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Fiction » General » Uma Segunda Chance
Rufus Ramires
Author of 2 Stories
Rated: K - Portuguese - Updated: 12-09-10 - Published: 07-07-10 - Complete - id:2825986

I

Sexta-feira, acordo tarde e saio correndo de casa sem ao menos tomar o café da manhã: já me atrasei para o trabalho por duas vezes durante a semana e mais uma vez irá, com toda certeza, me render uma advertência.

— "Droga!" – O ônibus da empresa já passou, mas ainda tenho uma chance: descer mais duas quadras a pé e apanhar o 30012 que faz o mesmo percurso e, com certeza, me livro desse apuro.

Chego quase sem fôlego ao local em que, em poucos minutos, minha salvação passará. Apoio o ombro no suporte da cobertura do ponto de ônibus e inspiro fundo, aguardando minha respiração voltar ao normal.

— Tóóóiinnnnnnnn! – "Que barulho foi esse? Ah, claro! Meu estômago reclamando… putz! O ponto é em frente a um hipermercado… e lá deve ter umas frutas… Acho que dá tempo de pegar alguma coisa pra ir comendo no caminho!".

Entro rapidamente no hiper, subo as escadas rolantes e me dirijo resoluto até a seção de frutas, onde uma deliciosa maçã, vermelha como a mais bela ilustração de 'Branca de Neve', sorri para mim. Apanho-a e me dirijo ao caixa mais próximo, só tem uma pessoa à minha frente: vai dar tudo certo!

— Moço! Moço! – repentinamente sinto alguém puxar meu cotovelo.

Olho para trás e me deparo com a figura de uma velhinha, segurando numa mão uma cebola e, na outra, me oferecendo um saco plástico.

— Moço, o senhor tem que colocar sua maçã no saquinho… Senão eles não pesam…

Percebo instantaneamente, pelos pequenos pedaços de casca de cebola que ficaram dentro do saco, que ela acaba de retirar o bulbo dali para oferecê-lo a mim.

— 'Brigado… – respondo, sem me importar que ela talvez não possa pesar sua cebola sem o saquinho, só quero encerrar aquela conversa por ali.

— Tem uns que pesam… mas, aquela caixa ali – diz ela, apontando com o beiço uma funcionária de cabelos curtos e espetados que irá me atender em breve –, às vezes não pesa…

É uma velhinha de cabelos lilás (por que elas fazem isso?), já um pouco ralos na nuca – o que eu posso observar com perfeição, pois ela não chega à altura dos meus ombros. Usa um vestido florido, daqueles de uma peça só e que vão até o meio das canelas, óculos bifocais de grau elevado, um guarda-chuva dependurado ao braço e… pantufas rosas de coelhinhos, nos pés.

— Muito bonita a sua maçã! – ela diz, me analisando por cima dos óculos – Mas, às quartas-feiras eles têm frutas melhores… é o dia da feira, sabe?

— Tá…

Suas mãos são nodosas e enrugadas, mas revelam uma pessoa vaidosa, pois traz as unhas caprichosamente pintadas de um vermelho intenso e o rosto esbranquiçado por algum tipo de pó que nele passou (por qual motivo, não sei).

— Nos outros dias as frutas são boas também, mas a quarta-feira é o dia especial…

— Aham…

— Você vai comer essa maçã agora? Não tomou o café da manhã?

A pele de seu rosto parece ser maior que a cabeça e ter sido encaixada de qualquer jeito apenas para encobrir os tons de vermelho sangue que ainda se tornam visíveis em suas pálpebras frouxas, também a pele dos braços fica pendurada como que sobrasse, logo acima dos cotovelos.

— Olha… a senhora pode passar na minha frente…

— Não… não… muito obrigada! Eu não tenho pressa… sabe… tenho um neto que gosta de maçãs também…

Observo que, apesar do vestido já estar bastante puído pelo uso, e de suas pantufas já se encontrarem um tanto quanto desbotadas, o conjunto, na sua totalidade, encontra-se impecavelmente limpo e muito asseado.

— Próximo!

A voz do caixa, que será minha salvação, soa como a sineta da escola no último dia de aula antes das férias. Avanço rápido, tentando disfarçar um pouco a pressa para não demonstrar o que é a mais pura realidade: quero me afastar o mais rápido possível daquela velhinha de cabelos lilás, suas perguntas, suas pantufas e suas estórias.

A transação é de uma perfeição impressionante: maçã no saquinho – saquinho na balança – valor a ser cobrado – notas miúdas – troco – sacolinha… Perfeito!

Dirijo-me para a escada rolante que vai me levar até a calçada do ponto de ônibus, pela vidraça do mercado posso observar o ponto lotado: tudo certo – o 30012 não passou ainda!

— Moço! Moço!

— Hã?

Não posso acreditar: o caixa atendeu a velhinha quase tão rápido quanto a mim… e sem ter colocado a bendita cebola no saquinho!

— O senhor esqueceu o ticket… – ela diz, vindo em minha direção com o pedaço de papel balançando na mão.

— 'Brigado! – retorno um passo e arranco o ticket das mãos dela, já me preparando para girar nos calcanhares em direção à liberdade.

— Sabe… eles fazem um sorteio todo sábado… com o ticket… se tiver sorte pode ganhar uma torradeira!

— Tá! – apesar do inconveniente, não consigo largá-la falando sozinha ali… não foi a educação que recebi.

— O liquidificador é bom também… mas, eu não tenho torradeira…

— Aham!

— O senhor tem torradeira? (Penso, por um momento, por que os idosos fazem perguntas tão parecidas com as que as crianças fazem).

Nesse momento, com um estrondo surdo, dois funcionários do mercado surgem do nada (pelo menos não os havia percebido até aquele momento) com uma interminável fila de carrinhos vazios atrelados uns ao outros, em direção à escada rolante: minha rota de fuga.

Abandono a educação e olho novamente além da vidraça: meu ônibus está parado no semáforo, uma centena de metros antes do ponto, tento alcançar a escada, mas, tarde demais: a fileira de carrinhos já embicou nela – estou perdido!

— O senhor pode ir por ali – disse a velhinha, apontando para a minha esquerda com o guarda-chuva –, tem uma rampa que vai sair no ponto de ônibus!

Saio em carreira desabalada na direção indicada – uma dúvida me passa rapidamente pela cabeça: poderia confiar naquela mulher? Não estaria ela querendo, mais uma vez, me atrasar e me fazer perder o emprego? Ou, quem sabe, estaria apenas tentando ganhar tempo suficiente para dissertar sobre as probabilidades de se ganhar uma torradeira num sorteio de supermercado? Mas eu não tenho outra saída: tenho que arriscar alcançar a rampa… é a minha única chance!

— Moço! Cuidado com a saída dos carros…

Não dou atenção ao que ela me grita lá de trás, já saltei a mureta que serve de guarda-corpo à rampa e avanço aos tropeções pelo declive. Ao chegar ao final da rampa (que depois vim a descobrir que dava acesso ao estacionamento do mercado), sou assaltado por um susto tremendo: a buzina de um carro que sai das garagens e pára bem à minha frente, não me apanhando por pouco. Posso ver o ônibus do outro lado dando seta para sair do ponto, já com todos os passageiros embarcados, apenas aquele veículo me separa dele, mas essa fração de segundo que me contem é o suficiente para pôr tudo a perder: quando consigo alcançar o ponto de ônibus o 30012 já troca de marcha mais à frente, deixando uma espessa coluna de fumaça no ar.

— Agora ferrou tudo! – solto um urro em meio à calçada.

Procuro esvaziar a mente e encontrar uma opção que possa salvar a minha pele. Eureka! Vou dar a volta no quarteirão à frente para chegar até o início do elevado que passa por cima do trajeto do meu ônibus, circundando o próprio prédio do mercado às minhas costas: ali tem um ponto de lotação que terá que me servir, pois o que tenho nos bolsos não dá para um táxi.

Atravesso a rua perigosamente por entre os carros em movimento e, ao chegar ao lado oposto, sinto aquela estranha sensação que geralmente ocorre nos filmes de suspense: a impressão de que tem alguém te observando.

Volto o rosto lentamente (ao melhor estilo Schwarzenegger) e paro meu olhar no andar superior do mercado: na vidraça por onde há pouco eu observara a rua está parada a velhinha de cabelos lilás, as duas mãos apoiadas no vidro: uma segurando a cebola e a outra o guarda-chuva – os olhos por trás das lentes dos óculos fixos em mim.

Quando ela vê que eu a observo, realiza um pequeno aceno – não sei se de deboche por ter destruído a minha vida – ou, simplesmente… de adeus!

Dou as costas àquela pequena passagem da minha vida pelo Inferno de Dante e sigo correndo em direção ao ponto da lotação.

Finalmente as coisas começam a dar certo: sou o ultimo passageiro a chegar à Van e completo a lotação - o motorista dá a partida imediatamente e sobe o elevado à toda velocidade!

Acomodo a cabeça no encosto do banco, cruzo os braços à frente do peito aninhando minha maçã, fecho os olhos e procuro relaxar. Está tudo acabado! Foi apenas mais um momento difícil da minha vida e que consegui superar. Amanhã mesmo vou comprar um despertador que nunca mais me deixará passar por uma situação como a de hoje.

Entro instantaneamente naquele estado de transe que nos separa do mundo real e o dos sonhos, e tudo parece silenciar à minha volta, no entanto, o som de uma sirene bem ao longe insiste em me manter preso àquela realidade. A Van está passando pelo viaduto bem no ponto em que cruza por cima da avenida do mercado, começando a circundá-lo. Abro os olhos preguiçosamente e lanço o olhar em direção à entrada do hiper, bem além. Percebo um aglomerado de pessoas na saída da rampa por onde escapei do meu destino… a rampa que termina na saída dos carros do estacionamento.

Pouco antes de a lotação passar pela lateral do prédio do mercado e encobrir minha visão, consigo identificar uma viatura dos bombeiros parando em frente ao ponto de ônibus. Os transeuntes e curiosos se afastam para dar passagem ao socorro e, de relance, por uma fração de segundo, consigo ver um volume no chão… Um vulto... Aparentemente coberto por um tecido florido… Um vulto com um chumaço que se destaca numa das extremidades… Um chumaço de cor lilás.

A imagem se perde por trás das paredes do mercado e percebo que o saquinho com a maçã que carrego caiu ao chão… Não me importo:

Perdi a fome.

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