Mortalha

Por Juliana Nonato

Sabe, Adam? Uma vez eu ajudei alguém a morrer.

Sério, Kevin? Que história estranha... e porque você fez isso?

A pausa antes de prosseguir é quase um anticlímax.

Eu até acharia a situação engraçada se não me sentisse aterrorizado sempre que nossos olhares se cruzavam. Ele era o garoto que queria morrer e era eu quem era corroído pela própria autocomiseração.

– A idéia de morrer me parece engraçada.

Há algumas semanas atrás, ele me pareceria louco. Contudo, alguma coisa havia acontecido comigo de tal modo que eu não mais era capaz de ficar chocado com as loucuras alheias. Lancei-lhe um olhar complacente.

– A idéia de matar me parece tão engraçada quanto.

A conclusão era óbvia. Havia um esboço de sorriso no canto dos lábios dele quando ele me disse que gostaria de sonhos.

Adam é o tipo de pessoa cujos comentários nunca são decifráveis. Parecia-lhe engraçado falar em enigmas. Dar mil e uma voltas ao redor do mesmo tópico sem jamais abordá-lo. Exatamente por este motivo eu demorei tanto a compreender que seu comentário sobre sonhos era a deixa para que fôssemos à padaria.

A pausa antes de prosseguir é quase um anticlímax.

Porque eu faria qualquer coisa que ele quisesse.

E quis que você o matasse?

Angélica era o problema, há algum tempo atrás. O adorável foco do que eu achava que fosse um drama pessoal naquela hora.

Adam me disse certa vez que, quando se está tão focado em ser bom para alguma coisa ou para alguém, sua verdadeira personalidade acaba se anulando parcialmente, mas isso não quer dizer que ela deixe de existir ou de se desenvolver.

O choque que eu tive ao não ter mais ela para olhar e repentinamente precisar olhar para o que eu mesmo me tornara me tirou dos eixos. O mundo inteiro parecia estar achando que meu repentino mau-humor e pouca disposição se deviam ao fato de termos rompido, mas não era esse o problema. Nunca fora esse o problema. Apesar de eu mesmo ter pensado que fosse, no começo.

Adam, antes de mais nada, era apenas um amigo de Angélica que eu encontrara por acaso. E então repentinamente ela deixou de existir como sendo o elo entre nós e, inexplicavelmente, ainda havia alguma coisa nos ligando.

Sonhei com ele repetidas vezes. Seus olhos de um azul apagado cada vez mais apagado perdendo o foco. Sua expressão tranqüila e um leve tremor, seguido pela imobilidade.

Não era engraçado. Não era para ter graça. Eu devia ter dito isso a ele. Mas eu apenas consegui concordar.

E quis que você o matasse?

Eu não o matei, Adam. Eu só estive lá. Estranhamente, tive a impressão de que ele não tinha alternativa.

Soa triste.

Angélica sorria o tempo todo, todo o tempo, mas ela nunca sorria de verdade. Percebi isso no dia em que percebi que não queria vê-la novamente.

A boca dela estava distorcida com aquele sorriso que beirava a piedade, as sombras da tarde nublada transformando seu rosto bonito em uma assombração.

Ela não riu nem chorou. Apenas falou, com aquela expressão cansada de quem já não consegue mais se importar, que não queria mais, o sorriso repulsivo e inabalável sempre presente.

Foi estranho o modo como ela veio até mim para poder ir embora. E foi estranho o modo como eu, que sempre quis saber o que se passava conosco, me neguei a pedir explicações. Quase como se soubesse.

Ela falava coisas como 'não poderia ter evitado' e 'foi mais forte que eu'. No final, contava a história de que havia se apaixonado por outro rapaz enquanto estávamos juntos. Chocado, honestamente, eu não fiquei. Foi só neste momento em que eu perguntei alguma coisa. Uma única palavra. 'Quando'.

Há um ano e meio.

Senti-me anestesiado. Distante. Incrédulo. Foi neste ponto em que eu comecei a entrar em estado de choque.

Fui apaixonada por ele durante seis meses.

As palavras simplesmente ecoavam na minha cabeça. Meus olhos presos aos dela. Confusos. Questionadores.

Seria bom se ela tivesse parado por aí. Eu aceitaria um 'eu te amo demais para continuar com você tendo feito o que fiz', mas ela continuou, apenas para me dar a certeza de que, para minha total infelicidade, eu passara três anos da minha vida ao lado de uma vadia.

Ela fora apaixonada pelo rapaz durante seis meses, mas eles estiveram juntos durante um ano e meio. Mas apenas fora apaixonada pelo outro durante seis meses. Apenas seis meses. E eles haviam terminado havia um tempo, veja só! Porque ela não queria me abandonar para ficar com ele!

– Que nobre da sua parte... – sorri, meu coração quebrado transparecendo em cada músculo retorcido no meu rosto. – Agradeço a preferência.

Não ouvi uma palavra do que ela disse depois disso, só sei que não havia mais nem sombra de sorriso em seu rosto. Quando eu percebi que ela havia terminado de falar foi que resolvi colocar o meu ponto final naquilo.

E o que você ainda está fazendo aqui?

Soa triste.

Não é triste.

Seus olhos, claros como apenas uma vez eu os vira, piscam para mim em surpresa.

Adam tinha nos olhos o tom de azul e cinza chumbo do céu de tempestade, quase como um mau presságio. Às vezes eles brilhavam tanto que eu chegava a temer por mim mesmo.

Era quase como se eu pudesse me ver no peso que os olhos dele carregavam.

De todas as características aterradoras naquele garoto, esta era a que mais me estupefazia.

Quando Adam passava a falar sobre o que ele pensava a respeito de morrer era que seus olhos pareciam mais claros. Claros como eu gostaria que minha vida fosse.

Eram em momentos assim que eu sentia como se eu o estivesse vendo por completo, o que era informação demais para a minha mente processar; logo, eu não conseguia compreender metade do que eu via.

Seus olhos me diziam mais do que sua voz calma e corpo tenso jamais me diriam. Diziam com clareza o que viam nos meus olhos de rapaz amargurado, o que não era necessariamente uma coisa boa, mas provavelmente era necessária.

Esse rapaz, Adam, é provavelmente uma das criaturas mais peculiares que eu já encontrei. Fala sobre morte e sobre o colégio e sobre o café da manhã usando o mesmo tom de voz dolente e calmo.

Naquele momento, eu sabia que Adam não se mataria. Ele não tinha os motivos certos para isso. Também não os tinha para viver, então ele me pedia motivos. Perguntava-me sobre porquês que eu jamais havia me dado ao trabalho de questionar.

E então sua voz ficava ecoando na minha cabeça por horas.

Apesar de tudo, Adam não se mataria. Então ele me pedia motivos. Para qualquer coisa.

Ele não parecia pensar que aquilo fosse responsabilidade demais para colocar deliberadamente sobre meus ombros. Não era como se eu fosse capaz de salvá-lo ou como se ele precisasse ou quisesse ser salvo. Não era como se ele estivesse me cobrando. Simplesmente acontecia assim.

Adam não se mataria. Então ele me pedia motivos, porque ele sozinho não conseguia pensar em algo motivador o bastante.

Seus olhos, claros como apenas uma vez eu os vira, piscam para mim em surpresa.

É bom que ele tenha conseguido o que queria.

Morrer?

Inesperadamente, situações aleatórias passaram a invadir os meus sonhos. Situações terríveis. Pessoas cruéis. Sombras que não existiam no mundo onde eu vivia.

Inesperadamente meu travesseiro começou a amanhecer molhado de lágrimas estranhamente abundantes e cujo motivo me era desconhecido. Uma vez acordado, não me lembrava dos sonhos. Apenas da sensação.

Uma vez acordado, eu não chorava mais, mas a dor e o ardor nos meus olhos estavam lá.

Era quase como acordar num dia que não deveria ter começado.

Quando disse isso a Adam, ele apenas me sorriu um sorriso triste.

– Eu sei. – foi o que ele disse, antes de desviar o olhar para algum ponto em que seus olhos não encontrassem os meus. – Quase dá vontade de... sei lá. Fazer parte deste vazio, sabe? Essa sensação de vazio. Por mais que seja estranho 'fazer parte do vazio'. Talvez se eu apenas... deixasse tudo vazio de uma vez?

Observei sua expressão perdida. Estava falando muito mais do que normalmente falava, e, obviamente, falava consigo mesmo.

– A idéia me é assustadora.

– Não mais assustadora do que a idéia de permanecer sempre com uma parte vazia em si. – ele continuou a filosofar, sem me encarar. – É entediante.

– É um pensamento triste.

– Não mais triste do que pensar em viver por não ter motivos nem para morrer. – a voz dele era melancólica e suave e extremamente agradável de se ouvir. Parecia divertir-se com seus vícios de linguagem. – Quando só há o vazio e você, a vontade que você tem é de inexistir para que o vazio possa ser completo, porque deve haver algo muito errado em existir onde nada mais existe.

– É bom pelo menos reconhecer a fonte dos seus desejos. – eu falei, após refletir por alguns instantes. A voz de Adam não tremia, mas seus olhos estavam muito brilhantes, como se ele fosse chorar a qualquer momento.

– Reconhecer um desejo não o satisfaz.

Ele fala, e seus olhos perdem o brilho instantaneamente. Então, eu era obrigado a concordar.

Morrer?

É mais complicado que isso.

Ele me olha confuso, como quem espera uma explicação.

– Acho que vai chover. – Adam diz, mas não diz mais nada. Não sugere voltarmos para casa ou nos abrigarmos em algum lugar.

Nós não falamos mais em matar e morrer desde que ele me dera seus motivos, mas havia um tipo estranhamente firme de inquietude na maneira como às vezes ele permanecia com os olhos fechados por muito tempo, mesmo enquanto conversávamos.

Conforme nossos passos encontravam um ritmo comum entre as quadras idênticas do bairro onde morávamos, Adam parecia desmoronar. Silenciosa e discretamente.

Talvez eu só tenha realmente me importado com isso àquela tarde, quando nos encontramos na esquina próxima à padaria, pois foi apenas depois disso que eu passei a me preocupar com seus silêncios e verificar constantemente, pelo canto dos olhos, se suas pálpebras continuavam abertas.

Àquela tarde, ele me falava de frio e calor, e de doce e amargo. Eu gostava muito do tom de sua voz. Era baixa e rouca, não muito grave, nem muito dinâmica, nem muito lenta. O modo como ele falava fazia-me sentir estranhamente calmo; calmo o bastante para encarar e tentar entender o que havia lá dentro de mim, mas a calmaria parecia atingir até o rio de confusão que eram meus pensamentos, pois eu logo não era capaz pensar direito sobre qualquer coisa que estivesse me machucando.

Em meio às casas cinzentas do subúrbio de ruas planas e idênticas, andávamos sem destino, plantando em nossos corações palavras vazias, não mais tristes do que nós próprios, por motivos que ainda não éramos capazes de compreender. Mesmo que antecipadamente, o vento do inverno parecia tão presente quanto as lágrimas que ele nunca derramava, mas que com certeza estavam ali.

Não era apenas uma tentativa de ganhar tempo. Não fazia sentido sendo apenas nisso.

Àquela tarde fomos um pouco mais além de onde nossas caminhadas costumavam nos levar. Três quadras depois da padaria que Adam religiosamente freqüentava havia uma velha ponte e através da ponte, um parque abandonado. Adam me disse com a voz triste que as crianças não costumavam mais brincar ali porque vários condomínios privados haviam sido construídos ao redor, e estes condomínios possuíam seus próprios parquinhos para as crianças.

A relva hostil que se estendia entre as árvores e brinquedos abandonados provavelmente abrigava ratos, aranhas e cobras, e os brinquedos nos quais eu provavelmente brincara havia uns dez anos agora estavam quebrados e enferrujados. As balanças tortas e sujas no ponto mais extremo do pequeno parque se sacudiam com o vento forte e gelado, soltando no ar um ranger sombrio e desolado. Alguns canos de escalar e um escorregador ficavam bem no meio de tudo, ao lado da caixa de areia que mais parecia um canteiro de ervas daninhas e em frente a algumas gangorras emperradas.

Adam foi segurando o saco de doces até se sentar na parte elevada de uma gangorra, sem temer que esta cedesse sob seu peso. Segui-o, sentando-me no mesmo lado que ele, mas um pouco mais para o centro, temeroso em quebrar o brinquedo já inutilizado. Ele continuava falando sobre calor e frio, e sobre todos os sabores que sentia.

– Você sabia que nós só somos capazes de sentir quatro gostos, e o restante da sensação de sabor é dado pelo nosso olfato? – ele sorriu, e eu ergui as sobrancelhas. – Quer mais um sonho?

– Já tenho sonhos o bastante. – eu disse, mas apanhei um dos doces que ele me oferecia. Percebi-o ajeitando a touca de lã ao redor da cabeça, antes de continuar:

– Isso é bom. Eu acho. – Adam morde o doce. – Uma vez que essa doçura só dura enquanto duram os sonhos.

–O que você faz quando a doçura acaba? – eu pergunto, tão inocentemente curioso quanto o próprio Adam.

– Às vezes compro mais sonhos – ele sorriu, parecendo, por um instante, uma criança, ao invés do adolescente sério e cínico que normalmente era. –, mas às vezes o sabor permanece por muito tempo. O gosto doce, sabe? Eu não sei por quê...

Dei um pequeno grunhido, que não poderia se dizer se foi uma exclamação de concordância ou um lamento.

– E você, Kevin? O que faz pra conseguir o sabor doce? – ele perguntou, enquanto comia o último pedaço do doce.

Suspirei.

– Não sei. Acho que nunca tinha tido vontade de saborear algo doce... – encarei-o.

Ele sorriu para mim, afastando um pouco os dedos dos lábios ao fazê-lo, encarando-me tão diretamente que cheguei a erguer as sobrancelhas, surpreso. Depois de alguns segundos lendo a oscilação no meu olhar, Adam passou a observar o horizonte.

Por cerca de cinco segundos seus olhos se fecharam, para então se abrirem, cintilando levemente.

Acabei descobrindo, enfim, que Adam era na verdade muito mais sensível do que aparentava ser. Descobri que ele chorava muito, mas odiava chorar na frente de outras pessoas. Acho que ele preferia que as pessoas o vissem como um cínico maldito a um jovem tolo melodramático, mas não era ainda capaz de falar sobre seus motivos na época. Descobri que, justamente por odiar chorar na frente de outras pessoas, e isso incluía a mim também, ele permanecia de olhos fechados, impedindo que as primeiras lágrimas caíssem de seus olhos. Como se isso pudesse impedir qualquer pranto.

Eu não entendia.

Não entendia nada.

Mas me Levantei, como que por impulso, colocando-me à sua frente, de modo a poder encará-lo quando ele abrisse os olhos. Pousei minhas mãos uma de cada lado de seu rosto, forçando-o a se fixar em minha direção, mas ele não abriu os olhos. Percebi-o arqueando levemente as costas, como se para manter o equilíbrio. Mal percebi quando derrubei sua touca de lã no capim alto do parque abandonado. Não havia nenhum sinal de lágrimas. Conforme eu me afastava brevemente, eu via apenas sua expressão tranqüila, os olhos fechados, mas parecia em paz agora.

Senti o aroma fraco de baunilha, escapando por seus lábios entreabertos enquanto ele respirava. Fechei os olhos com força.

Quando seus olhos se abrem para me encarar, não há nada. Nem surpresa.

– É melhor irmos para casa. – ele sugeriu, olhos presos nos meus. – Acho que vai chover.

Ele me olha confuso, como quem espera uma explicação.

Ele queria,mais do que morrer, esquecer tudo o que viveu.

E como você sabe que ele esqueceu?

Num primeiro momento, havia apenas um zumbido surdo que parecia partir de absolutamente todos os lados. Um zumbido e a sensação de que havia alguém por perto. E a agonia no fundo do meu estômago me dizendo que havia alguma coisa muito errada em se sonhar com isso.

E então havia alguém por perto. Eu não conseguia ver seu rosto, mas repentinamente eu simplesmente sabia.

Durante noites sem fim eu sonhei com ela, e a cada nova noite era como se meus pesadelos se tornassem mais nítidos. Nem o sonho mais doce ou o mais divertido dos dias era capaz de amainar a sensação de inquietação e desgraça iminente que aquelas noites estranhas pregavam ao meu coração.

Durante noites sem fim eu era capaz de permanecer observando os cantos escuros do meu quarto, sentindo como se meus órgãos internos tivessem se transformado em concreto.

Às vezes era como se a minha boca estivesse cheia de algodão. O zumbido insuportável nos meus ouvidos me deixava pouca concentração para tentar respirar, e então eu percebi que estava surdo.

Durante noites sem fim eu sabia que era com ela que eu estava sonhando mas eu não era capaz de ver seu rosto. Eu sentia aço sob o meu corpo, como se estivesse sentado em um banco, mas eu não conseguia ver. Eu sabia o que estava ali. Eu conseguia discernir os contornos e até adivinhar, mas nada estava nítido, e eu tinha certeza de que ela estava falando comigo, mas eu não conseguia ouvir nada.

A pior parte era a agonia. A ansiedade. A sensação de ser capaz de sentir os gritos cortando a minha garganta mas não ouvir nada além de um zumbido estranho.

Depois de algumas noites, ela começou a chorar.

E então o zumbido se dissipou brevemente, e eu ouvi um grito. Mas não era ela gritando. Parecia vir da neblina ao nosso redor.

Eu sentia o ar entrando em meus pulmões, quente e desprovido de oxigênio.

A voz calma de Adam alcançando aquele tom de desespero é a pior parte.

Eu sempre acordava com dores no corpo. Minha boca engasgada com gemidos agoniados, meus dedos torcendo o lençol embaixo do meu corpo. Tudo isso apenas para encarar a parede ao meu lado, familiar e segura, banhada pela luz hesitante do poste lá fora.

Então eu respiro um ar que não é quente e parece me acalmar gradualmente.

E como você sabe que ele esqueceu?

É o tipo de coisa que a gente simplesmente sabe.

Há mistério no meu tom de voz e curiosidade na expressão dele. Adam sorri e seus olhos parecem ferir os meus.

Adam quer morrer porque, se ele morrer, talvez ele se esqueça.

Terapia não o fazia entender. Dormir não o fazia esquecer. Ocupar-se não o fazia distrair-se.

Quando eu pensei em lhe perguntar o que ele tanto queria esquecer, veio-me a idéia de que talvez não fizesse diferença para ele que eu soubesse. Eu, talvez, simplesmente não precisasse saber;

Há mistério no meu tom de voz e curiosidade na expressão dele. Adam sorri e seus olhos parecem ferir os meus.

Você não se sente culpado?

Não. – respondo, quase instantaneamente.

Fechei cuidadosamente a porta da frente de casa, às minhas costas, observando que Adam não recuara sequer um passo para me dar pelo menos um espaço razoável de locomoção.

Adam tinha, em meio a todas as suas características peculiares, dois estranhos hábitos que me assustavam levemente. Um deles era a mania que ele tinha de me encarar por muito tempo, como se estivesse esperando que eu dissesse alguma coisa. E o outro era a aparente apatia quanto à aproximação alheia.

– O que foi? Vai me dar um beijo? – perguntei, mal-humorado, vendo que ele não parecia minimamente incomodado com o fato de estarmos nariz a nariz.

– Não se preocupe. Você não corre esse risco. – ele diz, se afastando. – Vamos?

Estranha era a maneira como a questão feita não era seguida por 'aonde' ou 'fazer o que', mas já fazia algum tempo que isso já não fazia diferença.

Caminhávamos lentamente, sempre para o lado oposto às nossas casas, sentindo o vento frio do inverno que se aproximava batendo nas nossas orelhas. Abrimos caminho entre as ruas gélidas como desbravadores, sem esperar encontrar abrigo ou coisa parecia. Caminhamos até cruzar a velha ponte e chegar ao parque abandonado. Então cruzamos o parque abandonado até chegar a uma rodovia. Seguimos a rodovia até chegar a um viaduto, então demos início à travessia, mas não a concluímos.

A cerca de cinqüenta metros do início do viaduto e a uma boa distância do chão, Adam pareceu resolver que aquele era o lugar ao qual queríamos chegar quando saímos de casa e, como se fosse a coisa mais normal do mundo, sentou-se no meio do caminho que era utilizado para a travessia de pedestres, na lateral do viaduto.

Uma vez parados, era possível sentir a mistura de concreto, asfalto e vigas de metal vibrando sob nossos corpos. Carros passavam seqüencialmente ao nosso lado e abaixo de nós, o som das rodas no asfalto e dos motores se aproximando e então se afastando como se nunca tivessem estado ali... tudo isso mexia um pouco com a minha cabeça. Mas Adam simplesmente se sentava ali, escondido entre os dois muros de proteção, o olhar meio sério e meio perdido.

– Estive pensando, Kevin. – sua voz não parecia tão calma, tentando se fazer audível enquanto um caminhão passava pela pista ao nosso lado. – Seria doce morrer pelas suas mãos.

Okay. Uma bomba atômica na China e uma conversa com Adam tinham praticamente o mesmo efeito em termos de devastação. Apoiei meus quadris no muro atrás dele, meus olhos se perdendo em sua figura magra e pálida, encolhida em meio ao cinza e ao frio, sem me encarar. O cheiro de monóxido de carbono impregnava nossas roupas a cada segundo que se passava.

Senti um toque tímido e gelado sobre meus dedos e corri meu olhar novamente pela figura ao meu lado a tempo de observá-lo apoiar delicadamente os dedos sobre os meus.

– Você é tão frio. – falei, meus dedos envolvendo a mão dele em um abraço perfeito. Eu não sabia se estava me referindo apenas às suas mãos.

– Não tem medo de me tocar. – não era uma pergunta.

Uma brisa gélida parece corroer minha alma e, quando Adam finalmente olha na minha direção, eu tenho certeza de que ela vem do mais profundo do azul dos olhos dele.

Não. – respondo, quase instantaneamente.

Havia tanta certeza no meu tom de voz que Adam quase riu.

Mas certamente sente falta dele, não?

– Estive pensando, cá comigo mesmo, se eu não acabei me tornando assim por causa dela.

Adam riu. Eu odiava quando Adam ria de mim.

– Assim, como? Deprimido? Psicótico? Homicida? – Adam estava sentado nas escadas da sala de estar, olhando para mim com aquela cara de cínico que eu odiava quando devia estar olhando para a televisão, fingindo assistir a um boneco extremamente colorido falar algumas bobagens que deviam ser engraçadas. – Não é por causa dela que você está assim, seu idiota. Você sempre foi assim. Só estava ocupado demais para perceber.

Bomba atômica.

– Não é que eu queira dar a impressão de que eu me importo com você, sabe, Kevin? – havia um sorriso leve, mas ainda triste, brincando nos lábios dele.

– Não se preocupe, Adam. Você não corre esse risco.

Mas certamente sente falta dele, não?

Eu hesito antes de responder, evitando deliberadamente encará-lo.

Muita.

– Você está molhado. – eu falei, conclusivamente. Recebi um olhar mortal dele. O outono havia acabado e as chuvas de inverno eram sempre as mais geladas. Por um momento eu senti por ele.

– E você espera comprovar a sua genialidade com esta tese? – Ele estava mal-humorado. – Porque, sabe?, é o que acontece quando se sai de casa no meio de um temporal.

Suspirei, observando a quantidade de água que estava sendo despejada no capacho.

– Tem toalhas no meu banheiro. Diga o que veio fazer aqui e eu permitirei que você se seque.

Adam não esperou que eu concluísse a frase e foi subindo as escadas para o meu quarto. Segui-o, e, quando o alcancei, ele já estava com uma toalha amarela jogada nos ombros, o corpo tremendo convulsivamente.

– Vim te dizer que estou pronto. – ele falou, e eu não esperei complemento para a frase. Dei as costas e comecei a vasculhar minhas gavetas, procurando algumas roupas secas para ele.

– Entendo. – resmunguei. – E como você quer fazer isso?

– Com você. – ele respondeu, e eu acabei por me perguntar se ele havia sido filho da puta assim durante sua vida inteira. Honestamente, eu não consigo imaginar Adam como tendo sido uma criança muito saudável. – Sempre pensei que ter uma morte doce seria algo bom.

Puxei uma calça de moletom e uma camiseta cinza para entregar a ele. Acho que eu nunca vi uma pessoa se despir tão rápido como Adam encharcado.

– E por que não uma vida doce? – perguntei, e li na sua expressão que ele provavelmente já havia respondido àquela pergunta algumas vezes, mesmo que apenas para si próprio.

– Porque, Kevin – ele começou, e eu reparei, distraído, que minhas roupas ficavam comicamente grandes nele. –, metade do tempo é doloroso estar vivo.

– Mas há momentos doces. Sempre há. – prossegui. Não estava realmente tentando convencê-lo de nada. Apenas queria conhecer suas justificativas.

– Mas não são definitivos, sabe? – Adam me olhou fixamente por um momento, para em seguida espirrar sonoramente. – Não é como se não houvesse momentos doces. Eu sei que há. Mas eu já não sinto quase nada.

Adam tremeu um pouco, mas não de frio.

– É como viver à base de migalhas.

É como a morte a maneira como você não é capaz de dizer que sente muito, mas é capaz de assumir qualquer risco que lhe seja imposto por seja lá o que ele queira de você.

– Seria tão doce. Tão bom.

Meus olhos pesam contra os dele. Não há questões, mas ele parece me dar uma resposta.

– Morrer pelas suas mãos, Kevin.

Muita.

Ele dá um tapinha no meu ombro, quase como se pudesse me consolar, e eu sorrio vagamente.

Está tudo bem. – ele diz, e ao mesmo tempo em que ouvir isso me apavora, eu me sinto aliviado como ele nunca entenderia.

Não é como se ele quisesse que eu enfiasse uma faca em seu estômago. Ele simplesmente queria que eu estivesse lá. Imagino que seja doloroso passar sozinho.

– Como você quer fazer isso? – foi a pergunta feita por ele.

– Não faz diferença.

O olhar questionador dele me fez abandonar meu ar diplomático, como quem deixa as barreiras cederem.

– No final, será como você quiser. – minha voz não tremeu e eu li surpresa no olhar dele. – O que você quiser, Adam. Faço o que você quiser.

Está tudo bem. – ele diz, e ao mesmo tempo em que ouvir isso me apavora, eu me sinto aliviado como ele nunca entenderia.

Existe alguma coisa por trás daquele muro de calma que me faz tremer. É como se ele soubesse, de algum modo.

Por que eu sinto como se já tivesse te encontrado antes?

– É quase como sufocar. – o dia lá fora estava num tom de cinza amarelado. – Você chora quase como se pudesse ser forte.

O outono estava acabado e seus tons de sépia dourado transformados lentamente em cinza chumbo tornavam o mundo um cenário visto através de uma janela suja.

– Então você sente cada músculo do seu corpo se contraindo como se estivessem recebendo choques elétricos. E é quase insuportável, porque está tudo na sua mente. Não é real, mas dói como um inferno. – o ombro que eu toco treme e eu percebo que eu não havia visto Adam chorar até aquele momento.

– Continue. – eu peço, mas a voz que eu uso não se parece nada com a minha.

Com o rosto abaixado, tudo o que eu posso ver são as lágrimas caindo sem ter por onde escorrer, simplesmente surgindo entre a cabeleira castanha.

– Dói muito. E eu nem sei onde dói. – seus ombros tremem uma vez mais e o que pretendia ser um suspiro sai engasgado como um soluçar.

– Saber onde dói nunca alivia a dor.

Eu não consigo ver seus olhos naquele momento, mas vejo seus lábios se curvarem num sorriso que não é triste, mas aliviado, e eu sei que ele sabe que eu não tenho a menor pressa.

Sinto-o suspirar com gratidão contra a minha mãe enquanto seco suas lágrimas.

É cada pedaço de você quebrando. Porque simplesmente temcoisademaisnasuacabeça.

Por que eu sinto como se já tivesse te encontrado antes?

Não me sinto surpreso com a pergunta, mas há uma alegria quase incontida na minha voz quando eu pergunto, ainda sem encará-lo:

Como eu deveria saber?

– Eu vou pular. – foi só o que ele disse.

Ergui o olhar a tempo de vê-lo me encarando como se esperasse que eu saísse correndo.

Havia algumas semanas que Adam já não esperava que eu o atendesse para entrar na minha casa. Havia algumas semanas que ele já não precisava nem abrir a boca para eu saber que ele andava pensando naquelas coisas que ele queria esquecer provavelmente mais enfaticamente do que seria recomendável.

Então eu não precisei perguntar 'agora?' ou 'de onde?'. Em vez das perguntas esperadas, tudo o que eu disse foi:

– Vamos comer algo, antes. Estou faminto.

Nossos pés mais uma vez estavam ocupados seguindo aqueles percursos que nunca foram discutidos, mas que eram inexplicavelmente condizentes com a situação, o asfalto apático sob nossos pés. Foi quando ele subitamente estacou, dizendo, sem me olhar:

– Não dá tempo. – ele lia a placa com o nome da rua ao nosso lado. – Precisa ser agora.

Adam havia me dito que pulando daquele viaduto era impossível que algo desse errado. Havia talvez menos de dez metros entre o concreto da beirada da construção e o asfalto da avenida movimentada que passava logo embaixo. Adam disse que, se ele não morresse na queda, seria atropelado.

Ele poderia estar falando sobre sonhos novamente, e seu tom de voz seria o mesmo.

A maneira como eu não me lembro de termos caminhado até a parte certa do viaduto...

Quando segurei sua mão, tentando dar-lhe equilíbrio para que conseguisse subir no muro lateral, percebi que ele tremia como louco.

– Eu vou esquecer tudo. – de algum modo muito complexo, o rosto dele parecia mesclar alívio e aflição.

– Vai sim. – eu assegurei, quase gritando, num tom de voz que eu julguei ser tranqüilizador. Ele estava tentando ficar em pé na borda. Praticamente vi o tremor do seu corpo se tornar violento e em seguida amainar.

O ruído dos carros ao nosso redor era amainado pelo vento cortante que batia contra as nossas orelhas. Adam firmou os pés no muro, mantendo o corpo levemente curvado.

– Eu provavelmente não vou ter outra chance de te dizer isso, então... – senti que ele apertava minha mãe com mais força para não perder o equilíbrio ao virar o rosto para me encarar. – Obrigado.

Não havia mais cinza no azul brilhante e profundo dos olhos dele. Os cantos da minha boca tremeram e eu murmurei, inseguro:

– Até.

Eu o vi sorrir uma última vez, as bochechas coradas de excitação. Eu quase podia sentir seu coração vertiginosamente acelerado e, em seguida, eu não via mais nada. Ele havia pulado.

A maneira como eu não consegui olhar para ver o que havia acontecido lá embaixo...

Aqui na minha cabeça, eu vi aquele monte de cabelos castanhos desaparecendo vezes seguidas além de um bloqueio de concreto, apesar de eu não me lembrar de ter visto coisa alguma. E não me movi. Era quase como se a minha mente estivesse querendo se certificar de que eu não me arrependia.

O sangue meio que parava de correr dentro de mim, ainda.

A maneira como tudo pareceu congelar dentro de mim e o mundo ao redor se transformou em um ambiente hostil como eu jamais havia visto antes...

O olhar em seu rosto, um instante antes, era tão absolutamente tranqüilo que eu quase... quase esperei que ele saísse voando.

Meus dedos permaneceram no ar mesmo muito após tudo ter acontecido, quase como se eu pudesse piscar e, pluf, ver que ele ainda estava ali, me encarando pacificamente. O zumbido nos meus ouvidos intenso e indistinto como se algo tivesse explodido logo ao meu lado.

A maneira como eu sequer sou capaz de me lembrar de como eu voltei para casa, ou quando. Ou de ter dormido. Ou chorado.

Era quase perceber que eu já tinha sangue nas mãos desde o começo.

Não me sinto surpreso com a pergunta, mas há uma alegria quase incontida na minha voz quando eu pergunto, ainda sem encará-lo:

Como eu deveria saber?

Sei lá. É o tipo de coisa que a gente simplesmente sabe.

Adam bateu a cabeça. Quebrou algumas costelas. Acabou com as duas rótulas. A clavícula esquerda foi esmigalhada pelo carro que o atingiu. O tornozelo direito acabou sendo prejudicado durante o processo de resgate. Tanto sua mente quanto seu pé direito podiam jamais voltar a serem os mesmos.

Minha mãe me disse algumas muitas vezes que existem certas coisas que só acontecem quando devem acontecer. Que não dá para forçar.

Acho que Adam concordaria com ela, agora, se fosse capaz de se lembrar de quem ela é.

No dia em que Adam pulou, um grande congestionamento aconteceu. Justamente por Adam ter pulado. Alguém deve ter me contado, mas eu não seria capaz de me lembrar. Tenho certeza de que alguém me disse que ele havia sobrevivido. Eu não teria ido atrás da informação.

De qualquer forma, isso não faz diferença, porque era uma grande mentira. Adam não sobrevivera. Aquela casca, cheia de bandagens e gesso e fios e soros era apenas um cadáver.

Adam estava morto.

Aquilo era apenas um cristal quebrado, seus cacos ferindo a pele com a qual entra em contato. Contudo, como poderia abster-me de tocá-lo?

O cuidado que eu tive ao envolvê-lo com os braços era justificado tanto pelo estado em que ele se encontrava quanto pelo grau de culpa que eu tinha. Sua expressão era tão suave que assustava.

– Quem é você? – a voz suave de Adam que não é Adam fala ao meu ouvido, como quem conta um segredo.

– Kevin.

Eu não o solto. Eu não me importo.

– Eu te conheço, não conheço? Muita gente que eu conheço mas não sei quem é tem vindo me visitar, sabe, Kevin? – este Adam que não é Adam sequer fala como Adam. Sinto-me um pouco atordoado pela avalanche de palavras. Nunca ouvi Adam falar tanto de uma vez sem fornecer nenhuma informação relevante em meio ao seu discurso.

Ele não parecia se incomodar com minhas mãos em seus cabelos, meu rosto enfiado em seu peito magro, meus olhos cheios de lágrimas quentes como nunca as tive.

– Pois é. – foi o que consegui articular, minha voz fraca.

– Eu esqueci muita coisa por causa do acidente, sabe, Kevin?

Um sorriso triste se formou em meus lábios, longe dos olhos dele. Acidente? Tudo bem. Que fosse um acidente, então;

Adam parecia frágil como uma figura de porcelana. Fácil de se quebrar, agora, como nunca antes antes. O corpo descorado e magro vagamente coberto por uma túnica verde e um lençol levíssimo. Havia gesso e ataduras e alguns pontos expostos e dava medo de tocá-lo. Ele devia ter perdido muito sangue. Contudo, seus olhos estavam claros. Calmos e desprovidos daquela tristeza que costumava acompanhá-lo.

Claros como eu gostaria que a minha vida fosse.

Então eu fiquei feliz e quase quis dizer isso a ele, mas logo me ocorreu que não era importante.

Minha voz era gutural quando eu disse em um sussurro, meio que não querendo ser ouvido, um traço de sorriso querendo se mostrar no meu rosto:

– Ainda bem.

Fim
Mortalha