AVISO: Esta é a minha história mais antiga que ainda existe, eu a escrevi no final de 2001 e início de 2002, portanto peguem leve, hehehehehehehe xD

As Aventuras de um Corsário

Prefácio

Os corsários, para quem não sabe, são piratas autorizados por certos países a saquear embarcações de outros países, com o fim de prejudicar o comércio feito pelo respectivo país.

Os corsários atuaram muito durante a época das grandes navegações, saqueando navios, contrabandeando escravos, especiarias e riquezas, e invadindo colônias na América.

No Brasil, os corsários que mais atuaram foram os franceses. Eles faziam alianças com tribos indígenas (principalmente os tupinambás), com o fim de extrair Pau-Brasil e fazer os indígenas se revoltarem contra os portugueses.

Eles tiveram papel fundamental durante as duas invasões francesas ao Brasil, com destaque na do litoral do atual Rio de Janeiro, onde ajudavam a saquear navios portugueses e atacar fortalezas costeiras.

Para se prevenirem dos corsários, os portugueses criaram as expedições "Guarda-Costas". Apesar de serem eficazes, não conseguiram livrar a costa do Brasil dos corsários, que continuaram agindo.

Esta história vai contar a história de Pierre, um pobre jovem de 23 anos, que tenta a todo custo sustentar a mãe e os dois irmãos menores. Trabalhando no cais da cidade de Marselha, recebeu a estranha proposta de um poderoso burguês para comandar uma expedição de corsários que iria para a América, com a missão de encontrar um tesouro que o pai de Pierre, um grande navegador que lhe ensinou tudo sobre navegação, tinha tentado em vão roubar de uma tribo de tupinambás, que lhe devoraram.

Com a proposta de que ficaria com metade do tesouro, Pierre escolhe seus homens e parte para a América.

Durante a viagem, Pierre conhece a jovem Catherine, por quem se apaixona. Porém, nem tudo é um mar de rosas...

É uma bela história, divertida em alguns pontos, triste em outros. Espero que aprecie.

Luiz Fabrício de Oliveira Mendes - O autor.

Parte 1

Capítulo 1

Marselha, França, 1532.

Pierre acorda. Olha para um lado, depois para o outro. Levanta-se, levando o fino cobertor ao chão. Passa a mão nos cabelos castanhos e coloca seu casaco.

Sai do quarto e topa com o irmão caçula, a quem murmura algo bem baixo. Entra no quarto da mãe e a olha e, vendo que tudo está bem, sai.

Cruzando a rústica porta da casa, Pierre desce a ladeira na direção do cais. Trabalhava como faxineiro. Não era o melhor dos empregos, mas garantia o pão de cada dia.

Logo, ganhou o cais, entrando num pequeno prédio para pegar o balde de madeira cheio de água e o pano com qual lavava o ancoradouro.

Limpava devagar, iluminado pelo sol da manhã. Despreocupado via os grandes galeões e caravelas ancorarem no cais, o que era um verdadeiro espetáculo.

De repente, sentiu um pontapé nas costas. Virando-se, viu o seu superior, com uma cara furiosa, que disse:

Lave o ancoradouro e chega de moleza! Vamos!

Sim senhor...

Voltou a lavar as tábuas do ancoradouro, agora no triste mundo real.

Passaram-se algumas horas, rápidas como o vento. De repente, o superior voltou, agora com uma expressão de surpresa na face:

O burguês Denis de Montevillete quer vê-lo!

Como?

Não sei o que ele quer com um pobre coitado como você!

Meu Deus! Será que minha casa está em algum terreno dele? Estou perdido!

Pierre largou o pano e o balde e seguiu para o prédio de administração do cais, ansioso e ao mesmo tempo curioso.

Nosso herói entrou na sala onde Montevillete o esperava. Ele estava vestido com roupas finas e tinha dois vassalos, um de cada lado da cadeira em que estava sentado.

Pierre sentou-se devagar, admirando a elegância do burguês. Oscilante, disse:

O que o senhor quer de mim? Não veio ao lugar errado?

Meu jovem! Você me conhece e sabe que nunca ajo em vão! Bem, vamos ao que interessa! É filho de Jacques Montiê, não?

Sim. Meu pai era um grande navegador... Ensinou-me tudo o que sei! Pena que o destino fora tão cruel para com ele!

Bem, eu sei que seu pai, há cerca de oito anos, tentou roubar um tesouro de uma tribo tupinambá na Terra Brasilis e foi devorado cruelmente, não?

Infelizmente...

Bem, eu sei onde esse tesouro está e quero reavê-lo!

E daí?

Quero que comande uma expedição em um de meus navios: o Bleu, para reaver o tesouro!

Eu? Comandar uma expedição?

Não se espante! Sei que seu pai lhe ensinou muita coisa e que é um ótimo navegador! Além disso, dividirei o tesouro com você, pois sei que você e sua família passam dificuldades!

É! Mas tem certeza de que sou o homem certo?

Tenho certeza! Vou lhe dar o mapa com a localização exata e os suprimentos de que vai precisar!

Sim senhor! Estou muito contente!

Eu posso perceber! Escolha sua tripulação e parta o mais rápido possível!

Está bem! Obrigado!

Não foi nada, Pierre!

Pierre saiu da sala, com um sorriso estampado no rosto. Era estranho. Não haveria algo errado?

Mesmo assim, era uma grande oportunidade. Pierre poderia aliviar o sofrimento pelo qual sua família passava. Além disso, iria terminar o que seu pai havia começado.

O mapa mostrava que o local onde estava o tesouro ficava perto da vila de São Vicente. Não seria fácil passar pelos tupinambás, mas Pierre era corajoso.

Reuniria naquela noite todos os seus companheiros na taberna do cais, para formar a tripulação da expedição.

O sol já se punha no horizonte. Pierre, apressado, entra em casa. A mãe, com voz fraca, pergunta:

Por que a pressa?

A maior oportunidade da minha vida chegou e não posso perdê-la! – respondeu Pierre, mastigando um velho pedaço de pão. – Vou tirar-nos desta vida miserável de uma vez por todas!

Que oportunidade é essa?

Desculpe-me querida mãe, mas não tenho tempo para contar agora! Tenho que encontrar meus amigos na taberna!

Entendo... Conte-me depois!

Claro! – disse, beijando-lhe o rosto. – Até logo!

Até!

Pierre vestiu seu casaco e saiu, desviando-se de seus irmãos, que brincavam de pique-esconde.

Pierre desceu a ladeira rapidamente, cruzou a rua do cais e parou na frente da taberna Chéri, que tinha o nome da proprietária.

Ele entrou na taberna e saudou:

Olá camaradas!

Olá!

Pierre se aproximou do balcão, onde Chéri servia as bebidas:

Uma rodada de rum para nós! Eu pago! – pediu Pierre.

Tem certeza? Não tem nem onde cair morto!

Não se preocupe! Vou tirar a sorte grande!

Pierre serviu os amigos, pegou uma caneca de rum e subiu sobre uma mesa, dizendo:

Amigos! Vocês são meus grandes camaradas e sempre me ajudaram nas horas mais necessitadas! Agora, vou recompensá-los, mas também terão que me ajudar!

Como? – perguntaram quase todos ao mesmo tempo.

Conhecem o burguês Denis de Montevillete?

Claro! É o maior burguês de Marselha!

Ele me deu um mapa para encontrar o famoso tesouro de meu pai!

Ora! Não venha com a história do tesouro de novo...

Mas é verdade! Está aqui! – disse, mostrando o mapa.

Passe pra cá!

Todos passaram o mapa de mão em mão e ficaram admirados. Pierre continuou:

Como dizia, tenho o mapa do tesouro. Montevillete disse que poderia ficar com metade dele se encontrasse. Ele me emprestou um de seus navios para navegar até o Novo Continente. Só preciso de uma boa tripulação, e esta será bem recompensada...

Como cães no encalço de uma raposa, todos se aproximaram de Pierre, falando todos ao mesmo tempo, não dando para compreender uma palavra. Este disse:

Calma, bando de abutres! Vou escolher a dedo minha tripulação, de acordo com minhas necessidades!

Então escolha logo!

Bem, vamos ver... Jacob! Você será meu orientador. Checará nossa posição, dará conselhos e entreterá a tripulação!

Jacob, um poeta e sábio, que só falava em versos, respondeu:

Oh! Pierre Nobre! Será uma gentileza! Só o dinheiro me cobre, não quero nenhuma incerteza!

Vamos ver... Jean! Você será meu braço direito, pois é meu melhor amigo!

Ótimo! Ficaremos podres de ricos! – respondeu ele.

Agora... Robin! Você cuidará da segurança do navio, chefiando nossas armas!

Tudo bem! Estou louco para descobrir se as índias são como descrevem! Hum... – respondeu ele.

Bem... Chantô! Você cuidará da comida! É um ótimo cozinheiro!

No nosso navio ninguém passará fome! – riu ele.

E agora... Luis! Você se encarregará da limpeza!

Limpeza? Eu? – perguntou, indignado.

Ora! Também é um trabalho nobre! Não queremos ratos espalhados pelo navio!

Nisso, Jean disse:

Pierre, minha prima, Catherine, é ótima na cozinha. Poderia ajudar Chantô! Não é uma boa idéia?

Sim! Pode avisá-la!

E eu? – perguntou um senhor idoso, de barba.

Oh! Padre Muliê! O senhor também irá! Precisaremos do auxílio de Deus!

Acho que não falta ninguém! – concluiu Robin.

Não! Ainda preciso de alguém para guardar meus tesouros... O capitão Jacques não está interessado?

Um homem sentado distante deles e com olhar soturno respondeu:

Posso pensar! Tenho vários homens para ajudar!

Traga-os! Quanto mais, melhor!

Nisso, todos pegaram Pierre e começaram a carregá-lo, cantando:

O Pierre é um bom companheiro! O Pierre é um bom companheiro! O Pierre é um bom companheiro... Ninguém pode negar!

Nisso, Pierre lembrou-se:

E um timoneiro? Preciso de um timoneiro!

Eu posso ajudar! – respondeu um rapazola.

Quem é você?

William, o inglês!

É de confiança?

Se não for, podem cortar minha garganta!

Todos riram, enquanto tomavam com vontade suas canecas de rum.

Passaram-se três dias. O Bleu estava pronto para zarpar. Uma bela manhã.

Na casa de Pierre, este se despedia:

Voltarei o mais cedo possível, minha mãe! Voltarei rico! Tirarei vocês desta vida miserável!

Prometa que voltará, filho! – pediu a mãe, aos prantos.

Fique certa de que voltarei! Não vai acontecer como ocorreu com o papai!

Pierre se despediu de seus irmãos e saiu, carregando o que chamava de "aparato para navegação": um barril aparentemente normal e um cobertor.

Pierre desceu ansioso a ladeira e ganhou o cais, onde o Bleu era imponente. Uma carranca com o rosto de uma sereia dava um tom de beleza a mais ao navio. As velas tinham o símbolo da Corte, num bonito desenho.

Pierre subiu ao navio, onde sua tripulação já o esperava. Rapidamente, conferiu se estavam todos ali:

Jacob!

Aqui, caqui, qui-qui!

Jean!

Aqui!

Robin!

Em carne e osso!

Chantô!

Aqui!

Luis!

Aqui!

William, o inglês!

Aqui!

Padre Muliê!

Aqui!

Jacques e seus homens!

Estamos aqui!

Catherine!

Aqui!

Pierre parou ao ouvir a doce voz da jovem, que era um colírio para os olhos: cabelos e olhos castanhos, corpo bonito e uma bela expressão no rosto.

Pierre parou de sonhar acordado quando ouviu Robin:

O que faremos?

Bem, Jean vem comigo para minha cabine observar novamente o mapa, Robin leva alguns homens de Jacques para verem as armas e os canhões, Jacob vem também conosco até a cabine para examinar nossa rota, Chantô e Catherine vão para a cozinha, Luis e alguns homens de Jacques limpam o convés, William vai para o timão, o padre Muliê está livre e Jacques pode descansar por enquanto... Ufa!

Todos foram fazer suas atividades, enquanto o Bleu zarpava do porto de Marselha, a caminho de uma grande aventura.

Capítulo 2

Pierre fala com Catherine.

Na noite em que o Bleu havia zarpado, organizou-se uma pequena festa no navio. Chantô fez alguns de seus melhores pratos, com a ajuda de Catherine. Enquanto a maioria da tripulação bebia e dançava, Pierre conversava com Jean na sua cabine:

Bem, demoraremos dois meses e meio para chegar na Terra Brasilis. O tesouro está localizado numa aldeia tupinambá perto da vila de São Vicente.

Conheço uma tribo de tupinambás amistosos que negociaram com um amigo meu. Eles podem nos ajudar – disse Jean.

Boa idéia! Temos algumas quinquilharias a bordo e eles podem se interessar! E você Jacob, tem algo a dizer?

De acordo com os cálculos meus, temos que pedir a Deus, para que nada estrague os planos seus!

Certo! Vamos para a festa no convés! Precisamos nos divertir um pouco!

É isso aí, capitão Pierre! – concordou Jean.

Os três saíram da cabine e foram para o convés, onde todos bebiam, comiam e dançavam. Pierre se aproximou de Robin, que comia uma coxa de frango com vontade:

Não a acha bonita? – perguntou Pierre, apontando para Catherine.

Sim! É uma bela rapariga, como dizem os portugueses!

A conhece?

Não muito. Ouvi falar que morava em Paris e, depois que sua família foi despejada, veio para Marselha. Circulava pela Corte e pela nobreza, mas agora é pobre. Dizem que sua família foi jogada na miséria por um membro da Corte, quando Catherine se recusou a lhe desposar.

Meu Deus!

Vá em frente Pierre! Se você gosta dela, declare-se!

Mas e Jean? Ele tem um enorme respeito pela família e pode não gostar!

Não sei... Na dúvida, invente que alguém está dando em cima dela para Jean. Veja sua reação e faça o que achar melhor!

Mas sou o melhor amigo dele, não qualquer um da tripulação! A reação pode ser diferente!

Faça o que achar melhor! Da última vez em que banquei o cupido me dei mal!

Obrigado!

De nada, Romeu!

Pierre serviu-se de uma caneca de rum e sentou-se perto de Jean, perguntando:

É verdade o que aconteceu a seus tios e Catherine em Paris?

Sim, mas não comente! É muito chato! Não deixarei ninguém mais se aproximar de minha prima longe de meus tios!

Sei... Não se preocupe! Minha boca é um túmulo!

Esqueça! Vamos pedir para Jacob cantar uma daquelas músicas!

Boa idéia!

Os dois se aproximaram de Jacob e pediram para ele cantar algo. Este pegou uma flauta e começou a cantar e tocar:

Pelos mares viajamos! O mundo exploramos! Viajamos e saqueamos! O perigo amamos!

Todos começaram a repetir o refrão e a dançar ao som da flauta. Jacob continuou:

Para nós não há limite! Tudo achamos que existe! Matamos quem dá palpite! Nossa coragem faz que saltite!

Todos continuaram a dançar, enquanto Jacob repetia o refrão.

Nisso Pierre se aproxima de Catherine, que estava sentada num canto. Ela disse:

Jacob canta bem, não?

Sim. É um bom poeta e cantor.

É o melhor amigo de meu primo, não?

Sim!

Jean já me falou muito de você! Até já perguntou se não o queria como marido!

O quê? – alegrou-se Pierre.

Isso mesmo! Olhe que loucura! Meu coração pertence a outro homem...

É? Quem? – desiludiu-se Pierre.

Sim! Amo Paul, um nobre de Paris. Não sei como agüentei cinco meses sem vê-lo!

Hum...

O que foi? Parece estar aborrecido!

Não! Eu apenas me lembrei que esqueci de dizer uma coisa a Jean. Com licença!

Toda!

Pierre afastou-se, enquanto todos dançavam e cantavam ao som de Jacob.

Nosso herói recolheu-se a sua cabine, aborrecido e desanimado.

Nisso, Jacob parou de cantar e disse:

Bando de beberrões! Não usem palavrões! Parei com minhas canções, pois quero alguns tostões!

Todos se aproximaram de Jacob e jogaram algumas moedas de ouro. Este, tomando uma caneca de rum, voltou a cantar noite adentro.

Amanhecia o dia. Pierre acordava, quando Robin entrou na cabine, com aparente ressaca. Pierre perguntou:

Como terminou a bebedeira ontem à noite?

Jacob cantou mais algumas músicas e pediu mais moedas. Jacques deu-lhe um bofetão na cara, inchando sua bochecha esquerda. Devia estar completamente bêbado. Por que se recolheu tão cedo? E Catherine? O que fez?

Era sobre isso que queria lhe falar. Conversei com Jean e ele disse que, desde o que aconteceu em Paris, não deixará mais ninguém se aproximar dela. Desiludido, fui conversar com ela. Surpresa eu tive quando disse que Jean até já havia perguntado se ela não me queria como marido.

Que sorte! Fico feliz por você!

Não acabou. Depois disso, ela disse que seu coração pertencia a outro homem. É um tal de Paul, um nobre de Paris.

Paul Barton! Ele é muito poderoso! Não tem nem chance de competir com ele. Sinto muito...

Por isso me recolhi cedo ontem, para pensar!

Sei o que sente. Já amei!

Dê-me um conselho! O que eu faço?

Tente declarar-se a ela! Assim sua tortura acabará!

Não sei se tenho coragem... Ela já disse que gosta de outro homem! Não queria ouvir isso novamente da boca dela!

Faça isso! É o único conselho que lhe dou! Vou-me embora, pois Jean vem aí!

Até logo!

Até!

Robin sai ao mesmo tempo em que Jean entra. Este último se senta na sua cama e pergunta a Pierre:

Robin já lhe contou sobre o final da festa ontem?

Sim!

Jacob está hilário com a sua bochecha esquerda inchada! Parece um palhaço!

Sei... Jean se lhe disser algo, promete que não irá zangar-se?

Depende... O que é?

Amo sua prima, Catherine!

O quê?

Sim, amo-lhe, mas já tive o triste privilégio de saber que ela ama a outro!

Se você gosta dela, tudo bem. Acho-lhe um ótimo partido. Já contei de você a meus tios e eles também acham, mas se ela gosta de outro, não posso fazer nada. Já tentei de tudo para ela esquecer esse tal de Paul, mas ela é teimosa. Ele era é interesseiro, pois se interessava na riqueza de meus tios, que era maior que a dele. Sinto muito!

Nisso, Jacob, que ouvia a conversa pela janela, disse:

Amar é se arriscar e sofrer as conseqüências. O melhor é se declarar para não perder as paciências!

Obrigado Jacob! É isso o que farei!

Pierre saiu, enquanto Jean se segurava para não rir da bochecha do poeta.

Passando pelo convés, Pierre entrou na cabine onde Chantô, Catherine, Luis e o padre Muliê ficavam. Só Catherine estava lá, cantarolando uma música. Pierre disse:

Olá, Catherine!

Olá Pierre! O que quer?

Preciso lhe dizer algo!

O quê?

Amo-lhe! Amo-lhe muito!

O quê?

Sim! É isso!

Catherine parou por um instante e perguntou:

Ama a mim ou a minha riqueza? Pois saiba que perdi tudo!

Não! Amo-lhe verdadeiramente, mais do que tudo!

Mas... Pierre! Você sabe que amo Paul e...

Jean me disse que Paul não passava de um interesseiro! Meus sentimentos são verdadeiros!

Mas, Pierre...

Não diga mais nenhuma palavra! Vou lhe resumir tudo nisto: É do campo a mais bela flor, meu amor por ti arde com fervor! Seu sorriso é o mais valioso tesouro, teu amor vale mais do que ouro!

É lindo, mas...

Por favor, me aceite! Acabe com a tortura do meu coração!

Mas, amo a Paul...

O que ele tem que eu não tenho? Riqueza, posição social, poder? O que é?

Pierre...

Eu a amo! Não vê que sou um pobre homem apaixonado, com medo de não ser correspondido?

Pierre, eu acho que estou sendo injusta. Paul é rico, mas não me ama de verdade. Nunca se declarou, nunca me demonstrou afeto. Já você, é o contrário!

Obrigado! Deus existe!

Catherine o beijou, num momento que, para eles, durou uma deliciosa eternidade.

Anoitecia. Pierre olhava o mar ao lado de Catherine, que encostara a cabeça em seu ombro. Pierre perguntou:

Promete me amar, acima de tudo, fora Deus, com todas as suas forças e que sempre será fiel?

Eu prometo.

Ah... Nunca amei antes... Agora sei o que é isso!

Podemos nos casar após esta expedição...

Por que não agora mesmo? O padre Muliê poderia realizar o casamento!

Calma, apressadinho! Quero que meus pais, sua mãe e seus irmãos estejam presentes. Além disso, Jean me disse que ele é meio caduco!

Eu sei! De tanto rezar missa e casar os miolos dele estão gastos!

Você é engraçado! – riu Catherine.

E a viagem prosseguiu. Seriam penosos dois meses e meio para a tripulação, mas deliciosos para Pierre e Catherine.

Capítulo 3

Inicia-se o motim.

Passou-se meio mês. A viagem ia bem e nada parecia poder parar o Bleu em sua jornada. Numa tarde, Pierre, Jean e Jacob reuniram-se em sua cabine, para discutir como ia a viagem. Pierre, depois de examinar alguns mapas, perguntou a Jacob:

Como acha que vamos indo, Jacob?

Estamos de vento em popa indo e logo o tesouro acabaremos atingindo!

E você, Jean?

Pelo que entendo de navegação, concordo com Jacob.

Jean, mudando de assunto, perguntou a Pierre:

Afinal, o que tem no seu barril?

Meu "aparato de navegação".

Pierre abriu o barril e foi tirando e mostrando:

Aqui tem um astrolábio que meu pai comprou de um mercador árabe, mapas do mundo inteiro, algumas instruções de navegação e a minha espada da sorte, que meu pai me deu antes de partir na sua última viagem!

Puxa! – surpreendeu-se Jean.

É realmente muito prático, não querendo ser sarcástico! – disse Jacob.

Nisso, Catherine entrou na cabine:

Pierre!

O que quer meu docinho de coco?

Quero lhe dizer algo!

O que é? Quer se casar comigo agora?

Não! É sobre o capitão Jacques!

Ele deu em cima de você? Mato aquele desgraçado...

Não! Eu o ouvi conversando com seus homens e ele disse algo sobre um motim!

Um motim? Isso é muito grave! Tem certeza de que ouviu direito?

Tenho certeza!

Meu Deus...

O capitão sempre teve má fama! – disse Jean. – Nunca me pareceu de confiança!

Também dele não gosto, ele é um traidor, aposto! – disse Jacob.

O que acham que devo fazer?

Vamos pegá-lo! – sugeriu Jean.

Ótima idéia! Vamos!

Os três saíram da cabine com suas espadas, enquanto Catherine balançava a cabeça, preocupada.

Chegando ao lugar onde Jacques ficava, Pierre apontou-lhe a espada, dizendo:

Que história é essa de motim?

Do que está falando?

Não se faça de asno!

Mas...

Jean, Jacob, amarrem-no!

Sim!

Os dois o amarraram. Pierre disse:

Levem-no para o porão! Agora só falta pegarmos seus comparsas!

Pagará por este engano! – murmurava Jacques.

Eu é que me enganei ao colocar-lhe neste navio!

Jacques foi jogado no porão e trancado. Aos poucos, seus homens também foram amarrados e jogados junto a ele.

A noite caiu. Luis e William teriam a tarefa de vigiar a porta do porão, para não deixar Jacques e seus comparsas escaparem.

William perguntou a Luis, olhando para o céu:

Luis, você não acha que, um dia, os homens alcançarão a Lua, as estrelas e os planetas?

Nunca! A Igreja não deixaria!

Mas pense se não houvesse Igreja! Ao invés de explorar os mares, viajaríamos pelo céu, procurando estrelas...

Você é um sonhador!

E daí? Sonhar não é proibido!

Mudando de assunto, você já amou, William?

Para ser sincero, só meus pais! Ainda não conheci ninguém que pudesse ser chamado de "amor".

Eu deixei uma rapariga maravilhosa em Marselha! Irá se orgulhar de mim se tiver sucesso nesta expedição!

Eu queria saber o que é amar!

Quantos anos tem?

Quinze!

Logo descobrirá!

Enquanto isso, no porão, Jacques murmurava a um de seus homens, Jantuá:

Mas que droga! Como faremos o motim agora?

Calma! Nem tudo está perdido!

Como assim?

Se conseguirmos nos soltar destas cordas, poderemos render a tripulação!

E como nos soltaremos destas cordas e como renderíamos a tripulação sem armas?

Ora, com os punhos!

É melhor eu ficar quieto...

Nisso, um dos homens de Jacques conseguiu arrebentar as cordas que prendiam suas mãos. Jacques, admirado perguntou:

Como fez isso?

A corda estava podre!

Solte-nos!

Ele soltou todos os homens, que, rapidamente, começaram a armar-se de pedaços de pau.

De repente, a porta do porão abriu-se, deixando Luis e William apavorados. Este último gritou:

Motim! Jacques escapou! Motim!

Todos pegaram suas espadas e prepararam-se para lutar. Luis, apavorado, levou uma paulada de Jacques, desmaiando.

Nisso, Pierre chegou, seguido de Jean e Robin, dizendo:

Não quero ver sangue! Rendam-se ou irão sofrer as conseqüências!

Venha nos pegar!

Robin, com sua espada cortou o bastão de um dos homens de Jacques ao meio, deixando-o desarmado. Este, porém, lhe apontou um punhal, fazendo-o se render.

Jacques, segurando um pedaço de madeira com uma lasca afiada na ponta, derrubou Pierre e apontou a lasca para o seu pescoço.

Adeus! – disse Jacques.

Será? – disse Pierre, chutando-o.

Com sua espada, Pierre arrancou o chapéu de Jacques, mas tombou, desmaiado, com uma paulada dada por Jantuá.

Obrigado, patife! – agradeceu Jacques.

De nada, chefe.

Nisso, Jacob chegava com sua espada, cantarolando:

Não sou nenhum mosqueteiro, mas vou acertar o seu traseiro! – disse, fazendo o mesmo com um adversário. – Não sou nenhum cruzado, mas vou acertar o seu lado! Não sou nenhum...

Pare de recitar versos, patife, ou irá virar comida de tubarão!

Nisso, sentiu uma ponta encostar-se às suas costas e se rendeu, largando a espada.

Nisso, Jacques entrou na cabine de Catherine e a colocou deitada sobre o ombro. Enquanto ela gritava por socorro, ele murmurava:

Agora você finalmente será minha!

Pierre o matará!

Vamos ver!

Nisso, todos já estavam rendidos. Pierre, desmaiado, foi jogado no porão junto com o resto da tripulação. Catherine foi forçada a ficar com Jacques. Ela chorava amarguradamente e gritava por Pierre, em vão.

Jacques subiu num barril e disse:

Minha tripulação! Agora tenho o mapa e acharemos este tesouro! Viva o capitão Jacques, o flagelo dos navegantes!

Viva!

Enquanto isso, no porão, Pierre acordava:

O que houve? Onde estou?

Jacques tomou o navio! Estamos bem, mas Luis está desmaiado e Catherine está com Jacques, à força. – respondeu Jean.

Não! Catherine não... Tudo menos isso! Ela disse que seria fiel! Ela disse que seria fiel!

Acalme-se!

Meu Deus! Por que me provas?

Acalme-se...

Meu Deus...

Pierre pôs-se a chorar, enquanto ouvia os homens de Jacques comemorarem no convés.

Continua...