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Author: Blodeu-sama
Fiction Rated: K+ - Portuguese - Spiritual/Angst - Published: 11-05-09 - Updated: 11-05-09 - Complete - id:2738349

Lobo Solitário

A solidão e o escuro eram seus únicos e verdadeiros confortos. Sempre foram, desde que havia sido jogado para fora do útero materno. Pensava que o útero materno fora realmente o único lugar que o fizera feliz. Depois nascera com aquela espécie de doença. Com esse gosto gigantesco pela solidão.

E era mesmo desde sempre. Já pequeno dormia em baixo da cama para não ser achado no dia seguinte. Sentia um prazer quase sexual em estar de olhos abertos e não ver nada. Quando vieram os irmãos, tentou dormir no quintal. Aos seis anos começou a construir uma casa na arvore, apenas para ter seu próprio esconderijo. Odiava comer, porque tinha que dividir a mesa com os outros. Não é que não gostasse deles, apenas amava demais o silencio. A companhia exclusiva de si mesmo.

Aos nove anos leu o livro de Robinson Crusoé. Descobriu que tudo o que queria era viver numa ilha que ninguém conhecesse. Sem nenhum colono inglês ou aborígine para atrapalhar sua paz. Fugiu logo depois determinado a encontrar sua ilha.

Foi arrastado de volta para casa no dia seguinte por um policial. Nos anos que se seguiram, fugiu mais três vezes. Aos dezessete, conseguiu burlar os policiais fazendo o que fazia melhor... ficando sozinho. Não se deixou ser visto. Não deixou rastros atrás de si. Foi para bem longe, cada vez mais para dentro de florestas e montanhas, sobrevivendo do que conseguia encontrar nas proximidades das vilas por onde passava. Estava se tornando selvagem. Mas ele gostava, tinha tempo para ser ele mesmo. Tinha espaço. Era só ele e mais ninguém. Nem mesmo um animal. Nem mesmo Deus.

Um dia estava fuçando numa lata de lixo e ela veio e o viu. Era uma garçonete. Ruiva, cabelos curtos, sorridente. Ela perguntou se ele estava com fome e ele descobriu que mal se lembrava como falar. Ela não se importou. O pos para dentro e lhe fez um sanduíche. Ele comeu e foi embora.

Sonhou com ela.

No dia seguinte ela o procurou. Ela conhecia os bosques e florestas quase tão bem quanto ele, porque nascera ali. Ela o procurou com outro sanduíche, conversou com ele, se fez presente. Ele não odiou tanto quanto achou que odiaria, ter sua paz interrompida. Quando ela perguntou se ele queria tomar um banho em sua casa ele disse sim e eles fizeram amor naquela noite.

Ele ficou naquela casa, se apaixonando por ela. Reaprendeu a conversar, a formular frases longas. Contou algumas das muitas coisas que lhe passavam pela cabeça durante seus dias passados sozinho. Se amaram e se amaram até ele começar a sentir aquela ânsia de escuro novamente. De paz. De solidão. Ele achava, antes de conhece-la, que era assim porque ainda não havia conseguido amar. Não havia aprendido a apreciar ninguém como ele gostava dela. Mas percebeu que isso não era verdade. Ele podia amar, ele gostava de pessoas. Ele apenas não conseguia viver entre elas.

Ele precisava seguir para sua ilha. Sua maldição.

Um dia ela acordou e ele tinha ido. Sem rastros. Ela chorou e procurou por ele mas ele se recolhera ao seu isolamento tão profundamente que era como se tivesse sido tragado pela terra. Ela nunca mais o achou e ele nunca mais se deixou ser visto por outra pessoa. Ele entrou escondido numa barca e foi parar numa ilha turística abandonada no pacifico. Um lugar ameaçado constantemente por um vulcão. Ele não ligava para aquela ameaça de morte eterna, gostava da cor das pedras vulcânicas. Plantou sua própria comida e aprendeu a caçar pássaros. Em algumas noites, quando estava escuro, ele subia numa rocha negra e gritava. Só gritava.

A jovem mulher acordou no meio da noite suando frio. Tivera outro daqueles pesadelos. O homem que amava gritando ensandecido no alto de um penhasco. Eram apavorantes aqueles sonhos, aquela absoluta solidão. Afastando a franja molhada da testa, ela se levantou. Caminhou silenciosamente até o quarto do filho e olhou para a cama do pequeno. Estava vazia. Ela se ajoelhou no chão e olhou em baixo dela.

La estava ele, encolhido na escuridão mais absoluta, os grandes olhos de três anos de idade abertos e atentos a presença dela... brilhando na escuridão.

O grito ainda ecoava em seus ouvidos.



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