JULIE FRANKLIN e a Lenda das Jóias Perfeitas

Autora: Sara Clarice Lecter

Categoria: Geral, Mistério

Rating: indicado para maiores de 13 anos.

Spoilers: Julie Franklin e o Mistério do Falso Conde, Julie Franklin e o Tesouro de Flávio Creto, Julie Franklin e o Naufrágio do Corsário Traidor, Julie Franklin e o Outro Lado do Crime, Julie Franklin e a Linhagem dos Príncipes Bastardos.

Disclaimer: dou no enredo os devidos créditos por mais uma cigana da literatura universal se chamar Esmeralda. Confesso que tentei pensar em outro nome, mas só me vinham Cassandras na cabeça. Agradeço a A. Fertig pelas dicas sobre a Guerra dos Abássidas e sobre os califados árabes que citarei nesta sexta história. Todo o resto é meu e ninguém tasca!

Prólogo

O céu configurava a face que ela mais adorava: lua nova. A escuridão de um grande armazém era interrompida por tochas com óleo incandescente, que por se aproximar a aurora estavam fracas e vacilantes. O canto que por horas se ouvia naquela parte da cidade cessara há meia hora. Pudera, ela deixara o acampamento no intervalo entre uma dança e outra, aproveitando-se do breu de uma madrugada quente, e embora soubesse que dariam por sua falta assim que as cítaras dos indianos recém chegados voltassem a bradar, talvez tivesse sorte de não ser apanhada até que cumprisse seu acordo, e assim voltar alegando enfado, se refrescar um pouco e tornar a sapatear sobre o tablado improvisado de madeira onde seus passos encantavam, enchiam olhos e acalentavam corações apaixonados.

Maria. Cigana. Dançarina. Bruxa. Virgem. Apelidada por um viajante francês de "Esmeralda", como a dançarina de flamenco da obra de um certo Victor Hugo. Não sabia ler, mas dissera o galante rapaz que era um elogio e ela acreditou. Acreditou também que ele a levaria para seu castelo na França. Deflorou-a. Partiu na mesma madrugada, quente e escura como aquela, deixando para trás nada mais que um filho. Uma semente que foi arrancada de Esmeralda por seu irmão mais velho ao notar seu ventre crescido. Ficara o sangue, a saudade de um protetor que ganhara o mundo em busca de vingança, e os amigos que desde cedo eram sua única família. Continuou dançando e enlouquecendo os homens a sua volta. Mas era virgem. Virgem como julgou que sempre deveria ter sido, e a despeito daquela madrugada com o francês, nunca mais conhecera o amor.

Conhecia, por outro lado, quase melhor que ninguém, o poder das ervas. As curativas, para todos os males, e as mágicas, para todos os propósitos – até mesmo os mais malignos. Usaria alguma delas caso seu acordo não fosse cumprido pelo estranho cavalheiro com véu que lhe propusera dar uma bolsa de moedas de ouro em troca de uma jóia.

– Trouxe o que pedi, bela Esmeralda?

Ele tinha voz grave e olhos tão escuros quanto aquela noite, sobrancelhas espessas e pele queimada pelo sol. Esmeralda o vigiara a luz do dia, horas antes, para ver se descobria alguma coisa sobre sua pessoa, mas nada de concreto obtivera.

– Quero ver as moedas primeiro. – disse sorrindo, sabendo há anos que seu sorriso e insinuação confundiam os homens a seu favor.

– Não tentaria enganar tão bela dama... – ele começou a cair no flerte. – Diga-me, Esmeralda, quantos anos tens?

– Já não faço as contas há muitos invernos. Nasci no Ano de Riego.

O homem com rosto coberto por véu pareceu calcular mentalmente. Ano de Riego era 1820, referente ao golpe militar que tirou Fernando VII do trono por três anos. Alcançou uma bolsa de couro que tinha presa às vestes e tomou a mão esquerda de Esmeralda rapidamente.

– Pegue com as duas mãos. É pesada.

Ela abriu a bolsa e viu o reflexo dourado de seu pagamento iluminado pelo archote ao lado deles, na parede.

– Nunca vi tanto ouro junto. – disse, fascinada.

– Compre vestidos melhores. – sugeriu o homem. – Vá dançar na cidade alta e em pouco tempo terás três vezes isso. Agora me dê o que pedi.

Esmeralda largou a bolsa com o ouro aos seus pés e se virou, de modo a procurar no profundo decote de seu vestido o lenço que envolvia o que aquele homem lhe pedira. Olhou para as pedras e as colocou diante da luz por um instante, como se pudesse se despedir.

– Aqui estão.

O homem sorriu abismado. Parecia hipnotizado pelas jóias. Repetiu os gesto dela de colocar as pedras contra a luz.

– Sabe o que são?

– Belas pedras que valem muito dinheiro. – disse.

Ele deu de ombros, rindo comedidamente.

– São Esmeraldas. Têm o mesmo nome que você.

– Eu as chamo de pedrinhas verdes.

Mais uma vez ele riu.

– Como as pegou?

– Não precisei cortar as orelhas de nenhuma senhora da cidade para isso. Tenho um amigo que se ofereceu para me ajudar, agradou a senhorinha e deixou a porta aberta para que eu entrasse sorrateiramente e pegasse, entre seus pertences.

– Vocês ciganos... Esse seu amigo... é apenas amigo ou...?

– Somos todos como irmãos. – ela disse, ofendida.

– Sei. Deve ser por isso que suas crianças saem loiras às vezes. Misturam seu sangue com o de quem os acolhe.

– Nunca somos acolhidos.

– Ah, é verdade. Nós também não.

– E o que você é?

– Sarraceno.

– Nunca ouvi falar.

– Você é jovem demais, Esmeralda. E todos acham que desaparecemos. – ele riu, guardou os brincos que ela lhe trouxera e saiu andando até desaparecer na escuridão.

A cigana levou algum tempo até voltar de seus devaneios. Abaixou-se com os olhos ainda no horizonte e apanhou a bolsa de couro. Parecia-lhe ligeiramente mais leve, mas ela não se preocupou de verificá-la, uma vez que estava no meio da rua. Só o fez já de volta a sua barraca no acampamento que ela e seu bando haviam montado em Granada, Espanha. Gritou de ódio a plenos pulmões. O maldito Sarraceno trocara seu ouro por latão, provavelmente quando se virara para mexer no decote. Encobrira um tesouro para perder outro.


Yazid entregou as rédeas de seu cavalo para o servo e pousou sua mão sobre o ombro dele, por dois segundos, como agradecimento. Atirou-se sobre as almofadas que o aguardavam na sala e arrancou com violência as botas que apertavam seus pés. Duas criadas apareceram imediatamente, uma delas com uma grande bacia e outra com um jarro d'água e uma toalha. Yazid deixou que uma terceira, que lhe chegara pelas costas, tirasse o véu que cobria seu rosto e sua nuca, assim como o turbante que escondia seus longos cabelos negros como o ébano. As mãos dela percorreram suas costas e lhe tiraram a capa, depois a camisa, enquanto as outras duas jovens moças lhe escaldavam e massageavam os pés. Uma quarta chegou e com uma rústica navalha lhe fez a barba, todas elas silenciosas e submissas, incapazes de encarar seus olhos escuros. Eram quadrigêmeas idênticas e Yazid não fazia idéia de seus nomes. Quando a navalha lhe atingiu a pele deixou que um ganido escapasse de seus lábios, ao que a moça se afastou horrorizada. Yazid usou sua voz grossa e autoritária para fazê-la voltar. Ofereceu-lhe a face percorrida por um filete de sangue e a criada o beijou, primeiro sobre a ferida que abrira e então nos lábios. Yazid não sorriu. Apanhou-a pela cintura enquanto ela lhe tirava a cinto e abria sua calça. As outras recolheram as bacias, jarros e toalhas, uma delas fechou a porta e as cortinas e todas elas se deitaram com o amo, sobre as almofadas no centro da sala, entre uma infinidade de véus que foram presenteados a ele por amigos nos quatro cantos do mundo. Os mais belos e delicados eram chineses, mas as criadas não sabiam disso. Apenas obedeciam. Yazid não trouxera consigo nenhuma das nove esposas, não que abrisse mão das gêmeas quando estava em seu harém, muito distante dali. Mas nesse caso elas sabiam que não seriam interrompidas.


Capítulo 01 – A Volta a Primrose Hill

Ele guardou as duas mãos nos bolsos e aspirou profundamente, prendendo o ar por muito tempo em seus pulmões. Seus olhos encaravam o chão, a ponta dos sapatos, e começaram a percorrer o caminho de cascalhos que tangenciava o cipreste solitário daquele jardim. Pararam na pequena escadaria que antecedia a porta. Seu rosto ainda estava curvado para baixo. Deixou o ar escapar, perguntando-se porque hesitara daquela forma. Aquela casa era sua e nos últimos dois anos ele alternara temporadas ali e em seu apartamento em Manhattan, já que sua esposa tinha ótimos clientes na América e apenas começava a ser reconhecida em Londres, onde Jack lhe incentivara a tentar alguma coisa para que não precisasse mais se afastar dela por tanto tempo.

– Vamos entrar, querido, está frio. – Marlee o apanhou pela mão.

A sala era a mesma. A decoração fora alterada apenas sensivelmente desde que ele se mudara para lá, e além da falta de alguns dos "soldadinhos de chumbo" originais e do toque de Marlee, nada parecia diferente quase três anos depois da morte de Vincent, que também era como parte da mansão de Primrose Hill. E mesmo tendo passado as duas últimas noites ali e saído apenas para almoçar na City com a esposa, Jack sentia como se adentrasse um mundo completamente desconhecido.

– Como estava o almoço? – perguntou Felicia, amigável, à Marlee.

– Ótimo. Acabamos demorando mais que o planejado. Eles já chegaram? – perguntou a nova-iorquina.

– Já. E já saíram também. – foi Caio quem respondeu, virando a página do jornal do dia, no qual se detinha. – Parece que o Harris tinha um compromisso de Estado e Julie o acompanhou.

– Como ela está? – perguntou Marlee, a quem Jack observava discretamente. – A última vez que a vi foi no seu aniversário, Felicia. – ela se voltou para o marido. – E você? Não vê sua amiga há quase três anos, querido!

– Um compromisso e outro sempre me impediram. – Jack andou até as escadas. – Por favor, querida, não se sinta culpada, eu sei que a Franklin entende.

– Ela sempre pergunta de você.

– Ela é muito polida. – desconversou Jack. – Vou fazer uns telefonemas, não se prendam por mim.

Jack se trancou no banheiro do próprio quarto. Lavou o rosto e encarou sua face no espelho por muito tempo. Escapara do primeiro teste. Não precisara reencontrar Julie Franklin diante de todos. Cerrou os punhos, pensando em como aquilo acabaria acontecendo mesmo contra a sua vontade. Não conseguiria evitar por muito tempo e mesmo que diante de seus amigos conseguisse ser minimamente educado, tinha absoluta convicção de quem em algum momento não frearia sua língua e despejaria sobre Julie toda a raiva guardada naqueles anos de afastamento.

Observou o corredor com a porta entreaberta, ouvindo atentamente. Todos pareciam ocupar a sala, no andar de baixo. Saiu sem fazer barulho e andou a passos muito bem planejados até a porta do quarto que não voltara a ser ocupado desde que Jessica e Desmond partiram em fuga. Abriu-a sem dificuldade. Ao contrário do resto da casa, ali dentro tudo parecia diferente. As luzes estavam apagadas e a janela fora aberta deixando entrar o ar de fora por uma pequena fresta. Jack andou até o berço que vira Tom carregando até ali no dia anterior. Estava guardado na garagem desde que Timoty ficara grande demais para ele, mas voltara a ter alguma serventia.

Viu apenas uma porção de mantas formando algum volume. Pensou em dar meia volta e desistir daquilo, mas simplesmente não conseguiu. Deu mais um passo e esticou o pescoço. Ainda via apenas o volume sob as cobertas. Apertou os olhos e prendeu a respiração. "É só uma criança" disse a si mesmo, como se aquilo lhe desse mais coragem, mas não deu. Perdeu a noção de quanto tempo ficou ali apenas observando o amontoado de mantas que se moviam num ritmo lento, segundo a respiração do corpo que aqueciam. Jack finalmente deu mais um passo. E outro. E mais um. Apoiou os braços na guarda do berço para que não perdesse o equilíbrio. Viu, finalmente, um rosto. Estava adormecido e quase petrificado em um sorriso inocente, cândido, angelical. O cabelo cobria parte da face pequenina e Jack esticou uma das mãos de modo a prender os fios castanhos atrás da orelhinha que não parecia maior que seu polegar. O bebê apertou os olhos, mas não chegou a acordar, apenas se virou, levando consigo as cobertas. Nesse simples movimento Jack apanhou seu coração disparado, como se todo ar do mundo não lhe fosse suficiente. Os lábios, o nariz, a boca, as sobrancelhas, o queixo, a forma do rosto... era como se alguma magia desconhecida tivesse transformado Julie Franklin em um bebê, tamanha a semelhança. Idênticas.

Mary-Elisabeth Franklin Harris. Jack soube, por Marlee e Felicia, que Gregory fora terminantemente contra a adição de "LeMans" no nome da herdeira, mas também sabia, por méritos próprios, que a pretensão de Julie era, na verdade, substituir sua linhagem materna pelo nome "Lachaise". Igualmente francês. Igualmente vetado por seu marido. Nesse caso, ela barganhou a exclusão dos outros cinco sobrenomes de Gregory. Parecia sensato. Mesmo sem eles, o nome ainda era maior que a própria garotinha.

Jack notou que suas mãos suavam frio. Pensara tantas vezes em ter filhos, mas nunca se detivera em planejar seus nomes. Esticou um dos braços novamente e afagou as costas de Lisa, que continuava dormindo como se nada tivesse acontecido. Jack ouviu passos no corredor e pôs todos seus sentidos em alerta. Ouviu vozes. Seu corpo ficou paralisado por perigosos segundos. Só teve tempo de entrar no closet, mas não conseguiu fechar a porta.

Por que não ficamos na sala? – ele reconheceu o tom de voz imediatamente.

– Quero ver se ela está bem.

– Vai dormir a tarde toda. – ela respondeu displicentemente, fechando a porta do quarto enquanto o marido caminhava em direção ao berço.

Ficaram em silêncio por algum tempo. Jack calculava seus movimentos pelo som de seus passos e pela projeção de suas vozes, de modo que concluiu que Gregory deixara a beira do berço e andara em direção á Julie, que provavelmente estava parada diante do espelho.

– É, ela parece estar dormindo profundamente.

– Qual o problema? – Julie perguntou.

– Você exagerou, de novo.

– Não me venha com queixas, Greg. Não era exatamente o que você queria? Uma esposa desinteressada que fizesse figura de ingenuamente inadequada diante dos seus companheiros de negócios? Atrapalhei alguma coisa?

– Mais ou menos.

– Greg, temos um acordo. Você me deixa voltar a equipe e eu não me meto nos seus negócios. Você vem trabalhando neles há anos, eu só voltei às minhas tarefas agora. Dê-me um crédito, por favor.

– Ingenuamente inadequada não quer dizer, necessariamente, bêbada.

Ela suspirou cansada.

– Foram quatro ou cinco drinks, Greg.

– Sete.

– Ah, você contou?

– Sim, eu contei. E Andrew deve ter contado também.

– E você acha que ele vai desistir do trato de vocês só porque eu fiquei levemente "alta" no almoço de confraternização? Convenhamos, Greg, isso não afeta em nada a sua idéia de assassinar o Primeiro Ministro, ou seja lá o que você tentará para por a França em apuros. Você é um Duque respeitado e o será até a morte, e não vai ser uma esposa como eu a afetá-lo.

Gregory se aproximou.

– Ainda não fui condecorado, caso tenha esquecido.

– Você, por outro lado, parece pensar nisso o tempo inteiro.

– Meu pai está morto há quase três anos e não agüento mais ouvir a acessória de Buckingham dizer que é uma simples questão de calendário. Alguma coisa está errada, como filantropo notório, o título deveria ter sido estendido a mim imediatamente!

Julie acariciou-o no rosto, com as duas mãos.

– Tenho feito o que posso para lhe ajudar. Também me interessa o título.

– Só ele?

Ela riu.

– Não... Interessa-me você também... – ela o beijou.

– Ouça, não estava chateado com Andrew, mas preocupado com você, meu bem.

– Uma preocupação genuína devotada à sua esposa? Digna de um nobre...

– Digna de um marido apaixonado. – ele respondeu, tomando-a nos braços.

Depois de corresponder seus beijos, Julie voltou ao assunto.

– Você não disse que queria apenas uma aliada? – desconfiou.

– Disse, mas você estava certa, como sempre está. Era tão óbvio que eu acabaria me apaixonando por você. A surpresa, nesse caso, é a recíproca.

Julie puxou-o para a cama.

"Hei, não estamos sozinhos.

– Ela vai dormir a tarde toda... – disse Julie, ao ouvido do marido.

– Nos esperam lá em baixo. – ele argumentou novamente.

– Mesmo? Você parece mais ansioso que eu para estar com meus amigos.

– Você está ansiosa pelo que, meu bem?

Ela sorriu. Afrouxou a gravata de Gregory e não respondeu, beijando seu pescoço. Ele parou de resistir. Julie lhe tirou o casaco e afagou suas costas, sobre a camisa, ao que Greg respondeu com beijos mais intensos, tirando os próprios sapatos sem a ajuda de qualquer das mãos. Dentro do closet, observando pela fresta, Jack apertou os olhos e desejou estar a galáxias de distância dali. Desviou o olhar para o berço e direcionou toda sua força de vontade, como se fosse capaz de provocar coisas com a força da mente. Ouviu um choro tímido. Ouviu também seu coração batendo acelerado.

– Greg, ela já vai parar. Volta aqui...

– Pode ser alguma coisa. Ficamos muito tempo fora.

Julie deixou todo o ar escapar de seus pulmões, decepcionada.

– Cuide dela, então. – disse, mal humorada. – Vou descer.

Três minutos depois Jack estava sozinho no quarto novamente. Respirou aliviado, saiu sem ser visto e retardou o quanto pôde sua descida, atirado em sua própria cama, com as mãos cruzadas atrás da cabeça e o olhar perdido no teto. "Mundo pequeno" ele pensou, em um de seus devaneios. Julie Franklin queria o título tanto quanto o marido, mas a principal responsável pela acessoria de Buckigham era Claire Hicliff e Jack sabia que no que dependesse desta mulher, sua ex-amante nunca seria Duquesa. Era um castigo merecido por ter roubado o marido da outra. E por tê-lo matado a sangue frio, depois.


Jack era o único em pé ao redor da mesa de reuniões, no porão da casa de Primrose Hill. Bianca relia, mesmo que por cima, o conteúdo da pasta que prepara para todos, contendo informações sobre o novo trabalho; Caio e Felicia discutiam algum assunto íntimo aos cochichos, rindo baixo de vez em quando; Kevin mexia no celular; Clark limpava os óculos e Tom observava o amigo, Jack, cada vez mais nervoso, olhando para o relógio de dez em dez segundos.

A porta de aço se abriu e todos se voltaram para ela, com curiosidade e apreensão. Julie trazia nos lábios um sorriso que não chegava aos olhos e que a deixava com aparência ainda mais arrogante que as roupas que escolhera para uma simples discussão de planos.

– E então? Já decidiram tudo? Qual a minha parte?

– Embora estejamos muito atrasados, ainda não começamos. – disse Jack.

Julie encarou seus olhos. Algo que, pela reação, Jack não esperava. Ela não disse nada, nem expressou coisa alguma. Pelo contrário, parecia simplesmente desinteressada. Logo ela que Jack ainda julgava a mais capaz dentre todos naquela sala. Julie andou até sua cadeira, ao lado direito do chefe, e deixou escapar um quase imperceptível ruído que denotava enfado.

– Estou aqui, sintam-se livres para começar.

– Com pressa para voltar para o marido, imagino.

Felicia comentou, sem qualquer pudor. Julie a encarou também, como fizera com Jack. Embora tivessem se encontrado em várias ocasiões, desde que Felicia se recusara a estar ao lado de Julie em sua cerimônia de casamento, a relação das duas ficara estremecida e poderia ser definida como fria nos anos que se seguiram. A médica acreditava que aquilo se devia a um ato impensado, ao deixar sair de sua boca a mesma frase com a qual Jessica se despedira deles, alegando que a vida de Julie era vazia e sem sentido. Julie, por outro lado, sabia que o estopim era anterior. Felicia ficara ao lado de Jack quando a equipe se dividira no Caribe e Julie não tinha motivos para acreditar que sua amiga faria uma escolha diferente da segunda vez. Quando aceitara o pedido de Gregory Harris, a doutora Franklin sabia que estava escolhendo entre a equipe e seus interesses pessoais. Sabia que sofreria as conseqüências.

– Greg e eu temos uma casa a quatro quadras daqui. Longe o suficiente para que ele não se meta na nossa vida e perto o bastante para que não nos afastemos. Não acharam, por acaso, que ele ficaria aqui, conosco, acharam?

Ninguém respondeu. Julie não se importou, deixou sua cadeira e andou em direção às prateleiras ocultas, como se seus movimentos não atrapalhassem os outros.

– Algum problema? – Jack perguntou, percebendo satisfeito que não estava sem voz, como suspeitara.

– A vodka da sala acabou. Ainda tem alguma coisa por aqui?

– Estamos trabalhando.

– Ótimo. Comecem, consigo ouvir a voz de todos daqui. – ela se deteve em buscar a pedra certa a ser empurrada para revelar a prateleira oculta.

Jack pigarreou. Passou a mão desalinhando os cabelos até a nuca. Finalmente se sentou, embora observasse Julie pelo canto dos olhos. Reorganizou o amontoado de folhas de papel a sua frente e resolveu começar.

– Estivemos buscando as jóias que nos faltam durante todo esse tempo. Percebemos, há cerca de um ano, que seria mais sensato nos concentrarmos em um conjunto do que procurar por três deles ao léu. Surtiu efeito. Bianca encontrou pistas substanciais das Esmeraldas na Espanha.

– Lemos os relatórios. – disse Caio. – Acho que temos o suficiente para começar.

– Um boletim policial e algumas crônicas jornalísticas? – perguntou Tom. – É bem menos do que tínhamos no caso das Safiras.

– Caio está certo. – todos ouviram a voz de Julie, ao longe, enquanto ela servia uma dose dupla. – É suficiente. – ela se virou e voltou para a mesa. – Tomei a liberdade de traçar uma pequena pesquisa sobre a senhorinha que relatou o roubo de seus brincos. Achei, erroneamente, que ela nos levaria ao colar.

– Conseguiu alguma coisa? – perguntou Bianca, animada.

– Não. Significa que devemos seguir a outra pista, o acampamento cigano.

– Poucos são mais difíceis de rastrear do que os Roma. – comentou Caio.

– Jessica e Desmond, por exemplo. – disse Julie, sorvendo um longo gole. – E, portanto, as Safiras. As Esmeraldas são nossa melhor chance no momento.

– Quanto progresso fez com os Ciganos? – perguntou Jack, sem olhá-la.

– Vincent era meu tradutor de Romani. Não quis contratar um profissional sem consultar vocês e colocar a busca em risco. Sabe-se lá o que há nos documentos que... – ela hesitou. – bem, não temos segredos aqui. Roubei.

– Ótimo saber que a doutora Franklin ainda está em forma. – Tom sorriu para ela e Julie, pela primeira vez, retribuiu sinceramente.

– Melhor do que nunca, Tom. – ela sorveu o que restava em seu copo e se levantou para servir outra dose.

Bianca retomou a palavra.

– Começamos com Granada. É o último registro específico que temos. Só não consigo acreditar que alguém separou um conjunto tão lindo!

– Os Ciganos têm uma tradição oral muito rica, se procurarmos o braço de descendência certo, acabaremos descobrindo alguma coisa. – sugeriu Clark.

– Trabalhoso. – comentou Kevin. – E pode despertar suspeitas.

– E quanto à outra pista? – perguntou Julie, voltando à mesa.

Os demais se encararam em silêncio. Julie se levantou e andou até a tela que lhes servia de mapa. Não levou mais que vinte segundos para encontrar e exibir o arquivo que procurava.

"Mundo Mediterrâneo na década de 1830 da Era Cristã. É a época do roubo dos brincos. – ela disse.

– Pós-Congresso de Viena, Restauração da Europa Pré-Napoleônica, Restauração do Absolutismo na Espanha... – Clark citou alguns eventos que poderiam localizar os demais.

– Europa não, Clark. – disse Julie, apontando para outra área do mapa. – Algo me diz que o que procuramos está aqui!

– Oriente Médio? – estranhou Jack. – Do que está falando?

– Os Ciganos estavam acampados em Granada há meses, no que diz respeito à data do roubo dos brincos. Não duvido que um deles tenha efetuado o furto, são mestres nisso, mas se queremos realmente saber o que aconteceu, precisamos nos deter em eventos que permeiam o dia em que a senhorinha foi roubada. A época exata. Não estamos falando de semanas nem de meses, mas de dias ou até mesmo de horas.

– E você tem algum dado novo, Superpoderosa? – questionou Bianca.

– Não, você tem. Está aí no seu relatório, que é muito bom, se me permite dizer.

Todos se encararam intrigados.

"Página oito, linha quinze. – ajudou Julie.

– "Comitiva do Emir Fadil Hakim Abu-Yazid se instala em Granada por dois dias". Isso? – leu Kevin.

– Sim.

– Não vejo pista alguma aí. – comentou Felicia.

– Tomei a liberdade de descobrir para onde foi a comitiva do Emir, depois de deixar Granada. Confesso que foi mera curiosidade no começo, mas quando descobri que duas de suas criadas foram assassinadas em seguida, achei por bem me certificar de que não havia pista alguma ali.

– Assassinadas?

– Ingeriram alguma infusão de erva amarga... – disse Julie.

– Medicina dos Ciganos! – exclamou Felicia.

Julie moveu a cabeça afirmativamente.

– Não havia nada sobre isso nos arquivos de Granada. Não nos que eu pesquisei. – disse Bianca.

– Nem poderia haver. Os assassinatos ocorreram em Sevilha, para onde seguiu a comitiva do Emir.

– Sevilha tem tantos Ciganos quanto Granada. – afirmou Jack.

– Tem. Mas eu não acredito em coincidências, chefe. – ela respondeu assim que sorveu o último gole em seu copo.

– Distribuímos as tarefas agora ou continuamos investigando? – perguntou Caio.

– Vamos atrás dessa pista. – disse Jack, depois de refletir por algum tempo. – Amanhã nos reunimos de novo, é melhor encerrar por hoje antes que alguém não consiga achar o caminho do próprio quarto.

E nisso ele deixou a sala, sem olhar para trás. Clark, Kevin, Caio e Felicia o seguiram. Julie respirou aliviada, prendeu o cabelo em um coque desleixado e se levantou. Tom e Bianca a observavam com curiosidade.

– Mais alguma coisa? – Julie perguntou.

– Está tudo bem? – Tom perguntou, receoso.

Ela andou até a porta. Digitou o código secreto e esperou que se abrisse, para então responder, seguindo para as escadas.

– Nunca me senti melhor. Boa noite, amigos.

O Professor e a italiana se encararam por alguns instantes, silenciosos. Deram tempo para que Julie chegasse ao primeiro patamar e em hipótese alguma fosse capaz de ouvi-los.

– Precisamos fazer alguma coisa.

Tom suspirou cansado.

– Nesse momento nos encontramos de mãos atadas. – ele se dirigiu a saída. – Vivemos e morremos pelo segredo. Boa noite.


Julie atirou-se na própria cama, ainda vestida. Esfregou as têmporas com força e prendeu a respiração. Fechou os olhos e perdeu a noção do tempo. Despertou com o celular acusando uma chamada. Esfregou os olhos, sentou-se na cama ainda zonza e atendeu:

– Franklin.

Ligo em hora imprópria?

– Sempre.

Não recebo nenhuma notícia sua há semanas! – a voz masculina reclamou.

– Significa que não tenho novidade alguma.

Sei que está em Londres. Passe no meu escritório amanhã.

– Nem morta.

Isso é uma ordem, Franklin.

– Estou em Primrose Hill. Cercada de detetives muito melhores que os seus, não há a menor chance de eu sair daqui sem ser seguida.

Não pense que pode me enganar.

Julie suspirou cansada. Ouviu algumas fracas batidas na porta e voltou ao telefone:

– Preciso desligar.

Desligue esse telefone e eu tiro você dessa casa em um estalo de dedos.

– Faça isso, então. Estou pagando pra ver.

FRANKLIN!

– Quer parar de gritar, minha filha está aqui. – ela disse, com voz calma, sorrindo para a menina e chamando-a para perto de si com um aceno.

Desculpe.

– Ouça, não é uma boa hora. Quando souber de alguma coisa, entro em contato.

Olhos abertos e boca fechada, Franklin.

– Até a vista.

Julie desligou o telefone e o recolocou sobre o móvel de cabeceira. A garotinha se sentara ao seu lado, na cama, e a encarava curiosa.

"Eu estava ao telefone, Lisa. Aconteceu alguma coisa?

– Não. Quem era? – perguntou a criança.

– Ian. – Julie respondeu. – Sem sono?

– Dormi o dia todo! – ela disse, como se censurasse a si mesma.

– Você é esperta o suficiente para arranjar o que fazer nessa casa.

– Poderíamos ficar aqui e ver filmes em preto e branco.

– Você não gosta desses filmes.

– Mas eu posso ver.

– Estou cansada.

– Pode me ensinar a jogar cartas! – Lisa sugeriu, sorridente.

– Combinamos que eu só faria isso dentro de alguns anos.

– Então-

–Lisa, eu não me importo que fique em Wadham Gardens, Greg tem mais tempo que eu para ficar com você, nesse momento.

– É, ele me convidou. – disse Lisa, saltando da cama e andando até a porta.

– Por que não foi?

– Eu disse a ele que queria ficar com você.

Lisa fechou a porta e Julie se atirou de volta a cama, cobrindo rosto com o travesseiro e socando o colchão sucessivas vezes. Ansiara tanto por voltar a Primrose Hill, mas depois do primeiro dia, tudo o que queria era se teletransportar para longe daquela casa. Para longe da sua própria vida. Depois de algum tempo, cambaleante, levantou-se, trocou de roupa, apanhou sua bolsa e o pequeno frasco que guardava dentro dela, andou até a pia, formou uma concha com apenas uma das mãos e engoliu com água do banheiro o comprimido que separara. Atirou-se na cama e não acordou quando Lisa voltou ao quarto, algumas horas mais tarde.


Nota da Autora: se esperavam saber detalhes do que aconteceu nos quase três anos que intermedeiam o final de Linhagem dos Príncipes Bastardos e o começo de Lenda das Jóias Perfeitas, lamento. Certos fatos serão citados, mas só em ocasiões onde eu não puder lançar mão de outro artifício.