas instrumentais do álbum DIM, do the Gazette.

Tōkai

Costas rasgadas, realidade pulsante.

Estava se despedindo de Érika quando sentiu uma leve tontura, quase uma náusea lhe tomar os sentidos. Acabara de se levantar, talvez estivesse apenas passando mal. Então viu os olhos de Érika fixos em seu copo. Seus lindos olhos cor de grafite hipnotizados pelas ondas sutis que se formavam na superfície de sua água. No segundo seguinte, uma coluna de madeira caiu do teto do restaurante, e a realidade descascou-se para revelar um coração acelerado batendo dentro da terra. Algo dilacerou seu ombro antes que pudesse sequer se mover, mas a dor não era tão lancinante que o fizesse esquecer o pavor sob seus pés. O tremor, a profecia moderna dos homens de branco, se realizando. Finalmente.

Aquela flor que está vestida de sombra, o que me cativou foi seu lado contrário.

O tremor chacoalhava o mundo e parecia determinado a não parar enquanto não o botasse de ponta cabeça. Conseguira segurar a mão dela, arrastando-a por sobre os escombros em formação, tentando seguir para a porta. Ouvia seus gemidos chorosos de pavor além dos gritos e dos estalos. Alcançaram a luz e neste momento suas mãos se partiram. Demorou alguns milésimos de segundo para se virar, para procurá-la. Érika já não era mais a moça que conhecia. Era um corpo no chão soterrado por escombros de uma coluna negra. Seu lindo rosto, quase inalterado, olhos molhados voltados para o céu que despencava. Mas não foram olhos que o fascinaram. Foi o carmesim. A tinta quase poética jorrando de suas entranhas, ele ainda batendo dentro do peito aberto. O mundo parou por um segundo de chacoalhar, respeitando o ultimo suspiro de sua amada. A ultima batida de seu coração.

Você não podia fazer nada? Ou você não fez nada?

Alguém lhe arrastou para longe dela. Um desconhecido, nunca mais lembrou de seu rosto. Havia um abrigo de concreto apenas alguns metros dali. Poucos metros apenas. Era escuro, cheirava a mofo, pó, medo, urina de crianças apavoradas. Balançava como o porão de um navio cargueiro, e eles todos eram os clandestinos. Ele nunca achou que pudesse se sentir assim em terra. O coração palpitante de Érika não deixou suas pupilas naquele negro buraco. Queria tê-la salvo. Teria dado a vida em troca da dela. Teria? Agora, algo como a culpa e a dor lhe corroíam a cada balanço, e ele se perguntava se fizera o bastante. Se fizera algo. Ela morreu, ele não. A toca de proteção onde estava se tornou úmida de culpa, como um útero impossível de se escapar.

Morna, bondade com aroma doce, o que foi colorido de branco também podia ser visto como negro.

Uma mãe consolou seu choro. Uma jovem mãe, com dois filhos pequenos. Durante as longas horas em que o mundo desmoronava, tremia e acabava lá fora, ela o consolou. Seu rosto escondido no ombro dela, aspirando o perfume de sabonete e leite. Aquela mulher, com um bebê no colo e outro agarrado a suas saias, se tornou sua mãe ali, também. Tranqüila ante o fim do mundo. Até que tudo finalmente parou. Depois de intermináveis horas o mundo finalmente descansou, e começou a deixar a poeira assentar. Ele limpou o choro do rosto. Abriu a porta emperrada junto com dois outros homens. Ajudou a mulher a se levantar, a levou para a luz do dia novo que ele não vira nascer, coberto de cinzas e escombros irreparáveis. Visão desoladora. Mas não tanto quanto a que viu ao finalmente se virar para agradecer a ela. O bebê em seus braços. O bebê que ela ninara a noite toda. Branco como uma boneca de porcelana, lábios arroxeados, um coagulo negro na pequena cabecinha. Ela sabia desde o começo, mas ela não aceitaria nunca. Ela o ninaria para sempre, seu filho perdido.

Uma ilustração moderna do inferno, substitua bolas e cabeças, o 'eu' jogando é uma criança que logo se tornará "uma coisa".

Não havia nada, absolutamente coisa nenhuma num raio de muitos quilômetros que não fosse pó e destruição. E morte. O cheiro de morte impregnado nas narinas de todos, uma mistura de sangue, podridão e lagrimas. Pedaços pontiagudos de nada apontavam para a tempestade fria acima deles. Todos trajados com as mesmas vestes de tristeza e cinzas, escalando montanhas recém formadas a procura de algo, qualquer pequeno pedaço do mundo que pudessem reconhecer. Qual mínima migalha indicando o caminho de casa. Animais sedentos, famintos, insensíveis cujos olhos voltavam-se para cima perguntando porque. Era a terra dos deuses, mas eles não davam a mínima. Muita gente fora-se para sempre naquele dia, mas não eram estas as únicas perdas. Muitos corações, ainda que batendo dentro do peito, estavam mortos também. Fé, algo que não existe mais. Ele era um dos muitos. Uma das coisas que emergiram do caos, irreconhecíveis, irremediavelmente perdidos.

A obscuridade da tragédia vai muito além da tragédia.



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