
Maria, uma introvertida estudante num programa de Intercâmbio em Paris. Inexplicáveis acontecimentos que a envolvem num mundo... que parece coexistir com sua própria realidade, personificado pela errática presença do enigmático David. E ele... é mais que um simples humano, fatal como o destino. Os caminhos de ambos cruzam-se... com que objectivo?
Rated: Fiction T - Portuguese - Supernatural/Romance - Chapters: 11 - Words: 53,153 - Updated: 12-13-12 - Published: 11-13-12 - id: 3074149
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Capítulo 9 - Laços
He's a stranger to some, and a vision to none
He can never get enough, (...) of the one (…)
It's hard to admit how it ends and begins
On his face is a map of the world
From yesterday it's coming, the fear, it calls him,
But he doesn't want to read the message here.
(…)
On a mountain he sits, not of gold, but of sin
Through the blood he can learn, see the life that it turn.
30 Seconds to Mars – "From yesterday"
Estava a contar os dias…e as noites.
Hoje já era quinta-feira. De David, nem uma palavra. Nada.
Mais uma vez acordei para a minha rotina, nas pequenas férias que fui – literalmente – obrigada a aceitar. Com a quantidade de desculpas e intrujices que já tinha proferido durante os últimos dias, mais umas semaninhas e tornar-me-ia numa verdadeira mestre da mentira. Era lamentável estar a mentir desta maneira por alguém e por algo que eu não sabia o que era. Ainda. Eu não estava esquecida, ele tinha-me prometido respostas.
Só esperava que ele fosse fiel à sua palavra.
Todos os dias – e hoje não era excepção – a minha primeira acção matinal consistia em ver se tinha alguma mensagem no telemóvel, que estava sempre com som, não fosse eu deixar passar algum aviso durante o leve sono que dormia. Após constatar o óbvio :
0 mensagens novas – dava início à minha rotina: um duche rápido, vestir algo confortavelmente quente, compor o cabelo e tentar esconder as marcas físicas de alguém que tem dificuldade em dormir, que sente saudades de casa e que está desesperadamente ansiosa. Ainda tinha uma quantidade enorme de dinheiro e certamente não o iria gastar todo, pelo que, mais uma vez, retirei uma pequena parte para comprar as senhas das refeições diárias.
Saí do quarto e dirigi-me ao elevador, pensando no que iria escolher para o pequeno-almoço. Havia uma reduzida fila de pessoas na área das refeições, todas elas consistiam em turistas, pequenas famílias com crianças ainda impertinentes do recente despertar. Afinal, eram nove e meia da manhã. Sentia os olhos cansados, mas tinha uma séria dificuldade em adormecer, principalmente à noite; como resultado de um sono nocturno intermitente, durante o dia sentia um cansaço imenso, em especial depois das refeições, quando regressava para o quarto e me deparava com um imenso nada para fazer.
E hoje não era excepção. Após um pequeno-almoço composto de lait au chocolat acompanhado de croissant com doce de morango, regressava vagarosamente para o quarto, lutando contra o sono que teimava em apoderar-se de mim. A sensação que tinha era que não dormia há vários dias, – o que não era, de todo, incorrecto. Talvez hoje devesse render-me ao descanso que o corpo me pedia. Ao chegar ao quarto, optei por recostar-me na cama, descansar durante umas horinhas, para depois aproveitar a tarde e visitar um pouco mais de Estrasburgo. Foi numa imensidão de planos e guiões de visitas turísticas que adormeci profundamente, embalada pelos ruídos diurnos da calma cidade de Estrasburgo.
Acordei por mim própria, para encontrar o quarto já coberto de uma luminosidade branco-azulada, sinal de que já estava a anoitecer. Quantas horas teria eu dormido? Nove, dez? Não sabia, mas sentia-me bem mais revigorada. Estirei-me preguiçosamente e deixei-me estar, mantendo ainda os olhos fechados, deixando fluir o adormecimento que ainda se ocupava de mim e pensando em que horas seriam. Faltaria muito para a hora do jantar? Na verdade, já sentia um ligeiro apetite.
Como reflexo, procurei o telemóvel para ver que horas eram. Mal o encontrei, vi algo que quase me fez parar o coração: 1 mensagem nova. Trémula, respirei fundo um par de vezes até conseguir a concentração – e coragem – suficiente para clicar na tecla correcta e ver a mensagem, que muito provavelmente seria de David.
E no visor o que aparecia era o seguinte:
Detalhes na Recepção.
David.
Típico. Pensei eu, com algum sarcasmo.
Era impressionante. Provavelmente ele já estaria em Estrasburgo, já tinha estado no hotel e mantinha-me numa irritante ignorância. Dei por mim a sair do quarto e a dirigir-me ao elevador, a caminho da recepção, pensando na forma mais adequada de abordar quem lá estivesse. Ao sair do elevador, constatei que, de facto, subtileza e descontracção eram duas características que eu tinha dificuldade em combinar.
- Eh… alguma mensagem para o quarto 411?
- Nome, por favor.
- Maria Aires Brito.
- Aqui tem.
- Obrigado.
A mensagem consistia num envelope igual ao que David me tinha entregue na estação de comboios em Paris, pelo que era mais uma confirmação de que a mensagem era mesmo dele e estava endereçada a alguém com o meu nome - Maria. Com um nervoso miudinho a apoderar-se de mim, apressei-me a voltar para o quarto, optando agora pelas escadas, pois estava demasiado impaciente para esperar pelo elevador.
Entrei no quarto e sentei-me na beira da cama, constatando que estava bastante ansiosa e trémula com a expectativa de ler o que escondia o interior do envelope. Pelo aspecto, o conteúdo deveria consistir somente numa folha de papel. Decidida, abri-o, para encontrar uma breve mensagem:
Às 21.30 h . Place de la Catédral.
David.
De facto, um simples detalhe. Um encontro.
Finalmente ia ter as minhas respostas, pensamento que me fez esboçar um leve sorriso.
Reli a mensagem. Place de la Catédral. Sim, eu já sabia onde era, tinha passeado por lá todos os dias, enquanto visitava a cidade. Durante quatro longos e penosos dias.
Não pude evitar reparar na frieza da mensagem. Nem olá, nem estás bem, somente uma comunicação, o dito "detalhe", sem mais. Constatar esta realidade entristecia-me inexplicavelmente, embora não me surpreendesse. Então, ele é um vampiro, não poderia imaginar mensagens inundadas de adjectivos calorosos, como eram as de Shiva, ou as de Adéle, ou até de quaisquer outros colegas… humanos. Não me podia esquecer que ele não era humano e que, portanto, nunca poderia agir como um deles. Ainda assim, depois de tantos episódios com David, parecia impossível que ainda me deixasse surpreender com a sua frieza e o seu mistério. Mas ainda assim, esquecia-me. Constantemente.
Olhei para as horas. Eram vinte horas e trinta minutos. Talvez fosse melhor ir jantar, preparar bem o estômago para o célebre encontro – ou, melhor caracterizado, como sessão de esclarecimentos – na tão famosa Place de la Catédral. Na verdade, a última coisa que me apetecia fazer neste momento era comer.
Praticamente piquei o jantar e às nove horas da noite já estava de volta ao quarto. Tinha algo a constrangir-me o corpo e a alma, chamava-se David e era um vampiro. Não sabia o que esperar deste "encontro" e estava a sentir-me estupidamente ansiosa. Alguns minutos mais tarde sentia-me ridícula, por estar a deixar que a simples presença dele me afectasse tanto. Talvez fosse pelo facto de ele ser um vampiro, ou talvez fosse a expectativa das revelações que ele me tinha prometido. Sim, provavelmente era isso.
Aproximei-me da janela do quarto e abri-a lentamente para verificar como estava a noite. Excepcionalmente fria. Corria uma brisa leve mas cortante e, como tal, eu teria que sair bem agasalhada. Encerrando novamente a janela, dirigi-me à casa-de-banho e observei com algum detalhe a minha imagem reflectida no espelho. Transbordava agitação. Não era típico de mim lidar desta forma com as situações. Quão diferente eu era agora?! O que eu daria para ser um pouco da Maria que eu conhecia, calma e serena, capaz de lidar com o maior sangue-frio com qualquer situação que se apresentasse! Mas esta "situação" não era comum, longe disso. E essa invulgaridade tinha-me modificado, exigindo de mim outras atitudes, outros sentimentos, outras emoções.
Tentei pentear-me, dando uma forma aceitável ao cabelo, enquanto colocava uma espuma controladora de volume que ainda não tinha experimentado (aconselhada por Shiva), apesar de o cabelo dela ser excepcionalmente liso e sem volume, exactamente o oposto do meu. Se queria conselhos de cosmética, seguramente seria ela a fonte mais actualizada sobre o assunto.
Olhei para o que trazia vestido: camisola de lã rosa claro, calças de ganga e confortáveis botas a condizer, um todo aconchegante. Só faltavam agora os meus indispensáveis acessórios para poder sair e não congelar, ou seja, o volumoso cachecol dos mesmos tons e as luvas que o acompanhavam. Preparei-me para sair, procurando não me esquecer de nada enquanto vestia o casaco – o telemóvel, as chaves e…o envelope com a "mensagem", ainda que duvidasse que fosse precisar dela. Ainda olhei mais uma vez para a minha imagem ao espelho. Estava na hora de receber as minhas respostas.
Saí do hotel e encaminhei-me, calmamente, pelas ruas de Estrasburgo, pelo caminho que eu já conhecia, que já tinha repetido durante quatro dias. Não encontrei ninguém na rua, à excepção de um senhor idoso que passou por mim com uma expressão desejosa de chegar ao conforto do lar, claramente visível na sua face engelhada. A cidade estava calma, imersa num silêncio imponente, ouvindo-se somente a leve brisa que, ocasionalmente, fazia mover as árvores e quebrava o silêncio da noite. Alguns momentos depois fui invadida pelos discretos ruídos do rio Ille, que fluía tranquilo, chamando-me a atenção. O luar reflectia na superfície da água, dando-lhe um aspecto quase celestial, de uma beleza extraordinária. Senti uma vontade quase inexplicável de ficar ali, a contemplar o rio e a sua perfeição, como se nada mais importasse.
Olhei para as horas, eram nove horas e vinte minutos. Eu ia chegar antes da hora.
As ruas por onde passava agora estavam completamente vazias, a única companhia que tinha era a luz proveniente dos candeeiros e das inúmeras lojas que ia encontrando ao longo do caminho. Estava a aproximar-me da praça e hesitei levemente quando vi que tinha que percorrer a rua lateral da Catedral, que estava muito pouco iluminada. Ocorreu-me, naquele momento, a possibilidade de a mensagem não ser de David.
E se for uma armadilha?
Pensar nesses termos fez-me hesitar e abrandei o passo até parar completamente, mesmo antes de cruzar a esquina que me levaria à rua lateral. Será que algum dos outros descobriu onde eu estava e está aqui para me apanhar? E David? E… eu?
Por um lado, senti-me a fraquejar e considerei, por breves instantes, voltar para trás, mas por outro, tinha a completa noção de que estava a ser extraordinariamente cobarde e a desconfiar das certezas absolutas que David me tinha prometido. Teria que arriscar.
Agora sentia, novamente, aquela segurança, aquela convicção que me dizia para ir em frente, para confiar nas palavras dele, como já o tinha feito outras vezes.
Inspirando fundo, encaminhei-me firmemente para a Praça da Catedral, já conseguia ver a Maison Kamerzell e os inúmeros cafés que animavam aquela pequena área.
Ao chegar à Praça, constatei que não estava sozinha, o que me acalmou parcialmente. Estavam várias pessoas sentadas alegremente a conversar nos vários restaurantes e cafés, enquanto outros passeavam sem pressa, sem se encaminharem numa direcção concreta. Olhei em meu redor e novamente para o meu relógio. Eram exactamente vinte e uma horas e vinte e cinco minutos e não via sinal dele em sítio algum.
Estava exactamente no centro da Praça, com a Catedral por trás de mim, sentia-me algo exposta. E agora? Bem, teria que esperar. Olhei novamente em meu redor, tentando encontrar um sítio recatado e discreto onde me pudesse sentar.
Não tive tempo para chegar a uma conclusão, porque repentinamente ouvi uma voz exactamente atrás de mim.
- Chegaste mais cedo.
Aquele sotaque inconfundível. David. Instantaneamente senti o meu ritmo cardíaco acelerar. Virei-me repentinamente, para encontrar a sua misteriosa face, que escondia uma ligeira satisfação sob a forma de um discreto sorriso. Restava, agora, saber porquê. Não pude evitar ficar algo surpreendida.
- Tu também.
- Já cá estou há algum tempo - informou ele.
- Ah…
Já calculava.
Olhei-o com alguma surpresa. Ele estava diferente; menos sombrio, menos frio, mais expressivo, mais… leve, como se tivesse sido aliviado de um fardo pesado e prolongado. Ainda que mantivesse as marcas físicas tão características da sua espécie, hoje ele parecia alguém bem mais alegre, alguém que, finalmente, podia ser ele próprio. Definitivamente, nem parecia o mesmo. Até a voz dele admitia um timbre bem mais afável.
Como sempre, vestia as suas escassas e escuras peças de roupa, como se estivéssemos numa amena noite de Primavera de um país tropical.
- Vamos? - Sugeriu ele.
- Onde?
- Caminhar. Tenho uma promessa a cumprir, não me esqueci - referiu ele, como se fosse uma constatação muito óbvia. Por um lado, estava grata que tivesse sido ele a relembrar-se da sua própria promessa. Sem dúvida, facilitava-me a vida.
Começámos a caminhar lentamente lado a lado, na direcção de La Petite France. Estávamos a aproximar-nos do rio, pois já conseguia ouvir o barulho da ondulação a embater no passeio. Não pude deixar de comentar a leveza que dele emanava.
- Estás… bem disposto.
- É esta cidade. Tem este efeito em mim - afirmou ele, mais como um desabafo.
- O que tem de especial?
- É uma cidade muito controlada. Nós só podemos entrar aqui com permissão.
- Vocês?...
- Sim. É a única cidade no país onde os humanos não são… caçados.
Não pude evitar sentir-me aliviada com a sua constatação, embora não fizesse ideia do porquê dessa realidade.
- Porquê?
- Aqui é a residência de um… indivíduo importante da nossa espécie, o chefe de estado francês. É a nossa autoridade máxima. É muito exigente e não permite a alimentação em humanos na cidade.
- Por isso é que me trouxeste para aqui?
- Sim.
Ainda que não compreendesse totalmente toda esta realidade, estava a tornar-se mais esclarecedora e, agora sim, era o momento de colocar as perguntas correctas, enquanto caminhávamos pelos calmos passeios à beira-rio.
- Mas…o que é que se passou?
- A realidade é muito complexa, Maria - afirmou ele, enquanto olhava para nada em concreto. Mais uma vez, a sua afirmação mais parecia um desabafo e admitia um tom triste que não me era estranho de todo.
- Eu… imagino que seja.
- Eu não sou companhia para ti…nem o que me rodeia - disse ele, enquanto me olhava com a tão característica intensidade no seu olhar, deixando-me sem palavras. O tom de voz dele era sério, o que deixava adivinhar a austeridade das palavras que ele pretendia empregar.
- A tua vida tem estado em risco desde que testemunhaste actividades da minha espécie. Nós, vampiros, vivemos como uma sociedade, tal como a vossa e… entre vocês. Desde o pôr-do-sol até ao amanhecer, partilhamos o mundo com os humanos, mantendo um equilíbrio delicado. Contudo, há regras e leis que têm que ser obrigatoriamente cumpridas para que o sistema funcione. E aqueles que querem fazer parte dele são obrigados a aceitar e a cumprir as regras.
Eu, Nevio, Pierre e Gustave somos responsáveis por vigiar uma das zonas periféricas de Paris, que inclui Montmartre, Sacré-Coeur, até à Boulevard Clichy. Basicamente nós controlamos qualquer actividade inadequada ou reveladora da nossa espécie. Outros como eu são responsáveis por controlar outras áreas e, desta forma, Paris está constantemente vigiada e o segredo da nossa espécie salvaguardado. Este sistema funciona e existe em todas as cidades e países da Europa. Desta forma, a nossa existência é manejável e não arriscamos exposição, deixando o conhecimento da nossa espécie a um número de humanos muito restrito e controlado.
- Então e… quando alguém vê o que não deve? - Arrisquei eu, embora já imaginasse que a resposta não iria ser, de todo, optimista. David olhava-me de soslaio, numa tentativa de encontrar a forma mais suave de me comunicar algo desagradável.
- Quando um humano testemunha qualquer tipo de actividades da minha espécie, deverá ser obrigatoriamente silenciado. É esse o meu dever, assim como o dos meus colegas.
- Ah!
Não pude evitar sentir um arrepio na espinha ao adivinhar o fatal destino a que tinha escapado. Por agora.
- A primeira vez, em Montmartre, percebi que não foi significativo, mas depois… começaste a fazer perguntas – esclareceu ele.
- Como é que soubeste?
- Eu sei de tudo o que se passa com as minhas vítimas – explicou ele, enquanto olhava na minha direcção, como se fosse uma constatação muito óbvia. Talvez eu tivesse razão e ele fosse mesmo omnipresente. Ou então, muito bem informado. E continuou.
- Mas as coisas complicaram-se naquela noite na Cité Universitaire quando viste mais… explicitamente o que estávamos a fazer. E aí, nós tínhamos o nosso dever para cumprir, independentemente do acaso que te levou àquele sítio, naquele exacto momento.
O olhar dele era, agora, sério e vi-o respirar fundo antes de continuar.
- Foi a partir daí que começaram, efectivamente, os problemas. Eu responsabilizei-me por tratar do assunto, mas a tarefa revelou-se bem mais… complexa do que eu estava à espera. Eu…
Eu olhava-o perplexa enquanto ele hesitava, procurando claramente as palavras correctas para pronunciar. David contemplava, agora, a superfície da água que corria, calma, ao nosso lado.
- Eu… simplesmente não consegui fazê-lo. Não me parecia correcto, porque tudo não passava de uma casualidade. Por isso… levei-te para casa.
- Sim, eu lembro-me muito bem desse momento - afirmei eu, enquanto relembrava as imagens daquele terrível episódio.
- Estavas francamente assustada, se bem me lembro - sorriu ele, levemente.
- Tinha boas razões para estar assustada.
- Seja como for, na semana passada quando cheguei a casa, tinha uma massa muito revoltada à minha espera. Nevio viu-te e ficou muito encolerizado, porque obviamente pensava que eu já tivesse tratado do assunto. De ti. Foi uma confusão. Nevio censurava-me em italiano e os outros…bem, o olhar deles era de óbvia reprovação.
- E então?
- Então, fomos pedir aconselhamento ao nosso superior e tutor, Lothaire La Croix. É ele o responsável pela vigia da nossa área em Paris, é ele que autoriza e monitoriza todas as nossas actividades, contacta com os responsáveis pelas outras zonas e, desta forma, funcionamos como um todo, praticamente sem falhas. Lothaire é um vampiro bastante ancião e muito inteligente, tem as suas capacidades refinadíssimas. Graças à sua enorme compreensão, ele disponibilizou-se a ouvir-me, apesar do escândalo que Nevio incitou.
- E o que é que lhe disseste?
- Primeiro expliquei-lhe como se tinham passado as coisas na Cité, incluindo que os meus colegas tinham sido bastante irresponsáveis em alimentar-se daquela forma. Procurar presas e expor-se daquela maneira é um erro infantil para vampiros da nossa idade. Depois, argumentei que um humano não deveria ter que pagar com a vida pela irresponsabilidade deles.
Apesar de tudo, já esperava que a reacção dele não fosse a melhor. Ficou muito sério, irritado e…claramente desiludido comigo, connosco. Em vinte anos de ensinamentos, nunca algo assim tinha ocorrido. Nem uma falha, nem um engano, nem uma hesitação. Por fim, ele comunicou-me o que eu já sabia: teria que obedecer às regras, independentemente das circunstâncias. Teria que silenciar-te.
Seguiu-se um silêncio desagradável, enquanto David olhava com seriedade para um ponto perdido algures à sua frente, antes de continuar.
- Eu tentei, várias vezes. Eu tentei...
A sua face era agora um espelho de dor e frustração, contemplando o vazio com uma expressão de culpabilização que me surpreendia.
- …Mas…não conseguia.
- Era por isso que aparecias à porta do meu prédio? Para…
- Sim… – sussurrou ele.
Perceber agora as verdadeiras intenções das suas esporádicas visitas chocava-me ainda mais, embora não me surpreendesse de todo. Suspeitar de algo estranho era claramente diferente de confirmar os factos e, agora, tudo fazia sentido. A sua postura, as suas expressões, a sua antipatia, o seu evasivo discurso e o mistério que o rodeava, tudo não era mais do que um estranho conjunto de circunstâncias cujo objectivo era…aniquilar-me. Agora, relembrava-me do quão ignorante e imprudente tinha sido naquelas noites em que decidira ir "conversar" com ele.
- Como é que conseguiste… não o fazer?
- Não sei. Provavelmente pensavas que eu era louco.
- Talvez mais…estranho, assustador…e arrepiante.
- Seja como for, ou era eu a tratar do assunto ou…eram eles. Isso, então, seria impensável. Eu não podia deixar que eles tratassem de ti. Seria… cruel. E foi por isso que eu apareci à tua janela àquela hora da madrugada. O resto… bem, já sabes como foi.
Cruel. Era uma palavra que pressupunha muitos significados, que eu nem queria imaginar o que poderiam, realmente, implicar. Contudo, muito provavelmente relacionar-se-iam com algo semelhante ao que tinha ocorrido àquele rapaz, naquela fatídica noite na Cité Universitaire.
- E nestes dias, o que é que se tem passado?
- Depois de te deixar na estação de comboios, assegurando-me de que já estavas segura, a caminho de Estrasburgo, voltei para casa e fui falar com Lothaire. Claro, praticamente nem foi necessário falar porque foi suficiente o olhar dele para adivinhar o que eu tinha feito.
- Ele consegue fazer isso?
- Sim, quanto mais velhos são os vampiros mais… perspicazes são. Ele limitou-se a olhar-me, apesar de eu ainda ter começado explicar-lhe o porquê da minha atitude e as minhas razões.
- E…?
- E ele avisou-me acerca das consequências de desobedecer directamente às regras.
- Consequências?
- Sim, por desobedecer a uma ordem expressa eu tenho que responder a instâncias acima do meu tutor. É algo semelhante aos julgamentos, na vossa sociedade.
- E o que é que isso significa, concretamente?
- É… uma espécie de pró-forma, nada de especial.
- Claro, "nada de especial" - referi eu, com algum sarcasmo. Como se eu acreditasse que, no mundo dele, algo fosse assim tão simples. - E não há hipótese de…
- Maria, tudo isto já atingiu um nível do qual não é possível retroceder - interrompeu-me ele, com seriedade na voz e no olhar. - Mas… eu tenho estado a tentar pensar numa solução que provavelmente vai funcionar.
- Que provavelmente vai funcionar?
- Maria, tens que compreender que, no meu mundo, certezas é algo que não existe.
Pois, e no meu também não.
- E que solução é essa?
- Eu pedi uma audiência para o nosso chefe de estado, Philippe Vignet. Ele é o chefe-máximo, é ele que detém toda a autoridade em França e, felizmente, acedeu em ouvir-me – declarou, firmemente.
Uma audiência com o chefe de estado vampiro. Ele estava, seguramente, louco e eu… estava metida numa linda confusão.
- E o que é que lhe vais dizer? - Disparei eu, com óbvia preocupação e ansiedade na voz, sentindo-me claramente oprimida, de tal modo que parei de caminhar para encontrar o seu olhar.
- Não precisas de te preocupar com isso, já tenho tudo pensado.
- Não preciso de me preocupar? Como é que podes dizer uma coisa dessas?
- Maria, ouve! - Interrompeu-me ele, novamente, enquanto me fitava fixamente e me segurava o meu braço esquerdo, como se quisesse assegurar-se que eu não fugia. - Se há alguém que pode alterar esta realidade, é ele. Pode poupar-te a ti e absolver-me a mim.
- Mas e se…
- Não podes pensar assim.
- Não consigo pensar de outra maneira! - Exclamei eu, visivelmente descontrolada, enquanto me tentava libertar dele. Estava assustada. E tudo isto era demasiada informação para eu conseguir gerir assim tão… repentinamente. Olhei em meu redor. A noite continuava calma, sem um único ruído; o luar reflectia na superfície do rio Îll que, agora, se encontrava a escassos metros. David permanecia estático, sem se mover, dando-me espaço para me movimentar e olhava-me com óbvia curiosidade. Olhei-o por alguns momentos. As roupas escuras que trazia, junto com o seu negro cabelo salientavam a palidez das suas feições, assim como a intensidade do seu olhar, que era…ofuscante. Este era um daqueles momentos em que a sua transparência era incomodativa, mas agora, não pelas piores razões, pois dele emanavam preocupação e … afecto.
- Preciso de me sentar - sussurrei eu, enquanto me dirigia a um banco de madeira próximo de nós, à beira-rio. Ao sentar-me, verifiquei que David já se encontrava sentado ao meu lado, com uma expressão pesada na face.
- Eu sou o responsável por te ter envolvido nesta situação. O mínimo que posso fazer é tirar-te dela.
Viva, de preferência, pensei eu, de forma imediata, ao processar as suas palavras.
Estava demasiado atónita para elaborar qualquer tipo de raciocínio, por muito elementar que fosse. Foi David que interrompeu o pesado silêncio que nos rodeava.
- Se tens perguntas, agora é a altura certa para as fazer.
- Estou… assustada.
Não era uma pergunta. Simplesmente verbalizava o que sentia naquele momento, enquanto olhava fixamente para a mínima ondulação que se formava ocasionalmente à superfície do rio.
- Não te vou dizer para não te sentires assim. Só te posso garantir que não estás sozinha nesta… situação.
- Obrigado… acho eu - sussurrei, enquanto olhava na direcção dele, à minha esquerda.
Seguiu-se um silêncio de alguns momentos, necessário para me consciencializar do que ele me tinha informado. David não me interrompeu, nem proferiu nenhuma palavra, simplesmente se limitou a esperar que eu o abordasse novamente.
- Há algo que eu não compreendo – desabafei eu, repentinamente, captando a sua atenção.
- O que é?
- Porque é que me envolveste nesta situação? Porque é que não conseguiste… tratar de mim?
- É uma pergunta difícil… - expirou ele, com uma expressão frustrada na face.
- É?
- É…
Senti-o a hesitar. E eu já sabia o que isso significava.
- Se não quiseres responder, não respondas - afirmei eu, secamente.
- Não é que eu não queira. O problema é que… eu não sei a resposta.
Fiquei chocada. Não acreditava no que estava a ouvir.
- Estás a tentar dizer-me que não sabes porque é que me meteste a mim… e a ti nesta situação? Desculpa, mas tenho muita dificuldade em acreditar nisso.
- Não estou a mentir. Eu, simplesmente, não sei.
Era muito difícil acreditar que ele não soubesse a razão que o movia. Não, era mesmo impossível. O que estaria ele a esconder? O que seria assim de tão desconhecido que levasse um vampiro a desobedecer tão cegamente às ordens rígidas e inflexíveis às quais era obrigado a aceder, sabendo as consequências que o esperavam? Olhei-o e, surpreendentemente, vi na sua face, um reflexo límpido da sua alma, que não escondia absolutamente nada. E, pude constatar que, de facto, ele não sabia mesmo as razões que estavam por detrás da sua recente rebelião. O amargurado olhar que dele emanava, encontrava agora o meu.
- Maria… eu guio-me pelos meus instintos. Mas não sei a razão pela qual eles me impedem de te aniquilar.
- Mas não te impediram de aniquilar outras vidas.
- É… diferente.
- Não estou a ver como é que pode ser diferente…
- Maria… - interrompeu-me ele, mais uma vez, olhando-me fixamente. - …alguma vez sentiste um impulso súbito e estranho que conduzisse a tua força de vontade de uma forma… incontrolável?
Ora aí estava algo que eu não conseguia explicar… e ao qual também não conseguia reagir. Palavras subjectivas e graciosas, entrelaçadas num discurso elegante, debitado por uma criatura capaz de aprisionar qualquer olhar humano de uma forma…extraordinária. Obviamente, não fui capaz de concluir nada acerca do tal impulso incontrolável capaz de aprisionar intenções. Mesmo que quisesse. Com muita força.
- Vocês são criaturas muito estranhas - concluí eu, em tom de desabafo, sem coragem para admitir que não fazia ideia do que ele falava. - Já te tinha acontecido antes?
- Não…
- Vês? É isso que eu não entendo – desabafei eu, novamente consternada.
- Eu também não…e acredita que é tão frustrante para ti como para mim - disparou ele na minha direcção, como se constatar essa realidade o enfurecesse. O olhar dele agora centrava-se num ponto distante, algures na superfície do vasto rio Îll.
- Não tens perguntas mais fáceis? - Brincou ele, enquanto esboçava um leve sorriso na minha direcção.
Perguntas! Nem sequer fazia ideia por onde começar. Fiz um esforço para me relembrar das minhas pesquisas há alguns meses atrás, das dúvidas que me surgiram, assim como da mais recente informação que David me tinha proporcionado. Foi com alguma dificuldade que consegui elaborar uma pergunta que seria, sem dúvida, fácil para ele responder, pois relacionava-se com as estranhas capacidades da sua espécie.
- Quando te referes à perspicácia dos vampiros, o que é que isso significa… concretamente?
- A perspicácia é proporcional à idade, como já te tinha referido. Ser perspicaz consiste em ter a capacidade de perceber o estado de espírito dos outros, tanto vampiros como humanos. Claro que é muito mais fácil em humanos…
- Estado de espírito?
- Sim, determinadas sensações facilmente exteriorizáveis. Por exemplo, culpa, raiva, alegria, medo, nervosismo…
- E tu, consegues…?
- Alguns… aqueles mais óbvios, mais… explícitos. Mas também depende da pessoa, se é mais expressiva, é-me mais fácil interpretá-la; se é mais reservada é mais complicado discernir o que sente.
Ao ouvi-lo, dei por mim a pensar se ele conseguiria ser assim tão perspicaz em relação aos meus variados estados de espírito, não só agora mas também das inúmeras vezes que experimentava variados sentimentos… especialmente quando estava com ele. Dada a minha inerente transparência, não era muito difícil concluir que sim. Hum… Seguramente.
- Além do mais, é uma capacidade que se refina com a idade e eu... ainda sou muito jovem.
- És?
- Sim, sou um vampiro bastante jovem. Nasci em 1944. Mas só sou… assim, há quarenta e dois anos – asseverou ele, referindo-se a si mesmo como se fosse portador de uma característica vergonhosa.
- Então, foi…
- Aos vinte e cinco anos de idade. Foi nessa altura que fui…transformado.
- Como é que… aconteceu?
- Bem… eu era o filho mais velho de uma família modesta. O meu pai tinha uma livraria familiar onde eu trabalhava. Londres não era uma cidade muito segura nos finais dos anos sessenta e, uma noite, eu tive que ir ao armazém tratar de umas encomendas e…fui apanhado.
- Apanhado?
- Assaltantes. Viviam-se tempos difíceis e certamente pensavam que eu teria dinheiro comigo. Como não tinha… esfaquearam-me algumas vezes e deixaram-me ali para morrer. Até que fui encontrado por aquele que me transformou.
A sua face era um espelho de sofrimento, o que revelava, sem dúvida, o quão lhe custava relembrar aqueles acontecimentos.
- E, aqui estou eu - concluiu ele, com um ligeiro sorriso.
- O que te trouxe a França?
- Cumprir uma sentença.
Não pude evitar mostrar-me espantada com a sua afirmação, até que o ouvi continuar.
- Nos meus primeiros tempos como vampiro, o meu comportamento não era o melhor. Eram muitas regras para cumprir, pouca liberdade e muita falta de controlo, a todos os níveis… a dieta, a limitação horária, as novas capacidades… era tudo muito difícil de gerir. O meu criador deu-me ensinamentos básicos para a sobrevivência, mas as limitações sociais eram as mais difíceis de suportar. Quando ele me informou que eu estava proibido de voltar a ver a minha família, tive muita dificuldade em aceitá-lo, por isso…alguns meses após ter sido transformado, quebrei essa regra.
Encontrei os meus pais, irmão e irmã, ainda a chorarem a minha perda. Mas a dor da minha mãe…eu senti a dor dela de tal modo que pensei que me incapacitaria para sempre. E…não tive coragem de me revelar, eles não entenderiam o que eu era nem no que me tinha tornado. Mas… ainda visitei outra pessoa nessa mesma noite.
- Quem?
- A minha noiva. Nós estávamos noivos quando eu "desapareci". Ela era…ainda é enfermeira. Encontrei-a já casada e grávida. Presumo que tivesse recuperado rapidamente da minha perda. - O seu tom era agora irónico e simultaneamente triste.
- Nessa noite ela estava sozinha e…eu não resisti e mostrei-me. Apareci do nada e perguntei-lhe se ela era feliz.
- E ela?
- Ela perdeu os sentidos - revelou ele, com um sorriso amarelo. - Acabei por deitá-la no chão e fui-me embora. Nessa noite ainda fiz uma última visita ao cemitério para visitar a minha própria sepultura… onde fiquei, basicamente a culpabilizar-me até que… fui encontrado.
- Pelo teu criador – alvitrei eu.
- Sim. Ele… tratou de decidir qual seria a minha sentença. Honestamente, estava tão chocado com os acontecimentos dessa noite que estava completamente indiferente ao que se iria passar. Só nessa noite percebi o porquê da necessidade de cumprir as regras que eu tão obstinadamente quebrei.
- E qual foi a sentença?
- Fui banido do meu país e condenado a um mês de circulação sem alimentação sob a supervisão do governo Francês. Foi aí que conheci o meu tutor, Lothaire e a instância acima, Läis.
- Circulação? – Repeti eu, sem compreender ao que se referia.
- Consiste em vaguear entre os humanos durante a noite. Sem alimentação – esclareceu ele, com uma expressão dolorosa no rosto.
- Isso…deve ser muito…difícil de suportar – balbuciei eu.
- É, bastante.
- E… Läis, conhece-la?
- Sim. Mas só a vi algumas vezes.
- Como é que ela é?
- Bem, ela é…bastante rígida.
- Rígida?
- Extremamente inflexível. É a vampira mais antiga que eu conheço e a autoridade máxima em Paris. Todos respondem perante ela, incluindo Lothaire e os seus semelhantes, por isso… imagina o poder dela.
- Ela sabe o que se está a passar?
- Não precisamente. Ela não sabe concretamente o que se está a passar mas pressente a agitação em que nós nos encontramos, por isso toda esta situação não lhe é completamente alheia.
- Ainda ninguém lhe disse?
- Ela não precisa que alguém lhe diga porque, como uma verdadeira anciã, ela capta qualquer alteração mínima na nossa estabilidade individual, revelando-nos facilmente. Mas Lothaire é obrigado, por lei, a informá-la das ocorrências assim que ela chegue da sua viagem.
- Ah, ela tem estado ausente… Tenho a sensação que ela, quando voltar, não vai ficar muito contente com os últimos acontecimentos.
- Sem dúvida nenhuma, vai ficar bastante enfurecida. Ela não gosta de ser contrariada.
- Então e…os teus colegas?
- Bem… Nevio… conheci-o quando fui banido do meu país, porque ele estava exactamente nas mesmas circunstâncias. Ele foi banido de Itália por ter quebrado as regras…duas vezes. Aparentemente, os italianos são mais brandos no julgamento por desobediência.
- O que é que ele fez?
- O "nascimento" de Nevio não foi muito agradável, pelo que me constou. Ele não gosta de falar disso. Aparentemente, o seu criador não o "educou" adequadamente e ele não conseguia lidar com as suas novas necessidades… e acabou por cometer dois erros graves. Um deles foi…alimentar-se de alguém à vista de todos; o outro…bem, foi semelhante ao meu. Então, o governo italiano baniu-o e enviou-o para França, onde foi novamente julgado e sentenciado por Läis a um mês de exposição durante o dia, sem alimentação.
- Exposição durante o dia? Mas eu pensava que…
- Pois, por isso deve ter sido extremamente agonizante - interrompeu-me ele, com um semblante sério e continuou. - Cerca de uma hora antes do amanhecer, nós começamos a sentir a temperatura a aumentar e, à medida que o amanhecer se aproxima, torna-se… sufocante. Por isso, não consigo sequer imaginar como terá sido para Nevio cumprir a sentença, encerrado num cubículo perdido em Paris, num terceiro andar, com janelas e portas não estanques. Foi certamente um mês bastante penoso.
- Mas não serão essas sentenças um pouco… excessivas?
- Não fiques tão surpresa. Läis tem razão, até certo ponto. Têm que haver regras estritas para que possamos funcionar como uma sociedade civilizada e alguém tem que assegurar que nós não pisamos o risco. Se assim não fosse, o nosso comportamento seria caótico, grotesto e extremamente perigoso para a vossa espécie. Não seríamos mais do que grupos desorganizados de criaturas, aterrorizando a existência dos seres humanos durante a noite, um pouco como o folclore nos descreve.
O tom dele revelava uma enorme amargura por detrás das palavras que tinha acabado de proferir, enquanto pausava o seu discurso, momentaneamente. Foi a minha intervenção que interrompeu o silêncio que se abatia sobre nós.
- Deve ser muito difícil para vocês lidar com… tudo.
- É, especialmente no início. Contudo, à medida que amadurecemos começamos a acostumar-nos e, eventualmente, acabamos por aceitar a nossa condição, com tudo o que ela envolve. Não que tenhamos muitas mais alternativas…
- E os outros?
- Pierre e Gustave? Eles são os vampiros bem-comportados, trabalham comigo. Ou, por outras palavras, asseguram-se que nós não pisamos a linha. Afinal, eu e Nevio já temos cadastro - afirmou ele, com alguma tristeza. - Nós os dois somos… os proscritos.
O semblante dele reflectia uma marcada melancolia e algum pesar. Não deveria ser nada fácil, um britânico e um italiano, com um historial conhecido de insubordinação, banidos do seu próprio país, vigiados pela própria espécie como se fossem animais.
- O que é mais difícil para ti? Como vampiro…
- O que mais me custa na minha condição é não poder ver nem saber nada da minha família. Emocionalmente, é… penoso, embora já tenha aprendido a lidar com essa dor. A aproximação do amanhecer também é, fisicamente, bastante dolorosa…e a alimentação, às vezes… é difícil.
O semblante de David era, agora, bastante sério.
- Mas não há alternativas a… nós?
- Infelizmente… não. Já experimentámos várias alternativas…substitutos, animais, sangue clonado. Mas nada é tão saciante como o sangue humano. Presumo eu que talvez seja dos variados elementos que existem na vossa circulação, cuja presença é inexplicavelmente irreproduzível de forma artificial. Por isso, restam-nos os bancos de sangue e a alimentação… da forma que já viste.
- Mas… e o sangue que obtêm dos referidos bancos? Provêm de dadores humanos! Deveria ser… suficiente.
- Pensava-se que sim, mas infelizmente… não. A alimentação em humanos é… indispensável mas, felizmente, ocasional.
- Ocasional?
- Grande parte das nossas necessidades pode ser satisfeita através do sangue proveniente de dadores. Só quando nos sentimos ansiosos, irrequietos… é sinal de que necessitamos de sangue humano… fresco. E, tal como eu te disse, isso acontece esporadicamente.
- E o que é esporadicamente…para ti?
- Para mim… uma, duas vezes por mês. Para outros, a frequência pode variar…duas a três vezes por mês para vampiros imaturos e até dois, três meses para aqueles que já têm uma idade considerável. Contudo, a idade nem sempre é o factor determinante. Há aqueles que mantêm sempre um apetite verdadeiramente voraz… mas felizmente esse tipo de vampiros está bastante controlado…e existe num número bastante reduzido.
- Conheceste algum… assim?
- Não, felizmente. Mas ouvi relatos de situações bastante desagradáveis que ocorreram há alguns anos. Lothaire insiste em manter-nos bem informados, especialmente no que toca a consequências de desobediências.
- Tu…Vocês…como é que escolhem a…vítima?
- Nós optamos por não… escolher, por assim dizer. É uma das nossas regras. A vítima é que nos escolhe, ao aproximar-se de nós, ao tentar cativar-nos, ao sentir-se atraída, ao ser insistente.
- Estás a querer dizer-me que a Nadine é que te escolheu? Sinceramente, mais parece uma forma de te sentires menos culpado por-
- Nadine estava doente - interrompeu-me ele, subitamente. - Eu conseguia cheirar o cancro que a consumia. Por isso, sim, eu acredito que ela me tenha escolhido porque, de algum modo, sentia que eu era a forma de a libertar do sofrimento que a corroía. Não me sinto culpado por isso.
- Ela… sofreu?
- Não. De todo.
- Posso perguntar-te uma coisa?
- Força.
- Quando me "apanhaste" na Cité Universitaire, eu… perdi mesmo os sentidos ou foste tu que fizeste alguma coisa? Quero dizer, para além da perspicácia, da rapidez…e da óbvia habilidade que vocês têm de desafiar a gravidade.
- Bem… sim, fui eu - afirmou ele, sorrindo levemente. - É uma capacidade que nós temos… enfim, é uma espécie de persuasão não verbal. Basta eu…concentrar-me no que pretendo e… já está. Torna-se mais fácil conseguir o que quero.
- E funciona… – afirmei eu, mais como uma confirmação que como uma pergunta, relembrando a forma eficaz como eu tinha "apagado", resultado da influência dele em mim.
- Por enquanto, só em humanos – adicionou ele, com um leve sorriso, olhando na minha direcção.
- Utilizaste essa capacidade na Nadine?
- Sim, mas só quando chegou o momento… crítico - explicou David, visivelmente incomodado. - Não para ela me escolher.
- Pensar nisso é-te desconfortável?
- É. Se eu pudesse, não me alimentaria em humanos… mas, para meu próprio bem, tenho que fazê-lo.
- É mesmo necessário?
- Se eu… nós não nos alimentarmos de sangue humano fresco, perdemos o controlo dos nossos instintos e tornamo-nos… selvagens. Por isso, optamos por fazê-lo de forma esporádica e… monitorizada.
David olhava-me agora de forma leve, mas curiosa, como esperando que eu continuasse.
- Não tens mais perguntas?
- Hum…Bem…não, de momento.
- Muito bem.
Vi-o levantar-se firmemente do banco onde estávamos sentados há algum tempo, o que me fez olhá-lo de forma espantada. Onde quereria ele ir agora?
- O que foi? - Perguntou ele.
- Vamos a algum sítio?
A minha ignorância era genuína, enquanto ele me respondia com um sorriso aberto, que eu nunca lhe tinha visto, visivelmente divertido com a minha pergunta.
- Tu vais para o hotel - explicou ele, olhando-me com firmeza.
- Agora?
- Agora. Sabes que horas são?
As horas. Nem sequer tinha reparado no tempo a passar.
- Já passa da uma da manhã - aclarou ele. Naquele momento senti-me como uma criança a ser repreendida pelos pais por ainda estar a pé a uma hora tão tardia.
- Não tenho sono… - esclareci eu, com um tom firme.
David semicerrou os olhos, fixando-me com um olhar de reprovação, ainda que mantendo um leve sorriso na face.
- Não sejas teimosa. Precisas de descansar.
Com isto, estendeu-me a mão, pedindo-me claramente para o acompanhar. Estendi a mão, tocando na dele. Parecia uma pedra de gelo, pois a sua temperatura era muito semelhante à temperatura ambiente que se fazia sentir. E o frio dele era-me familiar, um frio que eu recordava de tantas outras ocasiões em que a minha pele quente tocava a dele, gélida, como se de um cadáver andante se tratasse. Uma estátua viva, animada por algo desconhecido, misterioso. Por vezes ele olhava-me estranhamente, de uma forma que eu não conseguia definir, nem o que significava, nem o seu conteúdo. Tentar compreender um vampiro era, sem dúvida, complexo. David era alguém misterioso, enigmático, contudo sabia-o agora um ser extraordinário, com valores e com um elevado apreço pela espécie humana. Ainda que um pouco esquivo, tinha que admitir que a sua rebeldia o tornava ainda mais único e, até algo… interessante. O seu intenso olhar esmeralda mantinha-se em mim enquanto eu estava perdida nos meus calorosos pensamentos, quando me relembrei que, seguramente, ele estaria a depreender o meu estado de espírito e, portanto, sabia que eu estava… contente, o que me fez sentir uma forte onda de constrangimento, por estar a expor-me de uma forma tão evidente.
- Não há problema nenhum em te sentires… bem - sussurrou ele, enquanto mantinha o seu olhar em mim, hesitando claramente em relação à palavra que haveria de utilizar. "Bem" estava perto, ainda que não fosse exactamente esse o meu estado de espírito. Por momentos, dei graças a Deus por ele ser um vampiro jovem e de a sua perspicácia ainda ser algo limitada – por enquanto.
- Vamos? - Sugeriu ele.
- Sim… - respondi eu, repentinamente, libertando-me do seu olhar e retirando a minha mão da sua, para colocar ambas as mãos nos bolsos do casaco que vestia.
- Então e tu? Não tens um sítio para onde voltar? - Perguntei eu, na direcção dele, enquanto andávamos, lentamente, pelas ruas desertas.
- Sim, tenho. Mas hoje ainda tenho tarefas para cumprir.
Olhei-o com ar inquisidor, atónita. Tarefas em Estrasburgo?
- Hábitos alimentares… - esclareceu ele, em resposta ao meu olhar.
- Ah…
- Como cheguei há pouco, ainda tenho que encontrar a fonte adequada de alimentação. E não inclui humanos, fica descansada - explicitou ele, com um sorriso nos lábios, face à minha expressão de espanto. - Não te preocupes comigo, preocupa-te sim em dormir e descansar porque amanhã é a noite da audiência.
A referência dele à audiência teve um efeito quase imediato em mim e senti-me automaticamente com os nervos à flor da pele, o ritmo cardíaco claramente acelerado.
- Às onze da noite, no hemiciclo do Parlamento Europeu - informou ele. Vi-o agarrar-me o braço suavemente, como se sentisse a minha inquietação, olhando-me fixamente, enquanto eu, por outro lado, evitava encontrar o seu olhar. - Calma… - sussurrou ele.
- Desculpa, mas não consigo evitar… - balbuciei, nervosa.
- Tens que acreditar em mim. Quando quero, consigo ser muito argumentativo - reforçou ele, enquanto mantinha o olhar fixo em mim, como se assim se assegurasse que eu compreendia melhor o que ele estava a tentar transmitir-me.
Não tinha sequer alternativa senão acreditar nele. Tal como tantas outras vezes, tinha mesmo que acreditar e confiar nele, esperando que os argumentos dele fossem fortes o suficiente para convencer o supremo vampiro chefe de estado.
Caminhámos lentamente e em silêncio até ao hotel onde eu me encontrava, sem proferir uma única palavra. À porta do hotel, fui eu quem quebrou o silêncio.
- Tu dormes?
- Não à noite.
- Sim, eu sei, mas…onde?
Percebia pela sua postura e olhar, assim como pelo tom e conteúdo – evasivo - das respostas, que ele não queria avançar no assunto. Arrependi-me quase instantaneamente de o ter abordado.
- É melhor para ti que não saibas onde eu fico, por uma questão de… segurança.
- O.k. - respondi eu, com intenção de finalizar o frio diálogo que decorria entre nós.
- Mas… sim, eu durmo durante o dia. Num local… seguro.
A sua súbita resposta fez-me olhá-lo, como que surpreendida pela sua intervenção. Era uma faceta recente nele, a de cedência. Normalmente, ele era muito decidido nas suas atitudes – se não queria responder-me, não respondia. Ponto. Mas hesitar em responder e logo ponderar uma justificação era algo absolutamente novo nele.
Ele devolvia-me o olhar, absolutamente sobrenatural. Fora do vulgar. Impressionante.
Como era possível um olhar conter tanto e, ao mesmo tempo, nada? Nada definível, nada concreto, mas simultaneamente, tudo o que é necessário para que eu me perdesse nele.
- Bem… eu vou… - disparei eu, subitamente.
- Sim, claro… - concordou ele, com um ligeiro sorriso na face, sem nunca deixar o meu olhar.
- Então…boa noite e… - a minha hesitação surpreendeu-o. Vi-o levantar uma das sobrancelhas, claramente curioso em relação ao que eu iria dizer em seguida. - …uma boa refeição.
Que modo ridículo de desejar a alguém "bom apetite". Sentia-me, agora, verdadeiramente patética. Libertei-me do seu olhar e aproximava-me, agora, da entrada do hotel.
- Boa noite.
Ainda o ouvi dizer, olhando mais uma vez para o seu semblante, para o leve sorriso que ostentava e para o extraordinário olhar que dele emanava, enquanto eu desaparecia para o interior do edifício.
Olhei para o relógio que se encontrava no hall da recepção. Eram exactamente duas horas da manhã.
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