Parte 2

Capítulo 1

A Expedição chega a Terra Brasilis.

Uma bela manhã. O Bleu navega pelo mar azul, embalado pelo sopro da brisa do mar. No convés, o capitão Jacques observava o continente, verde pela Mata Atlântica. Aos poucos, o navio se aproximava mais da costa.

Jantuá, se aproximando do capitão, perguntou:

E Pierre e os patifes?

Por enquanto, deixe-os no porão. Tenho uma missão para eles assim que aportarmos!

Ah! Esqueci-me de dizer! Catherine está passando mal!

O quê? O que há com ela?

Não sei, mas reclama de febre! Vá vê-la!

É o que farei!

Jacques cruzou o convés e entrou na antiga cabine de Pierre, onde ele e Catherine ficavam. Ela estava deitada numa cama, suando. Jacques perguntou a ela:

O que houve, minha flor?

Estou com febre! Quero ver Pierre!

Nunca! Nunca o verá novamente!

Oh, destino cruel...

Cale a boca! Amo-lhe, mas, se ficar falando desse homem, matarei você e ele!

Que morra para encontrá-lo no céu...

Vou embora para não ficar ouvindo você! É só uma febre passageira!

Jacques saiu e voltou para o convés. Jantuá perguntou:

O que ela tem?

Sofre de amor! Conheço esse tipo de febre... Assim que me livrar de Pierre e seu bando, melhorará!

A missão que tem para eles tem algo a ver com isso?

Quem viver, verá!

Enquanto isso, no porão, Pierre olhava o continente, por um pequeno vão no casco. Jacob cantava uma melodia triste:

Oh vida cruel, nos trata como amargo fel! Pior que este papel, só lutar num quartel!

Cale-se! – murmurou Robin, que andava de um lado para o outro.

Por que está tão irrequieto? – perguntou Jean.

Estamos chegando e isso não me é bom sinal!

Por quê? – perguntou Pierre, virando-se.

Não somos mais úteis! Podem nos usar de isca para os tupinambás!

Oh, não! Não quero morrer num barrigão! Meus pedaços cozinhados ou crus, não dão nenhum cuscuz! – preocupou-se Jacob.

Ora, não sejam pessimistas! – disse Pierre.

Nisso, o navio parou.

Oh, não! Aportamos! – preocupou-se Robin.

No convés, Jacques e seus homens saíram do navio, ganhando uma bela praia.

Onde estamos exatamente? – perguntou Jacques.

De acordo com meus cálculos, a uma légua de São Vicente! – respondeu Jantuá, que entendia um pouco de navegação.

Ótimo! A tribo não está longe!

O que faremos agora?

Tragam Pierre e seu bando, amarrados!

Sim senhor!

Jantuá e alguns homens foram buscar Pierre e seus homens, logo voltando com eles.

Jacques! – murmurou Pierre, ao ver o inimigo.

Olá!

O que fez com Catherine?

Nada, mas posso garantir que ela é muito boa na cama!

O quê? Desgraçado! Está mentindo!

Pode ser, mas tenho certeza do que eu falo!

Afinal, por que nos tirou do navio? – perguntou Jean.

Preciso de homens para explorar o local e encontrar a tribo! Como não quero arriscar meus homens a serem pegos por outra tribo tupinambá ou pelas patrulhas portuguesas, vocês oito irão se embrenhar na mata!

Nós todos? Até o padre Muliê e o jovem William? – perguntou Pierre.

Todos! Não eram os padres que queriam vir para o Novo Continente catequizar os indígenas?

Mas não sou jesuíta! – protestou o padre.

Dá no mesmo! Todos são uns glutões que querem enriquecer e impedir que a humanidade atinja o progresso!

Nem todos! – protestou novamente o padre.

E William? – perguntou Pierre.

Não são os ingleses que estão de olho nesta colônia? Que a colonize! – respondeu, rindo. – Agora vão! E não quero ver suas fuças até que voltem com um representante da tribo!

Era isso o que eu temia! – murmurou Robin.

E armamentos? Combateremos com os ventos? – perguntou Jacob.

Um de meus homens com menos prestígio os acompanhará, armado com um arcabuz! Mais que isso, nem pensar! Agora vão!

Com o homem de Jacques na frente, os oito se embrenharam na mata.

Chegaram de manhã e, no céu, o sol do meio-dia os iluminava.

No meio da mata, os nove homens continuavam a marcha, como um pelotão que caminha até o campo de batalha.

Luis! – exclamou William. – Como é amar?

Ora! Logo irá descobrir!

Posso dar uma resposta! – disse Jacob.

Sim! Dê! – pediu William.

Este é o meu mais belo poema: Amar é se aventurar para encontrar um par. Amar é se perder e encontrar a luz do resplandecer. Amar é saber que tem alguém com quem contar e ter um par para dançar. Amar é abraçar e dar um beijo, e ter com quem sempre dividir uma fatia de queijo. Amar é recitar um poema destes e saber que tem uma mulher amada, e a vida que nos separa é, sem dúvida, desalmada.

Que lindo! Ama alguém, como disse no final?

Não! Foi só pra conseguir rimas!

Esse poema me faz pensar! – murmurou Pierre.

Não ligue para o que Jacques falou! – disse Jean. – Conheço Catherine e sei que ela o ama e é fiel!

Espero que esteja certo!

E estou!

Isso me faz lembrar da outra parte do meu poema! – lembrou-se Jacob.

Qual? – perguntou William.

Amar é sentir uma fagulha no coração, e sempre ter a esperança do perdão. Amar é ler nos olhos da pessoa, que cada dia a mais o amor mais bonito soa. Amar é sentir o coração bater mais forte, com a sensação de um infarto ter por sorte. Amar é...

Nisso, o homem de Jacques gritou:

Portugueses!

Onde? – perguntaram todos ao mesmo tempo.

De todos os lados!

Nisso, vários portugueses saíram da mata. Alguns atiravam. O homem de Jacques tentou reagir, mas, ferido, fugiu.

Todos parados! – gritavam.

Nos rendemos! – disse Pierre.

Vão pagar por invadirem nossa colônia!

Todos foram levados até um local cercado por paliçadas, com uma edificação de madeira no centro.

Capítulo 2

A feitoria.

Os oito foram levados para dentro das paliçadas, na edificação.

Colocados dentro de uma improvisada jaula de madeira, todos foram registrados como "Invasores da Colônia do Brasil".

Nos enjaularam! – murmurou Chantô, que até agora permanecera calado. – Nem as lesmas que cozinho recebem este tipo de tratamento!

Nisso, um homem balofo, comendo uma coxa de frango, diz:

Olá invasores!

Quem é vossa balofeza? – zombou Robin.

Joaquim Pascoal Xavier, capitão desta feitoria!

O que fará conosco, não querendo ser abelhudo convosco? – perguntou Jacob.

Por enquanto, ficarão presos! Daqui a três dias um navio chegará e os levará para Portugal, onde mofarão na prisão!

Oh! Que destino cruel! Morrer na prisão como um velho pastel! – lamentou Jacob.

E o pior é que Jacques nem ligará para nós! – murmurou Jean.

E eu queria tanto ver as índias... – murmurou Robin.

Agora descansem! Talvez algum negro rico de Portugal os queira como escravos... É... Os tempos estão mudando!

Após dizer isso, o capitão saiu.

E agora? – perguntou Luis.

Rezem meus filhos... Rezem! – pediu o padre Muliê, começando a rezar um terço.

Oh, Deus amado, sei que é pecado, mas não estou muito disposto, para hoje falar convosco! – disse Jacob.

Hei! Jacob! Como você encontra tanta facilidade para com as palavras? – perguntou Pierre.

De tanto brincar com as palavras e espertos, comecei a encaixá-las nos lugares certos! É fácil, se tentar! Vai comprovar!

Catherine... – suspirou Pierre.

Ama-lhe muito, não? – perguntou William.

Sim! É a mais bela jovem na face da Terra!

A vida é assim... Há encontros e desencontros! Fazer o quê? – disse Chantô.

Sejamos otimistas! – disse Jean.

É... – disse Luis, que coçava a testa.

Hei! Jacob! Recite um poema para nos distrair! – pediu Pierre.

Está bem! Lá vai uma canção: Um dia nas ruas de Paris circulava, quando de repente ouvi quando uma jovem falava. Apaixonei-me pela sua voz... E num rio me senti a foz. Aproximei-me da jovem que era tão bela, meu coração derretia como a cera da vela e de repente quando ia lhe falar... Vi ela virar-se e a outro beijar!

Que triste! – disse William.

É... Quando a gente se apaixona, logo vê que se iludiu! – disse Chantô.

Assim vai desanimar Pierre! – murmurou Jean.

Opa! Foi mal!

Por que fala assim? – perguntou William.

É que, uma vez, me apaixonei por uma bela jovem, que logo me traiu com um nobre!

São sempre os nobres! – disse Robin.

Morte aos nobres! – gritou Pierre.

Morte aos nobres! Morte aos nobres! – começaram todos, num coro.

Fiquem quietos! – gritou um guarda, pela janela.

Vamos dormir! – murmurou Luis.

Mas é dia! – protestou William.

Que seja! Assim passa mais rápido!

Todos seguiram o conselho de Luis e pegaram no sono, exaustos.

Naquela noite, os oito prisioneiros dormiam na edificação, enquanto alguns guardas guardavam a feitoria.

De repente, Pierre acordou de um pesadelo, assustado.

O que houve? – perguntou Robin.

Tive um pesadelo em que Catherine estava casando com Jacques!

Durma!

Nisso, Pierre percebeu que numa das varas da jaula havia uma lasca solta. Ele se aproximou dela e rompeu a corda que o prendia facilmente.

Estou livre! – murmurou Pierre.

Solte-nos! – pediu Robin, vendo o que ocorrera.

Pierre acordou e soltou todos. Livre, Jean perguntou:

Como escaparemos?

Assim! – disse Pierre, chutando a porta da jaula, que caiu. – Vamos!

Cautelosos, os oito saíram da edificação. Jacob disse:

Tenho um plano infalível! Nada, nada falível!

Como é?

Joaquim! Não vai sobrar caco! Está pegando fogo no barraco! – gritou Jacob, com um bom sotaque português.

Enquanto todos os guardas e o capitão vinham ver o que ocorria, os oito pulavam na velocidade de uma bala uma paliçada.

William, porém, não conseguia pular.

Pule! – gritou Pierre.

Este pulou, mas começou a mancar.

Torci meu tornozelo! – disse ele. – Mas consigo andar!

Ótimo! Vamos!

Os oito se embrenharam na mata, completamente sem rumo.

Amanheceu o dia. Os oito corsários andavam pela mata, perdidos. Robin disse:

Seu plano realmente funcionou, Jacob!

Obrigado, mas não dizem que os portugueses são burros como gado?

Todos riram. Jean perguntou a Pierre:

Para onde vamos agora?

Não sei... Talvez possamos encontrar a tribo tupinambá e reaver o tesouro!

O tesouro! Havia até me esquecido! – murmurou Robin.

Pra que lado será a tribo? – perguntou Luis.

Sei lá!

Nisso, um índio pulou de dentro da mata, os parando.

Quem são vocês? – perguntou o índio, que falava francês.

Nós somos franceses! Amigos! Negociadores! Trambiqueiros... – respondeu Robin.

Calma! O índio não é retardado! – disse William.

Vocês vêm comigo!

Para onde?

Para a tribo!

Fazer o quê?

Saudar chefe!

Seguiram o índio mata adentro, receosos do que poderia acontecer.

Capítulo 3

A tribo tupinambá.

Chegaram logo na aldeia tupinambá, trazidos pelo índio. Pierre perguntou:

Como se chama?

Tupinamboca! – respondeu o índio.

O quê?

Tupinamboca!

Que nome...

Nisso, passaram por duas jovens índias. Robin, as admirando, murmurou:

Agora acredito no que dizem... Que deusas!

Também gostei delas! – disse William.

Nisso, pararam de frente para o chefe da tribo, que perguntou:

Quem são vocês? Franceses?

Sim! Viemos em paz!

Os franceses são amigos! O que trouxeram?

Todos deram uma engolida, com medo. Pierre respondeu:

Não trouxemos nada...

O quê?

É isso mesmo!

Então espero que não queiram nada em troca!

E não queremos!

Então vieram escravizar nossa tribo?

Não! Temos um padre para comprovar!

Não queremos nada! – exclamou o padre Muliê.

Jesuítas são amigos!

Mas não sou... – disse o padre, interrompido quando Robin lhe tapou a boca.

Cale a boca! – murmurou Robin.

Veio nos catequizar?

Sim!

Ferraram-se! Resistimos a quem nos quer catequizar! – disse, pegando uma lança.

Está havendo um equívoco! – disse Pierre. – Viemos conhecer... As belas índias desta tribo, como aquelas duas! – apontou Pierre.

São minhas filhas! Pagará com sangue!

Não! Não... Somos amigos! Amigos!

Então fiquem à vontade, camaradas! – riu o chefe. – Tremeram como vara verde! Que engraçado!

O chefe é muito gozador! – explicou Tupinamboca.

Que senso de humor... – murmurou Luis.

Fiquem à vontade, mas não exagerem! – convidou o chefe.

Aí tem... – estranhou Jean.

Vamos aproveitar! – disse Robin.

Nisso, foram detidos por dois índios.

Eu sabia! – murmurou Pierre.

Prenda-os! – ordenou o chefe.

Por que fez isso?

Como Tupinamboca disse, sou um gozador! Vamos estrear nosso caldeirão que compramos dos espanhóis! Cozinhe-os!

Foram presos numa jaula, sobre um caldeirão, que fervia.

Não sabia que os tupinambás cozinhavam a comida! – riu Chantô. – Os europeus devem ter muita influência por aqui!

Claro! Os índios até falam a nossa língua! – disse William.

Nisso, Pierre percebeu que havia um outro homem que não estava com eles antes, na jaula. Ele perguntou:

Quem é você?

Capitão Jacques Montiê, um homem azarado!

Pai? – surpreendeu-se Pierre.

Pierre? – perguntou, igualmente surpreso.

Pai! – disse, abraçando-o. – Pensei que havia morrido!

É o que dizem, mas é mentira!

E o tesouro?

Está na oca do chefe, já faz tempo!

Ainda bem que está vivo!

Como veio parar aqui?

Pierre lhe explicou tudo. Jacques disse:

Bem, acho que agora não temos escapatória!

Será?

Nisso, uma bela índia observava William e Robin, que estavam num canto da jaula. Robin perguntou:

E então, gosta de franceses?

Um pouquinho...

E de ingleses? – perguntou William.

Também!

É linda!

Obrigada!

O que farão conosco?

Acho que os cozinharão, mas não comerei. Tenho pena de vocês! Como se chama?

William, o inglês!

William! Bonito nome!

Obrigado! E o seu?

Porá!

Bem, Porá, se escapar dessa, podemos nos amar!

Você é bonitinho... Mas... Sou filha do chefe!

Mas o quê? Fuja da tribo! Vamos para a Europa!

Sempre quis conhecer esse lugar...

Por favor, aceite!

Acho que posso pensar!

Que linda frase!

Eu aceito sua proposta!

Então encontre um jeito de nos tirar daqui!

Fique calmo! Vou ver o que posso fazer!

Até logo Po!

Até logo, Will!

Você leva jeito! – elogiou Robin.

Obrigado!

Nisso, o chefe, pintado para ocasiões especiais, disse:

Que comece o banquete!

Nisso, Porá se aproximou e disse:

Pai! Não os cozinhe!

Por que, minha filha?

Podemos comer coisa melhor, como portugueses!

É... A carne dos portugueses é mais macia... Solte-os!

Nisso, uma mulher, seguida por cinco homens armados, gritou:

Acabou a festa!

Catherine! – disse Pierre, reconhecendo-a.

Quem é ela? – perguntou seu pai.

Catherine, a mulher que amo.

Soltem esses homens! – gritou Catherine.

Está bem! – disse o chefe, largando sua lança.

Depois de libertados, Catherine gritou:

Saiam da minha frente!

Todos os índios se embrenharam na mata, desesperados.

Catherine! – gritou Pierre, abraçando-a.

Pierre... Meu amor!

Não me traiu, traiu?

Não... Jacques estava mentindo!

Obrigado, meu Deus!

Jean perguntou:

Como chegou aqui?

Numa distração de Jacques, trouxe alguns homens que estão do nosso lado e vim procurá-los!

Você se arriscou tanto por mim? – perguntou Pierre.

Claro!

Esta é Catherine? – perguntou Jacques, beijando-lhe a mão.

Quem é o senhor?

Jacques, pai de Pierre! Muito prazer!

O prazer é meu!

Nisso, William apareceu com um baú nas mãos:

O tesouro! – gritava.

Com uma pedra, eles abriram o baú, que estava cheio de moedas e peças de ouro.

Estamos ricos! Podres de ricos! – gritava Robin, dançando.

Estamos ricos, mas que não fiquemos ariscos! – disse Jacob.

Vamos voltar para o Bleu, antes que Jacques descubra que fugi! – disse Catherine.

Sim! Vamos acabar com a raça de Jacques! Peguem as armas dos índios! – disse Pierre.

Hora do show! – disse Luis, pegando algumas lanças.

Bem, amigos, é agora ou nunca! Um por todos e todos por um! – gritou Pierre, agitando uma espada no ar.

Todos repetiram o mesmo gesto, gritando o mesmo.

De volta à praia, os corsários observavam atentamente o que ocorria no Bleu. Pareciam preparar-se para partir.

É agora! Ao meu sinal! – disse Pierre.

De repente, todos saíram de dentro da mata, gritando.

Assustados, os homens de Jacques não tiveram tempo de reagir e logo Pierre e seus companheiros subiram no navio.

Enquanto começavam todos a se enfrentar, Pierre, Jean, Robin e Jacob saíram como um raio à procura de Jacques, enquanto Chantô corria, ferido no braço.

Onde está Catherine? – perguntou Pierre aflito.

Não sei! – respondeu Jean.

Na cabine do capitão, não havia ninguém e Pierre pegou sua espada da sorte. Saindo da cabine, Pierre topou com Chantô, ferido:

Socorro! – gritava ele.

Chantô! Meu Deus... Entre na cabine e cuide desse ferimento!

Os homens de Pierre levavam vantagem sobre os de Jacques. Jacob, encurralando Jantuá, começou a recitar, enquanto combatia com a espada:

Eu sou valente, arranco seu dente! – nisso, arrancou um dente de Jantuá, com o cabo da espada. – Sou respeitado, acerto o seu lado! – disse, investindo com a espada, errando. – Lhe encurralei, graças a Deus, lhe toco com a espada e adeus! – disse, derrubando-o do navio, fazendo-o cair na água.

Pierre procurava por Jacques, que não estava em lugar nenhum. De repente, ele desceu do mastro numa corda, acertando Pierre nas costas.

Agora lhe mato de uma vez por todas! – gritou Jacques.

Vamos ver!

Os dois começaram a duelar com as espadas, que brilhavam, iluminadas pelo sol. Desviaram-se de dois homens que lutavam, ficando na beirada do convés. Jacques disse:

Catherine é minha!

Não se iluda!

Ah, é?

Jacques investiu com a espada, errando. Pierre feriu-o no ombro.

Com um chute, Pierre empurrou Jacques ainda mais para a beirada, onde o traidor se equilibrava para não cair.

O que havia dito? – perguntou Pierre.

Nada...

O quê?

Nada!

Perdendo o equilibro, Jacques caiu na água. Tentou nadar para a costa, mas foi devorado por um tubarão que se aproximara.

Os homens de Pierre venciam. O último homem de Jacques foi vencido, enquanto Pierre encontrava Catherine:

Fiquei preocupado!

Eu também!

Os dois beijaram-se, enquanto Chantô informava que o navio estava limpo, com um curativo no braço. O padre Muliê, passando por um cadáver, fez o Sinal da Cruz.

Nisso, Porá chegava na praia. William, vendo-a, desceu do navio e foi vê-la.

Porá!

William!

Vamos embora!

Vamos!

Os dois subiram no navio, que se preparava para zarpar. No convés, Pierre perguntou:

Onde está o tesouro?

Aqui! – mostrou Robin.

Bem, vamos zarpar!

Com muita festa, o Bleu zarpou, iluminado por um belo pôr-do-sol.

Capítulo 4

Desvio na rota.

Passaram-se dois dias. O Bleu seguia não muito longe da costa, contornando o litoral da Bahia.

Era quase noite. Pierre, Jean e Jacob estavam na cabine principal, quando o último começou a fungar com o nariz, olhando para os lados.

O que é? – perguntou Pierre.

Cheiro de tempestade sinto! Aproximando-se pelo leste a um quinto! – disse, observando algumas nuvens negras pela janela.

Droga! É das grandes?

Sinto só o cheirinho, mas acho que São Pedro não será bonzinho!

Nisso, começou a chover e trovejar.

O Bleu entrou na tempestade rapidamente, logo ficando no meio do céu cinza.

As águas ficaram violentas. Pierre foi ao convés e gritou:

Tempestade! Protejam-se!

Nisso, foi derrubado por um pé de vento.

Protejam o tesouro! – gritou Robin.

O navio balançava de um lado para o outro. Quem estava no convés subia e descia... Subia e descia...

Faz tempo que não vejo uma dessas! – disse Jacques ao filho.

Era melhor nem ver!

Nisso, uma onda gigante lançou o Bleu para outro lado, e ele continuava a balançar violentamente...

Calma, homens sem fé! – gritou o padre Muliê. – Nunca leram a Bíblia? Tenham fé!

Estou tentando! – murmurou Luis.

Não quero morrer ensopado! – gritou Chantô, agarrado a um mastro.

Pelo menos esta sopa não ferve! – riu William.

Tupã nunca mandou uma chuva tão forte! – disse Porá, abraçada a William.

Nisso, uma onda duas vezes maior que a anterior lançou o navio para outro rumo. Todos estavam desnorteados, com a chuva lhes ensopando.

Nisso, o mar acalmou-se como num passe de mágica. O pôr-do-sol apareceu no horizonte, e as nuvens já iam embora.

Conseguimos! – gritou Pierre.

Graças a Deus! – disse Catherine, abraçando-o.

Mas... Espere aí... Nós saímos completamente da rota! – disse Jean.

O quê? – perguntou Jacques.

Sim! Podíamos ver a costa, agora só vejo mar! Só Deus sabe onde fomos parar!

Xi...

Oh que vida aventureira, é só escaparmos da segunda e vem a terceira! – disse Jacob, desencharcando a roupa.

E agora? – apavorou-se William.

Vamos para onde o vento nos levar! – murmurou Pierre, olhando para o horizonte.

E para onde nos levará? Para Calicute? – perguntou Robin, segurando o baú do tesouro.

Sempre há esperança! – disse Jean.

É... – suspirou Pierre, voltando para a sua cabine.

O Bleu prosseguiu viagem, para onde só Deus sabe...

Passou-se um mês. Numa manhã, Pierre acordou com os gritos de Jacob:

Oh, em que vida paramos! Nesta droga de ilha encalhamos!

Pierre levantou-se e foi ver o que ocorria:

O que foi? – perguntou.

Encalhamos nesta ilha! – explicou Jean.

Meu Deus...

E agora? – perguntou Chantô.

Vamos explorá-la! – disse Robin. – Podemos encontrar riquezas...

E perigos! – completou Catherine.

Concordo com ela! Não tenho espírito aventureiro! – disse Luis.

Você é um tolo... – murmurou Robin.

Pois saiba que alguém com meu nome ainda reinará na França!

E aposto que será um maricas! – riu Chantô.

Ora! Calem-se!

Se quiserem explorar a ilha, não vou impedi-los! Eu e os homens fiéis a mim iremos desencalhar o navio! – disse Pierre.

Ótimo! Quem está comigo? – perguntou Robin.

Apenas William levantou a mão.

O resto me ajude! – pediu Pierre.

Vamos! – disse Robin, saindo do navio seguido por William.

Passou-se uma hora. Pierre e seus homens tentavam em vão desencalhar o navio, quando William apareceu na praia, desesperado:

Pierre!

O que houve?

Robin foi enfeitiçado!

O quê?

Sim! Estávamos explorando a ilha quando encontramos uma aldeia habitada por uns homens velhos e de barba longa. Quando nos viram, transformaram Robin numa estátua de pedra e, graças a Deus, consegui fugir!

Meu Deus... Tem certeza?

Sim!

Ele deve estar falando a verdade, filho! – concordou Jacques. – Já vi muita feitiçaria durante minhas viagens!

Vamos investigar! Quem vem comigo?

Jacques, Jean, Jacob, Luis e William apresentaram-se. Catherine perguntou, abraçando Pierre:

Ficará bem?

Não se preocupe! Ficarei bem!

Com um beijo, despediram-se. Os seis homens embrenharam-se na mata, armados com espadas e arcabuzes.

Cruzaram a mata até chegarem a uma clareira, repleta de casas e com um templo de pedra, no centro.

É aqui? – perguntou Pierre.

Sim! – respondeu William.

Alguns homens velhos e barbudos sentaram-se aos pés do templo começando a pronunciar estranhas palavras. A estátua de Robin estava lá.

O que faremos? – perguntou Luis.

Vamos negociar! – respondeu Pierre.

Pierre saiu da mata e disse:

Olá, mestres da magia!

O que quer? – perguntou um mago, virando-se.

Nada! Apenas fiquei sabendo que vocês paralisaram um amigo meu! – disse Pierre, apontando para Robin.

Ah... Ele?

Sim!

Por favor, senhor mago! Se precisar pagar, eu pago! – disse Jacob, mostrando um saco com moedas.

Querem que o faça voltar ao normal?

Sim! – responderam, em coro.

E o que recebo em troca?

Bem...

Todos se calaram. Jacob disse:

O senhor não desconfia, que entendemos de cartografia? Que somos corsários e que podemos ser... Um tanto otários?

Gosto de um homem que sabe falar! – respondeu o mago. – Ajude-me a decifrar um enigma!

Com prazer irei! – respondeu Jacob.

O quê? – perguntou Luis.

O que houve? – perguntou William. – Você não falou em rimas!

Oh não! Não consigo rimar as palavras! – apavorou-se Jacob.

Roubei seu talento! – riu o mago. – Resolva o enigma e o terá de volta!

E que enigma é esse?

Venha cá!

Jacob seguiu o mago até o templo. Lá, mostrou uma carta, numa língua esquisita.

Leia! – ordenou o mago.

Jacob começou a ler:

Ovarcse mu uos sanepa!

Nisso, virou uma estátua.

Jacob! – gritou Pierre.

Ele leu "Apenas sou um escravo!", ao contrário! Que tolo! – riu o mago.

Nisso, o mago fez um passe de mágica e todos os companheiros de Pierre sumiram.

Onde eles foram parar? – perguntou Pierre, desesperado.

Estão no limbo! Cabe a você libertá-los!

Como?

Vai ter que me vencer num jogo!

Que jogo?

Venha cá!

Pierre o seguiu até uma mesa. Os dois se sentaram, de frente para um tabuleiro dividido em trilhas, com algumas pedras redondas.

Como se joga? – perguntou Pierre.

Cada um tem um exército! Você tem que vencer o meu sem me atacar! Como o fará?

Pierre moveu uma pedra por uma trilha. Com movimentos rápidos, ele deixou as peças do mago cercadas.

Cheque-mate! – disse Pierre.

Não! Venceu-me!

Sim! Agora liberte meus amigos!

Está bem...

Num passe de mágica, todos voltaram ao normal.

Nisso, ouviram-se tiros. De repente, alguns homens armados saíram da mata.

São Pedro! Santo Agostinho! São João! Peguem-nos, soldados! – disse o que os comandava.

Quem são vocês? – perguntou Pierre, com as mãos para o alto.

Quem ousa dirigir-se a Hernán Cortés nesse tom?

Pelo que vejo, não é nada cortês, o senhor Cortés! – disse Jacob, recuperado.

Quem são vossas tristezas? – perguntou Hernán.

Somos franceses! Já estávamos de saída! – respondeu Robin, saindo de fininho.

Não sem me pagarem tributo!

Que tributo? É um bruto! – disse Jacob.

Olha...

O que querem com minha tribo? – perguntou o mago. – Não fizemos nada para os deuses nos castigarem assim!

Estão em propriedade da coroa espanhola! Província do Caribe, Novo Continente...

Terra de "nariz empinado" Cortés? – zombou Robin.

Ora seu...

Ora seu o quê? Barbudo!

Vou lhe arrancar a cabeça, insolente!

Vem pegar!

Pare Robin! Chega de criar confusão! – gritou Pierre. – Não queremos confusão! Apenas nos deixe ir!

Está bem! Não quero ver vocês nem pintados de estrelas! Fora!

Sim senhor! – disse Luis, se retirando com os outros.

Ufa! – aliviou-se Jacques.

Vamos voltar para a praia! – disse Pierre. – Já devem ter desencalhado o navio!

Sim! – disseram todos, em coro.

Na praia, o Bleu estava pronto para partir. Enquanto Pierre abraçava Catherine e William abraçava Porá, Chantô gritou, apontando para a água:

Olhem! É o patife do Jacques!

O quê? – surpreendeu-se Pierre.

Era Jacques, o traidor, que se aproximava, com o ferimento feito por Pierre, sem uma perna, apoiado numa tábua. Ele gritava:

Hora da revanche!

O tubarão não lhe comeu, ó plebeu? – perguntou Jacob.

Cuspiu-me! Só minha perna foi devorada! O mar me trouxe para cá, pra me vingar!

Poderia ter-lhe temperado um pouquinho! – riu Chantô.

Venha me enfrentar, Pierre!

Desgraçado... – murmurou o desafiado.

Venha cá... Venha cá...

Pierre pegou sua espada da sorte e começou a lutar com Jacques, que bufava. Ninguém parecia ter vantagem. Num golpe de sorte, Jacques feriu Pierre na perna.

Minha perna! – murmurou ele.

Vou arrancar seu coração!

Nisso, um tiro acertou Jacques, que tombou na areia, morto de uma vez por todas.

Quem deu o tiro? – perguntou Pierre.

Fui eu! – respondeu o pai, com um arcabuz na mão.

Obrigado!

Ninguém meche com os Montiê!

Precisamos cuidar desse ferimento! – preocupou-se Catherine.

Não importa! O Bleu vai zarpar!

Pouco depois, o Bleu partiu, iluminado pelo pôr-do-sol dourado.

Epílogo

O Bleu chegou em Marselha dois meses depois. Com muita festa, seus tripulantes foram recebidos pelos maiores burgueses.

Pouco depois da chegada, Pierre e seus companheiros foram ver Montevillete. Entrando na sala onde ele o esperava, Pierre saudou:

Olá, senhor Montevillete!

Olá Pierre!

Encontrei o tesouro! Está aqui! – disse, com o baú nas mãos.

Ótimo! Dê-me cá!

Mas metade é minha!

Iludiu-se! Tudo é meu!

Não quero ver sangue... Meio a meio!

Sangue? Pois verá sangue!

Nisso, três guardas apareceram na porta da sala, com suas espadas apontadas. Pouco depois, Jean, Robin e Jacob entraram na sala, todos espetando os guardas no traseiro.

Não temas, ó Pierre! – gritou Jean, apontando a espada para Montevillete, que segurava o baú do tesouro.

Eu sabia que aí tinha! – disse Pierre, pegando uma espada. – Dê-me o baú!

Está bem! Fique com tudo, só não me atazane mais! – disse ele, entregando o baú.

Que gente... Sujeitinho mais insolente! – murmurou Jacob.

Estamos ricos! Ricos! – gritou Robin, saltitando.

É isso aí!

Saíram, enquanto Montevillete chorava.

Primeiro Pierre foi até uma loja, comprou roupas e em outra, muita comida. De um nobre, comprou uma bela casa, para onde se mudou sua família.

Depois, passou na taberna da Chéri e pagou suas dívidas. No cais, até deu umas moedinhas para seu antigo superior...

Dois dias depois, organizou-se uma grande festa. Iriam se casar Pierre e Catherine, na catedral da cidade.

Na igreja, Pierre esperava por Catherine, no altar. Ela entrou com um belo vestido, acompanhada de seu pai.

O padre Muliê faria o casamento. Depois de fazer a cerimônia, perguntou:

Se alguém é contra esta união fale agora ou cale-se para sempre!

Eu! – gritou um homem, entrando na igreja.

Quem é você? – perguntou Pierre.

Sou Paul Barton! Lembra-se de mim, Catherine, minha querida? Amo-lhe!

Agora que enriqueci, voltas para mim? – zangou-se Catherine. – Vais pagar!

Nisso, Jean, Robin, Jacob e Pierre, armados com espadas, começaram a perseguí-lo, embalados por uma canção de Jacob:

Oh, que belo interesseiro! Por que não beijas um travesseiro? É macio e pequeno... Não sentirás teu veneno! É um belo de um bobão! Vai borrar o calção! Por que não pescas pacu? Não sente o cheiro do...

Na igreja não! – interrompeu o padre Muliê.

Vamos ensinar-lhe uma lição! – disse Pierre.

Rendo-me! – gritou Paul, saindo correndo da igreja como uma garotinha desesperada.

Podemos prosseguir com a cerimônia? – perguntou o padre.

Sim! – respondeu quase toda a igreja.

Bem, para não haver mais confusão nesta igreja, lhes declaro marido e mulher! Podem se beijar!

Pierre e Catherine beijaram-se, num momento que pareceu durar para sempre.

William e Porá se casariam em breve. Jacob conheceu uma poetiza e logo se casariam também. Jean e Robin conheceram algumas damas da Corte, enquanto Luis casou-se com sua amada. Chantô, quem diria, também se casou, com uma ótima cozinheira, por sinal.

E todos viveram felizes, ricos, muito ricos... Podres de ricos... Mas com sentimentos bons e não gananciosos, é claro, pois, uma bela paixão, nem a mais perigosa aventura ou situação financeira pode destruir, se houver amor, amor de verdade...

FIM

Luiz Fabrício de Oliveira Mendes – "Goldfield".

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