
Sobre o assassino, o herói iludido e a vítima.
Rated: Fiction T - Portuguese - Drama - Chapters: 3 - Words: 2,200 - Published: 01-16-13 - id: 3092568
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o assassino
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O sangue não o revoltava, muito pelo contrário, o fascinava. Ele já havia visto tanto sangue desde que se juntara à eles que a ânsia que este lhe dava no início desaparecera, dando espaço à um fascínio quase mórbido ao ver o chão manchado com gotas vermelhas que logo se transformavam em poças que brilhavam à luz do luar, parecendo apenas água acumulada no meio da escuridão e, quando o sol finalmente se erguia no horizonte, mostrava a sua verdadeira imagem macabra e doentia.
O cheiro do sangue também não o incomodava há muito tempo, como se aquele odor que ele não conseguia realmente descrever já tivesse se embrenhado em suas narinas de tal forma que fez com que estas se acostumassem. Sangue tinha um cheiro melhor do que o fedor no qual viviam os camponeses, então, que houvesse sangue, litros de sangue pelo chão para abafar o cheiro da pobreza.
Lágrimas também estavam sempre presentes, assim como gritos e súplicas de perdão. Lágrimas, para ele, era como sangue sem cor... Seriam muito mais belas caso tivessem a mesma tonalidade avermelhada, mas não era como se ele pudesse mudar isso – ele tinha o poder de conceder perdão e tirar vidas, tinha o poder de torturar e sair ileso, mas o poder de transformar lágrimas em sangue ainda não estava em suas mãos. E os gritos... Ah, eles eram música aos seus ouvidos.
Se tudo isso estava presente naquela cena, então por que ele estava tão atordoado? O sangue, as lágrimas, as súplicas, a respiração pesada, a adrenalina... Tudo era tão familiar quanto as orações que eles aprendiam desde pequenos. Otche nash, Izhe yesi na nebesekh! Então por que suas mãos tremiam sem parar, fazendo a espada ensangüentada bater contra o chão de pedra, emitindo um estalido metálico alto e irritante? Por que seus dedos hesitaram em se enroscarem nos cabelos esbranquiçados da cabeça de seu pai enquanto ele a erguia do chão? Por que os pingos vermelhos que pingavam do corte e manchavam não apenas o chão mas também a sua túnica faziam o seu estômago revirar? I ostavi nam dolgi nasha.
O temor intensificou-se ao ajoelhar-se aos pés dele, colocando a cabeça de seu pai à sua frente e olhando para baixo. Os dedos compridos e finos que se enroscaram no emaranhado de cabelos escuros em sua cabeça lhe trouxeram, de alguma maneira, uma pequena onda de alivio. Yakozhe i my ostavlyayem dolzhnikom nashim.
Permitindo-se erguer os olhos, encontrou o rosto sério e pontudo do tsar. Seus lábios finos então curvados em um sorriso sutil, como o fazia quando ele o satisfazia, fosse em seu trabalho na oprichnina ou dentro dos cômodos de seu palácio. I ne vvedi nas vo iskusheniye.
"Aquele que trai o próprio pai." Ele sempre fora fascinado pela maneira como a voz do tsar conseguia despir a coragem até dos homens mais bravos do mundo, apesar de que, naquele momento, aquela voz estava servindo para fazer com que um arrepio horrível atravessasse o seu corpo, fazendo até o último pêlo seu se erguer. "Trai o seu tsar."
No izbavi nas ot lukavago.
E ele gritou. E chorou. E suplicou. E sujou-se ainda mais com o sangue de seu pai ao tentar alcançar o outro. E agarrou-se às vestes do tsar. E gritou ainda mais... Apenas para, no fim, acabar no chão, ainda suplicando e com o cheiro de sangue em suas roupas, em seus cabelos, em suas mãos, em tudo. E o tsar apenas virou-se e deixou-o como faria com qualquer traidor. Ele caçava traidores, ele matava aqueles que conspiravam contra o seu governante, ele era leal à apenas uma pessoa no mundo e nunca mediu esforços para cumprir qualquer ordem dada por este, chegando até ao ponto de começar a gostar de tudo aquilo.
Ele não era um traidor.
Ele limpava Muscovy dos traidores.
Ele corria atrás dos traidores, perseguindo-os e os atacando.
E ainda assim, naquele momento, com o sangue de Alexei Danilovich Basmanov manchando-o dos pés à cabeça, ele não passava da sujeira do império, de um daqueles que mereciam ser perseguidos pelos cães do tsar e cujo nome seria limpado da história.
Amen.
N/A: Fyodor Basmanov, um oprichnik da época do Ivan IV (o Terrível). Oprichniks eram pessoas responsáveis por caçar traidores e etc etc, claro que eles foram à loucura e saíram fazendo bobagem quando o poder subiu-lhes a cabeça. Eles tinham total autonomia e só respondiam às ordens do Ivan. Eles eram bem... bárbaros.
1- Otche nash, Izhe yesi na nebesekh!: Pai nosso, que estais no céu!
2- I ostavi nam dolgi nasha: Perdoiai-nos as nossas ofensas.
3- Yakozhe i my ostavlyayem dolzhnikom nashim: Assim como nós perdoamos à quem nos tem ofendido.
4- I ne vvedi nas vo iskusheniye: E não nos deixei cair na tentação.
5- No izbavi nas ot lukavago: Mas livrai-nos do mal.
6- O símbolo dos orichniks eram o cachorro e as vassouras: as vassouras "varriam os traidores para fora do reino" enquanto os cães "corriam atrás destes, mordendo os seus calcanhares".
Fyodor também era, muito provavelmente, amante do Ivan. Ele e o pai, Alexei, caíram na desgraça depois de um rolo que eu não entendi como foi por certo, mas prenderam eles e Ivan falou que iria poupar aquele que matasse o outro primeiro. Fyodor, sendo o fanático que era, matou o pai... Só pro Ivan chegar e "Se você traiu o seu pai, traiu o seu imperador." lindo, não? Não se sabe se Basmanov foi morto ou exilado, mas acredita-se que ele foi o único líder oprichnik que foi exilado e não morto, já que ele era o favorito do Ivan.
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