Capítulo V

Envenenada

- Charity foi envenenada!? - Não podia ser… Então, não fora Lionel quem matara Charity. Quer dizer, ele matara, mas depois de outra pessoa o fazer primeiro. - Já sabem que tipo de veneno é?

- Não, mas já passaram às análises. Daqui a umas horas informar-nos-ão. - informou-me Phil.

- Vai atrasar-me todo o processo! Isso significa, que naquela festa, havia mais do que uma pessoa a querer matar Charity.

- Parece que sim. Para uma pessoa tão simpática e famosa, tinha muitos inimigos. - ironizou Phil.

- Não é altura para ironias, Phillip!

- Está bem… Já não digo mais nada, Jonathan.

- O meu nome não é para aqui chamado!

- Então não digas o meu! - Volta e meia dava nisto! Sempre passámos a vida a implicar um com o outro através dos nomes. Eu não gosto do meu, assim como Phil não gosta do dele. O que se pode fazer? Gostos não se discutem.

- Pronto, está bem, Phil. - cedi, para terminar a brincadeira.

- Tudo bem, John.

- Assim que souberes o tipo de veneno, informa-me.

- Fica descansado, Chefe!

Aproximei-me de Katrina. O funeral já terminara há alguns minutos, e os presentes na festa, eram os únicos que restavam. Naquela noite, criou-se uma espécie de laço que os uniu, como nunca vira acontecer com ninguém. Acho que, como únicas testemunhas do crime, apenas eles poderiam compreender-se uns aos outros. Comigo era diferente. Eu já estava habituado a lidar com mortes.

- Katrina, tenho novidades.

- Sobre Lionel? Gostava de estar presente no seu julgamento.

- Fique descansada que estará. Estarão todos. - informei, elevando a voz para que os outros ouvissem. - Mas não é sobre isso que preciso de falar consigo.

- Então, o que é? - Não havia qualquer curiosidade nesta pergunta. Apenas a fizera por boa educação.

- Não foi Lionel quem matou Katrina.

- O quê? Não pode ser. Nós vimos!

- Pois… E o que não vimos?

- Como assim? - questionou Katrina, confusa.

- O sangue de Charity fora envenenado horas antes.

- Não pode ser…

- Mas é verdade. Os médicos legistas acabaram de o descobrir.

- Então, havia mais do que uma pessoa a querer matar Charity… - disse a mulher, como que pensando em voz alta.

- Exacto!

- Teremos de responder a um novo questionário?

- Não, não. O processo agora será diferente, ainda que mais demorado. Mas, com certeza, mais eficaz.

- Então, o que vão fazer?

- Lamento, mas não lhe posso dizer. Talvez em breve.

- É sempre assim? - O que é que ela queria dizer?

- Assim, como?

- Assim, despreocupado, sem compromissos…

- A minha profissão obriga-me a isso. Sab-

- Já sei! Lembro-me de uma frase sua, que Charity repetia vezes sem conta: "Um detective comprometido, é um detective morto." - Charity ainda se lembrava disso? Fantástico…

- Exacto. E porque é que a Katrina é sempre assim?

- Assim como? - Agora foi a vez dela de ficar confusa…

- Assim, inconstante, alternando de estado de espírito de minuto para minuto.

- Eu sou assim. Sempre fui. Nem sei ser de outra forma. Agora posso estar muito chorosa, e daqui a pouco posso rir a bandeiras despregadas. Mas isso não significa que esqueça a dor. Essa é a minha maneira de passar por cima de maus bocados.

- Compreendo.

- Bem, julgo que tem muito que fazer hoje, por isso não o ocupo mais.

- Como desejar, Lady Katrina.

Já se tinham passado vários dias, quase duas semanas, e a resposta do laboratório acerca do tipo de veneno, continuava sem dar qualquer sinal. Esta espera deixava-me louco! Quando finalmente identificassem o veneno, já o assassino teria fugido do país e, fora dos Estados Unidos, eu não tenho qualquer poder.

RING RING

- Fala, Phil.

- Já tenho a resposta do laboratório.

- Então?

- O veneno provém…

- Odeio este sítio.

- Tens muito com que te queixar! Eu só estou aqui por tua causa.

- Por minha causa? Apenas alinhas-te porque quiseste!

- Ora, cala-te, Lionel! Pensas que não sei a verdade? Tu criaste falsas situações para que Charity ficasse com uma má impressão minha, e despedir-me! Nem posso crer que ela foi na tua conversa.

- Nem eu posso querer que teve coragem para alinhar num plano para matar Charity. - A minha voz soou forte e imponente. Bastou para calá-los.

- O que é que quer daqui? Veio gozar com a nossa cara, foi?

- Esteja calado, Lionel. Muito sorte teve, em ficar aqui, na cadeia de Nova Iorque. Ou prefere ir para o forte, onde encontrará os mais perigosos assassinos do país? - Não me respondeu, mas calou-se de imediato. Era óbvio que não tinha poder para mandar Lionel para o forte; o importante era que ele acreditasse que sim.

- O que é que deseja, Detective? - perguntou Alfred.

- Quero saber quem é o vosso cúmplice. - disparei, sem qualquer rodeios.

- Como? - perguntaram ambos, em uníssono.

- Exacto. Charity foi envenenada por alguém, antes de Lionel tê-la "morto".

- Isso é uma novidade para mim. Não sabia de nada.

- Não sabia, ou não quer dizer, Lionel?

- Não sei! Nem eu, nem Alfred.

- Penso que Alfred tem boca e cordas vocais próprias. - Recebi um olhar de morte, por parte de Lionel.

- Não sei de nada. Se encontrar essa tal pessoa, traga-a para lhe felicitar-mos pelo brilhante plano.

Virei-lhes costas, sem qualquer resposta.

- Espera aí! Volte! - Lionel gritou, em vão.

- Por aqui, Detective. - Ao ouvir esta voz, dei um pulo de quase um metro. Não esperava encontrá-la.

- Mrs. Jones. Como está?

- Muito bem, obrigada. Diga-me, o que faz por aqui? Mais alguma viúva louca por dinheiro?

- Não, não. Dessas, só conheço a si. - Adoro ser sarcástico!

- Filhos da mãe e ca-

- Tenho a certeza que não vai querer dizer isso. - avisei.

- Como ia a dizer, filhos da mãe, também só o conheço a si.

- Sinto-me lisonjeado. - Parece que ao fim de tanto tempo a conviver com Lionel, aprendi qualquer coisita. - Se me dá licença, tenho mais que fazer.

- O mesmo digo-lhe eu.

- Imagino. Um chá das cinco, com as assassinas de Nova Iorque? Quantos novos contactos conseguiu para me tramar assim que sair daqui?

- Imensos. Nem imagina a quantidade de pessoas interessantes que se conhece, quando se frequenta um estabelecimento destes.

- Ficarei à espera.

Fiquei espantado comigo próprio. Nunca na minha vida fora tão sarcástico; adorei! Acho que tenho de começar a fazer isto mais vezes, é relaxante…

Bem, quanto ao veneno, já estava tudo quase tratado. Muito em breve, aquele, ou aquela, que envenenara Charity, estaria atrás das grades, fazendo companhia a Lionel e Alfred.

Mais uma vez, passaram imensos dias. Este processo estava a demorar-se demasiado tempo. O julgamento de Lionel e Alfred havia sido suspenso, devido à descoberta desta nova pista. Phil fazia os possíveis para descobrir a origem do veneno, o mais rapidamente possível, mas haviam imensas lojas. Quando soube que o veneno provinha de uma aranha fiquei… em estado de choque! Como é que uma loja de animais pode comercializar aranhas com propriedades… mortais? Será que já não havia lei, neste país? Como é que isto chegou a este ponto? Se continuarmos assim, qualquer dia seremos comparados àquela amostra de pais, Portugal.

RING RING

Finalmente! A resposta estava prestes a ser revelada!

Mansão Jones. Nunca pensei regressar a este sítio, muito menos com todos os convidados da festa realizada à três meses atrás. Caramba, como o tempo passa a correr. Parece que ainda foi ontem que presenciei a morte de Chad; sim, porque a de Charity ninguém viu mesmo.

- Boa tarde a todos. Julgo que sabem porque estamos aqui.

- Sim. Vai, finalmente, revelar-nos a identidade do verdadeiro assassino de Charity? - perguntou Katrina, com um tom de voz moderado.

- Exactamente. No entanto, não o farei enquanto Linda não chegar.

- Duvido que ela venha. - sugeriu Katrina.

- Porquê?

- Desde a morte de Charity, ela tem andado desaparecida. Nunca mais apareceu aqui, apesar de ninguém a ter despedido. - Katrina Firiel, quem diria.

Logo após o funeral de Charity, fora encontrado um testamento nos pertences de Charity, o qual dizia que todos os bens da família Jones deveriam ser repartidos, igualmente, por Chad e Katrina. Uma vez que Chad também fora assassinado, tudo o que pertencia a Charity ficou à responsabilidade de Katrina. Tal acontecimento conceder-lhe-ia um estatuto vitalício de "Mulher Mais Famosa", mas a própria anunciara, publicamente, que abandonava a comunicação social… para sempre!

- Eu sei. Depois de ter sido descoberta o veneno no sangue de Charity, todos vocês foram postos sob vigia. - Todos os presentes abriram os olhos de espanto. - Exacto, apesar de não terem reparado em nada, foram vigiados todo este tempo. Ora, Linda, tentara sair do país, e os meus amigos foram obrigados a detê-la até ser descoberta toda a verdade.

- Isso significa que… Foi Linda quem envenenou Charity? - inquiriu Katrina. Parecia ter tomado a liderança do grupo.

- Boa tarde, Detective. - Linda acabara de chegar, acompanhada por dois oficiais da polícia.

- Boa tarde, Linda. - dirigi um aceno de cabeça, em sinal de agradecimento aos dois agentes, e estes deixaram a mansão. - Bem, agora que estamos todos reuni-

- Porque é que tentaste fugir? Foste tu que envenenaste a Charity, não foste? Confessa, sua falsa! - Katrina irrompera em lágrimas, acusando Linda sem qualquer controle.

- Tenha calma, Katrina. Já tenho a resposta comigo, e se todos se acalmarem, compartilhá-la-ei convosco. - Calaram-se todos, expectantes. - O verdadeiro assassino de Charity Jones é… - Aproximaram-se todos um pouco, excepto duas pessoas. - Sabrina Noris.

Conforme planeara, Sabrina não dera qualquer passo. Ao comparecer ali, e aposto que ela sabia que estava a ser vigiada, estava pronta a arcar com as consequências dos seus actos.

- Bravo, Detective. - felicitou-me Sabrina, ao mesmo tempo que batia palmas. - Suponho que, agora, irá explicar todo o processo até aqui, não?

- Exactamente. Então, começando do início. Sabrina recebe, sem qualquer surpresa, um convite para uma festa de Charity. Como calculara, tinha a oportunidade de matar Charity. Dirigiu-se a uma loja de animais, especializada em insectos, em Itália - daí a demora para a descobrirmos -, e comprou uma aranha. Mas não uma aranha qualquer, uma venenosa, tão venenosa, que era capaz de matar um ser humano. Voltou para Nova Iorque, extraiu o veneno, e passou à segunda parte do plano. A cúmplice. Sabrina não tinha qualquer acesso à comida ou bebida da festa, e não tinha como controlar quem comia o quê, ou quem bebia o quê. Apenas uma pessoa o poderia fazer. Linda, a empregada. Na noite do crime, enquanto ninguém reparava, Katrina passou o frasco com o veneno a Linda, que por sua vez depositou num copo, juntamente com sumo de abacaxi, o suplemento energético de Charity. Depois de Charity o beber, demorou alguns instantes até o veneno actuar, mas antes que Charity pudesse ser morta pelo veneno, foi morta por Lionel.

Linda tentara fugir, quando revelei o seu nome, mas Will segurou-a, não a deixando escapar. Quanto a Sabrina, essa mantinha impassível, como se se estivesse a falar de outra pessoa qualquer, e não ela.

- Espantoso, Detective. Só faltou apresentar os motivos que me levaram a fazê-lo. - apontou Sabrina.

- Eu sei. Eu não o fiz, porque não sei. Estou à espera que me diga.

- Quer saber? Eu digo-lhe. Eu matei Charity porque queria Lionel! - Olhou para a minha cara de incredibilidade. - Sexo, John! Sexo! Ou será que já nem sabes o que isso é? - A minha face ruborizou, mas não em deixei abalar pelas palavras de Sabrina.

- Muito bem. E os motivos de Linda?

- Essa? Essa pobre coitada não queria mais que dinheiro. Eu prometi que lhe pagava uma quantia exorbitante se ela cumprisse um trabalho muito simples, e ela aceitou sem pensar duas vezes. Era com esse mesmo dinheiro que ela tencionava viajar.

- E você? Porque não tentou fugir, Sabrina?

- Às vezes consegues ser bastante estúpido, John. Eu fiquei, por Lionel! Eu sei que vamos ficar os quatro na mesma cela. Se apesar de ser presa, puder satisfazer os meus desejos, fá-lo-ei de livre vontade. - Dito isto, elevou os punhos. - Onde estão as algemas? - Todos os presentes ficaram incomodados com a demasiada franqueza de Sabrina. Afinal, não era de muito bom tom andar a espalhar aos quatro ventos os seus desejos sexuais!

- Bem, penso que pudemos dar este caso por encerrado.

- Finalmente, Detective. Finalmente… - concordou Katrina, convidando-me de imediato, para um lanche, juntamente com David e os Anderson.

The End