
Quando Belphegor se deparou com aquela ruiva arrogante jamais imaginou que, em breve, poderia vê-la mostrando seu lado frágil, ou que fosse ajudá-la. O inicio de uma amizade curiosa. [Belphegor/Mammon]
Rated: Fiction K+ - Portuguese - Friendship/Drama - Words: 2,469 - Reviews: 3 - Published: 08-11-12 - Status: Complete - id: 3049687
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Acordou ouvindo os passos apressados de seus companheiros de armadura pelo castelo. Um som metálico que não só o irritava, mas era ótimo para impedir que voltasse ao belo mundo dos sonhos. Bocejou longamente, desejando apenas a chance de voltar a dormir, quando ouviu batidas fortes na porta, sabendo muito bem quem estava procurando-o naquele momento. Com muito esforço se levantou da cama e abriu a porta para encontrar a expressão irritada de sua Senhora.
- O que pensa que está fazendo ainda na cama, Belphegor? Quero você arrumado lá na entrada em cinco minutos! Não demore seu maldito preguiçoso.
E ela saiu tão rápida e tão irrita como sempre. O representante da Preguiça bocejou uma vez mais enquanto, com passo de tartaruga, se dirigia ao armário para trocar seu velho pijama por algo mais apresentável, por mais que não se importasse de aparecer daquele jeito diante do Círculo inteiro. Depois de vestir-se com uma calça preta comum, uma blusa preta de gola alta e sem mangas que deixava sua tatuagem do braço visível e arrumar os cabelos azuis saiu com o mesmo passo vagaroso para a entrada do castelo, onde alguns servos já aguardavam.
Encostou-se na parede preguiçosamente quando percebeu que Deumos falava com alguém. Pelo fato dela precisar olhar para baixo e estar tão agitada pensou que fosse com o Senhor do Sexto Círculo, até que ela desse um passo para o lado, abrindo passagem para alguém de cabelos ruivos. Parecia-lhe uma criança, uma menininha adorável de cabelos de um vermelho intenso e olhos tão verdes quanto esmeraldas. Os lábios cheios roubaram um minuto de sua atenção, causando-lhe um arrepio quando percebeu que se curvavam em um sorriso arrogante. A parte ruim foi permitir que seu olhar rosado cruzasse com o olhar de esmeralda da desconhecida.
Perguntava-se como podia irritar duas mulheres em um espaço tão curto de tempo. Devia ser algum sinal de que não levava jeito com elas, a julgar pela aura irritada que a ruiva emanava.
- Não devia permitir que seus servos mostrassem uma postura tão desleixada, Deumos. Achei que eram mais bem preparados...
Pela expressão de Deumos o representante da Preguiça já previa uma tarde desagradável fazendo companhia ao Mastema no calabouço do Círculo. Ela não podia mandar que o moreno o torturasse, mas podia muito bem negar a Belphegor todo o conforto de seus aposentos ou suas preciosas horas de sono. E ele tinha certeza que era a primeira coisa que sua Senhora faria quando aquela ruiva misteriosa se retirasse.
Belphegor não errou na previsão. Passou o resto do dia deitado no chão frio de uma das celas do Sétimo Círculo. Nem sequer perguntara a Mastema o que tinha feito de tão ruim daquela vez, tinha a impressão que o próprio torturador do Círculo não sabia muito bem o que tinha acontecido naquele dia. Assim era mais fácil esquecer o assunto.
Só que Deumos parecia ter se convencido em transformá-lo em um demônio útil ao invés de alguém que passa o dia inteiro dormindo - algo que o representante da preguiça certamente não gostou.
Toda vez que a Senhora do Sétimo precisava enviar algum recado aos outros Senhores ou ao Imperador era ele quem tinha que fazer essa tarefa maçante. A sorte de Belphegor era que sua relação com os outros Senhores era sempre amigável, a exceção de Ashtaroth. O grão-duque sempre reclamava de sua extrema falta de disciplina.
Mas era sempre agradável quando tinha que ir falar com o Imperador, uma vez que Lúcifer sempre parecia sinceramente interessado em saber como estavam às coisas no Sétimo e se mais ninguém tinha tentado comprar briga com Belphegor. Propositalmente o representante da Preguiça ocultava informações sobre a constante irritação de Deumos com seu pecado, já achava que a mulher tinha problemas o suficiente para lidar sem receber uma bronca do Imperador de brinde.
Naquele dia carregava um pergaminho com algum documento importante que deveria ser entregue diretamente a Lúcifer, por isso partiu logo para o fim do Nono Círculo, onde ficava a Esfera da Giudecca. Uma vez que se viu diante da escadaria que levava a sala do trono de Lúcifer o representante da Preguiça se viu lamentando aquele trabalho. Era muita coisa pra subir...
E ainda tinha que passar por aqueles guardas horríveis que sempre pareciam estar rindo de suas lamentações até que ele passasse pelas portas duplas, sendo assim admitido no enorme salão onde ficava o magnífico trono do Imperador do Inferno. Só estranhou não vê-lo sentado no mesmo naquele momento.
Sem a presença de Lúcifer aquela sala parecia grande demais, escura demais e tão fria quanto o resto do Nono Círculo. A sensação não era nada agradável, mas qualquer pensamento sobre isso foi prontamente varrido para o fundo de sua mente quando percebeu a mesma menina de cabelos ruivos sentada, com ar infeliz, aos pés do trono dourado do Imperador.
Diferente da arrogância que ele tinha visto da primeira vez, agora ela parecia realmente pequena, frágil, ferida. Os olhos verdes encarando o chão, mas sem parecer realmente que via qualquer coisa, perdida em seus próprios pensamentos, sua própria dor secreta, qualquer que fosse ela. Com cautela o representante da Preguiça se aproximou, ajoelhando-se no último dos três degraus que existia a frente do trono e então levando uma das mãos a face da pequena, forçando os olhos verdes a encararem os seus olhos rosados.
- Pensei que só eu é que tinha uma postura desleixada.
- Tire suas mãos de cima de mim.
Belphegor sentiu sua mão afastada com um golpe rápido da mão delicada da ruiva e suas sobrancelhas se arquearam ao perceber que aquele tom de voz não era necessariamente feminino, mas não se deteve nesse pensamento, percebendo uma diferença na aparência da ruiva e a forma como ela virava o rosto como se quisesse esconder algo. A franja ruiva ocultava uma parte de sua face e o maior tinha certeza que sua resposta estaria ali, mas ao invés de ficar apenas curioso ele ficou preocupado.
Quando alguém de um temperamento tão forte e um ego tão grande parecia tão frágil era sinal de que algo muito ruim tinha acontecido, e recentemente. Mesmo sem permissão e sabendo que poderia levar uma nova bronca pela ousadia ele a tomou em seus braços, sentindo-a segurar em seus ombros com firmeza devido ao susto. Não gostou foi de senti-la tremendo em seus braços, como se achasse que ele pudesse lhe fazer algum mal.
- Não deveria ficar aqui. Tem algum lugar aqui em que vá se sentir mais segura?
A ruiva não respondeu, apenas indicou uma porta lateral, pela qual Belphegor entrou sem a menor hesitação. Era guiado apenas pelas baixas ordens dela para virar em um corredor ou outro, até que se visse diante de uma parede de pedra sólida. Não tinha mais para onde ir.
- Coloque-me no chão.
Ela ordenou, e ele prontamente obedeceu, permanecendo ajoelhado e se certificando de que ela conseguia ficar de pé sozinha. Notou a dificuldade dela para se equilibrar, mas viu a chama de orgulho voltar a crescer nos olhos tão verdes agora que ela o olhava de cima.
- Agora vá embora. Não preciso de você.
Sem dizer mais nada a ruiva atravessou a parede como se ela não fosse sólida e sua energia desapareceu completamente. Por simples curiosidade o demônio de cabelos azuis tocou a parede com a mão direita. Totalmente sólida. Detestava como as coisas podiam parecer sem sentido no Inferno.
Como não tinha percebido a energia de Lúcifer em lugar nenhum da Giudecca e não podia voltar ao Sétimo sem entregar aquela mensagem Belphegor apenas sentou-se no chão de pedra, encostando as costas contra a parede e fechando os olhos. Esperaria até o retorno do Imperador ou da ruiva misteriosa o tempo que fosse necessário.
Em algum momento pegou no sono, o que resultou em um corpo dolorido quando despertou. A primeira coisa que seus olhos rosados encontraram foi um par de olhos dourados e amáveis que o encaravam com alguma preocupação. Belphegor logo baixou a cabeça diante do Imperador Infernal.
- Não sabia que você era amigo do Mammon, Belphegor.
- Amigo? Não. Eu acho que ele não gosta muito de mim, já que eu nem saberia o nome dele se não me dissesse, Imperador. Perdoe-me se permaneci aqui sem a devida permissão, mas não creio que minha Senhora ficaria muito feliz de me ver retornando sem lhe entregar isso.
Levantando-se o representante da Preguiça pegou o pergaminho de Deumos e o entregou ao anjo a sua frente, curvando-se de forma mais apropriada no processo, encarando o chão por um momento. Percebia o ar cansado do anjo caído, algo que não tinha visto antes, mas não era de sua conta, por isso não se permitia questioná-lo. Bastava que cumprisse suas ordens.
- Devo me retirar agora, Imperador. A não ser que queira enviar alguma resposta a minha Senhora.
- Falarei com ela pessoalmente. Pode ir descansar Belphegor. Pelo que ouvi dizer você está precisando de uma boa folga...
Com um agradecimento sincero e um último olhar de preocupação para a parede sólida o Demônio da Preguiça desapareceu, retornando ao Sétimo Círculo do Inferno para repousar, milagrosamente sem ser acordado por ninguém. Não ficou surpreso quando percebeu que Deumos o procurava menos, arrumando outros para fazer o trabalho que antes era seu. Não tinha qualquer reclamação quanto a isso.
Por dias teve sua tão merecida paz, até conseguindo dormir a sombra das árvores da Floresta dos Suicidas um dia, sendo despertado apenas quando ouviu alguém se aproximando e se sentando ao seu lado. Seus olhos rosados se abriram para que encarasse o ruivo ao seu lado, usando uma longa capa vermelha que escondia-lhe as roupas e com a franja bem arrumada escondendo um rosto muito bem maquiado, com um desenho complicado e colorido de lírio.
- É bom ver que você está bem. Fiquei preocupado.
E era sincero ao dizer isso. Mais de uma vez se questionou quanto ao que teria acontecido com o ruivo para encontrá-lo naquele estado e ao perceber tanta maquiagem suas perguntas só aumentavam, mas as manteria para si, ao menos por enquanto. Não queria correr o risco de irritar aquele ruivo que parecia ter um pavio tão curto.
- Preocupado, comigo? Nem me conhece...
- Não como eu gostaria, infelizmente. Você é muito arredio, Mammon.
As sobrancelhas do ruivo se arquearam ao ouvir que o outro sabia seu nome, imaginando se teria descoberto através de Deumos ou de Lúcifer. Não que fizesse muita diferença, já era bastante suficiente que ele tivesse guardado na memória o seu nome. Ou mostrado alguma preocupação.
Isso era irreal para aquele príncipe que conhecia pouco sobre sentimentos como a preocupação e a compaixão. Conhecera, até então, somente o abandono, a dor e a humilhação. Por isso, mesmo tão confiante, Mammon não sabia como deveria agir diante de alguém como Belphegor.
- Você é muito estranho. Qual é o seu nome?
- Belphegor.
Mammon não pôde conter um riso. Já conhecia o nome, afinal querendo ou não o demônio de cabelos azuis era um dos Sete Príncipes Infernais, aqueles que representavam os Sete Pecados Capitais. Estava no mesmo nível, já que Mammon era o príncipe da Avareza.
- Isso explica seu estado naquele dia...
- Você se lembra? Com toda essa indiferença achei que nem se lembrava de um simples servo desleixado, não parece o tipo de detalhe que daria atenção.
- Cale-se, não venha me dizer no que eu presto atenção.
A ordem irritada do ruivo fez com que Belphegor risse, mas mesmo com a face corada Mammon não parecia de todo ofendido. Algo no clima que tinha se formado entre eles parecia agradável, diferente. Nunca tivera a chance de sentar-se com alguém e conversar desse jeito.
Ficaram em silêncio por um tempo, observando o deserto a sua frente. O lugar até pareceria pacifico se as lobas não passassem arrastando os corpos dos condenados a aquele lugar, formando uma visão nada agradável. E os dois pareciam absolutamente indiferente a tudo isso, até que o silêncio que tinha se instalado entre eles deixasse de parecer confortável.
- Por mais que eu aprecie a linda visão de lobas arrancando tripas logo no inicio da noite acho que seria uma boa hora para convidá-lo para um passeio fora daqui. Uma bebida, talvez. Acho que ainda tenho uísque no meu quarto, se quiser me acompanhar.
Mammon permaneceu em silêncio por um momento, se perguntando onde exatamente aquilo iria terminar. Normalmente consideraria um convite como aquele cheio de segundas intenções, mas encarando os olhos rosados do outro não encontrava malícia. Aceitou o convite, aceitando também a mão que ele lhe ofereceu para ajudá-lo a se levantar do chão. Só não contava que no primeiro passo uma das raízes da árvore mais próxima se erguesse do chão coberto de areia, fazendo-o tropeçar facilmente, caindo direto nos braços do maior.
- Sempre gentil Alraune.
Belphegor comentou, olhando com seriedade para as árvores, ouvindo em resposta apenas um escandaloso riso feminino. Logo o olhar rosado voltava para Mammon, que parecia tão frágil em seus braços naquele momento. Deixou que ele permanecesse ali por um momento, só se afastando quando teve certeza que ele ficaria bem, mas ainda ofereceu o braço a ele, como faria com uma dama.
O ruivo não parecia muito feliz com a situação, envergonhado por aquele momento de fraqueza e seguindo ao lado dele, recusando o braço, por mais que andar no chão do deserto com aqueles sapatos de salto plataforma não parecesse a mais fácil das tarefas. Mas tinha se tornado uma questão de orgulho.
Não ficou em silêncio por muito tempo, aquele temperamento difícil já se mostrando mais uma vez, por isso inevitavelmente passou a olhar atravessado para seu guia de cabelos azuis que parecia tão despreocupado.
- Me trata como uma mulher...
- Veste-se como uma, achei que gostava do tratamento. Além disso, tem vantagem sobre mim. Não resisto a uma moça bonita...
Fazendo a cauda aparecer debaixo da capa vermelha o ruivo logo acertou um golpe no meio das costas do mais velho; rápido e forte, como um golpe desferido por um chicote. O gemido de dor do outro serviu para fazer Mammon sorrir, encerrando ali o assunto. O que o impressionou foi ouvir o maior logo rindo, como se o golpe nem o tivesse incomodado. Concluiu que Belphegor era como uma pedra preciosa; tinha sua beleza, mas também era acostumado a sentir dor e obedecer ordens. Uma safira, com seu belo brilho azulado, no deserto.
Enquanto Belphegor concluía que Mammon era exatamente como a flor que usava na maquiagem que lhe escondia o rosto. Uma flor famosa por sua aparição em cemitérios, florescendo em meio a dor, mas tão sensível a ela que precisa de proteção.
Naquele dia começava a estranha amizade entre lírios e safiras.
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