Um texto que escrevi com 11 anos. Lembro-me que foi publicado algum tempo depois, num jornal, por um colega do meu pai… não me lembro qual.


Alcançando a Felicidade…

por Rayana Wolfer

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Era eu um cachorrinho quando comecei a aprender as peripécias da vida, e sendo um cão abandonado após um mês de nascer, tive de as aprender sozinho.

Fazia muitas perguntas, assim como por exemplo, "o que é a felicidade?".

Talvez, por ter tido uma vida dura e difícil, não tivesse tido nenhum momento de alegria, assim se explicando o porquê de nem sequer ter uma opinião própria sobre o significado dessa palavra. Lembro-me de alguém me dizer algo sobre como alcançar felicidade, apenas uma coisa: procurá-la dentro de mim.

Quando eu tinha um mês, lembro-me do dono da minha mãe deixar-me a mim e aos meus irmãos dentro de uma caixa na rua, e já de noite os meus irmãos tinham sido recolhidos pelas pessoas que iam passando ao pé de nós, menos eu, que fiquei dentro da caixa ao relento.

Como tinha fome, não me apetecia ficar ali a apanhar frio de estômago vazio. Saí da caixa e fui farejando pela rua fora. A rua era toda bonita cheia de casas maravilhosas. Caminhei até que um cheiro a canja de galinha me entrou pelas narinas a dentro... fosse o que fosse, eu queria era comer!

O cheiro vinha de uma casa toda bonita com jardim, fui até lá e comecei a raspar a porta, até que ouviram o barulho e foram ver o que era. Quando o senhor da casa me viu, olhou-me com desprezo, dando-me um pontapé dizendo « Sai daqui rafeiro! ».

Quando me deu o pontapé, até fui pelo ar! Comecei a andar em direcção a outra casa, mas fui desprezado da mesma maneira, e assim sucessivamente até que fui dar a uma rua pobre, cheia de casas velhas com vidros partidos. Custava-me a querer que houvesse gente a viver naquelas condições, mas tentei chamar a atenção de alguém, raspando a porta de uma casa já com a madeira apodrecida.

Fiquei admirado por haver gente ali. Vi uma velhota com uma bengala, de olhar triste e só. Mas quando me viu, vi uma expressão no olhar dela nunca antes sentida na minha vida.

Pela primeira vez na vida percebi o que era a felicidade. Apesar de ser pobre, a velha acolheu-me com carinho, alimentou-me e reparei que ela estava feliz por ter um amigo.

Hoje, estou ainda a viver na mesma casa, mas, infelizmente a minha querida dona faleceu. Não faleceu nem de doença, nem de acidente… mas simplesmente de velhice.

Morreu quentinha na cama com o ar de quem diz: «morri feliz, com quem mais gosto».

Fim