Capitulo 1: Inicio e desejo realizado

O tempo passa tão rápido! O que exatamente sou neste ano de 1968? Ah sim. Uma universitária da Oxford. Mesmo na biblioteca e estudando com meus colegas acadêmicos, a lembrança sempre vinha na cabeça. Uma recordação divertida e inesquecível na minha movimentada adolescência.

Era 1963 e com aquela idade, muitas coisas aconteciam uma atrás da outra.

Condado de Merseyside, cidade Liverpool. Estudava no Liverpool High School. Aquele ano marcou a vida dos meus compatriotas. Havia um grupo formado por quatro rapazes, também vindos da minha cidade. O som deles era alto, cheio de batidas e uma música animada e romântica. Garotas de todas as partes suspiravam por eles. Dos baixos suspiros, veio a histeria. Quem dera que aquilo seria uma epidemia mundial musical....

Muitas das minhas colegas foram nos shows deles. Nunca fui, mas ouvia no rádio suas músicas tocantes nos sentimentos. Depois dos meus estudos, ligava baixo meu rádio e lá no meu quarto, deitada na cama, era embalada ao som de "Love me do", "PS I Love You" e "I Wanna Hold your hand". Verdadeiros clássicos de seu começo.

Um dia quando lia um livro de Aldous Huxley, minhas amigas Jane e Suzan, chegaram eufóricas para mim, uma noticia:

--Vamos para Londres, Rosie. Minha mãe falou com a sua e advinha: ela deixou você ir com a gente!

Não podia ser verdade. Eu, Roselyn Anne Donovan, vou assistir a apresentação dos Fab Four, na capital! Queria gritar de alegria, queria minha voz ser ouvida por toda vizinhança. Ali mesmo arrumei minha mala, me despedi de minha mãe e a viagem começou. Senti-me como uma verdadeira criança, vislumbrando as maravilhas da capital e animadíssima pela vista de muitos pontos fortes. Com certeza minha mãe, as vizinhas e meus colegas não iam acreditar nas minhas palavras. Morreriam de inveja. Mas isso não é tudo. Finalmente, meu desejo vai se realizar: assistir um show daqueles quatro rapazes do condado de Merseyside.

*Millennium Flat é o nome do hotel de luxo onde ficamos. Sorte mesmo do pai de Suzan trabalhar numa hospedaria chique como essa. O legal no Millennium é que o hotel já recebeu ao longo dos anos muitas celebridades como Rolling Stones, Kinks, Herman's Hemint, The Searches e muitos outros. Até meus adoráveis Beatles estiveram aqui.

O quarto onde nos instalamos era bem amplo, com três camas bem arrumadas, um roupeiro bonito e ainda por cima, suíte. Na janela, pode-se ver o Palácio de Buckingham, os guardas vigilantes e pessoas caminhando. No alto dos arranha-céus, vi o famoso Big Ben. Entendi porque todos da capital são bem pontuais. O Big Ben marca bem os horários.

Minhas amigas e eu nos agitamos de ansiedade. Suzan despejava mil agradecimentos ao pai por conseguir os ingressos. Jane beijava o gigante pôster do Paul. E eu contemplava meu álbum de recortes das imagens do meu beatle favorito: John Lennon. Sabia que ele era o único casado do quarteto. Sabia que ele possuía um humor sarcástico, mas com fundo de verdade. Sem dúvida, não sou a única a preferi-lo. Muitas outras o desejavam. Talvez até mais que do eu o desejo. E pensar que ele trocou Cynthia Powell por aquela artista oriental, a tal de Yoko Ono. Nunca gostei de Cynthia por causa disso: ela era a esposa do meu beatle. Eles têm até um filho, Julian. Com o tempo fui aceitando e me conformando do fato e passei a vê-los como um casal fantástico... Até 1966, o ano da separação do "Casal 20 da música". Mas isso é outra história.

Quinta-feira 19h, no London Palladium. Chegamos bem na hora e conseguimos o melhor lugar. Na segunda fileira frontal, a vista era perfeita e desta maneira, posso ter belas visões dos quatro, especialmente de John. Não posso dizer que tinha a histeria das meninas, pois realmente tinha e em alto grau. Enquanto navegava em pensamentos o meu "primeiro encontro" com Lennon, Jane sacudiu meu braço, muito afobada.

--Vejam garotas! A família Real está aqui. Olhem!

Quando me virei pensei que via uma ilusão ótica, mas não. Era mesmo a Família Real Britânica. Como gente da alta nobreza eles mereciam um lugar cem vezes melhor que as arquibancadas do povo pagante. Não sabia bem quanto estava minha animação pessoal, mas tinha certeza: Verei meus amados ídolos ali no palco, com guitarras na mão, a bateria pronta e músicas fantásticas.

Eles entraram no palco. Gritos histéricos. Declarações de amor para cada um deles. Minhas amigas machucaram meio que demais suas gargantas de tantos berros á eles. Eu bati palmas e passei a olhar com um sorriso de satisfação, o belo beatle de humor ácido.

Lógico que minha intenção era falar bem alto um 'I Love you, John! ' contudo guardei essa vontade para o fim.

Como são educados os quatro garotos. Não é a toa que minha mãe quer que eu case com um deles, e não com Rolling Stone, como quer minha irmã mais nova Vivian. Bom, se eu casasse com um beatle, que fosse com Paul ou John. Uma pena de o Lennon ser comprometido, sendo assim, posso casar com Paulie, afinal ele é um fofo, como chama Vivian (minha irmã é mais Rolling Stone do que Beatles, portanto nem reparem) mesmo ela tendo uma paixonite pelo Ringo chegando até desenhar no caderno, retratos dele e pintando de diversas formas.

Todas nós enlouquecíamos pelas músicas tão românticas e ao mesmo tempo eletrizantes. Diversão, música, amizade, amor e admiração. Essas características são o resumo de como eu sou e sentia-me no show. A voz de John causava em mim arrepios e um calorzinho bom no peito. Pensei até que estivesse apaixonada de verdade por aquele cara de vinte e três anos, músico experiente e casado.

Mas não tinha nem como esse "amor" ser verdadeiro. Ele nunca me conheceu pessoalmente e a na sua cabeça, sou apenas mais uma fã apaixonada que logo vai esquecer o sentimento e devoção. Mesmo depois de falar aquela polêmica de "somos mais populares que Jesus Cristo" e a célebre "O Cristianismo vai acabar, eu sinto isso...", minha adoração lennonlismo não acabou. Aliás, nunca acabou. Até hoje permanece no meu coração. Meu namorado, Henry, sabe disso e nunca reclamou, pois, tem uma obsessão pela atriz Jane Fonda, de Barbarela. Ou seja, cada um com suas paixões pelos ídolos.

Uma hora de show se passou e parecia que ia ter fim, mas...

--Para a próxima música, quero a participação da platéia. Para as pessoas do acento barato, batam palmas. O resto chacoalhem as jóias!—disse John, se referindo à família Britânica.

Puxa vida, achei que ia ter um "fuzilamento" de ignorância por parte da nobreza, mas pensei errado de novo. Adoraram.

"Twist and Shout" foi à música tocada. Não resisti e cantei junto. O fim do show foi uma maravilha. Fãs entraram em desespero para chegarem perto deles. Assim que eles saíram do palco, ignorei Jane e Suzan e corri na direção deles. Driblei guardas e pessoas. Era um empecilho para mim. No corredor onde dá acesso nos bastidores, encontrei o Fab Four conversando com o Epstein e lá está ele. Meu adorável John. Corri mais uma vez e gritei o nome dele. Ninguém percebeu a não ser ele. Sim. Olhou-me e sorrindo. Consegui chegar perto e nessa hora dei graças á Deus por não demonstrar meu lado frenético a eles porque senão, tudo ia pelo ralo.

Ofegante, reuni toda minha coragem e ousadia para ganhar um autógrafo do músico.

--Por favor, Sr. Lennon pode me dar um autógrafo?—Já estendendo a capa de um dos LP ganhos por parte de minha mãe, o Please Please Me.

Todos eles me olharam e pode ser que estou enganada novamente, mas percebi uma onda positiva humana por parte deles. Talvez seja, pois fui a única garota não possuir surtos histéricos. A única ou uma das poucas meninas isso não sei. Só sei depois da assinatura de Lennon no meu disco preferido, George, Paul e Ringo também assinaram. Aproveitei a alegria toda e pedi ao baterista redigir o "single" Love Me Do, a música que Vivian ama. Ele assinou e incrementou com mais algumas palavrinhas. Para encerrar minha grandiosa aventura, abracei cada um deles e recebi mais uma vez, o brilhante e singelo sorriso do meu beatle John.

Quando retornei na arquibancada vi as garotas me procurando e o Sr. Hardison pai da Jane todo desesperado por não me achar.

-- Achei-a! Rosie venha aqui!—Gritou Suzan Berkley toda aflita do meu sumiço.

-- Onde você estava? Procuramos-te por toda parte e nada. – narrou Jane Hardison e quase aos prantos ora medo, ora alivio.

-- Meninas, se eu contar, com a maior certeza não iam acreditar na minha aventura. – falei na cara de pau, queria mesmo era matar minhas adoráveis amigas de inveja. Apesar do meu sadismo, disse com tom de brincadeira, uma camaradagem entre amigas.

Não sabia daquele dia em diante a história da música mudaria tudo. Para mim, foi um inicio.

Continua....

*N/A: Millennium Flat é nome do hotel de Porto Alegre. Não sabia os nomes dos hotéis britânicos e então coloquei esse nome para dar um pouco de autenticidade.