Destino Cruel

Tudo começou quando… Não sei… Talvez quando o amor decidiu juntar-se a todos os outros sentimentos terrestres? Ou quando o homem pegou no mundo com as suas rudes mãos e o tomou como sendo seu, quando nem uma pequena pedra lhes pertencia? Creio que ambos os acontecimentos estão relacionados com a minha vida; tão frágil, tão ameaçada, tão… insignificante. Mas, de que servem as lamentações quando as acções estão concluídas?

Tudo começou quando o meu coração foi sequestrado. Aqueles olhos grandes e castanhos tomaram posse da minha alma, aprisionaram os meus membros, para todo o sempre. Quando o vi pela primeira vez, soube que não havia fuga possível. Ele, com as suas mãos delicadas e as suas palavras encantadoras, hipnotizou-me. Não fazia eu a mais pequena ideia por quem me Haia apaixonado. Se soubesse… Se soubesse teria feito as mesmas escolhas, teria seguido o mesmo caminho de olhos fechados! O seu amor era tudo para mim. O ar que respirava, a água que bebia; as flores de cerejeira que brotam em cada primavera, enriquecendo a paisagem; a brisa acolhedora que nos embala no início de cada Verão; os tons dourados que chovem dos céus, à chegada de cada Outono; os pedaços do paraíso que tudo cobrem durante o Inverno. Ele era o meu mundo.

Que mais poderia uma mulher querer? Não só tinha o mundo num só homem, como tinha um reino a meus pés. Dona do mundo, princesa de uma nação; o sonho de qualquer rapariga.

Conseguira atingir a felicidade no seu todo, pensava. Como estava enganada… A verdadeira felicidade veio mais tarde, numa clara manhã de Abril. A sua pele enrugada, o seu pequeno nariz… Descobrira a verdadeira felicidade num pequeno ser, no fruto de um grande amor. Essa felicidade tinha um nome, um som melódico entoado pelos afinados rouxinóis, um som forte clamado pelos trovões, um só nome que, em si, reunia amor e ternura, poder e justiça. Este nome, Gabriel, era demasiada coisa para permitida pela influente burguesia. Cedo, fiquei viúva. O meu anjo morrera envenenado, vítima de um dos sete pecados mortais: inveja.

Como receava a vida do meu filho! Seres tão pérfidos não se ficariam somente pelo rei, era necessário aniquilar toda uma família. E Gabriel era o próximo alvo.

Na madrugada seguinte à morte do meu marido, parti com Gabriel, juntamente com a minha aia e o fiel escudeiro do rei. Aquela casa, outrora um palácio angelical, refúgio de dois amantes, dois cúmplices, era agora o refúgio do ódio, da inveja, da maldade. A perda do meu amor pesava no meu coração, mas não podia perder mais um minuto, sequer. Afinal, há amor mais forte que o amor de mãe?

Galopámos durante dias, atravessámos aldeias, vilas, nações. O perigo espreitava atrás de cada árvore, no meio de cada arbusto, entre cada nuvem. Não existia nenhum lugar em que estivesse a salvo daquelas mãos tortuosas. Gabriel tinha apenas dois anos, demasiado jovem para tal demanda. No entanto, como príncipe de sangue que era, aguentou, sobreviveu e lutou até ao final. Estava orgulhosa daquele pequeno homem, tão pequeno e tão corajoso. De certo viria a ser um grande rei, justo e bondoso, misericordioso e leal, ao povo e aos seus soberanos. Só precisava de… sobreviver.

Agora, ao fim de um mês de fuga, estamos próximo da grande Gália. Parámos para descansar, para alimentar o jovem Gabriel, para as montadas recuperarem o fôlego. Eu estou de vigia às camas, com Gabriel a meu lado, o meu fiel escudeiro tenta encontrar algum alimento para o principezinho. Quanto à aia, busca um pouco de água. Eu e Gabriel esperamos a chegada de ambos há longos minutos; a criança começa a ficar impaciente. Então, escutámos um ruído entre os arbustos.

- Sois vós, nobre escudeiro? – perguntei, na esperança de conseguir uma resposta.

- Lamento desapontar-vos, senhora, mas não. – O meu sangue gelou ao ouvir aquela voz. Era ele, o, outrora, conselheiro do meu marido, o seu melhor amigo, o líder da rebelião.

- Manuel? O que fazeis aqui? Não deveríeis estar no palácio, junto da vossa escumalha, digo, vassalos?

- Deixais-me feliz ao mostrar que o vosso sentido de humor continua tão bom como sempre, minha senhora.

- Tais palavras honram-me, nobre conselheiro. Mas, por ora, podereis confidenciar-me o motivo da vossa presença aqui, em tão inóspito local? – Hipocrisia é algo de que não me servia, desde que abandonara a corte. O que para ouvidos inexperientes parece uma simples conversa, entre a rainha e o seu conselheiro, é na verdade um perigoso jogo onde o prémio é a vida de Gabriel.

- Mas com certeza, senhora. Sabeis há algo que também me intriga. O que fazeis vós e o jovem príncipe aqui, também?

- Quereis que seja sincera?

- É o que mais desejo neste mundo, senhora.

- Fugíamos de vós e dos vossos, dos mesmos cruéis selvagens que assassinaram o meu querido marido, vosso rei.

- Por que me tomais, senhora? Nunca seria capaz de tão vil acto… - ironizou, o maldito.

- Mandastes outros por vós.

- Nem isso! Sempre fui leal à nação, ao povo.

- Deixai que vos diga que a vossa lealdade é demonstrada de uma forma muito perversa.

- Apenas zelo pelos interesses do povo, senhora. – Um sorriso cínico trespassou os lábios de Manuel. Um arrepio percorreu todo o meu corpo.

- Como podeis usar o povo como justificativa para os vossos actos?

- Tudo em nome do povo, minha senhora, tudo em nome do povo – sussurrou, enquanto desembainhava a sua espada.

- O que tencionais fazer com isso?

- O mesmo que fiz com o vosso querido esposo; matar Gabriel! – exclamou, trespassando a criança de um só golpe.

- NÃO! – gritei, ao mesmo tempo que o príncipe caía a meus pés.

- Lamento, senhora. Apenas fiz aquilo que o meu coração me ordenou.

- Que coração tendes vós dentro do peito, Manuel? Que coração vos ordena que mateis uma pobre criança?

- O mesmo coração que me ordena a matar-vos.

O golpe foi certeiro e rápido. A lâmina fria provocou-me um arrepio ao atravessar o meu peito. Uma dor aguda e lancinante expandia-se por todo o meu ser.

- Ireis pagar por isto, Manuel. Sois um monstro… – murmurei, enquanto respirava com dificuldade, vivendo os últimos segundos de vida que me restavam.

- Sois tão gentil, nobre Teresa. Agora, se me dais licença, tenho de partir. Uma nação inteira aguarda as minhas palavras – disse, afastando-se a passos largos.

Olhei ara o meu filho, caído, morto. Uma vida inteira de felicidade esvaíra-se em poucas semanas. Acomodei-me na relva macia que me suportava; uma rainha tinha de morrer com dignidade, ainda que não houvesse qualquer motivo para tal.

- Aguardai-me, meu rei. Estou quase junto de vós e do nosso filho. Seremos, uma vez mais, felizes. Mas… Desta vez… Para todo o sempre.