Capítulo I

A Festa de Charity

Nova Iorque. Uma cidade como tantas outras. Ou talvez não. Riqueza, fama, festas, amigos... Não é o que todos queremos? Loucos são aqueles que o negam. Ou serão loucos os que o desejam? O dinheiro não compra a felicidade, dizem muitos. Outros afirmam que o dinheiro é vital. Riqueza e Fama... Existe alguma coisa neste mundo que não gire em torno disso?

O que farias por dinheiro? Há quem cometa loucuras. Uns vendem o corpo, outros participam em negócios obscuros. Mas... Serias capaz de matar, por dinheiro? Serias capaz de matar para conseguires os teus cinco minutos de fama?

Em Nova Iorque, é o que não falta. Amigo que mata o amigo, irmão que mata o irmão, filho que mata o pai... Em Nova Iorque tenho conhecimento dos casos mais macabros alguma vez vistos. Mas, afinal, não é essa a consequência da minha profissão?

24 de Dezembro, um dia como todos os outros, excepto o facto de ser véspera de Natal. As lojas estavam cheias, as estradas congestionadas, e as ruas sobrelotadas. Todos queriam comprar os seus presentes de última hora, pois, era muito mau esquecerem-se de alguém. Eu observava-os do topo do prédio. Um bom local para o escritório de um detective.

Olhei em redor. Definitivamente, teria de fazer uma pequena limpeza assim que tivesse tempo. A desordem era tal que, quando o telefone tocou, não o consegui encontrar no meio da papelada. Enfim, é assim a vida de um detective. Sempre ocupada com os problemas dos outros, sem tempo para ter uma vida pessoal.

- Detective Blood?

A voz era feminina e familiar.

- Quem fala?

- Charity Jones.

Oh sim. Lembro-me desta senhora. Uma cara bastante conhecida das revistas. Diria, até, a mais conhecida; não só pela sua grandiosa mansão e fortuna, como pela sua beleza. O seu pai fora assassinado pela própria mulher e, na altura, Charity foi a principal suspeita. O motivo do assassínio: dinheiro. A Mrs. Jones queria possuir toda a fortuna, pois o marido não lhe dava o suficiente. Felizmente, a verdade foi descoberta e Charity acabou por herdar a fortuna.

- Já me recordo. Deseja algo da minha pessoa? Houve mais alguma morte na sua família?

- Felizmente, não.

- Então, a que devo a honra do seu telefonema?

- Queria convidá-lo para uma festa que vou dar logo à noite.

- Uma festa? Tentarei aparecer. - Nunca me comprometo com ninguém. Um detective comprometido é um detective morto.

- Ficarei à sua espera.

Uma festa... Melhor ainda, uma festa de Charity Jones. Deverão lá estar muitas celebridades. O local perfeito para se cometer um crime. Ou será que a minha desconfiança já vê perigos em todos os lados? Deveria ir? Bem, se não receber nenhum telefonema até lá, talvez compareça.

O dia continuou. O tempo nunca pára, está sempre a mexer-se. As lojas continuaram cheias, as estradas congestionadas, e as ruas sobrelotadas. E diziam os políticos que estávamos em época de crise! A avaliar pelo constante vai e vem de pessoas na rua, poucos eram os que acreditavam em tais palavras. Talvez porque, afinal, não estávamos em crise. O que queriam dizer com crise, então? Política foi algo que nunca percebi, nem espero vir a perceber. No entanto, muitas eram as vezes que a minha mãe me dizia que se estivesse no governo, a minha vida seria muito mais fácil.

O telefone tocou outra vez. Será que receberia outro convite, para uma festa de ricaços? Com um pouco de sorte, talvez um novo caso? Minutos depois, soube que não era nem uma coisa, nem outra.

- Olá Johnny! Não me ias ligar? - Era a minha mãe.

- Ainda não tive tempo. A mãe sabe que tenho uma vida muito preenchida.

- Se chamas vida a esse teu dia-a-dia... Não vens passar o Natal a casa? - Todos os anos a mesma coisa. Ela sabia que não o faria, no entanto, continuava a insistir na mesma pergunta.

- Não posso.

- Não podes ou não queres?

- Se a mãe sabe a resposta, porque é que a faz?

- Porque acho essa tua atitude muito tola. Tens tido muito trabalho? - Típico. Ataca e foge a seguir.

- Bastante.

- Se fizesses o que te disse, tinhas uma vida bem mais fácil. - Começava a perguntar-me se não iria falar de política, desta vez.

- Eu não gosto de política, mãe.

- Bem, envio-te o teu presente pelo correio?

- Não precisava de se incomodar.

- Ora essa, eu ainda posso comprar uma prenda de Natal para o meu próprio filho. - Se não acabasse com a conversa rapidamente, começava o sermão.

Olhei para o relógio. Oito horas da tarde. Ou seria da noite? Estas questões banais sempre me baralharam. Era melhor não me atrasar para a grande festa de Charity.

- Tenho de desligar, mãe. Convidaram-me para uma festa e não posso atrasar-me.

- Uma festa? Quem é que te convidou? - A mesma curiosidade de sempre.

- Uma antiga cliente.

- Hum... Está bem... - Parecia satisfeita com a resposta.

- Adeus, mãe. Espero que passe um bom Natal.

- Não queres dizer nada ao teu pai? - Se a pergunta não fosse séria, acho que tinha começado a rir.

- Não, mãe. Adeus.

- Adeus, Johnny. Vê lá o que fazes. - Como se eu fosse alguma criança.

- Sim, mãe.

Até quando é que a minha mãe continuaria a insistir nos mesmos assuntos? De qualquer forma, não tinha tempo para pensar nisso.

Saí do escritório, entrei no carro e dirigi-me para a mansão de Charity. Estas festas sociais eram sempre muito aborrecidas mas, segundo o que a minha profissão me ensinara, é neste tipo de ocasiões que acontece um crime.

Comecei a avistar o local. Olhei em volta. Estranho... À excepção do carro de Charity, só vi outros três. Normalmente, havia sempre muita gente nas festas sociais. Talvez estivessem a decorrer outras festas. Típico entre famosos.

Parei o carro em frente da porta. Logo, apareceu o motorista de Charity.

Larry, era esse o seu nome. Um jovem alto, magro, dono de um cabelo ruivo, brilhante. Um rapaz bastante reservado.

- Boa noite, Detective Blood. - Ainda se lembrava de mim.

- Boa noite, Larry. Como tem estado tudo por aqui?

- Calmo. Posso estacionar o seu carro?

- Claro, claro.

Deixei o carro com ele, e dirigi-me para a porta. Toquei à campainha. Imediatamente, a porta foi aberta pelo mordomo, um homem já velho, com um farto bigode branco, olhos semicerrados, alto.

- Boa noite, Detective Blood.

- Boa noite.

- Queira dirigir-se ao salão, por favor.

Segui-o pelo vasto corredor, iluminado por candeeiros, em ambas as paredes, imitando tochas. O salão era muito vasto, semelhante aos que se vêm em castelos e palácios, mas mais pequeno.

- Detective Blood! Ainda bem que pôde vir.

- Boa noite, Lady Charity - Charity deu uns risinhos estridentes ao ouvir "Lady"

- Ora, ora. Deixemo-nos de formalidades. Beba e coma o que desejar. Espero que se sinta em casa.

Muito dificilmente, pensei. Olhei em volta. No salão, apenas estavam dez pessoas: Charity Jones, Mary e William Anderson, Katrina Firiel, Sabrina Noris, David Henchefort, um homem que não reconheci, o mordomo, a empregada e eu.

- Desculpe a pergunta, Charity, mas quem é aquele homem?

- Qual?

- O alto e loiro.

- Ah! É o meu marido. - O marido? Só tinha passado um ano desde a última vez que vira Charity e já se tinha casado. De facto, num ano pode acontecer muita coisa.

- Como se chama?

- Lionel Thomas.

- Mas... Então agora chama-se Charity Thomas. - Não estava certo se era uma pergunta ou afirmação. De qualquer forma, Charity percebeu.

- Não, não. Nós não nos casámos da maneira habitual.

- Então com...?

- Desculpe, John, tenho de falar com Katrina.

Que casamento tão estranho. Não admira que não tivesse lido nada nas revistas.

- Boa noite, Detective.

- Boa noite, Sabrina Noris. Há quanto tempo.

Sabrina Noris, 24 anos, jovem e bela, cabelo loiro e olhos azuis claros. Uma ex-namorada.

- É verdade. Quando foi a última vez que nos vimos?

- Talvez desde a última vez que esteve em minha casa.

- Sim, sim. Tem toda a razão. Tive saudades suas.

- Já eu não posso dizer o mesmo.

- Hum... Sempre tão frontal. - Fingia-se amuada.

- Não foi essa minha característica que lhe chamou a atenção?

- De facto...

Derrotada, Sabrina afastou-se. Ao que parecia, tinha vindo tentar a sua sorte.

Olhei em volta. Além de Charity e Sabrina, não conhecia mais ninguém, excepto o mordomo e a empregada. Os outros, Mary, William, Katrina e David só conhecia de revistas. E depois, havia Lionel. Um homem bastante estranho. Mantinha-se no seu canto, não falava a ninguém e ignorava quem lhe falava.

A festa decorreu normalmente. Poucas conversas, pouca movimentação. O ideal para alguém como eu. No entanto, não deixava de achar estranho aquele ambiente.

Então, aconteceu. A luz foi abaixo de repente, e tudo escureceu. O que podia eu fazer? Era detective, analisava as pistas após o crime, não os impedia. Nem sabia como o fazer. Ouvi vários gritos pelo salão. A luz voltou. No centro, um corpo jazia no chão, sem vida. O morto, era Charity.