A Última Lágrima

Uma pequena escapadela, uma oportunidade para se verem, um momento para se amarem. O risco era grande, as consequências atrozes, mas o prazer... Esse era inigualável. Poderiam estar juntos uma última vez, sentirem o último toque suave, o último suspiro?

- Eleanor, por favor. Vai-te embora daqui! - pediu Peter.

- Eu quero estar contigo… Uma última vez…

- Sabes que se te apanharem aqui, somos ambos mortos. Por favor, não quero ser o responsável pela queda de uma flor.

- Acredita que se uma flor puder sentir os últimos raios de sol, vale a pena o sacrifício - concluiu Eleanor abrindo, de seguida, a cela do seu amado. - Vamos, segue-me.

Saíram ambos a correr em direcção a um bosque que se situava junto à pequena aldeia. A povoação não possuía muito mais que dez habitações, uma prisão e um pequeno mercado. As suas tonalidades não fugiam ao castanho, podendo observar-se aqui e ali certos fragmentos de cor que, por isso mesmo, atribuíam uma certa beleza ao local.

- Para onde vamos?

- Para o paraíso - informou a rapariga.

Eleanor, talvez guiada pelo coração, conduzia Peter por entre as frondosas árvores, sem prestar grande atenção ao caminho, pois o seu olhar percorria o rapaz que ia a seu lado. O seu cabelo era tão negro que Eleanor piscou os olhos por diversas vezes, certificando-se de que não observava o vazio. No entanto, os olhos azuis eram tão claros que, apesar de nunca ter visto o oceano, era aquela cor que associava à beleza de tal fenómeno da Natureza. No entanto, mais tarde, confirmou essa suposição.

- Chegámos - anunciou Eleanor, detendo-se na margem de uma clareira.

- Mas isto… Wow…

Peter perdera as palavras no exacto momento que olhara o local que os rodeava. Nunca imaginara que no meio de tão denso bosque pudesse haver tal clareira. E o mais impressionante, sendo o mais impressionante a cascata no extremo norte que vertia o líquido, nada mais, nada menos, do que num lago. As águas calmas e refrescantes transmitiam uma tal sensação de serenidade e bem-estar que, por momentos, Peter esqueceu-se que havia sido sentenciado com pena de morte. A luz do luar que incidia no lago reflectia-se por todo o local, tornando-o ainda mais belo, pois as mais delicadas flores possuíam um brilho único, vivo e lindo.

- Como descobriste este local?

- Nunca aqui estive antes. Acho que foi um instinto ou… Fui guiada pelos deuses - respondeu Eleanor.

Peter olhou-a com mais atenção. Eleanor não era mais uma criança e, com 17 anos, tinha já mais maturidade que certas mulheres da aldeia. A rapariga era, de facto, muito bonita. A sua face continha feições adultas e infantis, o que lhe conferia uma beleza fora do comum. Os cabelos loiros desciam delicadamente pelas suas costas, ondulando ao sabor do vento que soprava suavemente naquela noite de Verão. Duas madeixas caíam-lhe no rosto emoldurando, assim, os seus olhos verdes. Eleanor sempre tivera naquela cor viva um brilho de alegria e inteligência e, em todas as viagens que Peter fizera até chegar àquela aldeia, nunca vira tal cor.

- Sabes, nunca pensei vir a morrer desta forma mas, se o nosso amor é proibido, vou aceitar as consequências de tal sentimento.

- Eu não queria, a sério que não queria que morresses por me amares.

- Se simples humanos não conseguem compreender, apenas a aprovação dos deuses interessa.

Foi com o embalo de tão belas palavras que Eleanor se entregou a Peter naquela noite, deixando-se ser guiada para o lago que guardou para todo o sempre aquele momento de puro amor. Os jovens amaram-se como ninguém havia sido feito naquela aldeia e, provavelmente, em todo o mundo. Aquele era o amor no seu todo, o amor que apenas existia num mundo inteligível e que não era mais uma mera reflexão. Peter e Eleanor haviam atingido, ainda que inconscientemente, o amor absoluto. A Natureza, como que sensibilizada com tal paixão, proporcionou-lhes o mais belo momento das suas vidas, disponibilizando os seus pirilampos para os iluminar com a sua luz ténue e suave, rodeando-os numa frenética dança de alegria.

- Quero ser tua para todo o sempre - sussurrou a rapariga nos ouvidos de Peter.

- E serás. Acredita.

E assim se mantiveram durante toda a noite: beijando-se, acariciando-se e explorando-se um ao outro. Eleanor nunca esqueceu aquele momento e, mesmo já em idade avançada, relembrava com saudade a paixão da sua adolescência, uma paixão que ficou marcada no seu coração. Em todo o restante tempo da sua vida, nunca voltou a amar alguém com tanta intensidade.

Na manhã seguinte chegou o tão doloroso momento. Peter iria ser enforcado na praça central e, para infelicidade de Eleanor, os seus pais haviam-na obrigado a assistir a tão cruel acto.

O rapaz subiu vagarosamente os degraus para o estrado, não demonstrando medo ou infelicidade. Pelo contrário, o seu rosto irradiava felicidade.

Grosseiramente, o carrasco colocou-lhe uma corda no pescoço, posicionando-o por cima do alçapão. Durante todo o tempo, Eleanor nunca perdera o contacto com os olhos de Peter e, mesmo que não pudessem comunicar oralmente, trocavam amor e paixão. Mas, como mais tarde ou mais cedo teria de acontecer, o alçapão foi aberto e, mesmo estando a sofrer e atingindo lentamente a morte, Peter nunca deixou de fixar Eleanor, deixando bem claro que morria pelo amor de a amar profundamente).

- Amo-te Eleanor - foram as últimas palavras de Peter, deixando pender a sua cabeça ao findar do último suspiro, mas mantendo sempre a mesma expressão de felicidade.

- Também te amo Peter - respondeu-lhe num murmúrio a rapariga, deixando correr uma lágrima que transportava um misto de dor e felicidade.

Aquela foi, de facto, a última lágrima resultante de tal paixão.