Whisky

Por Juliana Nonato

Para Luany Molissani, amiga do meu lado profano e do imaculado.


Antes que o cálice lhe toque os lábios, o cheiro ocre da bebida adentra suas narinas e o enjôo sobe com força pelo seu esôfago. Afasta então a bebida do rosto para poder tomar fôlego e, levando o copo aos lábios em seguida, ergue a cabeça, virando o cálice pequeno de uma vez só. Sente o conteúdo gelado escorrer para dentro de sua boca com mais facilidade do que era esperado. Em seguida inspira ruidosamente pelo nariz, incapaz de engolir, o amargor já tão seu conhecido impregnando-o gradualmente. Antes de soltar o ar mais uma vez, permite que o álcool desça pela sua garganta, a sensação de calor próxima ao diafragma lhe tirando a concentração. Sente o enjôo voltar por alguns instantes e um calafrio intenso sobe pela sua coluna. Normal, é o que diz a si mesmo. Uma dor indefinida parte, intensa, desde a junção de suas sobrancelhas até suas têmporas. Apóia as costas contra a cadeira de madeira antiga, correndo as mãos pelo cabelo e encarando o teto com os olhos desfocados.

Aquilo era horrível, mas, depois da primeira dose, sempre passava.

Encara a garrafa sobre a mesa. A luz suave do abajur de cabaré atravessa o vidro com facilidade, transformando-o em mais um item da decoração.

Sente um calor discreto subindo pelo seu pescoço. Em seguida sorri e serve mais uma dose.

Avança a passos rápidos pelo corredor escuro, sentindo o pó rodopiar sob seus pés em nuvens revoltas. Aproxima-se da janela de vitrais de onde parte a única luz responsável pelo homem não ter derrubado uma ou duas mesinhas de pernas frágeis ao longo do corredor. Poderia sorrir para a cena que lhe era tão familiar, se não houvesse ali um pequeno detalhe que a tornava não muito cotidiana.

Frente à janela há um tipo de escrivaninha. Sobre a escrivaninha, muito pó, um abajur francês, uma garrafa escocesa pela metade e uma jovem, canadense, provavelmente, pois em muito se parece com um casal de imigrantes, amigos de seus pais, que volteiam para cima e para baixo na festa que acontece dois andares abaixo.

A presença da moça se faz numa massa de revoltos cabelos escuros, tombados sobre a beirada da escrivaninha, indicando o extremo de um corpo que a qualquer momento poderia cair da cadeira na qual se apóia precariamente, e era esta a presença que parecia distorcer o cenário.

– Samantha? – ele a chama. Provavelmente não é este seu nome, mas, se isso for o bastante para que ela perceba que alguém fala consigo, que diferença faz? Um grunhido mal-humorado o informa que ele provavelmente interrompe uma maravilhosa seção de sono alcoolizado.

Dá mais alguns passos na direção da moça e se apóia com os cotovelos na mesa, sabendo que o pó acumulado sobre o móvel suja seu paletó azul. Com um movimento brusco, joga os cabelos dela para trás, deixando que a luz do abajur atinja o rosto branco.

Ela se move como se quisesse esconder o rosto novamente entre os braços. Ele a chama uma vez mais:

– Samantha?

A jovem abre os olhos levemente. Em meio à estranha escuridão daquele ambiente, é impossível identificar suas cores. O rapaz apóia agora as mãos sobre a mesa, sem desviar o olhar impassível dos brilhantes e bêbados olhos da garota.

Ela mal consegue focar o olhar, e ele se vê desejando ardentemente que ela não vomite. Depois de algum tempo, ela percebe que está observando as mãos dele. Sorri um sorriso embriagado, e ele se pergunta se não seria melhor tê-la deixado adormecida. Ela pensa consigo mesma que as mãos dele parecem feitas de papel. Pálidas de dedos curtos e extremidades estranhamente agudas. Ela não percebe que diz isso em voz alta, ele mal acredita no que está ouvindo, mas sente uma crescente necessidade de estapeá-la.

Ela fecha os olhos e boceja escandalosamente, emitindo um tom curiosamente grave, digno de uma ópera italiana. Ele diz que ela está bêbada e vê um sorriso se formar no rosto dela. Ele vê um sorriso de deboche, ela pensa estar sorrindo com simpatia. Não consegue sequer abrir os olhos por completo.

Ele apanha a garrafa sobre a mesa e limpa com suas mãos de papel as manchas do batom magenta dela. Ela parece ter adormecido de novo.

Ele toma a garrafa entre os lábios, sem se importar muito com o gosto de maquiagem barata nela, pois este desaparece rapidamente quando sua boca é invadida pelo líquido estranhamente quente e forte, que não tem outra força controlando sua descida pela garganta a não ser a da gravidade. Permanece assim por alguns segundos, sentindo seu fôlego contido e seus órgãos internos protestarem. Sabe que está sendo observado por pelo menos um dos olhos da moça, mas não se move até ter sorvido mais da metade do conteúdo da garrafa.

Entreolham-se. Ele sente todo o peso daqueles olhos de enormes pupilas brilhando sob a luz do abajur. Sente um ardor conhecido invadir seu peito a partir o diafragma e seu hálito parece mais brando. Contudo, não percebe nenhum outro efeito do álcool sobre si.

– Samantha?

Ela ergue as sobrancelhas, sinalizando que está ouvindo. Ele descansa a garrafa sobre a escrivaninha, suspirando pesadamente e desviando o olhar da moça.

– Desça. – manda, sua voz inesperadamente ríspida, sem se dar ao trabalho de verificar se ela o obedece.

Ela ajeita os cabelos sob uma faixa e alisa a saia do vestido. Põe-se em pé rapidamente. Estende a mão e se apóia na parede coberta por um finíssimo papel vinho, conseguindo seguir pelo corredor. Despede-se dele como de um professor. Ele ignora solenemente a conversa trôpega. Ocupa, sem culpa alguma, o lugar vago na cadeira, enquanto limpa as mangas do paletó.

Encara então a garrafa de vidro, já quase vazia, e percebe-se sem a menor vontade de tocá-la. Corre, então, distraidamente, a língua por sobre os lábios, procurando neles algum traço daquele gosto de maquiagem barata.

Ela era a melhor de todas elas. Ele acreditava no potencial que ela tinha. As outras também acreditavam. É uma pena que ela tenha morrido antes de concluir o segundo ano. O engraçado é que sua morte trouxe tanto dor quanto alívio para todos ali.

Ele, o professor, não foi ao velório nem ao enterro. Permaneceu parado nos portões do cemitério, observando à distância. Viu o cortejo passar e sumir entre os túmulos, e julgou já ter feito muito mais do que deveria. Os passos que o levaram pela rua até em casa foram firmes e seguros, mas ele mesmo não fazia muita idéia de aonde se dirigia. E foram os mesmos passos que o levaram pelas escadas, e então pelo corredor até aquela escrivaninha empoeirada.

Sob a escrivaninha, muito pó, um abajur francês, uma garrafa escocesa pela metade e nenhuma jovem canadense. Exatamente como hoje. Mesmo que os meses embacem a lembrança da dor, a cena ainda é a mesma. O whisky sobre a mesa ainda tem o mesmo gosto.

Bebe-o longamente, e não pretende sair de casa hoje.

Não quer ir trabalhar hoje.

Hoje faz seis meses que ela morreu.

Ele leciona literatura em uma escola particular, católica e ortodoxa.

Ele lê Sade, mas ensina Flaubert. Falam sobre a vida de Flaubert na escola. O modo como seus romances influenciaram o pensamento de uma época. Flaubert, em sua modesta opinião, era apenas mais um francês maldito empoado no alto de seu grandessíssimo ego. Sade também era francês, mas era um maluco, o que conta alguns pontos a seu favor, na opinião do professor.

Ela era um pequeno tigre com as palavras. Em meio àquelas aspirantes a poetisas às quais ensinava coisas como métrica, melodia e ritmo da poesia, ela brilhava. Era uma atiradeira. Ela não gostava de ver folhas de papel em branco. Disse a ele certa vez que elas a atraíam de uma maneira assustadora, e o sorriso que iluminou seu rosto de boneca ao dizê-lo o perturbou.

Depois de sua morte, todas as outras viraram Samanthas, pois não havia uma Samantha para brilhar entre elas. Todas lançam contra seus olhos uma luz escassa e difusa, a mesma luz, do mesmo modo, e todas juntas formam uma iluminação fraca, porém uniforme, e isso é o bastante por ora. Ele diz a si mesmo que tem que ser o bastante, e gira a garrafa entre os dedos para servir seu conteúdo em um cálice que trouxera lá de baixo, da cozinha.

Ela era a melhor de todas elas.

Depois de sua morte, todos os outros viraram Freddies. Ed, Fred, Ted... que diferença faz? Todos tinham corpos estranhamente musculosos porque adoravam esportes e eram completamente desengonçados quando precisavam fazer qualquer coisa que incluísse pensar e não apenas abusar da própria coordenação motora e reflexos. Todos tinham as sobrancelhas bagunçadas, os lábios rachados e as mãos grosseiras. Todos haviam usado aparelho ortodôntico ou precisavam usar. A maioria tinha ombros largos, mas havia aqueles mais altos e de ombros mais estreitos, de braços mais ágeis.

Sempre Ed, Fred, Ted...

Que diferença faz?

Há um Ed mais sensível, um Fred mais inteligente ou um Ted menos egocêntrico e imaturo eventualmente, mas no final são sempre iguais. E foi com um desses que ela, a sua Samantha, se envolveu.

Um Fred mais inteligente, para ficar mais claro.

Chamavam aquilo de namoro.

E ele se apaixonou pelas palavras dela do mesmo modo que o professor de apaixonara, só que ele tinha mais hormônios.

E era diferente.

Por mais que a base e princípios da atração fossem os mesmos, o elo entre eles era diferente.

O professor sabia separar essas coisas.

Sabia até onde chegava o elo entre ele e ela. Samantha.

Queria ouvi-la recitar algo dela. Apenas isso.

A tarde nos jardins à frente do colégio estava agradável, e a voz dela tinha um tom delicioso de se ouvir.

Ele não se enganara.

Enquanto ela recitava, encarava bem a fundo os olhos castanhos do professor. Mais tarde disse a ele, como em uma confissão, que achava engraçados os olhos dele porque eram marrons como doce-de-leite e não tinham aquelas nuances que normalmente os olhos têm. Ela parecia gostar de observar os olhos das pessoas, pois seus olhos quase não espiaram o papel em suas mãos.

Ela parecia saber cada letra de cor.

Sua voz não oscilava. Não tremia. Tinha sempre aquele mesmo tom grave e rascante, como uma tira de veludo escorrendo entre dois dedos. Segura, sempre. Ela sabia o quanto aquilo que lia estava bom, e demonstrava prazer em ler em voz alta cada sílaba daqueles versos. E ele percebeu que sorria, e pediu que ela lesse novamente.

Aquele bando de homens que gostam de pensar que por serem investigadores provavelmente possuem uma capacidade maior de compreender o mundo do que todos ao seu redor ainda estavam investigando há uns dois meses atrás. Ninguém sabia direito como aquela garota havia morrido, afinal. Ele sabia.

Fora interrogado, também, mas jamais conseguiram informações úteis e nem o relacionariam com Samantha. Era seu professor, apenas, mas isso era o bastante na hora de justificar sua preocupação para com o andamento da perícia.

A autópsia revelou uma reação alérgica forte no corpo da moça, mas não foram capazes de descobrir o antígeno.

Havia álcool em seu sangue e sêmen em sua roupa de baixo. Naturalmente, foi o que ele pensou, à época. O olhar entre envergonhado e chocado que os inocentes pais da moça lançaram aos encarregados da perícia foi o que mais valeu a pena em meio ao resto.

O corpo dela foi encontrado no quarto. Recostada em uma poltrona azulada com um livro no colo. Olhos fechados. Poderia até estar adormecida, segundo relatos.

O livro no colo dela era dele.

Mas era natural, não era? Afinal, ele era apenas um professor de literatura que havia emprestado um livro para uma aluna. Nada que o pusesse como suspeito.

Dizem que ela andava deprimida. Ele sabia, é claro.

Ela não chorava, mas quando recitava, suas palavras eram tristes e sua voz, amarga. Seus olhos não se enchiam de lágrimas com facilidade, mas ele sabia que elas estavam ali, e ele apenas observava, incapaz de se aproximar dela o bastante para recolher seu pranto.

Em alguns lugares chamam isso de covardia, mas ele prefere julgar-se prudente. Com seus óculos sem aros e paletó cinzento, ele prefere viver submerso em um mundo de amores idealizados e inalcançáveis. Disse isso a ela uma vez. Disse que, uma vez que sua vida fora pontuada por fantasias e romances narrados com as palavras de outras pessoas, era muito difícil viver 'de verdade'. Ela apanhou sua mão em um gesto condescendente e ele sorriu, dizendo que provavelmente já era tarde demais para si.

– Agora você falou como um velho. – ela disse, sorrindo com sarcasmo e sentindo-o apertar seus dedos antes de se afastar. Ele se perguntou se não seria culpa dos quinze anos que havia entre eles, mas permaneceu sorrindo, e perguntou se ela havia escrito algo novo para ele ler.

Depois de algum tempo, as pessoas eventualmente descobrem que não há muita coisa que possa ser feita para aliviar uma dor da qual você não quer realmente se livrar. E não adianta procurar consolo, procurar distrações. A coisa meio que se incorpora a você. Pelo menos era assim que ele percebia o funcionamento disso.

O sol entra vagarosamente por entre as cortinas cor de creme. Ele acorda, mas prefere dizer a si mesmo que ainda não está acordado. Por uma porta lateral ele vê um punhado de cabelos ruivos andando pra lá e pra cá pelo seu banheiro. Ele sabe que Samantha tinha cabelos escuros, castanhos, mas aquela é ela. As nádegas brancas aparecem por baixo de uma camisa clara que ele reconhece como sua. Por alguma razão muito estranha, ela parece se sentir sexy com aquilo.

Era Samantha. Não podia ser outra coisa, ou não estaria ali.

Depois de algum tempo, todas se tornam Samantha.

Então que diferença faz?

As nádegas brancas fazem uma pirueta completa e a camisa passa a se agitar sobre o corpo esguio enquanto a ruiva Samantha escova os cabelos encarando o próprio rosto no espelho. Ele boceja espiando o relógio sobre o criado mudo e ela então parece perceber que ele está acordado. Sussurra um bom-dia langoroso. Ele não responde.

Os olhos verdes dela parecem estranhamente alegres. Ele sabe que ela vai perguntar se ele quer que ela vá embora antes que sua mãe acode e, quando ela pergunta, ele diz que tanto faz. Que sua mãe não vai encará-la durante o café da manhã com um olhar de reprovação como se ela fosse qualquer uma. Ela vê o pequeno comentário como um convite, ele acha que faz apenas um comentário.

Samantha tinha olhos meio verdes, também. Ele lhe escrevera algo certa vez falando sobre seus olhos castanhos, verdes sob o sol. Era o mais perto dela que ousava chegar. Samantha nunca perguntou o que ele queria dizer com aquilo, mas ele se apaixonou pelo sorriso que viu se abrir nos lábios dela enquanto ela lia no papel o que ele havia escrito. Samantha também nunca lhe pediu para ler aquilo em voz alta.

Ele se veste com rapidez e um desinteresse anormal. Recebe os lábios da ruiva sobre os seus enquanto ela amarra a sua gravata e se vê desejando ardentemente mandá-la embora, mas não o faz. Ele recebe seu abraço e ela jura que os olhos dele parecem tristes. Ele diz que não sabe do que ela está falando.

Afinal, cada um lida com sua dor do jeito que prefere, e aquilo era praticamente masoquismo. E ele quer dizer isso a ela. Quer dizer isso a alguém, qualquer alguém, mas ele apenas sorri e veste um paletó.

Ela lhe pergunta, insegura, se estará ocupado no sábado e ele diz que sim, pois a levará para jantar, e evita a todo custo encarar seus olhos brilhantes, provavelmente faiscantes de alegria. Ela diz que deve ir para casa logo e ele deseja que ela parta o quanto antes, mas diz que a poderá deixá-la em casa quando sair para trabalhar. A não ser que ela tenha pressa, ele acrescenta.

O sorriso no rosto dela é praticamente uma chicotada. E ele retribui.

– Leve whisky e eu levarei gelo.

Ela falava quase como se estivesse combinando um recital. Desinteressada e propositalmente inocente. Foi há muito tempo, mas ele ainda se lembra como se tivesse sido há uma semana. O gosto da bebida ainda instalado em sua garganta e os ecos da ressaca reverberando por dentro do seu crânio. Poderia muito bem ter sido há uma semana, e ele não veria lá muita diferença...

Afinal, o tempo se tornara inteiro um grande lapso depois daquilo.

– Samantha. – ele a chama, pois não é capaz de imaginar outra forma de chamar sua atenção. Seus cabelos são caracóis de chocolate e ela sorri ao levar o indicador aos lábios, como se pedisse silêncio.

Uma piscadela e ela se torna mais uma cabeça entre os alunos no corredor, e ele precisa respirar e se preparar para a próxima aula, e suspira resignado ao perceber que ainda é só a segunda classe do dia.

O vento que varre as folhas do chão é vento de tempestade. O vento do apocalipse, como diria a mãe dela. Ela caminha ao seu lado, sem uniforme nem material, os cabelos escuros formando chicotes ao sabor do vento.

– O vento do apocalipse. – ela repete.

As ruas estão belas, mas as ruas de qualquer cidade são belas à noite. A escuridão que esconde a sujeira nos muros intensifica o sentimento de putrefação que circunda cada beco.

– É no escuro que a gente vê mais coisas. – ele diz. Ela sorri, e quer dizer que aquela é uma coisa estranha para se dizer, mas ignora o impulso. E apenas sorri.

O banco velho da praça escura é o lugar ao qual se destinam, mas ninguém precisa saber disso. De qualquer forma, ninguém parece se importar. Ele sacode a garrafa no ritmo de sua caminhada e o líquido faz um barulho discreto se debatendo contra o vidro, quase implorando liberdade.

No banco escuro da praça velha eles se sentam, e ela lhe entrega uma folha de papel. Ele ergue o papel à frente dos olhos, mas, na escuridão onipresente, dificilmente conseguia distinguir o que era sua mão e o que era papel.

– Não consigo ler. – ele confessa, após algum tempo. – O que é isso?

E ela ri. Ele não entende onde ela consegue enxergar tanta graça, mas espera pacientemente que ela termine seus devaneios e faça algum comentário.

– Esta – ela diz, e entre as trevas ele consegue enxergar os reflexos da lua em seu sorriso. – é a maneira como os poetas fazem amor.

Ele sabe que esta seria a deixa perfeita. Sabe – sente – que poderia se aproximar. Mas ao mesmo tempo em que ela está próxima a si, está distante. Tão distante como se nem em um milhão de dias caminhando em sua direção ele pudesse se aproximar o suficiente para ser parte daquilo. Daquela paixão. Daquela poesia.

Então ele apenas observa. E seus olhos correm a silhueta que se mescla ao azul da noite atrás de si. Ele sente muito mais do que vê os cabelos escuros se debatendo contra a violência do vento.

– Vento do apocalipse. – ela diz, e seu sorriso se apaga.

Ele sente uma mão quente roçar levemente a sua ao tomar-lhe a garrafa que antes sacudia.

Poderia ser uma boa hora para se sentir culpado ou se perguntar o porquê daquilo estar acontecendo. Daquilo tudo. Desde a tampa da garrafa rolando e desaparecendo pela grama até o fato de estarem sentados naquele banco escuro daquela praça velha, escondidos do mundo.

O porquê das palavras sussurradas como se fossem segredos. Da adega vazia na cozinha dele. Das palavras rabiscadas nas folhas arrancadas do final do caderno e entregues cuidadosamente a ele. Enfiadas entre trabalhos e provas que deveria corrigir. Misteriosamente surgidas dentro de alguma pasta. Como uma assombração.

Sim, poderia ser uma boa hora para se perguntar o porquê daquilo estar acontecendo ou se sentir culpado.

Mas ele não queria saber por que. Não queria nem pensar em se sentir culpado. Simplesmente porque aquilo lhe fazia bem. Cada nota de tristeza entre as palavras dela lhe dava a certeza de que ele era o único que poderia lê-las. Porque ninguém mais conseguiria entender o que aquilo representava. Apenas ele, que observava cada gesto e expirar de ar daquela garota. Apenas ele, que durante anos e anos a fio ensinou cada regra métrica de soneto e trova e leu absolutamente tudo o que ela lhe escrevia.

E, se era seu dever antes, agora não fazia diferença, porque a verdade era que conhecia o jeito como ela posicionava as palavras. Juntava. Cantava. Chorava por elas.

Sabia. Simplesmente isso. Porque aquilo lhe fazia muito bem.

Talvez fosse, sim, uma boa hora para se sentir culpado, mas no mundo em que os dois gostavam de se trancar não havia espaço para mais culpa além daquela que carregavam simplesmente por existirem da maneira como existiam.

E, assim, ele toma o cuidado de não tocar a mão dela ao tomar a garrafa dentre seus dedos. Sabe que ela acompanha cada pequeno movimento, mas não olha em sua direção. Esse é o truque para que o momento seja apenas dele.

Ela observa o papel cuidadosamente dobrado na mão esquerda dele enquanto ele ergue na direita a garrafa. Os lábios voltados para a lua beijam o vidro e ela quase consegue sentir o gosto do álcool na própria boca.

– Você bebe menta? – ele pergunta, meio zonzo.

– Não posso. Raramente bebo algo que não seja whisky ou conhaque. – ela sorri.

Ele guarda o papel que lia dentro da pasta marrom e encara a garota. Ela não disse que não bebia. Disse que não podia beber.

– Não pode por quê?

– Alergia. – ela escorrega a mão ao redor do próprio pescoço e olha sugestivamente para o professor. – Se eu beber, sufoco.

– Eu sufoco com outras coisas. – ele diz, franzindo as sobrancelhas e sorrindo abertamente.

Fazia seis meses que ela havia morrido.

Ele tinha trinta e dois anos e sua velha mãe morava consigo desde que seu pai havia morrido. E ele não queria ir trabalhar. A velha senhora estava sentada no sofá da sala assistindo ao noticiário matinal e ele estava pretendendo telefonar à escola dizendo que estava com tanta febre que estava prestes a se transformar num vulcão lançador de miolos.

Fazia seis meses que ele sentia como se tivesse perdido alguma peça essencial para o funcionamento da máquina de seu ser.

Nome: Samantha Lamari.

Idade: Dezessete.

Estado civil: violentada.

A garrafa rolou.

Os dedos dele tremeram. Seus lábios tremeram. Sua voz tremeu.

– Há algo que eu possa fazer?

Ela sequer voltou os olhos em sua direção, mas seus lábios se curvaram em um sorriso, e o coração dele se despedaçou. Ela já não sorria da mesma forma. Seus olhos permaneciam enevoados. Seus lábios tremiam erguendo seus cantos em direção às maçãs do rosto, mas o restante do seu rosto era uma pintura. Imóvel. E ele percebeu que era tarde demais.

Era tarde demais a partir do momento em que a garrafa rolou.

Em que seus dedos tremeram.

Sua voz.

Ele já não era capaz de ajudá-la.

O whisky escapou pelo gargalo da garrafa e o cheiro de álcool se misturou à terra úmida e a pouca grama que havia sob o banco escuro da praça velha.

A presença de álcool preencheu seus sentidos. As lágrimas preencheram os olhos dele e o sorriso dela sumiu.

Sem olhar na direção dele, sua pequena mão, suada, trêmula, enlaçou-se a dele. Grande, quente e segura. O bastante para protegê-la naquele momento, com a ponta dos dedos acariciando suas delicadas falanges.

Já não havia pelo que lutar.

Ele sentia as ondas vindo dela. Vergonha. Luxúria. Sujeira.

não havia pelo que lutar.

Não havia o que resguardar ou do que ter orgulho.

Não havia porque resguardar o elo entre eles.

Ele deslizou ousadamente o polegar por sobre as costas da mão dela, sentindo a pulsação e não sabendo o que fazer.

Ela estava despedaçada e ele sentia os pedaços de seu coração partido cortando sua pele.

Ele fechou os olhos até que eles parassem de arder e suspirou, o peso em seu peito despencando vertiginosamente para o estômago.

Fred. Ed. Ted. Que diferença fazia?

Oh, naquele momento fazia.

Fazia diferença porque agora ele sabia para qual deles direcionar seu ódio.

Sempre há um Ed mais sensível, um Fred mais inteligente ou um Ted menos egocêntrico e imaturo eventualmente. E naquele momento era a morte do Fred mais inteligente que ele desejava.

Ele ainda consegue, mesmo passados seis meses, relembrar a sensação que os dedos úmidos dela causavam entre os seus. Ainda consegue sentir perfeitamente o mesmo tremor de raiva percorrer seus órgãos internos.

– Eu não gosto dele. – ela disse, àquela noite. – Quero dizer, eu o apreciava, mas nunca me apaixonei por ele. E, agora, eu o odeio. É irônico, não é?

Ele se lembra de ter perguntado o porquê de ela estar com o tal de Fred. Ed. Ou Ted, se não gostava dele. Mas não seria capaz de dizer com que palavras perguntara ou como havia conseguido ter forças para dizer algo que não soasse como um choramingar.

– Sabe? Tem certas coisas que você passa que você não supera. – ela diz. Sua mão solta a do professor e pela primeira vez seus olhos se encontram. E o olhar dela é todo medo e apreensão e aquele ar de quem tem certeza de que nada pode ficar pior do que já está.

– Não supera? – o professor pergunta, suas sobrancelhas se erguendo por trás dos óculos. Sua perfeitamente camuflada ingenuidade o faz perguntar-se o que diabos aquela menina teria passado que fosse insuperável.

– Acontece, professor. – ela desvia os olhos do castanho do olhar dele. Parece perturbada com algo. – Essas coisas simplesmente acontecem, sabe?

Havia luzes à distância, na cidade lá longe da praça velha, mas nenhuma delas atingia-os. Ele apenas conseguia distinguir poucos traços do rosto dela.

– O que se faz... – ele começou, mas ela o interrompeu:

– Escrevi algo, professor.

Ele sorriu e ela fez um gesto para que ele falasse.

– O que se faz com aquilo que não se supera? – ele perguntou. Por alguma razão muito estranha, aquela noite parecia muito mais escura do que qualquer outra noite que tenham passado juntos. Confusamente, ele sentia seu coração palpitar, aguardando a resposta. A ansiedade se revirava em seu peito.

– Você ignora. – ela responde.

E sorri.

E ele ama seu sorriso, mas adoraria vê-la chorando. Vê-la fazendo aquela tristeza transbordando de seus olhos, e não apenas observando-o lá do fundo do castanho esverdeado que era o olhar dela.

– Você aprende a ignorar. – ela continua, e seu sorriso é ao mesmo tempo o extremo da tristeza e a coisa mais bela que ele nunca viu. – Tem gente que consegue distrair os pensamentos pensando em outra coisa. Quando não é muito grave, sabe? – ela falava como uma perita no assunto. O vento batendo em seus cabelos fazia um barulho abafado, mas perfeitamente discernível. – Quando é mais complicado, você faz como eu: se distrai da dor com algo ainda pior.

Talvez tenha sido o fato de ela ter se virado para encará-lo que o fez não perguntar mais nada. Talvez tenha sido a cabeça dela se deitando em seu ombro ou a mão insegura puxando sua mão, procurando, quase exigindo, algum conforto. Ele suspirou, correndo a mão livre pelos cabelos dela, sentindo algo dentro de si se quebrar com aquele contato.

– Como eu dizia, professor. – ela apertou a mão dele, firmemente. – Escrevi algo.

Depois da morte dela, ele passou noites inquietas. Sempre sonhava com ela, e em seus sonhos eles se olhavam por minutos sem fim. E seu olhar não tinha mais aquele brilho. Não tinha mais nada.

E ele queria tanto se desculpar, mesmo sabendo que não poderia ter sido diferente. Que não poderia jamais ter sido mais do que aquilo.

Afinal, aquela não era apenas a maneira como os poetas faziam amor. Era a única maneira de se fazer.

Ele sempre soubera que ela escrevia para si. Era simplesmente incabível não ser capaz de ler isso nos olhos dela. Entre o sorriso doce. Nas entrelinhas cuidadosamente traçadas com sua caligrafia tombada.

Àquela noite, um pouco antes de ela morrer, e um pouco depois daquela outra noite, no banco escuro da praça velha.

Não era como se ele não soubesse, era só que ela nunca havia posto aquilo em palavras. E nem lhe lançado aquele olhar.

E ele sabia que aquilo só podia significar uma coisa: extremo.

Estavam num extremo.

E não havia mais escapatória.

Lá fora era o apocalipse, e aqui dentro os presságios.

Era o vento do apocalipse, como ela dizia. O temporal vinha ameaçador lá do extremo do horizonte, onde as luzes da cidade lançavam contra as nuvens mais baixas um agressivo brilho alaranjado, tornando rubro o céu das nove da noite.

Ele deixa a garrafa sobre a escrivaninha junto com muito pó e um abajur francês. Através do vitral aberto entra um vento gelado, não muito forte, mas constante. Ela sente a poeira rodopiar sob seus pés quando se aproxima da escrivaninha, sentando-se sobre ela e lançando um olhar avaliativo à garrafa. Escocesa. Lacrada.

Ele sabe pelo olhar dela que aconteceu de novo e que ela não esperava que aquilo se repetisse.

Havia algo quebrado no olhar dela quando ela disse:

– Eu não trouxe gelo.

Ela não estava se desculpando.

– Eu não trouxe copos.

Ele tampouco.

O professor apanhou a garrafa sobre a mesa e rompeu o lacre. A tampa foi retirada com um estalo e rolou para o chão. Ela virou o rosto para a janela, vendo o apocalipse lá fora enquanto puxava a garrafa aberta da mão dele, e ele sequer tentou se esquivar do toque dos dedos dela.

– Escrevi algo para o senhor, professor.

Ele sempre soubera que ela escrevia para si. Era só que, até aquela noite, ela nunca havia posto aquilo em palavras.

O extremo do abismo é quando se recorre às palavras para mostrar aquilo que deveria ser visível a todos. Ela sabe disso muito bem. E ele vê tudo muito bem, mas ela diz mesmo assim.

Talvez ela não quisesse se arrepender de nunca ter pronunciado aquelas palavras.

Ela põe a garrafa sobre a escrivaninha, sentindo a superfície macia de pó recebendo o vidro, e gira nos calcanhares para ficar de frente para ele. Ele acompanha uma mão delicada se enfiar pelo bolso do casaco marrom dela, buscando algo, e quando ela puxa o papel para fora do bolso ele não espera que ela o entregue. Simplesmente segura o papel entre seus dedos, mas não o puxa.

Ele não puxa o papel. Ela não o solta.

Ele permanece com os olhar preso ao rosto dela, e ela encara o indicador dele sobre o seu polegar com tanta determinação que ele se sente queimar. E sabe que é o final quando vê os olhos dela se encherem de lágrimas que contornam os cílios e caem pelo rosto branco.

Ele sabia que ela estava buscando o final quando dissera ter escrito algo para ele. Sabia que estava buscando o extremo daquilo que poderiam ter. Chegar o mais próximo que fosse possível da quebra do encanto, sem quebrá-lo.

Ele sabia que ela ia morrer.

Sabia que era aquele o extremo do abismo.

Não poderia ser nada além daquilo, mas era tão desejado.

Tão reprimido.

Que quando seus dedos se tocaram e estremeceram ao mesmo tempo, ele mandou tudo ao inferno e a puxou entre seus braços.

Nome: Samantha Lamari.

Idade: Suicida.

Estado Civil: Purificada.

Depois que ela morreu, todas as outras viraram Samanthas. Porque não havia uma Samantha para viver e brilhar sob os olhos dele.

E ainda havia aquela escrivaninha. Sobre ela muito pó, um abajur francês e uma garrafa escocesa. E a garota que ali se sentava não era mais que uma lembrança, tão forte e profunda que ele provavelmente jamais poderia tirá-la dali.

– Samantha?

A voz dele ecoa pelas paredes. A dor tornava a lembrança dela tão nítida. A jovem está sempre sentada na cadeira em que ele costumava se sentar.

Como em um sonho, ele se aproxima, mas nunca o bastante.

Ela é como uma pintura. Seus olhos estão abertos, mas ele tem a impressão de vê-la abrindo-os a cada momento. Sempre.

E ela está sempre lá, e ao mesmo tempo não está em lugar nenhum.

Certa noite ela sorri um sorriso bêbado e diz:

– Sabe que adoro suas mãos? – a voz dela é quase um sussurrar. E ele treme. – São pálidas. Seus dedos são tão delicados. Parecem ser feitos em papel.

Ele apanha a garrafa escocesa e olha para a garota.

Entreolham-se. Ele e Samantha. Ele sente um ardor conhecido invadir seu peito.

– Samantha?

Ele chama novamente. Sua voz invade o ambiente e ela sorri e faz como quem está ouvindo. Ele bebe da garrafa, e percebe que ela estava cheia. Depois descansa a garrafa sobre a mesa e olha para a menina. Sente seu peito pesado. Sente lágrimas em seus olhos.

– Desça. – manda, sua voz inesperadamente ríspida, sem se dar ao trabalho de verificar se ela o obedece.

Deve ter obedecido. Ele não se lembra de tê-la visto depois daquilo. Simplesmente ocupa o lugar onde ela se sentara antes e pega a garrafa entre os dedos, segurando-a na frente do abajur e observando o modo como a luz oscilava conforme o líquido se movia lá dentro.

Ele abre a garrafa e a leva ao rosto, e aquele cheiro forte preenche suas narinas e turva sua consciência. Ele puxa um papel do bolso e o abre sobre e mesa, deixando que a luz caia sobre a folha, que está gasta como se o papel tivesse sido dobrado e desdobrado repetidamente.

Ergue a cabeça e encaixa o gargalo entre os dentes, deixando que o whisky escorra pela sua garganta, queimando tudo pelo caminho. Prende a respiração, sentindo sua cabeça girar enquanto seus olhos ardem e se enchem de lágrimas.

Ao sentir a falta que o ar lhe faz, baixa o rosto e deixa a garrafa sobre a mesa, ao lado do papel. Fecha os olhos com força, respirando com dificuldade para tentar se controlar, mas, ao tentar encarar as palavras sobre o papel, percebe o quanto é inútil tentar manter-se digno numa situação que não requisita sua dignidade, sobre uma escrivaninha, junto a muito pó, um abajur francês, uma garrafa escocesa pela metade e a lembrança de uma jovem. Canadense, provavelmente. Escrita com caligrafia trêmula, porém cuidadosa, sobre o papel gasto.

Sente-se

Com precisão cirúrgica

Aquilo que não se deveria sentir

Sangra-se

Por feridas imaginárias

Muito mais sangue do que poderia existir

Dança-se

Em valsa silenciosa

Passos conhecidos, nunca antes ensaiados

Conhece-se

Pela ponta de cada dedo

Mente, corpo, alma e coração amados

Ama-se

Em nome do que é profano

Com amor que é destinado ao escuro

Cala-se

Em nome da crença que disse

Que aquilo que se protege deve ser mais puro

Lembra-se

Em memória daquela

Por ti encontrada quando dada por perdida

Sabe-se

Como só os amantes sabem

Antes que qualquer palavra seja proferida

Amei-te.


Voilá whisky.

Opiniões são bem vindas.